Podes Levar a Taça!
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
O Miguel.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Os Deuses querem André Ventura?
António José Seguro continuou a passear e tentou demarcar-se ainda mais do ruído "Chegano" com visitas particulares a zonas de cheia, etc. Mas Montenegro, Leitão Amaro e Castro Almeida ensaiaram um harakiri público, como se a tempestade que se abateu sobre centenas de milhares de portugueses, repito, centenas de milhares de portugueses, fosse apenas um contratempo de horas ou poucos dias. Por decoro nem vou falar de Maria Lúcia Amaral.
E André Ventura disse a famosa frase: "Que se lixe as eleições!". A Kristin foi a oportunidade dourada para Ventura conseguir nesta 2ª volta o que parecia impossível. assumir a liderança da direita. Ele já está a preparar-se para as próximas legislativas que eu atiro para 2027. Faltam-lhe 600000 votos para igualar a votação da AD em 2025 Se não os conseguir, utilizará o número da percentagem de votos como bitola alternativa. José Luis Carneiro, um homem sério, foi o ministro que, por culpa de Costa e Medina, pôs polícias e guardas a fazer manifestações e vigílias na rua como se não houvesse um amanhã. Em eleições este lembrete será usado ad nauseam. Montenegro por seu lado será perseguido pela gestão da tempestade Kristin, horrivel até prova em contrário.
Resta quem?
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
A Primeira Volta e o mais.
Os tempos não estão para brincadeiras. Pedem gente à altura dos acontecimentos. Procuramos e não há.
Quando Montenegro ganhou as eleições legislativas de 2024, coincidindo com um grupo parlamentar do partido CHEGA de 50 deputados, eu disse a quem me ouve (pouca e escolhida gente) que o governo formado estava obrigado a governar muito bem, sob pena de o populismo crescer ainda mais.
Dois anos depois, as primeiras páginas dos jornais noticiam diariamente problemas na saúde, o tal sector em que se ia resolver tudo ou quase tudo em dois... meses. O preço das casas subiu 27%. E Miranda Sarmento é apenas um Fernando Medina com menos verbo e óculos.
Montenegro não percebeu o momento. Como se percebe isso? Pelo caso Spinumviva. Montenegro sabe muito bem o que é "comunhão de adquiridos". Mas, não fosse a sua fase de primeiro-ministro ser curta, Montenegro optou conscientemente por não desfazer o escritório, na realidade seu e só seu, e o ganha-pão da família. Outro teria percebido que o momento era daqueles que coloca alguém na História sempre, sendo o lado - o certo ou o errado - definido pelo comportamento do sujeito. Montenegro parece ter decidido o seu lado, e não é o melhor para os portugueses.
Marcelo Rebelo de Sousa fez bem em demitir António Costa, dos piores primeiros-ministros que este Portugal já teve, um homem que desperdiçou condições ímpares para mudar o país mas decidiu governar em piloto automático oito anos e meio. O nome Vitor Escária é suficiente para servir como justificação (Escária curiosamente hoje não está no desemprego, antes dirige um Instituto Superior de Gestão, em Lisboa). Podia ter feito uma fiscalização "preventiva" da situação profissional de Montenegro. Não a fez - talvez por distância ou desapego - e em 2025 acabámos com novas eleições e 60 deputados do CHEGA.
Ainda não falei da primeira volta das Presidenciais. Vai agora. Vamos por nomes.
Gouveia e Melo perceberá de escotilhas e de nós de marinheiro, como se diz cá por casa, mas os debates puseram a nu a impreparação do senhor. Esqueçamos o seu almoço com Ventura. A sua procura de votantes por aqui, ali e acolá impressionou. Quando atacou Marques Mendes num famoso debate afundou o interlocutor e afundou-se a ele próprio.
