domingo, 23 de outubro de 2016

De Águas Santas para Matosinhos - primeira parte.

O Porto é uma cidade pequena, sejamos sinceros. A sua população há 30 anos que diminui. É de um quarto de milhão de habitantes. Na vizinha Espanha, com mais habitantes há uma dezena de cidades ou mais. O Porto necessita da rede suburbana que o rodeia para recobrar fôlego, fazer peito. E são poucos os portuenses verdadeiros, afinal. Até porque, retirados para o subúrbio serão apenas uma minoria. A maior parte dos suburbanitas vieram do resto do Norte do país, atraídos pelo ensino, pelo emprego. A rede suburbana que abraça a cidade do Porto tem capítulos, subdivisões, linhas que antes eram bem claras mas hoje são apenas detalhes, solavancos num todo contínuo de casario e gente, gente com um querer especial, bem mais firme do que os nossos citadinos, amolecidos por esta história do Património Mundial, o Turismo e tal e coisa... 

Vejamos por exemplo a EN 208. Descendo da Santa Rita - onde uma doente minha uma certa vez com cravos pretendeu curar-me umas verrugas - chega à ponte sobre o comboio da Palmilheira e - puff! - saímos de Ermesinde e entramos em Águas Santas. Não só a Maia nos obriga a sorrir mas transforma logo possessivamente a EN na Avenida do Lidador. Confesso-te, Nelson, que, porque atrasado, nem me lembrei que já ali vivi. Quem puxaria para ali uma Rua Camilo Castelo Branco... Mas este mundo dá essas voltas todas, e finalmente tenho-me dedicado a ler o meu Camilo, so... A Avenida do Lidador dirige-se ao Alto da Maia. Que seja um alto é bem prático. Várias vezes, por mau feitio do meu carro de então, caminhei a pé até ao meu emprego, o mesmo de hoje. Se fosse a subir teria sido impossível. Corim, Forno, Giesta, Triana, Areosa. Os arredores do Porto mudam de nome cada duzentos metros. A minha filha conheceu muito bem "os" Modelo que ficava(m) ali em frente.  E havia uma Pizzaria na esquina. A dono era simpático. Sempre achei que a pizzaria era um negócio de fachada e que na realidade ele era um traficante de droga. Uma ou duas zaragatas nocturnas inespecíficas só fizeram acumular as minhas suspeitas. A zona de que falo é a Granja - outro nome. Entretanto forneceram-lhe algum verde. A urbanização de que falo e onde vivi era conhecida pela "dos Sonhos". Curioso nome. O meu Citroen AX - carro mítico - morreu ali atrás, mais de 280000 km de vida, a Câmara da Maia recolheu-o para abate. Na realidade o conta-quilómetros dele parara durante uns meses, a cause d'un petit accident... posso bem especificar que foi em 96; portanto quilometragem completa desconhecida. Mas, rodando, com pressa ía, Nelson, atrasado mais uma vez para tomar contigo um café. 

No Alto da Maia poderia rodar à direita e, seguindo pela Rua Dom Afonso Henriques, estaria a rodear por fora a mole imensa que é Ermesinde, passando pela Gandra e seguindo até Ardegães. Águas Santas, Ermesinde (com Alfena) e Rio Tinto (com Baguim): uma cúspide que encabeça o Porto e que lhe fornece mais cento e trinta mil almas - não era assim que se dizia antigamente? Na Gandra viveu um bom amigo meu, em cuja casa dormi algumas vezes. O prato especial daquela casa era almôndegas. Acho que ainda hoje esse meu amigo não sabe o quanto gostei de com ele privar nesses antigos e selvagens anos. Vi com ele o Sakamoto no Coliseu em 96. Foi uma boa forma de dele me despedir. Mas no Alto da Maia o melhor é seguirmos em frente, pela Rua do Mosteiro, e começarmos a descer. Sem saber - as casas cobriram tudo - estamos a descer para o Rio Leça. Ao fim de algum tempo uma elipse permite-nos derivar para a direita. Há ali um Centro de Saúde - onde a minha filha levou a primeira vacina portuguesa. O nome do Centro de Saúde é dum autarca que então ainda vivia, quando da atribuição do patronímico - odiosa prática. Cinquenta metros e eis-nos no Parque de Moutidos. Mas esta não é sobre estes cafés que às vezes tomamos.

