terça-feira, 8 de setembro de 2015

Hoje tudo me sabe a iogurtes.

"O meu silêncio estarrece 
os pássaros. Eles fogem. 
E deve inquietá-los. 
Também a bola de 
futebol, poderosa
arma contra tudo o que 
voa. São as 
casas feitas para 
ser pombais.
A vida humana nelas é 
um prefácio.
Onde vivo há já
um pequeno pombal.

Tão meu, chegar
(quase) no fim 
da festa."


Em Ovar, há muitos anos, fiquei em segundo lugar num concurso de poesia. O concurso já não sei quem o promovia. A entrega dos prémios - para mim uma medalha que ainda por aqui anda - foi na sede da rádio da terra, a Antena Vareira, onde eu fazia de conta que tinha um programa... de rádio. Nele passava os discos da minha namorada. 
A senhora que ganhou pôde ler ao público parte da obra. Era uma poesia expansiva e emocional, comme il faut. Lembro-me que um dos meus poemas a concurso usava a seguinte imagem: "hoje tudo me sabe a iogurtes". E explico: o iogurte é aquela comida que nunca é má, sabe mais ou menos bem, mas nunca será manjar de deuses. É um comer cinzento. Dizer "bora comer iogurtes!" nunca puxará ninguém. 
Acabada a leitura e debruada esta com palmas, uma jurada veio dar-me os parabéns mas sugeriu que eu "deixasse os iogurtes no frigorífico". A vaca!

A verdade é que hoje, hoje mesmo, tudo me sabe a iogurtes.

sábado, 5 de setembro de 2015

"Porque os países muçulmanos ricos não ajudam os seus irmãos?"

A pergunta tem sido partilhada e partilhada. A resposta é simples: quem está fugir está fugir de países onde antes havia alguma tradição secular. Se um grão de bondade se pode dizer da ditadura da família Assad na Síria é que é/era uma ditadura secular: o hijab não era obrigatório, a sharia não era a lei, as mulheres podiam conduzir um carro. Ninguém cortava a mão direita de ninguém. Aliás a ditadura de Saddam Hussein no Iraque também não! Ganhou algumas tonalidades religiosas para não ficar mal perante o Irão. Idem a Tunísia e o Egipto em ditadura, idem a Argélia dos nossos dias. Idem a Jordânia do filho de Hussein. Todas estas ditaduras no mundo árabe nasceram nos anos cinquenta e pertenceram aos não-alinhados, etc. Eram pseudo-esquerdistas, a maioria apoiadas pela URSS, mas eram decididamente seculares.
Neste momento os países mais estáveis do Médio Oriente são fontes perenes do integralismo islâmico: o Irão e a Arábia Saudita.

Que os Sírios queiram vir para a Europa é um elogio. Seremos nós merecedores dele?

Rocha ágil / Completamente negra

TOURO II

"Rocha ágil
Completamente negra

A única praia possível
É uma poça de sangue"

Este poema é de Alberto de Lacerda e pertence a um conjunto de poemas chamado "Tauromagia". A poesia em língua castelhana inspirada pelo festa taurina é incontável. A sublimação da crueldade humana e do seu instinto de morte através de um estranho tipo de arte que para isso criou um esplêndido bicho, cujo único destino é ser morto em arena. Isto teve o seu tempo. Tempo que terá sido também esplêndido, "uma estranha forma de arte". Pede que nos concentremos na arena e não olhemos demasiado para as paixões que correm na assistência. Hemingway et al ajudou muito ao mito. 

Falo do toureio a pé, claro. O toureio a cavalo só é estrela em Portugal e não evita o castigo do animal, antes o aumenta. Refina-o, pois é feito em maior desigualdade e acontece "de cima para baixo". É um ménage a trois com, adivinho, grande sofrimento para o cavalo. Os ferros vão exsanguinando o touro. O toureio a cavalo é uma arte de senhores e de castigo contínuo, um bandarilhar a cavalo. O toureio a pé é a versão popular da festa. Para muitos rapazes do povo a arena de touros é o único salão onde alguma vez poderão dançar. É uma promessa de tango entre um homem e um animal. Mas que termina em morte. Em Portugal não se pica o touro, el tercio de varas. Porém, a sorte das bandarilhas tem na realidade o mesmo objectivo, castigar o touro, sangrá-lo. O toureiro a pé que não mata só castiga o touro uma vez, quando mata ou simula a morte. Mas antes houve uns quantos pares de ferros espetados.