Marques Mendes (MM) vinha, como Marcelo, do comentário televisivo, mas as semelhanças terminavam aí. Fazia-o mais baixo: afinal tem 1.62m. Foi um boneco famoso da extinta "Contra-Informação" - a "ganda nóia!" - e já antes do debate com Gouveia de Melo havia a sensação de que MM era apenas uma espécie de "terminação", uma ilustração do princípio de Peter onde um bom brigadeiro pode ser um péssimo general.
Se MM perdeu votos para Gouveia e Melo perdeu-os ainda mais para Cotrim de Figueiredo, nomeadamente nos centros urbanos. Cotrim tem uma mensagem agradável que apela a muitos PSD's - "pagar menos" - e presença e rasgo a mais, algo que faltava a MM. Uma semana terrível enterrou quaisquer hipóteses de 2ª volta: o "lapso" do apoio a Ventura era um calculismo para uma possível 2ª volta - percebendo tarde o quanto soou mal. A questão com Inês Bichão - que raio de apelido - passa por saber-se que só 2 a 8% das denúncias de assédio sexual são falsas. O tribunal o dirá. Assisti ao debate entre Cotrim e Ventura. Quem foi mais preparado para o debate? Adivinhem.
E ganhou Seguro. Quase a fazer-se de morto. Começou a não ser nem de direita nem de esquerda. Beneficiou da crise do seu partido, o PS. Todas as outras figuras presidenciáveis acharam que era uma luta perdida e deixaram-no ao seu triste destino. Disse meia dúzia de coisas minimamente apresentáveis e ganhou umas eleições. Sem nunca elevar a voz, o que se agradeceu. Mas foi contra o pacote laboral qb. E defendeu convictamente também o SNS, qb também. Porque precisava do centro, não pactuou qualquer geringonça. E agora tem toda a gerinçonça, hoje tão pequenina, mas também o Chicão, o Pedro Duarte e até gente da IL a apoiarem-no. É provavelmente o próximo Presidente da República.
Lembro que Seguro assumiu a liderança do PS em 2011, no pós-Sócrates. Absteve-se perante o Orçamento de Pedro Passos Coelho em 2012, algo que o aparelho do PS não lhe perdoou, e apesar de ter ganho as eleições autárquicas de 2013 e as europeias de 2014, Costa expulsou-o do poder. Costa, o ex-ministro de Sócrates, algo que Seguro nunca foi.
Sobre Ventura, que mais se pode dizer? Um milhão em cem mil votos em 2024, um milhão e quatrocentos mil votos no verão de 2025, agora um milhão e trezentos mil votos. Numa coisa concordamos com Ventura: não desejamos que ele ganhe e ele também não. Não querendo falar, logo após as eleições ele falou ao sair da missa, ao chegar ao hotel e depois já lá dentro. Cobertura total. Ventura é tão católico fervoroso como eu sou entendido em azeites. As eleições de 8 de Fevereiro serão uma sondagem: quantos eleitores do PSD e da IL poderão numas legislativas próximas ser convencidos a votar CHEGA? Vai ser esta a única pergunta a ser feita, e a resposta só em 8 de Fevereiro a iremos conhecer.
Vêem-me duas palavras à ideia: Bloco Central. Ficam para outra conversa.
sábado, 3 de janeiro de 2026
Lembrando porque aconteceu Hugo Chavez.
Conheço muito boa gente que nasceu ou tem raízes na Venezuela. Espero que me perdoem o atrevimento.
