terça-feira, 29 de setembro de 2026

Semana 39.


1. Não se consegue evitar Gaza. Quando penso em Gaza fico com náuseas, dores de cabeça, sintomas vários. Como se o meu corpo quisesse recusar o que está a acontecer. Que é um genocídio. O meu corpo pergunta-me: "não vais fazer nada?" Por isso, confesso, às vezes tento evitar pensar em Gaza, um egoísmo meu. Eu nunca devia deixar de pensar em Gaza. Para que se entenda, Gaza é um cidade antiga, com uma história de três milénios. A chamada "Faixa de Gaza" foi inventada em 1948 na Guerra que sucedeu à independência de Israel. No mapa de partição da ONU em 1947 não havia bem uma "Faixa de Gaza" enquanto tal. Mas a questão de Gaza, como toda a questão palestiniana, nasceu a 2 de Novembro de 1917, com a Declaração de Balfour. Ou seja, 106 anos antes de 7 de Outubro de 2023.

Por outro lado, quando pretendo esquecer Gaza, derivo para a Margem Ocidental.  E a náusea volta igual. Uma sugestão mínima: consultar uma lista de bens importados dos colonatos israelitas - e não comprar.

2. Um quarto dos eleitores portugueses que querem votar (a isto voltaremos) aparentemente está disposto a votar num partido que encenou (e mal) um assalto ao seu gabinete na Assembleia da República.

3. Cristiano, sê um Homem.

4. O ano de 2026 será no ciclismo o ano de Demi Vollering. Ganhou quase sempre, mas nunca esmagando. Mas ganhando quase sempre: Ronde, Fléche Wallone, Liége,  Giro, Tour, Mundiais de Estrada.

5: "Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après, si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable; c'est que je ne peux vraiment pas faire mieux." 

citação de Henri Matisse por José Almada Negreiros , em A Invenção do Dia Claro.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Semana 38



1. Não há fronteiras naturais. O natural é não haver fronteiras. Em 1415 D. João I não colonizou Ceuta, conquistou-a. Como 3 séculos antes D. Afonso Henriques Lisboa. Sobre a mesquita de Ceuta construiu-se uma catedral. Como 3 séculos antes em Lisboa sobre uma mesquita se começou a edificar... uma catedral. Portugal colonizou sim as ilhas atlânticas - dos Açores a São Tomé - o imenso Brasil e, tardiamente, os seus territórios africanos da Guiné, Angola e Moçambique. Se Tarifa ou Algeciras hoje fossem marroquinas, por circunstâncias da história, o que fazer? Ceuta nunca foi uma "colónia". Era parte do Algarve "d'além-mar". Forçando ao  extremo o raciocínio os turcos deviam devolver Constantinopla, embora eu não saiba muito bem dizer a quem...

Tudo isto para dizer que os habitantes de Ceuta, que se dizem espanhóis desde 1580, estão sozinhos nesta história. Nem a União Europeia, para quem eles são um aborrecimento, nem a Espanha continental, para quem Ceuta é apenas uma bandeira nacionalista, os vão ajudar. Um número desconhecido (mil? milhares?) de menores, raparigas e rapazes, vagueiam hoje pelas ruas de Ceuta. O governo de Espanha tem direito por lei de pegar nestes menores e para aliviar Ceuta trazê-los para a península e analizar caso a caso a sua situação, como as leis europeias e espanholas o exigem, antes de qualquer devolução a Marrocos. Mas nenhuma autonomia espanhola o quer, pela repercussão eleitoral, nem o resto da Europa, pois este menores entravam assim no espaço de Schengen. Nem, por último, o governador de Ceuta o permite, porque é do PP e só quer despachar os menores de volta ASAP a Marrocos.

Assim estamos, com medo de uma invasão protagonizada por gente que ainda não tem idade para conduzir nem votar. Embora antes disso tenham sede e fome. E votar em Marrocos não é uma coisa por aí além E Marrocos tem oito vezes menos carros per capita que Espanha.

2a. "Il sorpasso" foi um termo político aplicado à transitória expectativa de ultrapassagem pelo Partido Comunista Italiano (PCI) da votação da Democracia Cristã italiana nas eleições de 1976. "Il sorpasso" nunca acontecesse, apesar do PCI ser um arauto do "eurocomunismo", um conjunto de partidos comunistas europeus que aceitavam explicitamente o jogo da democracia ocidental e rejeitavam o modelo soviético, os anos 80 e o colapso da URSS acabaram com o PCI. "Il sorpasso" hoje em dia é outro, o se e quando a extrema-direita vai ultrapassar o partido ao seu lado e ser a voz mais grossa à direita do centro. Em França e na Itália já aconteceu, em Portugal vai acontecer.

2b. Ontem no hall do Hospital onde eu trabalho, o guarda-redes do Benfica era apenas "aquele preto que nunca me convenceu como guarda-redes". Lembrei-me de quando era criança e ia ver nos anos setenta os jogos da Ovarense e os atacantes, importados das ex-colónias, ora tinham nome se jogavam bem, ou então eram apenas uns "pretos do c***o". Cinquenta anos depois...