A Rua do Mosteiro é o começo de uma estrada que nos vai conduzir até Matosinhos. E que durante uns meses me levou, com uma menina atrás levada, até um infantário na Rua Brito Capelo. Porque, a viver em Áuas Santas, Matosinhos seria a próxima paragem, ainda não se tinha decidido onde com precisão. O primeiro infantário foi uma casa de alegria. Descobriu-se depois que a educadora não o era. A Cata nunca se queixou disso. Morava em Pedrouços - que também fica aqui perto. Anos e anos e anos e anos a transportá-la: à criança menina. E a mil e uma partes. Ainda é assim. Mas estará a coisa por pouco, resvés Campo de Ourique. Há várias explicações para esta engraçada expressão. A mais gira tem a ver com o maremoto que compôs o terramoto de 1755. O trajecto que mais lembrarei é este: Águas Santas-Matosinhos. Que vou recriar. Nelson, não adormeças. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

De Águas Santas para Matosinhos - parte três.

Pela Rua de S.Gens entramos na Senhora da Hora. Rua de bairros térreos, bairros operários. A Senhora da Hora forneceu o grosso da história escolar da minha filha. Que não acabou bem - um dia falaremos da jericada que é a criação dos Agrupamentos Escolares. Mas foi feliz na Escola dos Quatro Caminhos, deslocada para  a Escola do Sobreiro, cinquenta metros acima. Por ali perto nasce a Rua do Senhor, onde nasceu e hoje, milionário e moribundo, subsiste um mau infantário que já foi bom. Um infantário nunca devia poder passar de mãe para filha. Nas fases mais recentes o lanche era meia pêra e para condicionar as crianças a não desperdiçar comida eram projectadas na parede imagens de meninos africanos com barrigas-de-água. Não, os pais nunca sabem por completo o que na(s) escola(s) acontece. A não ser quando acontece o maltrato psicológico violento em que a Escola Amarela - bem aplicado nome - se especializou. Por ali - Senhora da Hora - viveu um primo meu por afinidade. Vivia maritalmente com uma criatura que o maltratava e o procurava nos cafés: "Viram o meu homem?". Sempre me pareceu exagerada a crítica a esta bruta expressão: não somos nós animais de posse sem mais? Também na Senhora da Hora fica o meu Centro de Saúde. Ou ficava, já não sei bem. Na esquina da Rua da Estação Velha com a Avenida Fabril do Norte - e o Metro - fica uma apertada e muito boa sala de estudo. Ajudaram-nos a perceber tudo e no momento certo.

Junto à Escola dos Quatro Caminhos há bons sítios para estacionar. Mas estacionar pode ser também perder o lugar se não prestarmos atenção.

De um infantário falei mal e com razão. Et, pourtant, danser...

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Berlim dia quatro.

No dia 4 fomos de metro até Potsdamer Platz e depois caminhámos até uma zona de museus e edifícios públicos. Caminhamos junto ao Landwehrkanal - o canal para onde atiraram o corpo de Rosa Luxemburgo em 19 - e depois passamos ao lado da Neue Nationalgalerie de Mies van der Rohe até encontrar a Gemäldegalerie. É um edifício novo, não espectacular, onde está uma extensa colecção de pintura antiga, com grande destaque para alemães e italianos. Extensa e com extrema qualidade. Ali almoçamos. A tarde foi para, lentamente, disfrutarmos do Tiergarten, um enorme parque, aqui e ali um bosque,  que marca o centro de Berlim. No centro do parque fica a Siegenssäule ou Coluna da Vitória. A coluna é encimada pelo anjo dourado que é personagem principal nos filmes deWim Wenders sobre Berlim. O anjo dourado é, atenção, um anjo guerreiro, pois celebra a tríade de vitórias que no século XIX criaram a Alemanha Prussiana, as vitórias sobre a Dinamarca, o Império Austro-Húngaro e sobre a França. 
NoTiergarten lanchamos numa casa de chá bastante simpática. Voltamos depois para a Alexanderplatz. Entramos e caminhamos um pouco pela Karl Markx Allée mas o tempo já escasseava, só conseguimos cheirar alguma da construção típica do  Leste, a maior parte reconstruída, um ou dosi blocos abandonados. Jantamos na esplanada dum NordSee (um fastfood de peixe que também havia em Viena).

Elogio e Morte da Revolução - uma explicação para todos.