Em 1958 a ditadura de Marcos Pérez Jimenez foi derrubada na Venezuela e foi estabelecida uma democracia parlamentar. No final desse ano os très partidos principais da Venezuela, a COPEI, a AD e a URD, estabeleceram o pacto de Punto Fijo, o nome da residência do presidente da COPEI, para estabelecer um esquema de convivência e rotatividade na governação que garantiu à Venezuela 40 anos de estabilidade democrática, até à eleição de Hugo Chavez em 98. A URD era o elo mais fraco nesta negociação e os partidos AD e COPEI governaram em alternância estes 40 anos, incluindo os tempos do boom petrolífero nos anos 70. As classes alta e média da Venezuela beneficiaram com esta paz política mas o grosso do povo venezuelano nem por isso. Sendo uma economia que dependia exclusivamente da extracção petrolífera, quando os preços baixaram nos anos 80 começaram os problemas. Em 89 o país entrou em insolvência e o FMI e o Banco Mundial aplicaram a receita neo-liberal do costume, que levou a uma revolta popular conhecida pelo "Caracazo", despoletada pelo subir do preço da gasolina num país que então era um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Simbolicamente o presidente era o repetente Carlos Andres Pérez, que tinha sido a cara mais conhecida dos anos 70 e então um "governante de esquerda". A repressão matou centenas ou milhares de venezuelanos e levou à morte lenta do binómio AD/COPEI. A crise económica era evidente. A democracia não chegava ao povo e os casos de corrupção sucediam-se. Em 1992 aconteceu uma revolta militar surpresa, liderada por um jovem Hugo Chavez, que acabou por se render nas suas palavras "por enquanto". Carlos Andres Pérez sofreu um impeachment. O governo do quinquénio 93-98 já foi uma coligação de interesses que tentou mas não conseguiu dar a volta à economia e em 98, democraticamente Hugo Chavez ganhou as eleições para Presidente apoiado no "Movimiento Quinta Republica".
Hugo Chavez mandou na Venezuela durante 15 anos, até à sua morte por doença. Nos primeiros anos beneficiou de uma nova subida dos preços do petróleo. Empoderou as classes baixas criando uma ilusáo de democracia de base e aplicando receitas populares de erradicação do analfabetismo e melhoria das condições de saúde dos bairros pobres. Chavez sobreviveu "democraticamente" até à sua morte, parasitando a justiça e beneficiando os militares. Mas não conseguiu capturar nem os sindicatos nem erradicar as televisões privadas. O país foi atravessando vários momentos de grande polarização política. E passou a conviver com um nível de violência no dia-a-dia brutal. A frente chavista criou em muitos bairros populares uma lógica quase "religiosa" de "seguir o líder". Chavez era um autocrata dos tempos modernos, mantendo uma capa de democracia que ia permitindo à oposição "quase vitórias" que não passavam disso. O entorno de Chavez era escolhido pela fidelidade e não pela competência e a economia foi perdendo o rumo, sector petrolífero incluido.
Quando Chavez morreu o mito chavista que até convenceu alguma esquerda europeia já estava desfeito. Sucedeu-lhe Nicolás Maduro. Sim, ele começou a trabalhar como camionista, mas quando chegou à Presidência era o Vice-Presidente e antes tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 2014 conseguiu perder umas eleiçóes legislativas mas o regime conseguiu dar a volta e até ontem administrou um país a implodir economica e socialmente, com oito milhões de emigrantes - a população de Venezuela começou a desce em 2017. Os poucos beneficiados? A entourage militar e militante de Maduro.
Esta madrugada Trump não deixou serem os venezuelanos a resolver esta dramática situação. A sua preocupação com o país é nula. Ele só quer mesmo o petróleo. E agora?
Alguém da administração de Trump sabe da existência do Acordo de Punto Fijo em 1958 - talvez a causa longínqua de tudo isto?
A imagem acima é de Carlos Andres Pérez.
sábado, 20 de dezembro de 2025
Vamos esquecer este ano - para a AA.
Pai, vamos esquecer este ano. Todas as palavras ditas, as emergências, a definitiva sensação que eu senti quinta-feira da semana passada: "ele não vai voltar para casa".
Vamos esquecer os prazos, os tempos que o corpo te ia explicando, o súbito acelerar, tão estranho, como um interruptor numa vida, ainda dá, já não dá para ficar em casa.
Esta nossa medicina ainda só ajuda, não substitui, não coloca onde não está uma coisa nova que nos espanta porque é cópia.
Mas, pai, vivemos ainda juntos muito tempo e bem. Éramos um triângulo e ao nosso triângulo fomos dando muitos nomes, sabendo ou sem saber que nomes eram, certos ou errados, sérios ou uma brincadeira. Só sabíamos que havia este triângulo. Moldando como a nossa felicidade era.