3. Algo me diz que a próxima recepção do Porto ao Sporting no Dragão vai ser bem mais tranquila. Chatear-mo-nos porquê?

4. Quem vai ganhar o Mundial  de Estrada em Montreal?

5.  "Imagine that you see the wretched strangers. Their babies at their backs and their poor luggage, plodding to the ports and coasts for transportation. And that you sit as kings in your desires, authority quite silent by your brawl, but chartered unto them. What would you think, to be thus used? This is the strangers' case. And this your mountainish inhumanity." citação de uma peça de William Shakespeare no começo do filme "I Was A Stranger". de Brendt Andersen.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Semana 37.


1. Alice Weidel é co-líder do partido alemão de extrema-direita AFD. Tem 47 anos, e nasceu na parte ocidental da Alemanha. Estudou economia e administração de empresas e doutorou-se com uma tese sobre o sistema chinês de pensões. Filiou-se no AFD em 2013 "por ser contra o euro". É lésbica, vive com uma produtora de cinema e televisão nascida no Sri Lanka e adoptada por um casal suiço em criança. Têm duas crianças adoptadas. Com toda a sua carreira profissional na alta finança, tem residência fiscal na Suiça. Nada disto interessa para os alemães que votam na AFD. Ou se interessa não interessa. A verdade hoje é um detalhe. Weidel cheira a Meloni. Cuidado com ela.

2. Foi notícia recente que a urgência de obstetrícia do Amadora-Sintra atende 40% de estrangeiras. Cito: "Muitas vêm do avião directamente para a urgência!" Esta notícia acontece na semana a seguir ao Amadora-Sintra ter sido notícia pelo enésimo colapso da sua urgência. Sandra Cavaca, que transitou dos SPMS para a Administração do Amadora-Sintra em Fevereiro e com currículo em gestão pelo ISCTE, admite que 18% da população servida pelo seu Hospital é estrangeira. Façamos as contas: Deste 18%, 30 a 40% são mulheres, muitas delas em idade fértil.  Duplicando o ratio de mulheres estrangeiras em idade fértil vs as portuguesas, vai dar perto de 30% de urgências obstétricas a serem justificadas pela pulpulação imigrante feminina que vive... em Sintra e na Amadora! Os outros 10% possivelmente chegarão do aeroporto, é verdade, com gestações de termo não vigiadas que serão um desafio médico e ético - não podem deixar de ser atendidas - e depois de cobrança - elas não vão pagar. O desafio médico e ético parece-me mais grave do que o financeiro, que também existe. Vamos também falar dos estrangeiros nas urgências do Algarve? Mas não é isto que vai afundar o SNS.

3. Confirmo a candidatura do Sporting ao 3º lugar do Campeonato e a sair da Liga dos Campeões no playoff.

4. Se o Isaac del Toro corresse noutra equipa era o meu ciclista favorito.

5 A realidade / é a minha cura // a nascente escura / das horas de ponta // os supermercados / as repartições // escapes de carros / montras, os balcões // mendigos no chão / com os aleijões // cartazes, as praças / de pedra afagada //  a realidade / é o meu suporte // quase que detém /  por um pouco a morte. (...)

Joaquim Manuel Magalhães, em 1990 no livro "Uma luz com um toldo vermelho" (livro depois "renegado").

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Semana 36.


 1. Magdeburg é a capital do estado federal alemão da Saxónia-Anhalt, onde este passado domingo o partido de extrema-direita AFD ganhou com 44% dos votos. Magdeburgo foi das cidades mais importantes da medieval Liga Hanseática. As Leis de Magdeburgo foram criadas no século X e decidiram por séculos os direitos citadinos na maioria das cidades da Europa Central e do Leste. A primeira cidade importante a aderir à reforma de Lutero, Magdeburgo foi destruida duas vezes, na Guerra dos 30 anos no século XVII,  e na 2ª Guerra Mundial. A 24 de Abril de 1974, em Magdeburgo,  o Sporting de Yazalde mas com este lesionado, perdeu a 2ª mão da meia-final da Taça dos Vencedores das Taças. O FC Magdeburg seria o vencedor do troféu. Nada disto explica o acontecido. 

2. Rui Cristina, Presidente da Câmara de Albufeira, tem um processo de perda de mandato pendente por, através de interposta pessoa, ter contratado a sua irmã para o pessoal da Câmara. André Ventura não tem nenhuma irmã. Fosse André Ventura bafejado com essa sorte e nosso primeiro-ministro, a bendita irmã seria Ministro da Administração Interna, sem nenhuma das trapalhadas que hoje estamos a viver.  

3. Cem quilos pesa o equipamento verde-e-branco a Rodrigo Zalazar.

4: João Almeida a subir uma montanha. Leva meses nisso.

