domingo, 14 de fevereiro de 2016

Regina.

MINÉRIO

roubar ruído ao que toca,
e ouro à água corrente

roubar os dentes à roda
da fortuna

retirar todo o sentido
ao castigo
que faz vão e descabido
tudo quanto em nós se faz

arrumar lá para um canto
aquele antigo condão
de fechar os olhos cedo
e pedir ao sonho certo
que viesse e que durasse
até ao dia seguinte

Regina Guimarães, Caderno do Regresso, Hélastre, 2010.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Mia Madre, de Nanni Moretti - 2015.

Fui ver este filme a uma sessão do Cineclube de Joane, na Casa das Artes de Famalicão. Não sei se teve exibição comercial em sala o ano passado. Servia este filme para apresentar Nanni Moretti à minha filha. Servia mas não serviu. Porque não é um "daqueles" filmes de Moretti.
É costume de Moretti fazer um cinema palavroso, seja ele ou não o actor principal. O drama, o humor e o absurdo invadem a tela e dividem a atenção. A música, habitualmente italiana e comercial, ilustra, precipita, resolve a acção. Nada dito acontece em "Mia Madre".
O filme é sobre uma realizadora de cinema que faz um filme político onde John Turturro é o actor americano convidado e que tem - a realizadora -  a mãe internada com uma doença grave e que, depois percebemos, vai morrer. A realizadora de cinema tem uma filha, um ex-namorado que é actor no filme, um ex-marido, e um irmão - interpretado por Moretti - que tirou uma licença sem vencimento para acompanhar a doença da mãe. Há momentos extremamente engraçados com Turturro, sim, mas são um engraçado até "natural", credível, um actor americano mediano mas americano no meio de uma produção mediana italiana. Aqui não há qualquer absurdo. E o resto não cresce, não sobe, não abre. O filme quase desce ao nível de um documentário ou dum docudrama. Às vezes quase perguntamos: onde está o filme?
O filme está ali entre a realizadora e a sua mãe. E é nessa relação difícil - um ménage a troi entre duas mulheres e uma doenca terminal - e só aí que ele está e ganha asas. Em pequenos detalhes. Em sonhos vistos. No silêncio. Não me lembro de um filme de Moretti assim silencioso. Ou com uma régie tão parcimoniosa. Filmam-se os livros da antiga professora de latim que ainda ensina a neta a declinar por entre nebulizações e oxigénio. Os seus antigos alunos. Talvez a agonia aconteça demasiado bem. Talvez a figura de Moretti - o irmão - seja demasiado contida - nunca Moretti representou assim, que eu tenha visto. Mas o fim - "domani!" - é perfeito.
Moretti pretendeu dat-nos a sua opinião sobre o que fica de alguém depois da morte. A sua mãe - mais um filme algo autobiográfico - era professora de letras/latim e falecera poucos anos antes. Moretti conseguiu e bem.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

E Moretti?

Nanni Moretti é um realizador de cinema italiano que se tornou conhecido nos anos 80 e depois foi aparecendo e desaparecendo, até ter ganho a Palma de Ouro em Cannes em 2001 com "O Quarto do Filho". Se se podia esperar, após esta consagração, mais constância na produção de filmes, tal não aconteceu. Moretti demorou cinco anos a voltar a mandar cá para fora um filme, "O Caimão", filme também sobre Berlusconi mas sobre muitas outras coisas mais. Tinham passado cinco anos, a crítica não foi unânime, e Moretti manteve o ritmo de antes, um filme cada 3 a 5 anos. Só vieram portanto mais dois. Moretti não é o Almodovar italiano nem o Woody Allen italiano. É atípico em tudo. Os seus filmes são frequentemente protagonizados pelo próprio, jogam à autobiografia, metem números musicais, têm um humor muito próprio, ora contra o sistema ora contra a intelectualidade ora contra a Itália como um todo, com uma melancolia própria de um homem xde esquerda em luto pela morte da esquerda italiana. Um luto que em Moretti não cessa.


Moretti é do pouco que nos resta. Vais ao Google, pesquizas os 20, 40, 50 realizadores de cinema vivos mais importantes, do mundo ou europeus, não interessa, Moretti não consta. Não entendo.