Finalmente, a pega de caras é uma forma criativa - e de grande coragem, própria para jovens, como se um teste de virilidade, ou para homens mais velhos que dizem "ainda consigo" - de simular a devolução do touro ao curro e só existe onde não se mata, isto é, cá.
O tema de matar em Portugal apareceu há uns tempitos para puxar público, que tem vindo a diminuir. Se calhar a festa dos touros no seu todo está na hora é de acabar. 
Terei pena pelas pegas de caras, que se tornarão impossíveis ao não estar o touro cansado, sangrado...

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A espuma das sextas - 2.

"Esbagoar" quer dizer lacrimejar.

A espuma das Sextas.

A Maria Antónia apareceu-me na consulta em 94, 24 anos recém-feitos. Um pré-operatório - estenose bilateral das artérias renais - ia ser operada. Medi-lhe as tensões, normotensa. Volto a medir, também. Não foi operada. Teve tempo para, sim, em vinte anos desenvolver uma hipertensão pequenina, e começar a tomar pastilha e meia com devoção. Os rins? Recomendam-se. A Maria Antónia trabalhou numa empresa de confecções em S. Torcato 25 anos. As consultas eram em Agosto para não faltar nenhum dia. A empresa fechou - ficou sem receber uns meses, de indemnização nada. Já voltou a trabalhar um ano, ao fim deste rua e mais dois meses para o calo. O marido era canteiro, despediram-no. Anda na construção civil. Uma filha emigrou para França, é encarregada numa lavandaria. Já não volta, o marido é de 2ª geração, moram perto da fronteira com a Suíça o que quer dizer - noutro mundo. O outro filho tem 18 anos, talvez entre na faculdade em Braga à noite, um trabalhito de dia para amenizar. Bolsa talvez não haja porque os pais têm uma casa - como se comêssemos telhas e vestíssemos tijolo, como se terem construído aquela casa nem sei com que sacrifícios fosse o pecado original.
A D. Sílvia mora na Silva Escura e tem 85 anos. Em 2012 perdeu a fala, afasia digo, durante um internamento na Cardiologia por um enfarte agudo do miocárdio. Agora fala bem e claro tudo o que tem para dizer. Queixa-se da Médica de Família que lhe disse que para as mãos "não havia nada a fazer", sendo "mãos de velha". A D. Sílvia não gosta da torteza dos dedos, cada um apontando diferente caminho, sim, as artroses, e quê? Vou auscultá-la e ela diz que se despe "como a brasileira, que se despe em qualquer lado". Auscultação enxuta, fico contente. A D. Sílvia foi a 2ª mãe da Arminda, hipertensa de 57 anos e descontrolo completo, até que enviuvou. Agora está viúva e alegre e as tensões estão controladas. Cozinha para fora e hoje cozinhou para mim, traz-me rissóis para o almoço. Ah, e tem um namorado que não se assusta com o facto da Arminda ter um filho parvo, que portanto sai ao defunto pai.
A Isaura tem 48 anos e uma irmã emigrada na Alemanha. Visitou-a em 97 e teve um contacto fugaz com o SNS alemão por delírio psicótico de prejuízo - alguém a queria envenenar. Já voltou a ter algumas crises similares mas em 2008 a crise revestiu-se de características diferentes: tinha realmente um tumor do estômago com células em anel de sinete. Teve sorte: "Não se observam imagens de permeação linfática. Não se observam sinais de invasão venosa. Não se observam sinais de invasão perineural. Não há representação da neoplasia nas margens cirúrgicas. Os anéis de sutura automática não estão invadidos. Não se identificam implantes peritoneais." E 0 em 25 gânglios invadidos. Não voltou a nenhuma consulta para seguimento. Acha que foi tudo um complot dos cirurgiões. Recusa repetir exames. "Eu era tão bonita, veja a cicatriz que me fizeram!". Nunca permiti que ma mostrasse. Pergunta-me como tenho estado. Desejamo-nos mutuamente um bom fim-de-semana.
O Sr. Pacheco tem 71 anos e foi atirador em Cabinda 2 anos. A cabeça descarrilou na Alemanha uns dez anos depois mas ele jura que foi da guerra. Toma a medicação e anda bem. É brusco, directo, dedicado. Está casado e olha pelos netos. Tem um minimercado. Trouxe-me umas vagens que diz serem australianas e que são compridas e torcidas - "não é preciso tirar nada, é só cortar e cabeça e depois, zuca zuca zuca, aos bocadinhos, uma maravilha!". Ah, e ovos. O meu jantar, hoje. Como não gostar desta gente! Claro que os nomes não são estes nomes...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O Restaurante Erato em Adrianou, Plaka.