5: "Quem multiplica o saber aumenta as angústias", Andrei Tarkovski, no filme Andrei Rublev, do livro Eclesiastes 1:18.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Semana 35


1. Aproveitemos: a 2 de Maio de 2027 Marine Le Pen vai ser eleita Presidente da República Francesa. E aí... 

Marine é a herdeira de seu pai, por muito que lhe custe. O pai era Jean-Marie Le Pen, o homem que criou o partido Front National a partir das cinzas do fascismo francês, e que em 2002 conseguiu chegar à 2ª volta das Presidenciais, sendo porém esmagado (82% dos votos) por Jacques Chirac. Jean-Marie foi apenas 4º em 2007 e foi substituido pela
filha Marine. Que em 2017 perdeu a 2ª volta das Presidenciais com 33% e também em 2022 mas com 41%... Todas as projecções a colocam a ganhar contra qualquer dos possíveis candidatos, na 1ª e 2ª volta. E mais ainda contra o insofrível Jean-Luc Mélenchon, o líder da France Insoumise. O índice nacional de rejeição de Mélenchon quase duplica o de Marine Le Pen. Mas aparece em 2ª lugar nas sondagens. O centro e a direita clássica talvez escolham Edouard Philippe. O espaço socialista e ecologista talvez escolha Raphael Glucksmann. A polarização leva a que a abstenção à esquerda possa ser brutal. E a rejeição no centro e na direita a Marine Le Pen neste momento está a mínimos.  O grupo parlamentar (hoje não Front mas Rassemblement National...) que sustenta Marine tem usado a "stratégie de la cravate", com um comportamento impoluto, cordato e responsável. Como se um anti-Chega. Se não falhar redondamente nos debates, Marine vai ser Presidente. Com a decisão tomada por quem ficar em casa.

2. Em Portugal não quero falar da única pessoa de que se fala. É uma questão de luto. Por um país.

3. Pote vai para a Fiorentina, Bragança para o Torino. Fixe.

4. Pogacar caiu. Levanta-te, rapaz! A 5 de Maio de 1972 Joaquim Agostinho caiu numa etapa da Volta a Espanha. Ainda esteve hospitalizado algum tempo em Espanha. A 16 de Junho estava a começar a participação na Volta a Suíça, sendo 5º e ganhando os dois contra-relógios da prova.

5: Os pequenos prazeres: os rissóis de carne do Turista!

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Semana 34.



1. Em San Sebastián é recente a decisão da municipalidade de proibir uma ONG local de dar algumas centenas de refeições aos sem-abrigo. Aparentemente este serviço oferecido por esta ONG com o obrigatório arrevezado nome vasco, "Kaleko Afari Solidarioak", acrescentava alguma delinquência e insegurança a espaços cêntricos da cidade, como Anoeta (onde está o estádio da Real Sociedad), etc. A municipalidade comprometeu-se a aumentar a sua própria capacidade de apoio, "para quem queira colaborar e integrar-se". Esta frase é assassina: grande parte dos sem-abrigo são toxicodependentes, imigrantes ilegais em circulação, doentes mentais. A integração é um projecto difícil, complicado, de longo prazo, susceptível ao falhanço. Enquanto isso as pessoas precisam de comer. Aqui o problema estava nos locais: Anoeta, o Centro Histórico, etc. Estas refeições solidárias estragavam o postal ilustrado. E o apoio policial aqui e ali necessário nascia de uma iniciativa cidadã independente o que aborrecia a municipalidade. As cidades (e as pessoas) imperfeitas são mesmo uma chatice.

2. As pensões, as pensões, as pensões, Ruy Belo. 

Facto 1: o Prof. Jorge Bravo acha que devemos começar as responsabilizarmo-nos nós individualmente pelas pensões que iremos receber quando da reforma. Para nos convencer disto puxa o déficit da CGA para a praça pública e, quando lhe é dito que os portugueses não têm dinheiro para descontar mais no fim do mês, ele diz que sim - "então não gastamos 150 milhões por mês em raspadinhas?" Quinze euros por português por mês em média... 

Facto 2: o actual sistema de cálculo de pensões, criado em 2007 pelo ministro Vieira da Silva, vai oferecer com o progredir dos anos, uma pensão percentualmente cada vez menor em relação ao último salário: hoje estará pelos 68%, em 20 anos será de 58%... Convém que isto se saiba, por cada mil euros é menos cem euros... 

Facto 3: Jorge Bravo tem um preconceito e um viés ideológico óbvio, embora em nenhum momento fale em privatizar o que quer que seja. O sistema Vieira da Silva não é perfeito e deve ser explicado às criancinhas que agora estão a começar a descontar: poupem, poupem e esqueçam as raspadinhas...

