quinta-feira, 16 de junho de 2016
Aracne - António Franco Alexandre.
Já estou a ficar velho, ainda que tenha
esta figura fixa sem idade,
e me mantenha em forma o aparelho
a que todos aqui somos sujeitos:
a correria cega, a suspensão elástica,
o salto em trave e trampolim de folhas,
e outras altas artes de ginástica.
Mas eu bem sei sentir além da aparência,
e já me aconteceu, ao visitar o canto
onde o mundo se acaba em chão de areia,
ali ver o meu fim anunciado.
Quando em tranquilo pouso assim medito,
peso, e calculo tudo aquilo
que não fiz, e não tive, e não alcanço
com o rosto extravagante que me deram,
já tudo bem pensado considero
se não devo encontrar algum consolo
na ciência que conduz o feiticeiro,
e acreditar também, como me diz,
que é, esta vida, emaranhada teia
de mal fiado, mal dobado fio,
e a morte tão somente um singular casulo
de onde sairei transfigurado.
Mas não sei de que valha imaginar
um outro ser incólume e perfeito
que da minha substância seja feito
e tome, noutro mundo, o meu lugar;
se me não lembra, como serei eu?
Se for quem sou, ainda que mude a capa,
há-de voltar aqui, onde hoje estou,
viver o mesmo instante, e ver
escapar-lhe das mãos o que me escapa;
veloz embora, e exímio no salto,
o que hoje perco, há-de então perdê-lo,
e faltar-lhe outra vez o que me falta.
António Franco Alexandre, in Aracne - 2004, Assírio & Alvim.
(um dos cinco livros de poesia mais importantes editados este século em Portugal, talvez).
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Tati No jardim, de Joana Providência, Serralves Em Festa, 05/06/2016
terça-feira, 7 de junho de 2016
Giorgio Griffa, em Serralves.
Nascido em Turim em 1936, onde ainda vive, Giorgio Griffa leva cinquenta anos de prática de uma pintura que se interroga sobre os sinais, as linhas e as cores que foram a base do trabalho do pintor.
Em tantas coisas "menos é mais". Assim a pintura de Giorgio Griffa. "Pobre" antes de o colocarem no movimento "Arte Povera", minimalista et pour cause mas não "simplista" nem "primitivo", a sua pintura tem um apelo imediato e natural - Serralves vendeu-me um saquinho por sete euros com uma reprodução duma obra sua, dentro "daquele espírito" de Serralves Em Festa.
A visitar, portanto!
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Fernando Lanhas e o Castro de San Paio.
É uma praia bem bonita e foi-me recomendada por um amigo. Fui para lá caminhar ao fim da tarde.
A freguesia é Labruge e para chegar à praia, chamada de Mosteiró, há que sair para Lavra e depois seguir para noroeste, atravessando a mistura de aldeia agrícola e subúrbio que é hoje Labruge.
A praia é extensa e ganhou a optimização habitual com uma zona pedonal, passadiço e um bar-restaurante. Que fica para sul e - na minha opinião - demasiado perto dos escassos restos de um castro que toma o nome da Capela de São Paio que logo ali também está. O passeio termina - ou não - no Alto do Facho. E aqui entra Fernando Lanhas.
Foi um dos descobridores do castro. Fernando Lanhas antes de pintor era arquitecto. Acho engraçado que lhe chamem precursor da arte abstracta em Portugal, quando os quadros que eu dele mais conheço foram pintados 40 anos depois de Kandinsky. Em Serralves pude também ver uma interessantíssima série sua de seixos pintados. Fernando Lanhas acreditava que umas depressões achadas em rochedos perto do castro os definiam como 'pedras amoladoras', para afiar pontas de madeira, usadas talvez para pescar.
O lugar é idílico. E reencontrei Fernando Lanhas. Meia aldeia é este mundo. Henrique, obrigado.
E Mário Centeno?
O que tem feito Mário Centeno? Vê-se muito menos que Maria Luís Albuquerque. Surge para se zangar com Carlos Costa, o seu ex-empregador no BdP. Os bancos têm sido o NOSSO (e dele) pior pesadelo. E pouco mais. Pede paciência. Os cortes, a poupança, não os decide ele mas o governo todo, e cada ministro assume-os: Saúde, Educação, etc. A folga orçamental não existe. Quem ler o seu ensaio 'O Trabalho, Uma Visão de Mercado' para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, apercebe-se que ele não é um perigoso esquerdista. Flexibilizar o despedimento mas penalizando quem mais despede, para que diminuam os contratos a prazo. Facilitar a negociação laboral fugindo à 'ditadura sindical'. Alterar o subsídio de desemprego e as indemnizações por despedimento (diminuir e aumentar, respectivamente) para estimular a reentrada no mundo de trabalho. Não, Centeno não é um perigoso esquerdista. Mas sabe que a política está primeiro: por isso aceitou sem mais o aumento do salário mínimo. E também sabe que - EXCEPTO NA ÁREA DA SAÚDE - a questão das 35 horas é secundária. Chegará algum dia Mário Centeno a poder pousar a máquina calculadora? Se calhar só mudando de ministério.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
União das freguesias de Ermelo e Pardelhas.
No princípio era apenas uma hipótese
remota.
Passaram os anos certos para
que hoje seja todos os dias.
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Pacotes de sementes: comprar.
Mas eu começaria pelo terreno.
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Se fores sempre pelo viaduto não verás
aqueles que se abrigam da chuva.
A pobreza obriga a um peso seco.
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Eu conheço a história do Titanic, claro:
podia ficar aqui a noite toda a
falar de nós. Mas quantos mais naufrágios
Estes anos todos?
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Procuro emprego. Uma barragem, um
muro alto que nos segure.
A vida é feita de deslizamentos.
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E sou um agente secreto.
Mesmo para ti. O que, ao
fim destes anos ao teu serviço,
não deixa de ser estranho.
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Eu ampliaria o plano nacio-
nal de vacinação. E investi-
garia como fazem as sarda-
niscas, que ao perder o rabo
fazem andar para trás o
tempo.
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E almoçámos todos separados
E só assim se conseguiu
sobreviver até à fotografia
de grupo.
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Enervam-me as variações
climáticas dos últimos dias,
o não serem suficientes para.
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Uma fenda na muralha?
Lisboa conquistada, ninguém mais
a viu.
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A neve, a neve, e a neve. E como na vida:
primeiro bastante, logo muito mais,
e, depois, para o fim,
a surpresa de (a neve) ainda me apa-
recer ao caminho.
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Do True Finns have a heart?
Da sensatez de tudo isto.
'Bebes mais alguma coisa? É sensato separar as nossas forças?'
Vítor Nogueira