Ao rever o que escrito levo vejo que me enganei na localização dos jantares e esqueci-me daquele que aconteceu - talvez no dia 4 ou 5 - no Restaurante Erato, em plena Adrianou, cá fora, com todo o turismo a passar. Vou saltar o óbvio, porque foi sempre assim e aqui também - comemos bem e não comemos caro. Também teve a graça de estarmos a jantar no meio do movimento, da malta que passava, o mais variopinta possível. O que eu quero contar é que, dentro do restaurante, dois homens tocavam bouzouki e uma mulher cantava. O "Rebetiko", o tipo de música interpretado, terá nascido, pelo que li, no virar do século - do XIX para o XX - e ganhou raízes nas cidades costeiras mais seu submundo, e mais ainda nas cidades costeiras gregas "do outro lado", na Ásia Menor, por ex., Esmirna/Izmir. Com a guerra Greco-Turca e o descalabro de 1923 o Rebetiko viajou todo para este lado do Mar Egeu e, lentamente, ganhou pergaminhos. É a canção da saudade de um tempo em que a Grécia era Maior. Claro que não percebo nada de "Rebetiko". Mas acho não vou esquecer aquela mulher a cantar, no ar os braços, a voz.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Atenas dia 6.

Era o último dia. Era o mais triste dos dias. Saímos já com o calor a envolver-nos e fomos visitar o Estádio Olímpico, recriação do antigamente, que lembrava o reinício dos Jogos Olímpicos em 1896. Não entrámos, pagava-se apenas para ir lá para dentro desidratar, pareceu-me um mau negócio. Passámos depois à porta do Museu da Guerra, nem mais, as Forças Armadas Gregas não estão com meias tintas no nome, é mesmo assim. Não entrámos. Entrámos sim no Museu Bizantino. Os Gregos foram Gregos disfarçados de Bizantinos durante um milénio, desde a queda do Império do Ocidente até à queda de Constantinopla, mais década menos década. A Igreja Ortodoxa/"Bizantina" é, parece-me quase omipresente na vida grega. Tsipras foi o primeiro-ministro a não jurar sobre a Bíblia Ortodoxa a sua tomada de posse. E o Museu Bizantino não defrauda as expectativas, ao explicar o que, na prática é a história do Cristinanismo na Grécia desde os Romanos até à actualidade. É muito interessante, por ex., perceber como o Parténon foi durante algum tempo adaptado a Sé Catedral de Atenas. E como a arte Greco-Romana tardia evoluiu progressivamente para a estética bizantina. E aparecem os ícones, ícones e mais ícones. Pessoalmente preferi alguns frescos lindíssimos. O museu não se esquece também de mencionar El Greco como um... pintor cretense




de ícones! Acontece que tudo isto sofre um corte e uma paralisia evolutiva com o domínio turco. E as últimas salas talvez pedissem mais atenção e disponibilidade mental para não serem penosas. Nada penoso foi o almoço no restaurante do museu, por uma vez um restaurante de museu onde se come bem e não caro.
Voltámos ao hotel por Syntagma - adeus, adeus... - e ao fim da tarde fomos fazer outra despedida voltando a percorrer as ruelas de Anafiotika. Descobrimos ruelas novas, e descobrimos um bom restaurante na base do monte, e dele vía-se meia Atenas - um terço, vá. Foi uma óptima despedida. Deitámo-nos cedo, o taxi saía às sete. O hotel serviu-nos pequeno-almoço bem antes da hora, com um sorriso. E ofereceu-nos os outros prévios, que em princípio seriam cobrados para além do quarto e não foram.
Eu já disse o nome do hotel? Adam's Hotel.
Repito: Adam's Hotel.