terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Miguel.

Quando uma pessoa chega a velho começa a ter estas ideias estranhas de estar tudo feito, de nada de novo nos esperar ao virar de uma qualquer esquina. 
Para uma pessoa como eu a quem o contacto com o outro sempre foi uma aventura difícil, as dezenas de pessoas que eu conheci profissionalmente sendo eu o interno mais velho, o recém-especialista, etc., essas dezenas de gente, de fantástica e maravilhosa gente, mereciam um agradecimento especial, porque cada relação estabelecida foi para mim um estranho milagre que, ano após ano, iam afastando lá para a frente o desânimo e o aborrecimento. 
Sei que conheci exactamente quem devia conhecer. Lamento apenas não ter trabalhado em enfermaria com um rapaz que entretanto voltou ao país de origem, e com outro rapaz que por hoje está apenas à distância de um corredor. Distância às vezes vencida para um café poder acontecer.
O jantar só ainda não aconteceu porque possivelmente todos seriam levados a pensar que o jantar seria sobre mim e não, o jantar seria apenas sobre eles e para eles.  Com dezenas de agradecimentos a serem feitos. 
Mas a ideia deste jantar, já de si pouco provável porque mal entendida, terá que esperar algum tempo.
O tempo de eu me esquecer da ausência do Miguel Guerra.

O Miguel foi meu interno geral em 2002. Era um tipo brilhante, um pouco inssurrecto como se dizia naqueles tempos. Consegui puxá-lo para a equipa e acabámos por nos divertir bastante e, não esqueçamos, tratar as outras pessoas na sala que, calha, eram os nossos doentes. Telefonavam-lhe para ir manusear uns ratinhos a um certo laboratório e ele ficava, tratava primeiro das tais outras pessoas, as doentes. Miguel, nunca te agradeci o elogio.

Tudo isto foi há mais de 20 anos e entretanto os nós da vida devem ter sido para ti tão apertados e tão asfixiantes que resolveste hoje já aqui não estar. Sempre me pareceste um rapaz de decisão fácil. Um rapaz eras, não mais, uma espécie de irmão mais novo, daqueles que sabemos falta uma fervura para ficarem completos.E agora deixaste uma filha para trás. Meu Deus. Miguel - Guerra, não consigo dizer o teu nome sem o apelidar. 

Vou-te contar uma última história, daquelas que às vezes nos faziam ficar pelo serviço um pouco para além do horário. Sei que vais gostar. 
Aqui há meses pediram-me para ir observar um doente à urgência. Para resumir o caso, ninguém o queria. Viera transferido de Chaves para uma intervenção, a intervenção correu bem mas o doente, um ano mais velho do que a minha pessoa, começara a tresler um pouco, a enganar-se nas palavras e nas datas. Um avêcê seria? Vinte e quatro horas depois de estar numa maca na urgência este doente, um metro e oitenta e cento e quarenta quilos de peso, um risco cardiovascular ambulante ali deitado, disse-me onde morava e com quem, convidou-me para um gin em casa quando tudo isto acabasse. Precisava de dois litros de oxigénio mas fora isso, ok. Ninguém o queria, não dava para o mandar para casa, ele ontem dissera umas ao lado, como negar. Desapontado por eu responder ao gin com cola zero mas ao coincidirmos no sportinguismo, o sr engenheiro mecânico com um drive respiratório um pouco sensível aos opiáceos aqui e ali ministrados, encheu-me o dia, meu caro Miguel e, por um dia, um mísero dia, o desânimo e o aborrecimento desapareceram, pura magia. Por muita merda que a vida entretanto te tenha permitido ou obrigado a fazer e pela qual agora se calhar pagaste o maior preço, 2002 foi para mim um bom ano porque tu por ali andaste.

A ideia do tal jantar vai ter que esperar muitos anos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Os Deuses querem André Ventura?


Esta 2ª volta seria um passeio no parque para António José Seguro não fosse a tempestade Kristin e a péssima resposta comunicacional do governo Montenegro. 

António José Seguro continuou a passear e tentou demarcar-se ainda mais do ruído "Chegano" com visitas particulares a zonas de cheia, etc. Mas Montenegro, Leitão Amaro e Castro Almeida ensaiaram um harakiri público, como se a tempestade que se abateu sobre centenas de milhares de portugueses, repito, centenas de milhares de portugueses, fosse apenas um contratempo de horas ou poucos dias. Por decoro nem vou falar de Maria Lúcia Amaral.

E André Ventura disse a famosa frase: "Que se lixe as eleições!". A Kristin foi a oportunidade dourada para Ventura conseguir nesta 2ª volta o que parecia impossível. assumir a liderança da direita. Ele já está a preparar-se para as próximas legislativas que eu atiro para 2027. Faltam-lhe 600000 votos para igualar a votação da AD em 2025  Se não os conseguir, utilizará o número da percentagem de votos como bitola alternativa. José Luis Carneiro, um homem sério, foi o ministro que, por culpa de Costa e Medina, pôs polícias e guardas a fazer manifestações e vigílias na rua como se não houvesse um amanhã. Em eleições este lembrete será usado ad nauseam. Montenegro  por seu lado será perseguido pela gestão da tempestade Kristin, horrivel até prova em contrário.

