domingo, 4 de outubro de 2015

VI Festiblas - Mujeres.

Os Mujeres são 4 rapazes de Barcelona já com cartaz firmado, ao contrário das Bala. Estiverm por ex no Optimus Primavera Sounda aqui no Porto em 2012. E têm óptimas recordações do Parque da Cidade. As orientações sexuais deles já não nos interessaram tanto, nem ao Hector nem a mim. O baterista num determinado momento pareceu-me querer beijar o baixista, ao que este não correspondeu, limpando a barba do contacto. Os Mujeres têm um som pop esgalhado onde as duas guitarras criam uma espécie de "wall of sound" muito fim dos anos noventa - corrige-me Hector se estou errado, com um toque curiosamente rockabilly. Têm a curiosidade de usar com frequência dois vocalistas, o que cria uma segunda muralha - de palavras - sobre a muralha das guitarras. São muito bons, efectivamente. E as suas t-shirts esgotaram. Confesso que me lembro um pouco menos do concerto. Estrella Galicia é mesmo uma boa cerveja...

VI Festiblas - Bala.

As Bala são galegas. A baterista é de Lugo - o Hector apontou-me a família, incluindo o entusiasmado pai, no público - e a guitarrista é da Coruña. A baterista dá pelo nom de plume de "V" - de Violeta, O nom de plume da guitarrista é "Anx Bf" - de... sei lá! Os White Stripes tornaram popular esta coisa de fazer rock só com bateria e uma guitarra. Mas não é fácil. E as Bala não soam a White Stripes. Tudo começa em V: V é relativamente pequena e o seu look gótico com uma discreta tatuagem no braço não promete o vendaval que V é capaz de produzir. Tudo o que aquela bateria é capaz de dar V vai obter, competamente engalfinhada no massacre. É muito poderio. Eis senão quando Anx Bf começa a "serrar" a guitarra. Anx Bf não é de subtilezas. Embora fosse com uma simplicidade de liceal  que me agradeceu a compra de uma t-shirt e os elogios, horas depois, com as suas simples e leais calças de ganga e uma camisinha azul florida, cabelo extenso e castanho. A destruição sonora que a guitarra produz em cima do maremoto da bateria cria o pesadelo sonoro adequado para se passar uma hora - como se passou - em verdadeiro nirvana cataclísmico. Ah, e falta falar das vocais. Cantam as duas - cantarão? V vocifera coisas as mais das vezes ininteligíveis, que depois Anx Bf "corrige" gritando os refrões e o argumento ao ritmo da metralhadora da bateria. A rendição foi completa. Foi-me oferecido um vinil que eu não vou ouvir - o disco chama-se "Human Flesh" e foi editado pela... "Mata-Padres". O Hector não é tão mais velho do que eu e informou-me que a baterista é lésbica. Mais disse: "Espero que quando a minha filha fôr grande seja assim!". Estava a falar da qaulidade musical, não da orientação sensual. Não mencionou que Anx Bf é heterosexual e tem um relacionamento explicitado no face com um tal de Hugo. 

sábado, 3 de outubro de 2015

VI Festiblas - 2.

Como a minha vida não é isto, mal tinha tido tempo para prestar adequada atenção ao cartaz. In illo tempore tinha ouvido alguma coisa dos grupos contratados e a sexta-feira tinha-me parecido mais interessante, porque mais esgalhada. Também evitava eu cortar em Ovar, etc. Ficar dois dias também obrigaria a mais catering pelo Hector e a minha função nunca seria essa, chatear o próximo. Os grupos eram dois: "Mujeres" e "Bala". Pouco depois de entrar percebi que um dos grupos era constituido por duas raparigas - com cara e corpo para serem colegas da minha filha - embora depois ficasse a saber que eram bem mais velhas; o outro grupo era constituido pelos quatro rapazes com tem tinha conversado antes - com dois deles, pelo menos. Demorou três quartos de hora  - e duas cervejas - para perceber que tinha entendido mal a distribuição dos nomes: as miúdas afinal chamavam-se "Bala" e os rapazes... "Mujeres"! Tendo as duas miúdas um aspecto verdadeiramente adolescente tinha-me parecido que o nome "Mujeres" lhes acertava a 100%. Por outro lado, a piada de um grupo masculino chamado "Mujeres" parecia-me curta pois a música deles era bem mais elaborada do que isso. Se este engano de três quartos de hora não me humilhasse um pouco, eu teria achado o nome "Mujeres" um achado, claro. Nunca tinha assistido a um sound check. Tanto já aprendi com o Hector - e fiquei a saber que quem faz o sound check depois é porque toca primeiro. 

VI Festiblas - 1.

"Clavicémbalo" é o nome italiano para aquilo que em português se chama "cravo", instrumento de teclas popular nos séculos XVII-XVIII e que antecedeu o pianoforte. Curiosamente em Espanha e a acreditar na Wikipedia, o cravo é popularmente conhecido como "clavicórdio" ou, eruditamente, como "clavicémbalo", dá para escolher..
Clavicémbalo é também um clube de música em Lugo onde um amigo meu organiza uns festivais. Ontem estive por lá: o VI Festiblas.
O Clavicémbalo é palco todos os anos de um Festival de Jazz. O dono vive a perder dinheiro com tudo isto. Ontem não terá sido o caso: a casa encheu. No Clavicémbalo já tocaram grandes nomes do jazz espanhol - Tete Montoliu - europeu e americano. As fotografias nas paredes não estão ali, como é costume, por acaso. No Hostal onde fiquei, curiosamente, não me souberam indicar o caminho. Porém, quando desci e cheguei cá fora, adivinhei. Eu lembrava-me, era logo ali como quem desce. O dono esquecera-se de que naquele mesmo dia - ontem - havia uma performance, um teatro, então a coisa estava atrasada. Entrei, abracei o Hector, peguei numa Estrella Galicia, os testes de som estavam em curso. O Hector apresentou-me uns rapazes que estavam por ali - percebi depois que eram os cabeças de cartaz. Disse-lhes que ia escrever sobre eles no meu blogue em Portugal, portanto, ojo, cuidao! Depois descansei-os: "No os preocupeis, nadie me lee!"