3. O Sporting afinal tem equipa para discutir o terceiro lugar do Campeonato...

4. Rúben Guerreiro finalmente já treina sem limitações. Haja quem lhe dê trabalho.

5. Chove e chove. Termina o verão neste sobressalto? 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Semana 33.



 1. Há uma ONG em Berlim sediada no distrito Wedding, onde se concentra a população migrante ou de 2ª geração com origem africana. Chama-se Each One Teach One, um provérbio com origem nos escravos americanos - que cada um que aprendesse a ler ensinasse outro a ler. Esta ONG trabalha com as crianças de Wedding, as crianças negras de Wedding. Marcaram um horário numa piscina municipal, como outras organizações fazem. Durante esse horário, como outras organizações, teriam o exclusivo da piscina para as suas crianças, negras. Até aqui tudo ok. O partido fascista alemão AFD não achou assim. Acusou esta simples ocorrência de ser "racista". Mas não foi só o AFD. Uma deputada municipal da CDU, o partido no poder, também não concordou e até publicou um vídeo a protestar que se tornou viral. O evento na piscina foi cancelado "por uma questão de segurança". Tudo isto aconteceu e semana passada e aconteceu em Berlim. Aponto aqui os sinais de alarme: o primeiro ser Berlim, o segundo a deputada municipal ser da CDU.

2. A Secretária de Estado do Ensino Superior chama-se Cláudia Sarrico, tem 55 anos e é Professora Catedrática da Universidade do Minho. Ela é casada com um francês que dá pelo nome de Julian Tice e trabalha para a OCDE em Paris, como ela já trabalhou. Possuem um apartamento em Paris - quelle surprise! - avaliado em mais de um milhão de euros, e têm mais património imobiliário em Aveiro, onde nasceu e em Braga, onde lecciona. Para poder residir em Lisboa enquanto Secretária de Estado requereu e obteve um subsídio de renda de pouco mais de setecentos euros, enquadrado num decreto-lei que data de 1980, governava Sá Carneiro e era Presidente da República Ramalho Eanes, e que se manteve, com algumas correcções, até hoje. A ideia era e é não onerar os governantes (a mesma lógica se aplica exactamente aos senhores deputados) pelo simples facto de serem obrigados a deslocarem-se para Lisboa para servirem o país. Concordo por completo com esta lei. O título da Sábado é: "Governante tem casa em Paris de 1100000 euros, mas recebe apoio à renda em Lisboa".


3: Vi a cara de Rui Borges na segunda parte do jogo com o Guimarães. Era uma cara de medo. Não gostei. 


4. Finlay Tarling tinha 19 anos. O Carro Vassoura não é um mito urbano, existe. E enquanto ele não passar na estrada onde uma prova de ciclismo passaa estrada é uma pista reservada à prática desse tão amado mas sofrido desporto.


5. Ver um filme leva tempo (reaprender). 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Semana 32

Volto a escrever para reflectir nestas difíceis semanas que estão a acontecer. Difíceis. Cá e lá. 


1. "Salvar Portugal" e André Ventura. Passo por este cartaz todos os dias. Portugal precisa efectivamente de ser salvo. Dele. Mas não só. Na política portuguesa pelo acaso é que vamos. Não estava previsto que Luís Neves chegasse a Ministro da Administração Interna. Luís Neves, enquanto Director da Política Judiciária, teve das intervenções públicas mais importantes ao negar a relação entre a imigração e a insegurança nas ruas, por um lado, e sublinhar o perigo da extrema-direita organizada nas franjas hoje "próximas" da sociedade, por outro. Não quero crer que estas intervenções estejam a provocar este escrutínio.  Os pagamentos em dinheiro acima da lei e a manipulação canhestra do caso da "galera" com acetona deviam implicar demissão a qualquer um. Queimar porém a ÚNICA PESSOA do nosso mainstream a denunciar nos últimos anos o risco real da extrema-direita custa-me. Estaremos em tempo ainda de limpar armas?



2. Sobre Ceuta podia esperar até 16 de Agosto para escrever. Mas não. Nenhum país europeu tem uma taxa de fertilidade de pelo menos 2,1, que é a taxa que assegura a reposição da população. Dito isto a necessidade de imigrantes na Europa é uma evidência. E é uma evidência que nos entra pelos olhos dentro, na assistência aos idosos, na restauração, na construção civil, na agricultura. Uma boa política de imigração deverá ser a diferença da Europa para o mundo. E, esquecendo questões morais e humanitárias, resulta. O crescimento do PIB espanhol dos últimos anos deve-se em pelo menos 50%  à absorção proactiva de uma população migrante esforçada e... contribuinte. Mas atingir o número 2,1 nunca será a solução mágica para resolver a xenofobia e o racismo larvares que justificam todos estes pânicos europeus. Nunca começaremos a fazer mais filhos para os mandar para as obras ou para trabalhar em lares ou na agricultura intensiva. Precisamos de imigrantes, ponto. Uma boa dotação orçamental para o acolhimento e integração destas gentes (haja coragem e cordão sanitário aplicado às vozes da extrema-direita) e esta pagar-se-á com bónus fazendo crescer mais e mais a economia europeia, que disso bem precisa. Marrocos e a extrema.-direita europeia, que curiosa aliança. Finalmente umas palavras sobre os dois mil menores retidos em Ceuta. Não se começa a sonhar por decreto só aos dezoito anos. A sermos coerentes com as nossas leis, estas crianças não deveriam acabar como vítimas de tráfico humano, que é o que vai ser.