"A HISTÓRIA INVENTADA DE UM AMOR PARA QUANDO COMEÇARMOS A NÃO QUERER SABER DOS DEUSES MAS DE COMO É QUE NASCEU HÉRCULES OU GERMINAL


O homem cortou a língua, cortou a língua com uma gilette. Há quase sessenta anos, cortou a língua ao voltar de Espanha. Na fronteira do Caia, é o que eu imagino, ao ver os pides a avançarem para ele, desconfiou, receou, mais vale cortar a língua, cortar a língua com uma gilette e não falar.
É o que eu imagino. O que me contaram foi só isso: o homem cortou a língua, era rapaz, vinte e poucos anos. Tinha ido para Espanha combater, operário, partira do Barreiro de manhã um dia, partira e andara por Espanha. E a História começou a ceder, as traições, sim, os traidores a traírem, as traições a somarem-se, a pouco e pouco já não havia ninguém ao seu lado, já nem sabia da rapariga do norte com quem andara uns meses, Pilar, operária de Santander, rapariga morena que bebia tanto, operária com quem andou e um dia não soube mais dela, era manhã, a derrota já vinha nos jornais. Foi nessa altura que decidiu voltar a pé, e os pides chegaram-se a ele na fronteira do Caia, é o que eu imagino, e o homem cortou a língua com a gilette romba que trazia no saco. 
 
Esse homem vivia no Barreiro ou no Montijo, operário. Operário sem língua, aos pontapés de uns desempregos e outras cadeias, uns folhetos na sacola, à noite umas reuniões, cada vez menos, não era comunista. Já quase não saíam os jornais de que gostava, de vez em quando alguém mencionava os homens que conhecera, por causa de um cancro, estavam doentes, uma trombose, ou lia no "República" os obituários. Lá iam morrendo o Pinto Quartín, o Alexandre Vieira, homens valentes que conhecera, com quem à noite às vezes reunira, sem falar, sem língua, a ouvir e a escrever uns papelinhos. Ao Emídio Santana ainda de vez em quando o via. E abraçavam-se, é o que eu imagino. Não que concordassem sempre, o homem sem língua era teimoso, queria tudo preto no branco. Mas uma vez o Emídio (se calhar foi outro...) levara-o ao Coliseu, era o Fidelio, e quando chegou o coro dos prisioneiros, aqueles homens a saírem das masmorras em farrapos, à luz azul dos projectores, e a voz desses homens a subir, a ouvir-se cada vez mais, a cantarem a luz do dia, a liberdade, os dois homens, velhos casmurros (não, não era o Emídio, era um mais velho, sapateiro da Praça da Alegria que tinha um sobrinho a que chamaram Vitor Hugo...), deram a mão e  o homem sem língua chorou.
 
Deram-lhe um disco, daqueles 45 rt, com coros de ópera, o Verdi de um lado e o Beethoven do outro. E o velho operário, cada vez mais velho, que vivia agora com a Ermelinda, viúva da Vidigueira que à noite lhe lia em voz alta o Zola, aquelas histórias da greve, da greve na mina, o homem sem língua e a Ermelinda ouviam de vez em quando em recolhimento (às vezes davam a mão) o coro dos prisioneiros daquela ópera, a única que vira. Ele vira, ela não, ficara em casa, que os bilhetes ainda assim eram caros.

Um dia, chegou uma carta. Nunca soube como lhe descobriram a morada, rua Cupertino de Miranda no Montijo. Mas já foi depois do 25 de Abril, uma carta de Santander, poucas palavras em espanhol, era da Pilar, a brigadista com quem ele andara uns meses há mais de trinta anos. Uma cirrose, agonizava num hospital, descobrira-o, nem ela nem ninguém lhe disse como. A Pilar. A Ermelinda leu a carta e chorou com ele. É que a Pilar contava que tinham tido um filho, que depois da derrota nascera um rapaz, rapaz que era um homem e já tinha três meninas, rapaz a que ela dera o nome de Germinal e a quem em Bilbao, no porto de Bilbao em que trabalhava, nesse porto, todos chamavam El Portugues.

E o operário e a Ermelinda arranjaram uns dinheiros e ele meteu-se num comboio para Bilbao. A Pilar morrera umas semanas antes, mas o Germinal, o estivador a quem no porto todos chamavam El Portugues, o Germinal estava na estação à espera dele. Tinham combinado: os dois teriam um lenço preto ao pescoço. E o Germinal tinha levado um cravo.

