domingo, 30 de agosto de 2015

Havemos de ir a Viana.

"Ciganos verdes ciganos
Deixai-me com esta crença
Os pecados têm vinte anos
Os remorsos têm oitenta"

Pedro Homem de Mello foi outro dos grandes poetas que Amália Rodrigues cantou. "Havemos de ir a Viana" é um dos fados mais conhecidos. Mas talvez quem ouça o fado-canção não repare bem na paixão, no repente que o poema tem. Pedro Homem de Mello nasceu e morreu no Porto mas foi um minhoto pelo coração, vivendo em Afife. "Havemos de ir a Viana" é um fado rápido e que não deixa respirar o ouvido, entregando Amália a mensagem em cascata e poder de voz sem parar até que acaba - e fica a pairar. Só no fim pensamos. Porque antes - ao cantar uma paixão - não era o momento.

"Partamos de flor ao peito
Que o amor é como o vento
Quem pára perde-lhe o jeito
E morre a todo o momento"


sábado, 29 de agosto de 2015

Pequenas e grandes crises.

Estive na Grécia seis dias. Em Atenas, mais precisamente. Não me apercebi de nenhuma crise. 

Sempre tive muita curiosidade em visitar a Síria - Damasco, Aleppo - mas é impossível. Na guerra “civil” Síria – se-lo-á? – já morreram mais de 200000 pessoas, 1% da população total do país. 15% da população síria já não está na Síria: fugiu.  

Gostaria também de visitar a costa africana do Mar Vermelho na parte sul, mas a Eritreia parece-me um país a evitar. 

Dito isto, gostaria de dar os meus parabéns à Grécia. Receberam-me bem. Têm uma capital que é muito bonita, acolhedora, singular, enorme em história e em dimensão simbólica. Não me apercebi de nenhuma “depressão colectiva”, como, por ex., há em Portugal. Em nenhum momento tive medo. Ninguém me pediu nenhuma opinião sobre a crise. Também não me esforcei por dar “conselhos” a ninguém. Senti-me entre iguais.  
Havia um número razoável de lojas fechadas – como em Portugal há. O PIB per capita grego está neste momento nivelado pelo nosso - o PIB per capita eritreu é 40 vezes inferior. Acresce que os gregos têm um orgulho natural em serem o que são. Sobra-lhes história e sofrimento em partes iguais. São, repito, únicos. O patriotismo, palavra bonita que nada tem a ver com a palavra “nacionalismo”, não “renasceu” no Euro 2004, que eles, discretamente, nos ganharam. Já lá estava. Os gregos, resumindo e concluindo, parecem-me um povo fixe. Que estará a viver uma crise de dívida pública fenomenal, provocada por várias razões mas que, com tempo, se irá resolver. Estes anos transformaram a sua classe política de uma das mais corruptas e atrasadas da Europa numa classe política nova, interessante. E interessada como poucas na Europa em diminuir as desigualdades e as impunidades em que o país é fértil, como o nosso mas sem a classe política. O desemprego enorme, do qual eu pouco me terei apercebido obviamente porque saí pouco do circuito turístico, a sazonalidade ajudou, etc., está, aqui como em Portugal, a aguentar-se com a emigração e a solidariedade familiar, também aqui muito forte. Nota-se que alguns carros precisariam de uma demão de pintura, algumas paredes uma limpeza dos grafittis, como em Portugal. Bah, sim, é uma pequena crise. Grandes, grande, são as outras! 

E, posto isto, e faltando-me falar apenas do dia seis das férias, excluindo esse post não irei falar mais da Grécia por uns tempos

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Roma dia 3.

O terceiro dia em Roma tinha que ser planeado de forma a contemplar uma viagem para Atenas a coincidir com a hora do jantar. Roma fica mais perto de Atenas do que do Porto. A viagem não duraria duas horas. 
Saímos - depois de pagar e nos guardarem as malas para fazer um loop que começava em direcção a... sul, acho, e depois apanharia todos os musts que faltava fazer. A primeira atracção visitada foi o Teatro Marcelo, um teatro romano com construção mais recente sobreposta, edifício pouco citado nos musts de Roma. Eis que Roma tem... monumentos a mais. Depois rodámos sentido Capitólio, subimos a escadaria Cordonata, desenhada por Michelangelo, admirámos a simetria da praça, sofremos o calor que já por essa hora "batia". Por ali nos despedimos doFórum Romano e começámos a cruzar para fazer "visto" na Fonte de Trevi - em obras, portanto, "invisível", a Praça de Espanha, o terço à sombra da escadaria completamente ocupada por povo sentado, a igreja no top em restauro, patrocínio Bulgari. Desisti de subirmos aos jardins de Pinzio. Fomos até á Piazza del Popolo - continuava o castigo do sol, e finalmente voltámos para trás pelo rio até Trastevere, onde descansámos.