3. Tenho um papel colado no frigorífico para aprender todos os nomes dos novos jogadores do Sporting. Acho que vêm mais. Assim fica difícil.


4. O ciclista Tadej Pogacar vai à Vuelta a España para ganhar. Pogacar ganhou todas as Grandes Voltas em que entrou em 2024, 2025 e agora, 2026 (4 que eventualmente serão 5). Vamos comparar: Merckx, ganhou todas as Grandes Voltas em que correu em 70, 71, 72, 73 e 74. Cinco anos. Acrescentaríamos antes 68 e 69 não fôsse uma curiosa desclassificação por doping no Giro de 69 que permitiu a vitória de um italiano. Contando portanto com o Tour de 69 dez Grandes Voltas seguidas com vitória de Merckx.  DEZ. Nas comparações vamos ter calma.


5. Para quê escrever?

terça-feira, 14 de abril de 2026

Maria de Fátima Rodrigues Patrício Teixeira

 "Deus, vendo toda a Sua obra, considerou-a muito boa."


Vi-te pela primeira vez a descer Camões. Falámos um com o outro pela última vez no Carrefour de Gaia. Palavras vivas, não de circunstância. Que era uma despedida.


A maneira como dizias "azule". 

Amo Trás-os-Montes porque te amava muito.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Lobo Antunes

 Visitei pela primeira vez Faro para conhecer António Lobo Antunes. Numa pequena livraria que tinha um cafetaria com um pátio, Lobo Antunes respondeu a perguntas e foi falando sobre isto e aquilo. Conversou como se estivesse a escrever uma crónica das dele. Fumava. Levei-lhe um livro para autografar.

Não leio livros de Lobo Antunes desde o século passado. As crónicas sim, como muitos mais. Fui até à 17ª edição da História da Literatura Portuguesa, de Óscar Lopes e António José Saraiva e Lobo Antunes merece uma atenção um pouco desconcertada de pouco mais de meia página. O rival Saramago merece um pouco mais de atenção e um começo de reverência. Esta 17ª edição é de 1996.

Conheci Óscar Lopes na urgência do hospital em que trabalho, nunca vi gigante mais pequeno, numa cadeira de rodas. José Saramago parecia-se com o meu pai, excepto na simpatia onde, tardiamente embora, o meu pai lhe ganhava. 

Quando me encontrei perante o escritor para lhe pedir uma dedicatória preguei-lhe uma mentira, que ele, com um sorriso, adivinhou. Escreveu exactamente o que lhe pedi. Era portanto um homem bom.

domingo, 1 de março de 2026

A morte de Ali Khamenei (e a prisão de Nicolás Maduro).

Ninguém mais do que eu quer a mudança do regime iraniano. A sua existência e, nomeadamente, o seu tratamento discriminatório das mulheres, faz o partido Chega parecer no nosso parlamento um defensor do sexo feminino, que sabemos que não é.

Mas a morte de Khamenei (como a prisão de Maduro) não vai assegurar a melhoria das condições de vida iranianas (ou venezuelanas), tendo em atenção que a vocação de Donald Trump para defender a democracia no exterior é ainda menor do que a sua vocação para promover a democracia internamente. 

A sociedade iraniana é muito complexa, não é só Teerão, não é só mulheres a sofrer a opressão religiosa, jovens a querer uma vida melhor e mais... ocidental. A revolução iraniana de 79 foi extremamente popular, no início, ao acabar com um regime autocrático ditatorial mas extremamente popular no Ocidente. O novo regime era uma teocracia xiita com um forte componente militar e paramilitar, muito reforçado pela guerra Irão-Iraque de 1980-88, onde o Ocidente apoiou... o Iraque de Saddam Hussein. O único vislumbre de democracia no Irão acontecera entre 1951 e 53 com o primeiro-ministro Mossadegh, derrubado por um golpe financiado pelos americanos e os ingleses. Mossadegh não morreu em 53 e teve direito a falecer por doença numa cama de hospital em Teerão, 14 anos depois. 

Hoje já não é assim. Bombardeia-se e pronto! E ainda faltam pelo menos três anos! Queriam que o Rangel protestasse por causa da Base das Lajes. Tá quieto, abelha!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Miguel.