The Hours - Michael Cunningham.

Escrever sobre um livro depois de termos falado do filme é fácil: não é preciso contar a história. E à pergunta se o livro ultrapassa o filme a resposta também é fácil, neste caso
: sim,  e muito.
"The Hours" é ainda a obra mais conhecida de Michael Cunningham. Saiu em 1998 e ganhou o Pulitzer no ano seguinte. A história do filme segue aproximadamente a do livro. Há a criação de alguns momentos de maior dramatismo  - no filme - que no livro são espalhados pela prosa brilhante de Cunningham. E digo brilhante porque me lembra, sim, Virgina Woolf. A prosa de Cunningham é uma sucessão de palavras e palavras e palavras a brilhar e a brilhar, dando-nos todos os detalhes, os olhares, as pessoas qie passam que contam, que desaparecem, como um trabalho de pedraria que se deixa ver em acumulação mas nunca em excesso. Dito isto, só transcrever:





"Beijam-se de novo. Clarissa aconselhará Sally, quando a ocasião parecer certa, a não usar o casaco cor de mostarda.
Enquanto continua a atravessar o átrio pensa, admirada, no prazer que sentiu - quando tinha sido? - há pouco mais de uma hora. Neste momento, às 11.30 de um quente dia de Junho, o átrio de entrada do prédio onde mora lembra uma entrada para o reino dos mortos. A floreira está no seu nicho e os mosaicos castanhos vidrados do chão devolvem silenciosamente, de modo turvo, a cansada luz ocre dos candeeiros. Não, não é exactamente o reino dos mortos, há algo pior do que a morte com a sua promessa de alívio e sono. Há poeira a subir, dias intermináveis e um átrio mudo e quedo, sempre cheio da mesma luz castanha e do cheiro húmido e levemente químico que vai passando, até aparecer alguma coisa mais exacta, pelo odor real da idade e da perda, o fim da esperança. Richard, o seu amante perdido, o seu amigo mais sincero, está a desaparecer na sua doença, na sua insanidade. Richard não a acompanhará, como estava planeado, na velhice.
Clarissa entra no apartamento e sente-se imediata e curiosamente melhor. Um pouco melhor. Tem de pensar na festa. Pelo menos há isso. Este é o seu lar, dela e de Sally, e, apesar de já ali viverem juntas há quase quinze anos, ainda a surpreende a sua beleza e a incrível sorte de ambas. Duas assoalhadas e um jardim em West Village! São ricas, claro, obscenamente ricas pelos padrões mundanos, mas não ricas ricas, não ricas estilo cidade de Nova Iorque. Dispunham de uma certa quantia para gastar e tiveram a sorte de encontrar estas divisões com soalho de tábuas de pinho, esta enfiada de janelas de batente que abrem para um pátio de tijolo onde cresce musgo esmeralda em tinas de pedra pouco fundas e uma pequena fonte circular, uma bandeja de água clara, borbulha em obdiência ao toque de um interruptor. Clarissa leva as flores para a cozinha onde Sally deixou um bilhete - "Almço c/Oliver - esqueci-me de te dizer? - volto às três o mais tardar. XXXXX" - , Clarissa sente-se, de súbito, deslocada." 



"- Vem cá - diz Laura, como diria ao seu filho, e, como se Kitty fosse o seu filho, não espera que lhe obedeça e vai ela ao seu encontro. Agarra-a pelos ombros e, após um certo constrangimento, inclina-se até ficar praticamente de joelhos. Tem consciência da sua estatura, de quanto é alta ao lado de Kitty. Abraça-a.
Kitty hesita e depois deixa-se abraçar. Rende-se. Não chora. Laura sente o abandono, sente-a entregar-se. E pensa: é isto o que um homem sente quando abraça uma mulher.
Kitty passa os braços à roda da cintura de Laura, que está inundada de sentimento, de comoção. Aqui, aqui nos meus braços, estão o medo e a coragem de Kitty, a sua doença. Aqui estão os seus seios. Aqui está o coração resoluto e prático que bate por baixo deles; aqui estão as luzes líquidas do seu ser: luzes rosa-carregado, luzes vermelho-ouro, cintilando, vacilantes, luzes que se congregam e dispersam; aqui está o mais íntimo, o mais profundo de Kitty, o coração debaixo do coração, a essência intangível com que um homem - e logo o Ray! - sonha, pela qual se sente atraído, que procura à noite tão desesperadamente. Aqui está, à luz do dia, nos braços de Laura. Sem ter bem consciência disso, beija Kitty demoradamente no alto da testa. Sente-se inundada pelo perfume dela, pela essência fresca e pura do seu cabelo louro-acastanhado."







E é isto todo o livro. O que é muito bom.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ruy Cinatti.

"JUVENTUDE



Arde e não queima
 o que sinto agora
junto à lareira.

Não foi desejo,
não, infelizmente,
o que perdi.
Foi o coração,
mais que demente
esteio da vida.

Palavras tenho
para queimar."



Ruy Cinatti, in O Tédio Recompensado, 1968

Cristina.

"Duas pessoas jogando
no entardecer
da praia de Santa Cristina

À distância
parecem
sacos de lixo."