Serge Abramovici

Serge Abramovici / Saguenail viu publicada uma entrevista sua em 2010, muito interessante, dentro dum projecto de investigação do CIAC  - "Novas e Velhas Tendências no Cinema Português".
A entrevista é de André Gil da Mata.
Cito:

"O estado actual do cinema português, para mim, está ligado ao seu contexto político-social. Está ligado à geração que, graças ao 25 de Abril, pôde chegar ao cinema e tentar impor a ideia de um cinema "diferente"; num primeiro tempo numa vontade de intervenção, num segundo tempo numa vontade de originalidade. Essa geração está a morrer, o João César Monteiro, que era talvez o melhor representante dessa geração, já morreu, e o José Álvaro Morais... Ao mesmo tempo, dentro dessa geração teremos aquilo a que posso chamar os loucos, tipos que entraram em paranóia e quiseram, num país como Portugal, fazer cinema talvez não à americana, mas à espanhola, pelo menos; advogaram a ideia de um cinema comercial sabendo perfeitamente que os recursos em termos de distribuição do país invalidam completamente essa hipótese. Porque cinema comercial não é só uma história comercial e a utilização de receitas, é também ter um público e os meios adequados a esse tipo de cinema — coisas que não existem."

"E Portugal sempre sofreu de outra coisa, como dizia o Luís Pacheco: "não era um país de avançados era um país de avençados." Eu vi, durante 30 anos, os meus colegas passarem mais tempo em intrigas no ICA e à espera de um subsídio, do que preocupados realmente em aprender pura e simplesmente o ofício. A maior parte dos cineastas portugueses são eternos debutantes. Quem faz um filme de cinco em cinco anos vai levar três vidas para saber um bocado do ofício."
"Geralmente diz-se que o cinema português é muito palavroso, mas não é. O cinema francês é tagarela, mas no cinema português o que é impressionante é a solenidade da palavra. Há sempre mais silêncio do que palavra, e essa palavra é sempre quase ritual, o que exclui o cinema português de um certo realismo cinematográfico. Cada filme é quase uma cerimónia."

"Muitas vezes há deficiências técnicas. No cinema português, o som, em particular, tem sido pessimamente tratado, pouquíssimo cuidado. Estive a rever filmes do Paulo Rocha, do António Pedro Vasconcelos, que têm a ver com o equipamento das salas, mas o som é pouco audível. O que é terrível, porque os filmes portugueses em Portugal não são legendados, e o espectador português não consegue apanhar o que os actores lá estão a dizer."
"A tentação na minha geração era o europudding, porque permitia mais dinheiro. O World Cinema não sei bem o que é."


"Defendi e defendo a proposta do endividamento para se fazer cinema. O produtor que acredite no projecto, que o faça levar para a frente sem subsídio. Se o pessoal acreditar realmente nos projectos, não há motivo para não se fazer uma curta, ou um terço de uma longa, e depois sim, ser avaliado e, caso ganhe o subsídio, serem reembolsados os custos reais."

"O problema é que as escolas de cinema, por toda a Europa, são formadas por pessoas de televisão. A televisão não tem rigorosamente nada a ver com cinema, é preciso meter isso na cabeça. Talvez quem melhor definiu isso foi o Régis Debray, quando analisou, em mediologia, a diferença entre imagem ampliada e imagem reduzida, a diferença entre sala de teatro e outros locais. O cinema faz coisas para tentar ficar, para poderem ser vistas daqui a vinte anos, enquanto a televisão faz coisas para serem esquecidas logo, para não serem vistas no dia seguinte. São funções e funcionalidades, e logo práticas e estéticas, totalmente opostas. E o facto de ensinar cinema, mas pensar que a profissionalização vai ser na televisão, é falsear completamente as coisas. E a lei do emprego, vigorando desta forma, leva a que formemos pessoas de televisão. Por isso as escolas de cinema são formadoras de profissionais de televisão."