Quando uma pessoa chega a velho começa a ter estas ideias estranhas de estar tudo feito, de nada de novo nos esperar ao virar de uma qualquer esquina. 
Para uma pessoa como eu a quem o contacto com o outro sempre foi uma aventura difícil, as dezenas de pessoas que eu conheci profissionalmente sendo eu o interno mais velho, o recém-especialista, etc., essas dezenas de gente, de fantástica e maravilhosa gente, mereciam um agradecimento especial, porque cada relação estabelecida foi para mim um estranho milagre que, ano após ano, iam afastando lá para a frente o desânimo e o aborrecimento. 
Sei que conheci exactamente quem devia conhecer. Lamento apenas não ter trabalhado em enfermaria com um rapaz que entretanto voltou ao país de origem, e com outro rapaz que por hoje está apenas à distância de um corredor. Distância às vezes vencida para um café poder acontecer.
O jantar só ainda não aconteceu porque possivelmente todos seriam levados a pensar que o jantar seria sobre mim e não, o jantar seria apenas sobre eles e para eles.  Com dezenas de agradecimentos a serem feitos. 
Mas a ideia deste jantar, já de si pouco provável porque mal entendida, terá que esperar algum tempo.
O tempo de eu me esquecer da ausência do Miguel Guerra.

O Miguel foi meu interno geral em 2002. Era um tipo brilhante, um pouco inssurrecto como se dizia naqueles tempos. Consegui puxá-lo para a equipa e acabámos por nos divertir bastante e, não esqueçamos, tratar as outras pessoas na sala que, calha, eram os nossos doentes. Telefonavam-lhe para ir manusear uns ratinhos a um certo laboratório e ele ficava, tratava primeiro das tais outras pessoas, as doentes. Miguel, nunca te agradeci o elogio.

Tudo isto foi há mais de 20 anos e entretanto os nós da vida devem ter sido para ti tão apertados e tão asfixiantes que resolveste hoje já aqui não estar. Sempre me pareceste um rapaz de decisão fácil. Um rapaz eras, não mais, uma espécie de irmão mais novo, daqueles que sabemos falta uma fervura para ficarem completos.E agora deixaste uma filha para trás. Meu Deus. Miguel - Guerra, não consigo dizer o teu nome sem o apelidar. 

Vou-te contar uma última história, daquelas que às vezes nos faziam ficar pelo serviço um pouco para além do horário. Sei que vais gostar. 
Aqui há meses pediram-me para ir observar um doente à urgência. Para resumir o caso, ninguém o queria. Viera transferido de Chaves para uma intervenção, a intervenção correu bem mas o doente, um ano mais velho do que a minha pessoa, começara a tresler um pouco, a enganar-se nas palavras e nas datas. Um avêcê seria? Vinte e quatro horas depois de estar numa maca na urgência este doente, um metro e oitenta e cento e quarenta quilos de peso, um risco cardiovascular ambulante ali deitado, disse-me onde morava e com quem, convidou-me para um gin em casa quando tudo isto acabasse. Precisava de dois litros de oxigénio mas fora isso, ok. Ninguém o queria, não dava para o mandar para casa, ele ontem dissera umas ao lado, como negar. Desapontado por eu responder ao gin com cola zero mas ao coincidirmos no sportinguismo, o sr engenheiro mecânico com um drive respiratório um pouco sensível aos opiáceos aqui e ali ministrados, encheu-me o dia, meu caro Miguel e, por um dia, um mísero dia, o desânimo e o aborrecimento desapareceram, pura magia. Por muita merda que a vida entretanto te tenha permitido ou obrigado a fazer e pela qual agora se calhar pagaste o maior preço, 2002 foi para mim um bom ano porque tu por ali andaste.

A ideia do tal jantar vai ter que esperar muitos anos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Os Deuses querem André Ventura?


Esta 2ª volta seria um passeio no parque para António José Seguro não fosse a tempestade Kristin e a péssima resposta comunicacional do governo Montenegro. 

António José Seguro continuou a passear e tentou demarcar-se ainda mais do ruído "Chegano" com visitas particulares a zonas de cheia, etc. Mas Montenegro, Leitão Amaro e Castro Almeida ensaiaram um harakiri público, como se a tempestade que se abateu sobre centenas de milhares de portugueses, repito, centenas de milhares de portugueses, fosse apenas um contratempo de horas ou poucos dias. Por decoro nem vou falar de Maria Lúcia Amaral.

E André Ventura disse a famosa frase: "Que se lixe as eleições!". A Kristin foi a oportunidade dourada para Ventura conseguir nesta 2ª volta o que parecia impossível. assumir a liderança da direita. Ele já está a preparar-se para as próximas legislativas que eu atiro para 2027. Faltam-lhe 600000 votos para igualar a votação da AD em 2025  Se não os conseguir, utilizará o número da percentagem de votos como bitola alternativa. José Luis Carneiro, um homem sério, foi o ministro que, por culpa de Costa e Medina, pôs polícias e guardas a fazer manifestações e vigílias na rua como se não houvesse um amanhã. Em eleições este lembrete será usado ad nauseam. Montenegro  por seu lado será perseguido pela gestão da tempestade Kristin, horrivel até prova em contrário.

