Quando uma pessoa chega a velho começa a ter estas ideias estranhas de estar tudo feito, de nada de novo nos esperar ao virar de uma qualquer esquina.
Para uma pessoa como eu a quem o contacto com o outro sempre foi uma aventura difícil, as dezenas de pessoas que eu conheci profissionalmente sendo eu o interno mais velho, o recém-especialista, etc., essas dezenas de gente, de fantástica e maravilhosa gente, mereciam um agradecimento especial, porque cada relação estabelecida foi para mim um estranho milagre que, ano após ano, iam afastando lá para a frente o desânimo e o aborrecimento.
Sei que conheci exactamente quem devia conhecer. Lamento apenas não ter trabalhado em enfermaria com um rapaz que entretanto voltou ao país de origem, e com outro rapaz que por hoje está apenas à distância de um corredor. Distância às vezes vencida para um café poder acontecer.
O jantar só ainda não aconteceu porque possivelmente todos seriam levados a pensar que o jantar seria sobre mim e não, o jantar seria apenas sobre eles e para eles. Com dezenas de agradecimentos a serem feitos.
Mas a ideia deste jantar, já de si pouco provável porque mal entendida, terá que esperar algum tempo.
O tempo de eu me esquecer da ausência do Miguel Guerra.
O Miguel foi meu interno geral em 2002. Era um tipo brilhante, um pouco inssurrecto como se dizia naqueles tempos. Consegui puxá-lo para a equipa e acabámos por nos divertir bastante e, não esqueçamos, tratar as outras pessoas na sala que, calha, eram os nossos doentes. Telefonavam-lhe para ir manusear uns ratinhos a um certo laboratório e ele ficava, tratava primeiro das tais outras pessoas, as doentes. Miguel, nunca te agradeci o elogio.
Tudo isto foi há mais de 20 anos e entretanto os nós da vida devem ter sido para ti tão apertados e tão asfixiantes que resolveste hoje já aqui não estar. Sempre me pareceste um rapaz de decisão fácil. Um rapaz eras, não mais, uma espécie de irmão mais novo, daqueles que sabemos falta uma fervura para ficarem completos.E agora deixaste uma filha para trás. Meu Deus. Miguel - Guerra, não consigo dizer o teu nome sem o apelidar.
Vou-te contar uma última história, daquelas que às vezes nos faziam ficar pelo serviço um pouco para além do horário. Sei que vais gostar.
Aqui há meses pediram-me para ir observar um doente à urgência. Para resumir o caso, ninguém o queria. Viera transferido de Chaves para uma intervenção, a intervenção correu bem mas o doente, um ano mais velho do que a minha pessoa, começara a tresler um pouco, a enganar-se nas palavras e nas datas. Um avêcê seria? Vinte e quatro horas depois de estar numa maca na urgência este doente, um metro e oitenta e cento e quarenta quilos de peso, um risco cardiovascular ambulante ali deitado, disse-me onde morava e com quem, convidou-me para um gin em casa quando tudo isto acabasse. Precisava de dois litros de oxigénio mas fora isso, ok. Ninguém o queria, não dava para o mandar para casa, ele ontem dissera umas ao lado, como negar. Desapontado por eu responder ao gin com cola zero mas ao coincidirmos no sportinguismo, o sr engenheiro mecânico com um drive respiratório um pouco sensível aos opiáceos aqui e ali ministrados, encheu-me o dia, meu caro Miguel e, por um dia, um mísero dia, o desânimo e o aborrecimento desapareceram, pura magia. Por muita merda que a vida entretanto te tenha permitido ou obrigado a fazer e pela qual agora se calhar pagaste o maior preço, 2002 foi para mim um bom ano porque tu por ali andaste.
A ideia do tal jantar vai ter que esperar muitos anos.
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