quinta-feira, 5 de março de 2026

Lobo Antunes

 Visitei pela primeira vez Faro para conhecer António Lobo Antunes. Numa pequena livraria que tinha um cafetaria com um pátio, Lobo Antunes respondeu a perguntas e foi falando sobre isto e aquilo. Conversou como se estivesse a escrever uma crónica das dele. Fumava. Levei-lhe um livro para autografar.

Não leio livros de Lobo Antunes desde o século passado. As crónicas sim, como muitos mais. Fui até à 17ª edição da História da Literatura Portuguesa, de Óscar Lopes e António José Saraiva e Lobo Antunes merece uma atenção um pouco desconcertada de pouco mais de meia página. O rival Saramago merece um pouco mais de atenção e um começo de reverência. Esta 17ª edição é de 1996.

Conheci Óscar Lopes na urgência do hospital em que trabalho, nunca vi gigante mais pequeno, numa cadeira de rodas. José Saramago parecia-se com o meu pai, excepto na simpatia onde, tardiamente embora, o meu pai lhe ganhava. 

Quando me encontrei perante o escritor para lhe pedir uma dedicatória preguei-lhe uma mentira, que ele, com um sorriso, adivinhou. Escreveu exactamente o que lhe pedi. Era portanto um homem bom.

domingo, 1 de março de 2026

A morte de Ali Khamenei (e a prisão de Nicolás Maduro).

Ninguém mais do que eu quer a mudança do regime iraniano. A sua existência e, nomeadamente, o seu tratamento discriminatório das mulheres, faz o partido Chega parecer no nosso parlamento um defensor do sexo feminino, que sabemos que não é.

Mas a morte de Khamenei (como a prisão de Maduro) não vai assegurar a melhoria das condições de vida iranianas (ou venezuelanas), tendo em atenção que a vocação de Donald Trump para defender a democracia no exterior é ainda menor do que a sua vocação para promover a democracia internamente. 

A sociedade iraniana é muito complexa, não é só Teerão, não é só mulheres a sofrer a opressão religiosa, jovens a querer uma vida melhor e mais... ocidental. A revolução iraniana de 79 foi extremamente popular, no início, ao acabar com um regime autocrático ditatorial mas extremamente popular no Ocidente. O novo regime era uma teocracia xiita com um forte componente militar e paramilitar, muito reforçado pela guerra Irão-Iraque de 1980-88, onde o Ocidente apoiou... o Iraque de Saddam Hussein. O único vislumbre de democracia no Irão acontecera entre 1951 e 53 com o primeiro-ministro Mossadegh, derrubado por um golpe financiado pelos americanos e os ingleses. Mossadegh não morreu em 53 e teve direito a falecer por doença numa cama de hospital em Teerão, 14 anos depois. 

Hoje já não é assim. Bombardeia-se e pronto! E ainda faltam pelo menos três anos! Queriam que o Rangel protestasse por causa da Base das Lajes. Tá quieto, abelha!