E agora?
Pai, vamos esquecer este ano.
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Clara Pinto Correia
Morreu-me uma Amiga. Nunca a conheci.
Para quem tem menos de cinquenta anos de idade não se consegue explicar quem foi no início Clara Pinto Correia (CPC). O primeiro livro que eu li dela, uma noveleta, chamava-se "Agrião!" e saiu em 84. Estava a acabar o Bloco Central e ia acontecer o cavaquismo. Ia começar a acontecer um mundo novo. Onde havia (algum) dinheiro. "Agrião!" era de uma frescura inesperada, despreocupada, ao mesmo tempo rico e simples, ágil, bem disposto. Prometia uma espécie de mundo (também) novo mas divertido, gauche mas já sem o punho erguido como obrigação. Ainda aluna de Biologia Clara publicara a sua primeira obrinha "Anda uma mãe a criar filhas para isto.". Que título! E já era jornalista no "O Jornal"! A Clara tornou-se uma visita de muitas casas e cabeças, incluindo a minha, um rasgo de cara como não havia outro, olhos escuros brilhantes como só voltei a encontrar um par de anos depois. E depois publicou "Um Esquema". Li este conto muitas vezes. Porque eu, também, viria a viver um "esquema", pouco tempo depois, e esse meu "esquema" acabou. Procurei vezes sem fim nas páginas escritas pela CPC a explicação para o "fim". Não estava lá.
Esta segunda metade dos anos oitenta acontecia sobretudo em Lisboa e o seu cronista era Eduardo Prado Coelho. Lembro-me bem de uma crónica onde ele relata o seu estar parado numa fila de carros a voltar do Algarve - ainda não havia a A2. Estava parado e aborrecido até que ouviu alguém a rir, um rir escancarado e quente. Era a Clara. Parados eles também num carro, ela e o então marido António Mega Ferreira, o casal maravilha da intelectualidade lisboeta, estavam pura e simplesmente a cagar-se para a demora e a desfrutar da companhia um do outro e de existir um mundo e nele viverem radiosamente.
O casamento acima depois acabou. CPC publicara o seu primeiro romance, "Adeus Princesa" ainda em 85 e foi um best-seller arrasador. As críticas foram supinas. Em 86 escreveu em parceria com Mário de Carvalho "E se tivesse a bondade de me dizer porquê?", uma entronização brincalhona. A partir daqui a sua escrita começou a descer em qualidade, que não em quantidade, pois continuou a publicar incessantemente. Em 89 "fugiu" para a América para prosseguir a sua carreira académica, voltou para se doutorar no ICBAS em 92, continuando depois em pingue pongue entre a America e Portugal.
O seu livro "The Ovary of Eve - Egg & Sperm & Preformation" foi publicado em 1997 pela University of Chicago Press com abundante repercussão dentro e fora das academias.
O tempo ia passando, CPC era uma presença muito frequente nos jornais, na rádio, na televisão. Adivinhava-se, como na escrita, uma rampa deslizante que depois se concretizou.
Em 2003 foi despedida da revista "Visão" por plágio. Em 2010 aconteceu a triste exposição de fotografias da sua cara em Cascais ilustrando o orgasmo feminino - seu.
Sózinha e ao que parece a viver com parcos recursos em Estremoz, foi encontrada morta hoje.
Talvez à Clara se tenham esgotado os truques. Ou se tenha encontrado sem mais nenhum esquema pelo qual quisesse permanecer. Ou talvez ainda tenha fumado apenas mais um cigarro.
Clara Pinto Correia foi, sem o saber, minha Amiga. Nunca nos conhecemos. Mesmo. O que eu li como "um esquema" é hoje a vida boa que tenho, acompanhando e acompanhado.
Enganei-me ao ler-te, Clara. Se calhar tu também: havia mais vida. Mas... "Foi assim, pronto!" - o começo de um livrinho que ela escreveu como que para mim vai para quarenta anos.