Resta quem? 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A Primeira Volta e o mais.







Os tempos não estão para brincadeiras. Pedem gente à altura dos acontecimentos. Procuramos e não há.

Quando Montenegro ganhou as eleições legislativas de 2024, coincidindo com um grupo parlamentar do partido CHEGA de 50 deputados, eu disse a quem me ouve (pouca e escolhida gente) que o governo formado estava obrigado a governar muito bem, sob pena de o populismo crescer ainda mais.

Dois anos depois, as primeiras páginas dos jornais noticiam diariamente problemas na saúde, o tal sector em que se ia resolver tudo ou quase tudo em dois... meses. O preço das casas subiu 27%. E Miranda Sarmento é apenas um Fernando Medina com menos verbo e óculos. 

Montenegro não percebeu o momento. Como se percebe isso? Pelo caso Spinumviva. Montenegro sabe muito bem o que é "comunhão de adquiridos". Mas, não fosse a sua fase de primeiro-ministro ser curta, Montenegro optou conscientemente por não desfazer o escritório, na realidade seu e só seu, e o ganha-pão da família. Outro teria percebido que o momento era daqueles que coloca alguém na História sempre, sendo o lado - o certo ou o errado - definido pelo comportamento do sujeito. Montenegro parece ter decidido o seu lado, e não é o melhor para os portugueses.

Marcelo Rebelo de Sousa fez bem em demitir António Costa, dos piores primeiros-ministros que este Portugal já teve, um homem que desperdiçou condições ímpares para mudar o país mas decidiu governar em piloto automático oito anos e meio. O nome Vitor Escária é suficiente para servir como justificação (Escária curiosamente hoje não está no desemprego, antes dirige um Instituto Superior de Gestão, em Lisboa). Podia ter feito uma fiscalização "preventiva" da situação profissional de Montenegro. Não a fez - talvez por distância ou desapego - e em 2025 acabámos com novas eleições e 60 deputados do CHEGA. 

Ainda não falei da primeira volta das Presidenciais. Vai agora. Vamos por nomes. 

Gouveia e Melo perceberá de escotilhas e de nós de marinheiro, como se diz cá por casa, mas os debates puseram a nu a impreparação do senhor. Esqueçamos o seu almoço com Ventura. A sua procura de votantes por aqui, ali e acolá impressionou. Quando atacou Marques Mendes num famoso debate afundou o interlocutor e afundou-se a ele próprio. 

Marques Mendes (MM) vinha, como Marcelo, do comentário televisivo, mas as semelhanças terminavam aí. Fazia-o mais baixo: afinal tem 1.62m. Foi um boneco famoso da extinta "Contra-Informação" - a "ganda nóia!" - e já antes do debate com Gouveia de Melo havia a sensação de que MM era apenas uma espécie de "terminação", uma ilustração do princípio de Peter onde um bom brigadeiro pode ser um péssimo general.

Se MM perdeu votos para Gouveia e Melo perdeu-os ainda mais para Cotrim de Figueiredo, nomeadamente nos centros urbanos. Cotrim tem uma mensagem agradável que apela a muitos  PSD's - "pagar menos" - e presença e rasgo a mais, algo que faltava a MM. Uma semana terrível enterrou quaisquer hipóteses de 2ª volta: o "lapso" do apoio a Ventura era um calculismo para uma possível 2ª volta - percebendo tarde o quanto soou mal. A questão com Inês Bichão - que raio de apelido - passa por saber-se que só 2 a 8% das denúncias de assédio sexual são falsas. O tribunal o dirá. Assisti ao debate entre Cotrim e Ventura. Quem foi mais preparado para o debate? Adivinhem.

E ganhou Seguro. Quase a fazer-se de morto. Começou a não ser nem de direita nem de esquerda. Beneficiou da crise do seu partido, o PS. Todas as outras figuras presidenciáveis acharam que era uma luta perdida e deixaram-no ao seu triste destino. Disse meia dúzia de coisas minimamente apresentáveis e ganhou umas eleições. Sem nunca elevar a voz, o que se agradeceu. Mas foi contra o pacote laboral qb. E defendeu convictamente também o SNS, qb também. Porque precisava do centro, não pactuou qualquer geringonça. E agora tem toda a gerinçonça, hoje tão pequenina, mas também o Chicão, o Pedro Duarte e até gente da IL a apoiarem-no. É provavelmente o próximo Presidente da República. 

Lembro que Seguro assumiu a liderança do PS em 2011, no pós-Sócrates. Absteve-se perante o Orçamento de Pedro Passos Coelho em 2012, algo que o aparelho do PS não lhe perdoou, e apesar de ter ganho as eleições autárquicas de 2013 e as europeias de 2014,  Costa expulsou-o do poder. Costa, o ex-ministro de Sócrates, algo que Seguro nunca foi. 