Resta quem? 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A Primeira Volta e o mais.







Os tempos não estão para brincadeiras. Pedem gente à altura dos acontecimentos. Procuramos e não há.

Quando Montenegro ganhou as eleições legislativas de 2024, coincidindo com um grupo parlamentar do partido CHEGA de 50 deputados, eu disse a quem me ouve (pouca e escolhida gente) que o governo formado estava obrigado a governar muito bem, sob pena de o populismo crescer ainda mais.

Dois anos depois, as primeiras páginas dos jornais noticiam diariamente problemas na saúde, o tal sector em que se ia resolver tudo ou quase tudo em dois... meses. O preço das casas subiu 27%. E Miranda Sarmento é apenas um Fernando Medina com menos verbo e óculos. 

Montenegro não percebeu o momento. Como se percebe isso? Pelo caso Spinumviva. Montenegro sabe muito bem o que é "comunhão de adquiridos". Mas, não fosse a sua fase de primeiro-ministro ser curta, Montenegro optou conscientemente por não desfazer o escritório, na realidade seu e só seu, e o ganha-pão da família. Outro teria percebido que o momento era daqueles que coloca alguém na História sempre, sendo o lado - o certo ou o errado - definido pelo comportamento do sujeito. Montenegro parece ter decidido o seu lado, e não é o melhor para os portugueses.

Marcelo Rebelo de Sousa fez bem em demitir António Costa, dos piores primeiros-ministros que este Portugal já teve, um homem que desperdiçou condições ímpares para mudar o país mas decidiu governar em piloto automático oito anos e meio. O nome Vitor Escária é suficiente para servir como justificação (Escária curiosamente hoje não está no desemprego, antes dirige um Instituto Superior de Gestão, em Lisboa). Podia ter feito uma fiscalização "preventiva" da situação profissional de Montenegro. Não a fez - talvez por distância ou desapego - e em 2025 acabámos com novas eleições e 60 deputados do CHEGA. 

Ainda não falei da primeira volta das Presidenciais. Vai agora. Vamos por nomes. 

Gouveia e Melo perceberá de escotilhas e de nós de marinheiro, como se diz cá por casa, mas os debates puseram a nu a impreparação do senhor. Esqueçamos o seu almoço com Ventura. A sua procura de votantes por aqui, ali e acolá impressionou. Quando atacou Marques Mendes num famoso debate afundou o interlocutor e afundou-se a ele próprio. 

Marques Mendes (MM) vinha, como Marcelo, do comentário televisivo, mas as semelhanças terminavam aí. Fazia-o mais baixo: afinal tem 1.62m. Foi um boneco famoso da extinta "Contra-Informação" - a "ganda nóia!" - e já antes do debate com Gouveia de Melo havia a sensação de que MM era apenas uma espécie de "terminação", uma ilustração do princípio de Peter onde um bom brigadeiro pode ser um péssimo general.

Se MM perdeu votos para Gouveia e Melo perdeu-os ainda mais para Cotrim de Figueiredo, nomeadamente nos centros urbanos. Cotrim tem uma mensagem agradável que apela a muitos  PSD's - "pagar menos" - e presença e rasgo a mais, algo que faltava a MM. Uma semana terrível enterrou quaisquer hipóteses de 2ª volta: o "lapso" do apoio a Ventura era um calculismo para uma possível 2ª volta - percebendo tarde o quanto soou mal. A questão com Inês Bichão - que raio de apelido - passa por saber-se que só 2 a 8% das denúncias de assédio sexual são falsas. O tribunal o dirá. Assisti ao debate entre Cotrim e Ventura. Quem foi mais preparado para o debate? Adivinhem.

E ganhou Seguro. Quase a fazer-se de morto. Começou a não ser nem de direita nem de esquerda. Beneficiou da crise do seu partido, o PS. Todas as outras figuras presidenciáveis acharam que era uma luta perdida e deixaram-no ao seu triste destino. Disse meia dúzia de coisas minimamente apresentáveis e ganhou umas eleições. Sem nunca elevar a voz, o que se agradeceu. Mas foi contra o pacote laboral qb. E defendeu convictamente também o SNS, qb também. Porque precisava do centro, não pactuou qualquer geringonça. E agora tem toda a gerinçonça, hoje tão pequenina, mas também o Chicão, o Pedro Duarte e até gente da IL a apoiarem-no. É provavelmente o próximo Presidente da República. 

Lembro que Seguro assumiu a liderança do PS em 2011, no pós-Sócrates. Absteve-se perante o Orçamento de Pedro Passos Coelho em 2012, algo que o aparelho do PS não lhe perdoou, e apesar de ter ganho as eleições autárquicas de 2013 e as europeias de 2014,  Costa expulsou-o do poder. Costa, o ex-ministro de Sócrates, algo que Seguro nunca foi. 

