1. Não há fronteiras naturais. O natural é não haver fronteiras. Em 1415 D. João I não colonizou Ceuta, conquistou-a. Como 3 séculos antes D. Afonso Henriques Lisboa. Sobre a mesquita de Ceuta construiu-se uma catedral. Como 3 séculos antes em Lisboa sobre uma mesquita se começou a edificar... uma catedral. Portugal colonizou sim as ilhas atlânticas - dos Açores a São Tomé - o imenso Brasil e, tardiamente, os seus territórios africanos da Guiné, Angola e Moçambique. Se Tarifa ou Algeciras hoje fossem marroquinas, por circunstâncias da história, o que fazer? Ceuta nunca foi uma "colónia". Era parte do Algarve "d'além-mar". Forçando ao extremo o raciocínio os turcos deviam devolver Constantinopla, embora eu não saiba muito bem dizer a quem...
Tudo isto para dizer que os habitantes de Ceuta, que se dizem espanhóis desde 1580, estão sozinhos nesta história. Nem a União Europeia, para quem eles são um aborrecimento, nem a Espanha continental, para quem Ceuta é apenas uma bandeira nacionalista, os vão ajudar. Um número desconhecido (mil? milhares?) de menores, raparigas e rapazes, vagueiam hoje pelas ruas de Ceuta. O governo de Espanha tem direito por lei de pegar nestes menores e para aliviar Ceuta trazê-los para a península e analizar caso a caso a sua situação, como as leis europeias e espanholas o exigem, antes de qualquer devolução a Marrocos. Mas nenhuma autonomia espanhola o quer, pela repercussão eleitoral, nem o resto da Europa, pois este menores entravam assim no espaço de Schengen. Nem, por último, o governador de Ceuta o permite, porque é do PP e só quer despachar os menores de volta ASAP a Marrocos.
Assim estamos, com medo de uma invasão protagonizada por gente que ainda não tem idade para conduzir nem votar. Embora antes disso tenham sede e fome. E votar em Marrocos não é uma coisa por aí além E Marrocos tem oito vezes menos carros per capita que Espanha.
2a. "Il sorpasso" foi um termo político aplicado à transitória expectativa de ultrapassagem pelo Partido Comunista Italiano (PCI) da votação da Democracia Cristã italiana nas eleições de 1976. "Il sorpasso" nunca acontecesse, apesar do PCI ser um arauto do "eurocomunismo", um conjunto de partidos comunistas europeus que aceitavam explicitamente o jogo da democracia ocidental e rejeitavam o modelo soviético, os anos 80 e o colapso da URSS acabaram com o PCI. "Il sorpasso" hoje em dia é outro, o se e quando a extrema-direita vai ultrapassar o partido ao seu lado e ser a voz mais grossa à direita do centro. Em França e na Itália já aconteceu, em Portugal vai acontecer.
2b. Ontem no hall do Hospital onde eu trabalho, o guarda-redes do Benfica era apenas "aquele preto que nunca me convenceu como guarda-redes". Lembrei-me de quando era criança e ia ver nos anos setenta os jogos da Ovarense e os atacantes, importados das ex-colónias, ora tinham nome se jogavam bem, ou então eram apenas uns "pretos do c***o". Cinquenta anos depois...
3. Algo me diz que a próxima recepção do Porto ao Sporting no Dragão vai ser bem mais tranquila. Chatear-mo-nos porquê?
4. Quem vai ganhar o Mundial de Estrada em Montreal?
5. "Imagine that you see the wretched strangers. Their babies at their backs and their poor luggage, plodding to the ports and coasts for transportation. And that you sit as kings in your desires, authority quite silent by your brawl, but chartered unto them. What would you think, to be thus used? This is the strangers' case. And this your mountainish inhumanity." citação de uma peça de William Shakespeare no começo do filme "I Was A Stranger". de Brendt Andersen.




