segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Semana 34.



1. Em San Sebastián é recente a decisão da municipalidade de proibir uma ONG local de dar algumas centenas de refeições aos sem-abrigo. Aparentemente este serviço oferecido por esta ONG com o obrigatório arrevezado nome vasco, "Kaleko Afari Solidarioak", acrescentava alguma delinquência e insegurança a espaços cêntricos da cidade, como Anoeta (onde está o estádio da Real Sociedad), etc. A municipalidade comprometeu-se a aumentar a sua própria capacidade de apoio, "para quem queira colaborar e integrar-se". Esta frase é assassina: grande parte dos sem-abrigo são toxicodependentes, imigrantes ilegais em circulação, doentes mentais. A integração é um projecto difícil, complicado, de longo prazo, susceptível ao falhanço. Enquanto isso as pessoas precisam de comer. Aqui o problema estava nos locais: Anoeta, o Centro Histórico, etc. Estas refeições solidárias estragavam o postal ilustrado. E o apoio policial aqui e ali necessário nascia de uma iniciativa cidadã independente o que aborrecia a municipalidade. As cidades (e as pessoas) imperfeitas são mesmo uma chatice.

2. As pensões, as pensões, as pensões, Ruy Belo. 

Facto 1: o Prof. Jorge Bravo acha que devemos começar as responsabilizarmo-nos nós individualmente pelas pensões que iremos receber quando da reforma. Para nos convencer disto puxa o déficit da CGA para a praça pública e, quando lhe é dito que os portugueses não têm dinheiro para descontar mais no fim do mês, ele diz que sim - "então não gastamos 150 milhões por mês em raspadinhas?" Quinze euros por português por mês em média... 

Facto 2: o actual sistema de cálculo de pensões, criado em 2007 pelo ministro Vieira da Silva, vai oferecer com o progredir dos anos, uma pensão percentualmente cada vez menor em relação ao último salário: hoje estará pelos 68%, em 20 anos será de 58%... Convém que isto se saiba, por cada mil euros é menos cem euros... 

Facto 3: Jorge Bravo tem um preconceito e um viés ideológico óbvio, embora em nenhum momento fale em privatizar o que quer que seja. O sistema Vieira da Silva não é perfeito e deve ser explicado às criancinhas que agora estão a começar a descontar: poupem, poupem e esqueçam as raspadinhas...

3. O Sporting afinal tem equipa para discutir o terceiro lugar do Campeonato...

4. Rúben Guerreiro finalmente já treina sem limitações. Haja quem lhe dê trabalho.

5. Chove e chove. Termina o verão neste sobressalto? 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Semana 33.



 1. Há uma ONG em Berlim sediada no distrito Wedding, onde se concentra a população migrante ou de 2ª geração com origem africana. Chama-se Each One Teach One, um provérbio com origem nos escravos americanos - que cada um que aprendesse a ler ensinasse outro a ler. Esta ONG trabalha com as crianças de Wedding, as crianças negras de Wedding. Marcaram um horário numa piscina municipal, como outras organizações fazem. Durante esse horário, como outras organizações, teriam o exclusivo da piscina para as suas crianças, negras. Até aqui tudo ok. O partido fascista alemão AFD não achou assim. Acusou esta simples ocorrência de ser "racista". Mas não foi só o AFD. Uma deputada municipal da CDU, o partido no poder, também não concordou e até publicou um vídeo a protestar que se tornou viral. O evento na piscina foi cancelado "por uma questão de segurança". Tudo isto aconteceu e semana passada e aconteceu em Berlim. Aponto aqui os sinais de alarme: o primeiro ser Berlim, o segundo a deputada municipal ser da CDU.

