Os tempos não estão para brincadeiras. Pedem gente à altura dos acontecimentos. Procuramos e não há.
Quando Montenegro ganhou as eleições legislativas de 2024, coincidindo com um grupo parlamentar do partido CHEGA de 50 deputados, eu disse a quem me ouve (pouca e escolhida gente) que o governo formado estava obrigado a governar muito bem, sob pena de o populismo crescer ainda mais.
Dois anos depois, as primeiras páginas dos jornais noticiam diariamente problemas na saúde, o tal sector em que se ia resolver tudo ou quase tudo em dois... meses. O preço das casas subiu 27%. E Miranda Sarmento é apenas um Fernando Medina com menos verbo e óculos.
Montenegro não percebeu o momento. Como se percebe isso? Pelo caso Spinumviva. Montenegro sabe muito bem o que é "comunhão de adquiridos". Mas, não fosse a sua fase de primeiro-ministro ser curta, Montenegro optou conscientemente por não desfazer o escritório, na realidade seu e só seu, e o ganha-pão da família. Outro teria percebido que o momento era daqueles que coloca alguém na História sempre, sendo o lado - o certo ou o errado - definido pelo comportamento do sujeito. Montenegro parece ter decidido o seu lado, e não é o melhor para os portugueses.
Marcelo Rebelo de Sousa fez bem em demitir António Costa, dos piores primeiros-ministros que este Portugal já teve, um homem que desperdiçou condições ímpares para mudar o país mas decidiu governar em piloto automático oito anos e meio. O nome Vitor Escária é suficiente para servir como justificação (Escária curiosamente hoje não está no desemprego, antes dirige um Instituto Superior de Gestão, em Lisboa). Podia ter feito uma fiscalização "preventiva" da situação profissional de Montenegro. Não a fez - talvez por distância ou desapego - e em 2025 acabámos com novas eleições e 60 deputados do CHEGA.
Ainda não falei da primeira volta das Presidenciais. Vai agora. Vamos por nomes.
Gouveia e Melo perceberá de escotilhas e de nós de marinheiro, como se diz cá por casa, mas os debates puseram a nu a impreparação do senhor. Esqueçamos o seu almoço com Ventura. A sua procura de votantes por aqui, ali e acolá impressionou. Quando atacou Marques Mendes num famoso debate afundou o interlocutor e afundou-se a ele próprio.
Marques Mendes (MM) vinha, como Marcelo, do comentário televisivo, mas as semelhanças terminavam aí. Fazia-o mais baixo: afinal tem 1.62m. Foi um boneco famoso da extinta "Contra-Informação" - a "ganda nóia!" - e já antes do debate com Gouveia de Melo havia a sensação de que MM era apenas uma espécie de "terminação", uma ilustração do princípio de Peter onde um bom brigadeiro pode ser um péssimo general.
Se MM perdeu votos para Gouveia e Melo perdeu-os ainda mais para Cotrim de Figueiredo, nomeadamente nos centros urbanos. Cotrim tem uma mensagem agradável que apela a muitos PSD's - "pagar menos" - e presença e rasgo a mais, algo que faltava a MM. Uma semana terrível enterrou quaisquer hipóteses de 2ª volta: o "lapso" do apoio a Ventura era um calculismo para uma possível 2ª volta - percebendo tarde o quanto soou mal. A questão com Inês Bichão - que raio de apelido - passa por saber-se que só 2 a 8% das denúncias de assédio sexual são falsas. O tribunal o dirá. Assisti ao debate entre Cotrim e Ventura. Quem foi mais preparado para o debate? Adivinhem.
E ganhou Seguro. Quase a fazer-se de morto. Começou a não ser nem de direita nem de esquerda. Beneficiou da crise do seu partido, o PS. Todas as outras figuras presidenciáveis acharam que era uma luta perdida e deixaram-no ao seu triste destino. Disse meia dúzia de coisas minimamente apresentáveis e ganhou umas eleições. Sem nunca elevar a voz, o que se agradeceu. Mas foi contra o pacote laboral qb. E defendeu convictamente também o SNS, qb também. Porque precisava do centro, não pactuou qualquer geringonça. E agora tem toda a gerinçonça, hoje tão pequenina, mas também o Chicão, o Pedro Duarte e até gente da IL a apoiarem-no. É provavelmente o próximo Presidente da República.
Lembro que Seguro assumiu a liderança do PS em 2011, no pós-Sócrates. Absteve-se perante o Orçamento de Pedro Passos Coelho em 2012, algo que o aparelho do PS não lhe perdoou, e apesar de ter ganho as eleições autárquicas de 2013 e as europeias de 2014, Costa expulsou-o do poder. Costa, o ex-ministro de Sócrates, algo que Seguro nunca foi.
Sobre Ventura, que mais se pode dizer? Um milhão em cem mil votos em 2024, um milhão e quatrocentos mil votos no verão de 2025, agora um milhão e trezentos mil votos. Numa coisa concordamos com Ventura: não desejamos que ele ganhe e ele também não. Não querendo falar, logo após as eleições ele falou ao sair da missa, ao chegar ao hotel e depois já lá dentro. Cobertura total. Ventura é tão católico fervoroso como eu sou entendido em azeites. As eleições de 8 de Fevereiro serão uma sondagem: quantos eleitores do PSD e da IL poderão numas legislativas próximas ser convencidos a votar CHEGA? Vai ser esta a única pergunta a ser feita, e a resposta só em 8 de Fevereiro a iremos conhecer.
Vêem-me duas palavras à ideia: Bloco Central. Ficam para outra conversa.