E o homem sem língua ouviu o filho falar-lhe da vida. Viera buscá-lo mas tinha pouco tempo nessa noite. Foram a pé para casa, não era longe. E o homem sem língua olhava o filho da Pilar: pequenito mas forte, moreno, os olhos vivos, o cabelo já a cair. Sabia umas palavras em português, cantou mesmo: "O povo é quem mais ordena", e o velho riu, encolhendo os ombros, numa careta de quem desconfia, há muitos anos desconfia. Mas não tinham muito tempo: o rapaz estava metido na greve dos trabalhadores do porto e estava de piquete nessa madrugada. Nem era ainda meia noite, noite ventosa de Bilbao, e o homem sem língua foi levar o filho, Germinal, El Portugues, até ao portão dos estaleiros. Ainda beberam uma cerveja - três... - num bar do outro lado da rua.

O filho apresentou-o aos outros homens. Há quase quatro semanas que estavam em greve, não iriam ceder. E falaram dos mineiros, os mineiros em Inglaterra que ainda haviam de dar cabo daquela Tatcher. Aí pelas duas da manhã, um dos grevistas, rapaz novo, nervoso, belo moço, acompanhou-o até à casa do filho. O velho estava a ficar cansado, a viagem de comboio e tudo. E à despedida o rapaz disse-lhe: "Tu hijo, hombre, tu hijo... no sé cómo decirtelo... Es como si fuéramos hermanos!"




Jorge Silva Melo, Prometeu-Rascunhos, ed. &etc. 1997.




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Agora mesmo a vida lá fora.

Trabalhei de noite. Não muito, confesso. O suficiente porém para necessitar reparação adicional em casa. Saí à rua agora mesmo para fazer umas poucas compras, buracos na rede de cuidados que é ter umas coisas em casa para a sobrevida. Na rua havia música e as pessoas estranhamente falavam umas com as outras. Numa esplanada uma jovem rapariga baloiçava-se repetindo talvez uma situação havida para as amigas e desfazia-se numa gargalhada forte, grave, que assustava. Guardanapos, café, shampô; iogurtes, leite, pasta dentífrica. Demorei-me a estudar os snacks que agora fazem com fruta, "100% nacional", a empresa chama-se "Frutea" e a sede é aqui na Invicta. Sim, quero um saco, dou o contribuinte e pago em dinheiro. O shampô tinha ficado atrasado no tapete e fora englobado pelos pães do próximo cliente: "é o shampô, também...". O pão, pelo que ouvi era o único e mais nenhum servia. Quatro da tarde. "Amanhecer"...
Volto a subir no elevador e duas funcionárias de uma empresa - de limpeza? cuidadoras? - comigo sobem para o quatro; "e depois no caso de morte, ficam-lhe com tudo, casa, tudo!". "Boa tarde!" - desejámo-nos mutuamente, para no caso de morte não nos voltarmos a ver e ficarem-nos com tudo.

Na realidade as pessoas dividem-se em dois grupos, as que fazem noites e... 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Mas é um edifício bonito e com vista para um rio - achegas para um programa de televisão.

Vi ontem 5 minutos de um Prós e Contras. O tema era o Cancro da Mama e se havia igualdade de cuidados para todas as doentes em Portugal. Cinco minutos chegaram.
 
O programa Prós e Contras no geral é um mau programa. Já vi outros... Os temas são mal apresentados, avaliados, discutidos. Mas não é sempre assim na televisão? Acresce que a apresentadora, Fátima Campos Ferreira, costuma ser PARCIAL. Como ontem me pareceu que estava a ser. A RTP devia fazer melhor. e no entanto creio que acha que este é um dos seus melhores programas!
 
Os cuidados aplicados ao Cancro da Mama são possivelmente desiguais no interior vs no litoral. Isto aplica-se porém não só ao Cancro da Mama mas também a uma plétora de patologias, incluindo muito possivelmente aquela a que eu hoje me dedico, o Acidente Vascular Cerebral. Este sim que seria um debate interessante e transversal e que afecta 15-20% da população portuguesa. E que reflecte como um País se projecta no futuro como um Todo.
 