Sobre Ventura, que mais se pode dizer? Um milhão em cem mil votos em 2024, um milhão e quatrocentos mil votos no verão de 2025, agora um milhão e trezentos mil votos. Numa coisa concordamos com Ventura: não desejamos que ele ganhe e ele também não. Não querendo falar, logo após as eleições ele falou ao sair da missa, ao chegar ao hotel e depois já lá dentro. Cobertura total. Ventura é tão católico fervoroso como eu sou entendido em azeites. As eleições de 8 de Fevereiro serão uma sondagem: quantos eleitores do PSD e da IL poderão numas legislativas próximas ser convencidos a votar CHEGA? Vai ser esta a única pergunta a ser feita, e a resposta só em 8 de Fevereiro a iremos conhecer.

Vêem-me duas palavras à ideia: Bloco Central. Ficam para outra conversa.








sábado, 3 de janeiro de 2026

Lembrando porque aconteceu Hugo Chavez.




Conheço muito boa gente que nasceu ou tem raízes na Venezuela. Espero que me perdoem o atrevimento.

Em 1958 a ditadura de Marcos Pérez Jimenez foi derrubada na Venezuela e foi estabelecida uma democracia parlamentar. No final desse ano os très partidos principais da Venezuela, a COPEI, a AD e a URD,  estabeleceram o pacto de Punto Fijo, o nome da residência do presidente da COPEI, para estabelecer um esquema de convivência e rotatividade na governação que garantiu à Venezuela 40 anos de estabilidade democrática, até à eleição de Hugo Chavez em 98. A URD era o elo mais fraco nesta negociação e os partidos AD e COPEI governaram em alternância estes 40 anos, incluindo os tempos do boom petrolífero nos anos 70. As classes alta e média da Venezuela beneficiaram com esta paz política mas o grosso do povo venezuelano nem por isso. Sendo uma economia que dependia exclusivamente da extracção petrolífera, quando os preços baixaram nos anos 80 começaram os problemas. Em 89 o país entrou em insolvência e o FMI e o Banco Mundial aplicaram a receita neo-liberal do costume, que levou a uma revolta popular conhecida pelo "Caracazo", despoletada pelo subir do preço da gasolina num país que então era um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Simbolicamente o presidente era o repetente Carlos Andres Pérez, que tinha sido a cara mais conhecida dos anos 70 e então um "governante de esquerda". A repressão matou centenas ou milhares de venezuelanos e levou à morte lenta do binómio AD/COPEI. A crise económica era evidente. A democracia não chegava ao povo e os casos de corrupção sucediam-se. Em 1992 aconteceu uma revolta militar surpresa, liderada por um jovem Hugo Chavez, que acabou por se render nas suas palavras "por enquanto". Carlos Andres Pérez sofreu um impeachment. O governo do quinquénio 93-98 já foi uma coligação de interesses que tentou mas não conseguiu dar a volta à economia e em 98, democraticamente Hugo Chavez ganhou as eleições para Presidente apoiado no "Movimiento Quinta Republica". 

Hugo Chavez mandou na Venezuela durante 15 anos, até à sua morte por doença. Nos primeiros anos beneficiou de uma nova subida dos preços do petróleo. Empoderou as classes baixas criando uma ilusáo de democracia de base e aplicando receitas populares de erradicação do analfabetismo e melhoria das condições de saúde dos bairros pobres. Chavez sobreviveu "democraticamente" até à sua morte, parasitando a justiça e beneficiando os militares. Mas não conseguiu capturar nem os sindicatos nem erradicar as televisões privadas. O país foi atravessando vários momentos de grande polarização política. E passou a conviver com um nível de violência no dia-a-dia brutal. A frente chavista criou em muitos bairros populares uma lógica quase "religiosa" de "seguir o líder". Chavez era um autocrata dos tempos modernos, mantendo uma capa de democracia que ia permitindo à oposição "quase vitórias" que não passavam disso. O entorno de Chavez era escolhido pela fidelidade e não pela competência e a economia foi perdendo o rumo, sector petrolífero incluido.    

Quando Chavez morreu o mito chavista que até convenceu alguma esquerda europeia já estava desfeito. Sucedeu-lhe Nicolás Maduro. Sim, ele começou a trabalhar como camionista, mas quando chegou à Presidência era o Vice-Presidente e antes tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 2014 conseguiu perder umas eleiçóes legislativas mas o regime conseguiu dar a volta e até ontem administrou um país a implodir economica e socialmente, com oito milhões de emigrantes - a população de Venezuela começou a desce em 2017. Os poucos beneficiados? A entourage militar e militante de Maduro.

Esta madrugada Trump não deixou serem os venezuelanos a resolver esta dramática situação. A sua preocupação com o país é nula. Ele só quer mesmo o petróleo. E agora?

Alguém da administração de Trump sabe da existência do Acordo de Punto Fijo em 1958 - talvez a causa longínqua de tudo isto?

  A imagem acima é de Carlos Andres Pérez.