2. A Secretária de Estado do Ensino Superior chama-se Cláudia Sarrico, tem 55 anos e é Professora Catedrática da Universidade do Minho. Ela é casada com um francês que dá pelo nome de Julian Tice e trabalha para a OCDE em Paris, como ela já trabalhou. Possuem um apartamento em Paris - quelle surprise! - avaliado em mais de um milhão de euros, e têm mais património imobiliário em Aveiro, onde nasceu e em Braga, onde lecciona. Para poder residir em Lisboa enquanto Secretária de Estado requereu e obteve um subsídio de renda de pouco mais de setecentos euros, enquadrado num decreto-lei que data de 1980, governava Sá Carneiro e era Presidente da República Ramalho Eanes, e que se manteve, com algumas correcções, até hoje. A ideia era e é não onerar os governantes (a mesma lógica se aplica exactamente aos senhores deputados) pelo simples facto de serem obrigados a deslocarem-se para Lisboa para servirem o país. Concordo por completo com esta lei. O título da Sábado é: "Governante tem casa em Paris de 1100000 euros, mas recebe apoio à renda em Lisboa".


3: Vi a cara de Rui Borges na segunda parte do jogo com o Guimarães. Era uma cara de medo. Não gostei. 


4. Finlay Tarling tinha 19 anos. O Carro Vassoura não é um mito urbano, existe. E enquanto ele não passar na estrada onde uma prova de ciclismo passaa estrada é uma pista reservada à prática desse tão amado mas sofrido desporto.


5. Ver um filme leva tempo (reaprender). 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Semana 32

Volto a escrever para reflectir nestas difíceis semanas que estão a acontecer. Difíceis. Cá e lá. 


1. "Salvar Portugal" e André Ventura. Passo por este cartaz todos os dias. Portugal precisa efectivamente de ser salvo. Dele. Mas não só. Na política portuguesa pelo acaso é que vamos. Não estava previsto que Luís Neves chegasse a Ministro da Administração Interna. Luís Neves, enquanto Director da Política Judiciária, teve das intervenções públicas mais importantes ao negar a relação entre a imigração e a insegurança nas ruas, por um lado, e sublinhar o perigo da extrema-direita organizada nas franjas hoje "próximas" da sociedade, por outro. Não quero crer que estas intervenções estejam a provocar este escrutínio.  Os pagamentos em dinheiro acima da lei e a manipulação canhestra do caso da "galera" com acetona deviam implicar demissão a qualquer um. Queimar porém a ÚNICA PESSOA do nosso mainstream a denunciar nos últimos anos o risco real da extrema-direita custa-me. Estaremos em tempo ainda de limpar armas?



2. Sobre Ceuta podia esperar até 16 de Agosto para escrever. Mas não. Nenhum país europeu tem uma taxa de fertilidade de pelo menos 2,1, que é a taxa que assegura a reposição da população. Dito isto a necessidade de imigrantes na Europa é uma evidência. E é uma evidência que nos entra pelos olhos dentro, na assistência aos idosos, na restauração, na construção civil, na agricultura. Uma boa política de imigração deverá ser a diferença da Europa para o mundo. E, esquecendo questões morais e humanitárias, resulta. O crescimento do PIB espanhol dos últimos anos deve-se em pelo menos 50%  à absorção proactiva de uma população migrante esforçada e... contribuinte. Mas atingir o número 2,1 nunca será a solução mágica para resolver a xenofobia e o racismo larvares que justificam todos estes pânicos europeus. Nunca começaremos a fazer mais filhos para os mandar para as obras ou para trabalhar em lares ou na agricultura intensiva. Precisamos de imigrantes, ponto. Uma boa dotação orçamental para o acolhimento e integração destas gentes (haja coragem e cordão sanitário aplicado às vozes da extrema-direita) e esta pagar-se-á com bónus fazendo crescer mais e mais a economia europeia, que disso bem precisa. Marrocos e a extrema.-direita europeia, que curiosa aliança. Finalmente umas palavras sobre os dois mil menores retidos em Ceuta. Não se começa a sonhar por decreto só aos dezoito anos. A sermos coerentes com as nossas leis, estas crianças não deveriam acabar como vítimas de tráfico humano, que é o que vai ser.