"Mas a minha ideia também é a de que não se forma um artista. Um artista é uma pessoa que de alguma maneira não está satisfeita com o estado das coisas. É alguém que está insatisfeito ao ponto de consagrar a sua vida a criar outra coisa. Isso para mim é a definição do "artista". É um chato, um inútil. Esta minha concepção do artista não tem nada a ver com a arte como mercado, a arte como lugar de reconhecimento. Não pode haver carreira nisso. Ora, os grandes cineastas são artistas. A raiva, o desespero, que está dentro desse "artista" e que o leva a criar, ele ou os tem ou não tem, ninguém lhe vai poder ensinar isso. E esse há-de safar-se, qualquer que seja a escola por onde passe. As escolas são boas na eventualidade de um óvni desses passar por lá. O resto, e eu estou a dar aulas neste momento, são turistas bem intencionados, que colocam palas. Na minha primeira aula disse aos alunos: "Até hoje ainda não saiu nenhum cineasta desta escola, vocês são 30 e tal, o que vão fazer mais tarde na vida, já que não vão fazer cinema?" E eles respondem que querem fazer cinema, mas eu digo que os que passaram por lá antes também o queriam... Estamos a labutar nesse mal- entendido."

Viver é um acto de resistência e a resistência ao cinema comercial e à televisão faz parte. Apesar de tudo, quem gosta de poesia não vai procurar um livro na secção de best-sellers. Mas no cinema, o cinéfilo, sim! O grande responsável pela baixa qualidade dos filmes são os cinéfilos. Eu tinha uma revista de cinema. Decidimos boicotar a revista quando os próprios colaboradores não iam às salas. Viam os filmes nos VHS’s da altura."
"Mesmo quando estás com quem amas, o tempo é contado, não há tempo para preguiças. A vida é curta de mais."


 
 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Cristo está vivo e tem 91 anos.

Sempre me pareceu estranho que as estimativas sobre o ano de nascimento de Cristo fossem entre 4 e 6... Antes de Cristo. Parecia-me uma contradicão - e é! Se nos enganámos e falhámos as contas, pondo o ano "Zero" atrasado... quatro anos ou mais, não devíamos corrigir a contabilidade? Estarmos agora no ano 2016 "Depois de Cristo" é... um engano! Sería mais correcto 2020 ou 2021 ou 2022. Enfim... dilemas e mais dilemas.

Hoje vi na minha consulta um homem de 91 que dá pelo nome de Cristo. Pensei perguntar-lhe pela questão supra. Não me pareceu qualificado para responder. Nem preocupado. Cristo sobreviveu a um pequeno Acidente Vascular Cerebral. Vive sózinho e assim prefere. Não é homem para buscar companhia ou discípulos, com ou sem redes de pesca. Descreveu-me as suas rotinas, quando sai de casa, vai ao café, ao quintal, os trabalhos que faz. Tem uma doença respiratória crónica com uma gravidade moderada, não sei se causada pelos ventos do deserto, se de alguns anos a fumar cigarros. Cristo vive com medo da sua falta de ar. Auscultei-o. Gostaria que o meu pai, dois anos mais novo, tivesse a sua  auscultação. Mas Cristo tem mais dois anos e tem medo. Da noite, do entupimento dos brônquios, da garganta, do nariz. Gostaria de um internamento rápido para fazer aqueles vapores tão mais eficazes que há no hospital. Ou pelo menos vir fazê-los ao hospital cada quinze dias, para limpar as vias, o nariz. Cristo explicou-me com os dedos graficamente como faz para limpar os carranhos - ranhos do ca...? - os braços agitavam-se, Cristo sentava-se e levantava-se, "sem quaisquer sinais de insuficiência respiratória", e cito registos alheios. Cristo gesticula e afasta os fantasmas da noite e da asfixia. Ele não sabe que eles não estarão afinal assim tão perto, ao contrário do fantasma da longevidade, crédito que sempre se acaba por pagar. Cristo, primeiro nome Manuel, sabe que "quem não chora não mama", ele não chora mas faz o seu barulho, o seu protesto, que para ele é como uma obrigação. Dois anos mais novo, o meu pai, Manuel também de seu primeiro nome, vive em expiracão prolongada e, aparentemente, sem medo. E isto preocupa-me.

Se este Cristo que eu auscultei fosse Aquele que decidiu a nossa contabilidade de - enganados - 2016 anos, em 91 anos teríamos então compactados dois milénios e uns trocos e o Império Romano teria sido ontem. Há dois mil anos a Síria tinha sido conquistada, poucas décadas antes, por Pompeu. Lembrei-me disso ao visionar as filmagens do cerco e bombardeamento de Aleppo pela coligação Putin-Assad. Sim, passou muito pouco tempo, na realidade.  . 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Petição a Favor da Inundação Definitiva de Santa-Clara-a-Velha.