Sobre Ventura, que mais se pode dizer? Um milhão em cem mil votos em 2024, um milhão e quatrocentos mil votos no verão de 2025, agora um milhão e trezentos mil votos. Numa coisa concordamos com Ventura: não desejamos que ele ganhe e ele também não. Não querendo falar, logo após as eleições ele falou ao sair da missa, ao chegar ao hotel e depois já lá dentro. Cobertura total. Ventura é tão católico fervoroso como eu sou entendido em azeites. As eleições de 8 de Fevereiro serão uma sondagem: quantos eleitores do PSD e da IL poderão numas legislativas próximas ser convencidos a votar CHEGA? Vai ser esta a única pergunta a ser feita, e a resposta só em 8 de Fevereiro a iremos conhecer.

Vêem-me duas palavras à ideia: Bloco Central. Ficam para outra conversa.








sábado, 3 de janeiro de 2026

Lembrando porque aconteceu Hugo Chavez.




Conheço muito boa gente que nasceu ou tem raízes na Venezuela. Espero que me perdoem o atrevimento.

Em 1958 a ditadura de Marcos Pérez Jimenez foi derrubada na Venezuela e foi estabelecida uma democracia parlamentar. No final desse ano os très partidos principais da Venezuela, a COPEI, a AD e a URD,  estabeleceram o pacto de Punto Fijo, o nome da residência do presidente da COPEI, para estabelecer um esquema de convivência e rotatividade na governação que garantiu à Venezuela 40 anos de estabilidade democrática, até à eleição de Hugo Chavez em 98. A URD era o elo mais fraco nesta negociação e os partidos AD e COPEI governaram em alternância estes 40 anos, incluindo os tempos do boom petrolífero nos anos 70. As classes alta e média da Venezuela beneficiaram com esta paz política mas o grosso do povo venezuelano nem por isso. Sendo uma economia que dependia exclusivamente da extracção petrolífera, quando os preços baixaram nos anos 80 começaram os problemas. Em 89 o país entrou em insolvência e o FMI e o Banco Mundial aplicaram a receita neo-liberal do costume, que levou a uma revolta popular conhecida pelo "Caracazo", despoletada pelo subir do preço da gasolina num país que então era um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Simbolicamente o presidente era o repetente Carlos Andres Pérez, que tinha sido a cara mais conhecida dos anos 70 e então um "governante de esquerda". A repressão matou centenas ou milhares de venezuelanos e levou à morte lenta do binómio AD/COPEI. A crise económica era evidente. A democracia não chegava ao povo e os casos de corrupção sucediam-se. Em 1992 aconteceu uma revolta militar surpresa, liderada por um jovem Hugo Chavez, que acabou por se render nas suas palavras "por enquanto". Carlos Andres Pérez sofreu um impeachment. O governo do quinquénio 93-98 já foi uma coligação de interesses que tentou mas não conseguiu dar a volta à economia e em 98, democraticamente Hugo Chavez ganhou as eleições para Presidente apoiado no "Movimiento Quinta Republica". 

Hugo Chavez mandou na Venezuela durante 15 anos, até à sua morte por doença. Nos primeiros anos beneficiou de uma nova subida dos preços do petróleo. Empoderou as classes baixas criando uma ilusáo de democracia de base e aplicando receitas populares de erradicação do analfabetismo e melhoria das condições de saúde dos bairros pobres. Chavez sobreviveu "democraticamente" até à sua morte, parasitando a justiça e beneficiando os militares. Mas não conseguiu capturar nem os sindicatos nem erradicar as televisões privadas. O país foi atravessando vários momentos de grande polarização política. E passou a conviver com um nível de violência no dia-a-dia brutal. A frente chavista criou em muitos bairros populares uma lógica quase "religiosa" de "seguir o líder". Chavez era um autocrata dos tempos modernos, mantendo uma capa de democracia que ia permitindo à oposição "quase vitórias" que não passavam disso. O entorno de Chavez era escolhido pela fidelidade e não pela competência e a economia foi perdendo o rumo, sector petrolífero incluido.    

Quando Chavez morreu o mito chavista que até convenceu alguma esquerda europeia já estava desfeito. Sucedeu-lhe Nicolás Maduro. Sim, ele começou a trabalhar como camionista, mas quando chegou à Presidência era o Vice-Presidente e antes tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 2014 conseguiu perder umas eleiçóes legislativas mas o regime conseguiu dar a volta e até ontem administrou um país a implodir economica e socialmente, com oito milhões de emigrantes - a população de Venezuela começou a desce em 2017. Os poucos beneficiados? A entourage militar e militante de Maduro.

Esta madrugada Trump não deixou serem os venezuelanos a resolver esta dramática situação. A sua preocupação com o país é nula. Ele só quer mesmo o petróleo. E agora?

Alguém da administração de Trump sabe da existência do Acordo de Punto Fijo em 1958 - talvez a causa longínqua de tudo isto?

  A imagem acima é de Carlos Andres Pérez.