3. Tenho um papel colado no frigorífico para aprender todos os nomes dos novos jogadores do Sporting. Acho que vêm mais. Assim fica difícil.


4. O ciclista Tadej Pogacar vai à Vuelta a España para ganhar. Pogacar ganhou todas as Grandes Voltas em que entrou em 2024, 2025 e agora, 2026 (4 que eventualmente serão 5). Vamos comparar: Merckx, ganhou todas as Grandes Voltas em que correu em 70, 71, 72, 73 e 74. Cinco anos. Acrescentaríamos antes 68 e 69 não fôsse uma curiosa desclassificação por doping no Giro de 69 que permitiu a vitória de um italiano. Contando portanto com o Tour de 69 dez Grandes Voltas seguidas com vitória de Merckx.  DEZ. Nas comparações vamos ter calma.


5. Para quê escrever?

terça-feira, 14 de abril de 2026

Maria de Fátima Rodrigues Patrício Teixeira

 "Deus, vendo toda a Sua obra, considerou-a muito boa."


Vi-te pela primeira vez a descer Camões. Falámos um com o outro pela última vez no Carrefour de Gaia. Palavras vivas, não de circunstância. Que era uma despedida.


A maneira como dizias "azule". 

Amo Trás-os-Montes porque te amava muito.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Lobo Antunes

 Visitei pela primeira vez Faro para conhecer António Lobo Antunes. Numa pequena livraria que tinha um cafetaria com um pátio, Lobo Antunes respondeu a perguntas e foi falando sobre isto e aquilo. Conversou como se estivesse a escrever uma crónica das dele. Fumava. Levei-lhe um livro para autografar.

Não leio livros de Lobo Antunes desde o século passado. As crónicas sim, como muitos mais. Fui até à 17ª edição da História da Literatura Portuguesa, de Óscar Lopes e António José Saraiva e Lobo Antunes merece uma atenção um pouco desconcertada de pouco mais de meia página. O rival Saramago merece um pouco mais de atenção e um começo de reverência. Esta 17ª edição é de 1996.

Conheci Óscar Lopes na urgência do hospital em que trabalho, nunca vi gigante mais pequeno, numa cadeira de rodas. José Saramago parecia-se com o meu pai, excepto na simpatia onde, tardiamente embora, o meu pai lhe ganhava. 

Quando me encontrei perante o escritor para lhe pedir uma dedicatória preguei-lhe uma mentira, que ele, com um sorriso, adivinhou. Escreveu exactamente o que lhe pedi. Era portanto um homem bom.

domingo, 1 de março de 2026

A morte de Ali Khamenei (e a prisão de Nicolás Maduro).

Ninguém mais do que eu quer a mudança do regime iraniano. A sua existência e, nomeadamente, o seu tratamento discriminatório das mulheres, faz o partido Chega parecer no nosso parlamento um defensor do sexo feminino, que sabemos que não é.

Mas a morte de Khamenei (como a prisão de Maduro) não vai assegurar a melhoria das condições de vida iranianas (ou venezuelanas), tendo em atenção que a vocação de Donald Trump para defender a democracia no exterior é ainda menor do que a sua vocação para promover a democracia internamente. 

A sociedade iraniana é muito complexa, não é só Teerão, não é só mulheres a sofrer a opressão religiosa, jovens a querer uma vida melhor e mais... ocidental. A revolução iraniana de 79 foi extremamente popular, no início, ao acabar com um regime autocrático ditatorial mas extremamente popular no Ocidente. O novo regime era uma teocracia xiita com um forte componente militar e paramilitar, muito reforçado pela guerra Irão-Iraque de 1980-88, onde o Ocidente apoiou... o Iraque de Saddam Hussein. O único vislumbre de democracia no Irão acontecera entre 1951 e 53 com o primeiro-ministro Mossadegh, derrubado por um golpe financiado pelos americanos e os ingleses. Mossadegh não morreu em 53 e teve direito a falecer por doença numa cama de hospital em Teerão, 14 anos depois. 