Em Francos é muito rápido o tempo porta-agulha.

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Um protocolo só é bom quando quebrável.

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Nos grandes vasos costumo por grandes flores.

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A intumescência é às vezes tão só edema.

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Cada vez menos suscita interesse a comunicacão oral.

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Sem os ladrões as cadeias não seriam possíveis.

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Podes comparar, eu deixo.

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Uma subanálise faz-se às escondidas.

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É muito contraditório o contraditório do contraditório!

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Olha o ácido úrico!

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Mil vezes se diz que tudo o que parece está!

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O bom humor é uma variável dependente.

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Tudo devia eu interpretar com cautela.

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Aplausos para a tua negativa.

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A razão dos dias valorosos não tem sido elevada.

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Anel a percutir o rebordo de metal da cadeira.

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Regressar, regredir.

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Ser engraçado não dá pontos.

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A idade, esse grande preditor.

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Já não é tarde.

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Flutuação expontânea?

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O ganho de um nível pode ser um piscar de olhos.

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As palavras longas permitem erros mais lentos.

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Esta é uma boa fase?

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Os teus números não são os meus números.

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É pequeno o professor, mas o que ele sabe!

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Uma estratégia dinâmica seria abraçar-te.

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Eles tinham um gesto comercial.

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Antes nunca sabemos.

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No futuro não vai haver Medicina.

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Ainda ontem repensava.





sábado, 6 de fevereiro de 2016

Hulot, Tati e a vida real.

Jacques Tati não é Hulot. Ele afirmou-o várias vezes. O perfeccionismo confesso de Tati não é traduzido na dispersão bem intencionada de Hulot. Jacques Tati pertence à dezena de cineastas franceses indispensávdeis à história do cinema. Falemos então de Hulot.

A história do cinema tem três grandes mimos: Charlot, Buster Keaton e Tati. A filmografia do personagem Mr. Hulot é composta por quatro filmes quatro: "Les Vacances de Mr. Hulot", "Mon Oncle", "Playtime" e "Trafic". Hulot tem uma mensagem para o mundo: que o mundo não se tome a sério. O mundo, subentende-se, dos adultos. Ao qual Hulot não pertence. Nos filmes de Tati há sempre crianças e cães a contrastar com a mundo dos adultos, crianças e cães. "Mon Oncle" termina com uma criancice. "Les Vacances" termina com a maior criancice de todas, um fogo de artifício fora de controlo, e a manhã seguinte, onde Hulot só tem direito à despedida da americana e do marido atrasado. "Playtime"  termina com um último gesto romântico, ou não seja o romance, sempre, uma criancice. Já "Trafic" não, o último plano é uma geometria de carros e guarda-chuvas com gente por baixo, Tati a elevar o discurso final do seu último filme para nos lembrar "Playtime".

Crianças e cães: seria tudo tão mais simples se fôssemos como eles. Esta é a opinião de Hulot. Mas Hulot glorifica também a França velha, o francês velho, que ainda não evoluiu, não comprou, não se vendeu ao "admirável mundo novo" do pós-guerra. O francês que discute, se abraça, faz barulho, engana, ajuda, dança, gesticula, queixa-se, vai fazendo ou nem por isso. Um francês que Hulot mostra ser uma criança grande, em vias de extinção. Hulot pretende lutar contra a extinção desse francês antigo. Em "Trafic" ainda inventa a sua existência através do desenho de um carro-camping "bestial". Mas neste filme, francês antigo... já só Hulot.



Tati filmou um último "filme", que nunca teve projecção nas salas. Dá pelo nome de "Parade" e é a filmagem dum espectáculo mais ou menos ao vivo de circo e music hall numa sala de espectáculos em Estocolmo. Assim como Hulot em "Trafic" já ensaiara uma emigracão para a Holanda, país com costumes algo mais liberais que a França, desta vez Tati emigra para a Suécia. Emigra mas não vence: os homens só podem voltar a ser crianças num ambiente fechado e especial, o ambiente de um circo. "Parade" onde, com ao mesmo tempo nostalgia mas também com uma qualidade notável, Tati, com 67 anos, faz várias rábulas sensacionais.



"Parade" termina com duas crianças a brincar no set desfeito do espectáculo enquanto os pais, parados, apenas observam.