Muito se falou de equipas pluridisciplinares. Que eu saiba, há mais de vinte anos que o grosso das doentes com Cancro da Mama são orientadas e tratadas por equipas pluridisciplinares. Ponto final, parágrafo. As excepções possivelmente reportam-se ao interior, mais uma vez - mas também sei que os Hospitais mais pequenos (do litoral ou do interior) que fazem Oncologia suprem este défice de quórum fazendo deslocar médicos seus às Unidades mais diferenciadas periodicamente para discutir os doentes. Desconheço se hoje existe telemedicina nisto envolvida. Assisti à presença de médicos exteriores ao IPO do Porto a apresentar doentes em Consulta de Grupo no IPO do Porto em 95. As linhas de tratamento, as chamadas guidelines, não são decididas nessas consultas pluridisciplinares, antes internacionalmente e são acessíveis na Internet. A sua aplicação implica porém saberes vários e é aqui que as várias cabeças se podem complementar e completar. Para além de que rever um doente pode sempre ser melhor do que apenas ver.
 
As acreditações são muito importantes mas não são tudo. A minha acreditação, a minha, é uma licenciatura, uma especialidade, uma graduação, e vinte e oito anos de prática clínica, dos quais quinze na área cerebrovascular. É velha como a Medicina a desigualdade de cuidados. Eu, médico, não sou igual a ele, médico - no que diz respeito a método, capacidades, qualidades. Repito que o pluridisciplinar, a funcionar há décadas, tenta também obviar a isto. Outra coisa é os meios à disposição. E aqui também o diálogo é sobretudo uma vez mais interior vs litoral.
 
Conheço bem duas Unidades de Mama, a do Hospital onde trabalho (o CHSJ) e a do IPO do Porto. Tenho absoluta confiança nas duas e nas duas já tive pessoas amigas e familiares sob tratamento. E muito bem. É de uma gravidade extrema num programa de uma televisão pública criar alarmismo social sobre especificamente o quanto bem se trata pelo país fora uma patologia específica. Os fins - que eu não quero perceber quais foram - não justificaram os meios. E o Cancro da Mama não é a Hepatite C.
 
Esclareço que conheço bem a Prof. Maria João Cardoso (mencionada no programa pelo que me foi dito) - minha colega de curso e uma óptima profissional, e cujo pai me deu aulas. E que julgo considerar-me amigo da Dra. Fátima Cardoso, também uma profissional excelente, que foi minha interna geral de primeiro ano, ou seja, começou a fazer clínica hospitalar comigo.
 
A discussão foi Champalimaud vs IPO Coimbra. Tenho gente amiga a fazer Oncologia em Trás-os-Montes. o  Dr. Miguel Barbosa, por ex. Gostaria de ter ouvido a opinião dele. Essa sim teria sido uma mais-valia fundamental. Não me pareceu que o Dr. Vitor Veloso fosse o defensor mais indicado para os trasmontanos.

Este programa não devia ter acontecido no Auditório da Fundação Champalimaud. MESMO. Porque não Guarda, Bragança... Beja?

domingo, 16 de outubro de 2016

Porque gostamos de Miró e outras coisas.

A exposição de Miró na Casa de Serralves está a ser um sucesso. São dezasseis euros, dezasseis, pois a entrada oferece/obriga também a visita ao Parque de Serralves. Há descontos para bastante gente - a malta do BPI, eu... - mas mesmo assim pelo que me apercebi a maior parte da malta que vai é pagante, e uma percentagem alta paga em euros não portugueses, moeda mais valiosa como sabemos. 

E Miró? Surrealistas espanhóis - catalães, para sermos mais precisos - foram dois, Dali e Miró. Dali criou um personagem e uma linguagem pictórica muitos elaborados, Miró aparentemente todo o contrário. Mas estes dois pintores conseguiram uma adesão do público menos entendido que não conseguiram por exemplo surrealistas franceses como Ernst ou Masson. Talvez porque não se ativeram tanto ao cânone e dedicaram-se mais a construir uma narrativa pessoal.

A pintura de Miró é a procura de uma nova simplicidade. E nunca é triste. Querem obrigar-nos a sermos tristes. Miró, que na vida real era uma pessoa discreta, não concorda. Talvez por isso a intelligentsia o tenha abandonado um pouco. Mas atenção, é tudo menos um pintor "decorativo".

PS.: numa terça à tarde - e porque o espaço dentro da Casa de Serralves é limitado - mesmo assim havia... pessoas a mais.