Hoje já não é assim. Bombardeia-se e pronto! E ainda faltam pelo menos três anos! Queriam que o Rangel protestasse por causa da Base das Lajes. Tá quieto, abelha!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Miguel.

Quando uma pessoa chega a velho começa a ter estas ideias estranhas de estar tudo feito, de nada de novo nos esperar ao virar de uma qualquer esquina. 
Para uma pessoa como eu a quem o contacto com o outro sempre foi uma aventura difícil, as dezenas de pessoas que eu conheci profissionalmente sendo eu o interno mais velho, o recém-especialista, etc., essas dezenas de gente, de fantástica e maravilhosa gente, mereciam um agradecimento especial, porque cada relação estabelecida foi para mim um estranho milagre que, ano após ano, iam afastando lá para a frente o desânimo e o aborrecimento. 
Sei que conheci exactamente quem devia conhecer. Lamento apenas não ter trabalhado em enfermaria com um rapaz que entretanto voltou ao país de origem, e com outro rapaz que por hoje está apenas à distância de um corredor. Distância às vezes vencida para um café poder acontecer.
O jantar só ainda não aconteceu porque possivelmente todos seriam levados a pensar que o jantar seria sobre mim e não, o jantar seria apenas sobre eles e para eles.  Com dezenas de agradecimentos a serem feitos. 
Mas a ideia deste jantar, já de si pouco provável porque mal entendida, terá que esperar algum tempo.
O tempo de eu me esquecer da ausência do Miguel Guerra.

O Miguel foi meu interno geral em 2002. Era um tipo brilhante, um pouco inssurrecto como se dizia naqueles tempos. Consegui puxá-lo para a equipa e acabámos por nos divertir bastante e, não esqueçamos, tratar as outras pessoas na sala que, calha, eram os nossos doentes. Telefonavam-lhe para ir manusear uns ratinhos a um certo laboratório e ele ficava, tratava primeiro das tais outras pessoas, as doentes. Miguel, nunca te agradeci o elogio.

Tudo isto foi há mais de 20 anos e entretanto os nós da vida devem ter sido para ti tão apertados e tão asfixiantes que resolveste hoje já aqui não estar. Sempre me pareceste um rapaz de decisão fácil. Um rapaz eras, não mais, uma espécie de irmão mais novo, daqueles que sabemos falta uma fervura para ficarem completos.E agora deixaste uma filha para trás. Meu Deus. Miguel - Guerra, não consigo dizer o teu nome sem o apelidar. 

Vou-te contar uma última história, daquelas que às vezes nos faziam ficar pelo serviço um pouco para além do horário. Sei que vais gostar. 
Aqui há meses pediram-me para ir observar um doente à urgência. Para resumir o caso, ninguém o queria. Viera transferido de Chaves para uma intervenção, a intervenção correu bem mas o doente, um ano mais velho do que a minha pessoa, começara a tresler um pouco, a enganar-se nas palavras e nas datas. Um avêcê seria? Vinte e quatro horas depois de estar numa maca na urgência este doente, um metro e oitenta e cento e quarenta quilos de peso, um risco cardiovascular ambulante ali deitado, disse-me onde morava e com quem, convidou-me para um gin em casa quando tudo isto acabasse. Precisava de dois litros de oxigénio mas fora isso, ok. Ninguém o queria, não dava para o mandar para casa, ele ontem dissera umas ao lado, como negar. Desapontado por eu responder ao gin com cola zero mas ao coincidirmos no sportinguismo, o sr engenheiro mecânico com um drive respiratório um pouco sensível aos opiáceos aqui e ali ministrados, encheu-me o dia, meu caro Miguel e, por um dia, um mísero dia, o desânimo e o aborrecimento desapareceram, pura magia. Por muita merda que a vida entretanto te tenha permitido ou obrigado a fazer e pela qual agora se calhar pagaste o maior preço, 2002 foi para mim um bom ano porque tu por ali andaste.

A ideia do tal jantar vai ter que esperar muitos anos.