Faltava uma hora para a hora de pedir um táxi, apreceu-nos pela frente a Sinagoga de Roma. Entrámos. A mesma só era visitável em conjunto com o Museu Judaico. Recebemos uns audio-guias que, ao fim de meia-hora ainda não dominávamos. Entrámos na Sinagoga. Outra religião é, efectivamente outra arquitectura. Das paredes ao Mundo. Pelo meio de um ambiente de visita... algo tenso, nem percebi bem porquê, conseguios entrever a realidade de um gueto que o papado promovia, um gueto não é um bairro estreitinho, é uma prisão com casas dentro. O gueto de Roma tinha antigamente cinco sinagogas para os diferentes ritos das diferentes comunidades. Como só havia autorização para construir de raíz uma, fizeram as cinco literalmente em cima umas das outras. As portas do gueto eram fechadas durante a noite. A pobreza no seu interior era a regra. Encostado ao rio, as inundações eram frequentes. Instituido em 1555, só foi abolido - e abertas as portas - em 1870, quando da Unificação Italiana.

Quando saímos da Sinagoga chovia. O calor tinha cedido um pouco. Roma não merece voltar a ser visitada no verão, nem pensar.  Isto aprendemos. 

O taxista que nos levou para Ciampino era falador. Devia ser um bom romano, porque passou metade da viagem a falar mal dos romanos. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Armando Silva Carvalho - "A Sombra do Mar"

Armando Silva Carvalho, d.n. 1938, é outro grande poeta português. Começou a publicar em 1965. Agora que a idade já pesa, a sua grande capacidade de escárnio e mal dizer - o primeiro livro chamava-se "Lírica Consumível" - desceu um degrau. Em 2008 escreveu um livro notável que dava pelo nome "O Amante Japonês". Os menos atentos não reparariam que o livro falava de um carro.

O mês passado saiu "A Sombra do Mar". O livro começa como o dia começa, cada poema para um momento: o acordar, o espelho, o banho, a toalha do mesmo, o pequeno almoço. Depois o poeta vai para a rua e os poemas encetam a deriva dos temas que o "lá fora" oferece. 

Este livro, aberto hoje, parece-me muito bom. Perderei essa impressão quando houver mais leitura?

O último poema:

"Mar e Luar



Banhados pelo luar, o mar e os rochedos transfiguram-se,
as naus e os corvos duplicam-se em fantasmas,
coroadas figuras de espessa imaginação
são matéria viva.

Mas quem não vê a água despeja para os fundos
a multidão dos dias, o grosso das viagens que o corpo imaginou em outros corpos, perdidas,
quase iniciáticas, com direito à fome e ao baraço
público.

A música dos séculos repercute nas rochas,
ligaduras de som agarram a cabeça às massas duras
do tempo, há translações de milénios
nestes estratos, ardidas cidadelas da memória
traduzidas nas grutas.

Quem aborda, incauto, esta paisagem deve precaver-se.
Vertigens na garganta, guelras de batráquio,
a alma enrodilhada no sal, bárbaro o coração,
o corpo essa estéril mania.


                                                                         
                                                                            Peniche, Março de 2015".

domingo, 23 de agosto de 2015

Atenas dia 3.




O terceiro dia em Atenas foi parco em emoções, que não em calor que continuou sendo muito. A Ágora de Atenas é o equivalente ao Fórum de Roma. Em paralelo à sua maior antiguidade e à maior devastação que Atenas sofreu no seu património, tem menos que ver. O calor também não deixou que nos alargássemos demasiado. Começámos logo pelo top: o Templo de Hefesto. Mais abaixo está a reconstrução da Estoa de Átalo, que era uma espécie de galeria comercial aberta, back in the day. Hoje é também um museu e asistiu à assinatura do tratado de entrada de dez países para a UE, lembram-se, em 2004. 11 anos depois, quem se lembra das boas intenções...
Almoçámos numa humidificada esplanada do bairro de Thiseio e depois saímos da rota turística à procura do Technopolis. O ser a entrada um euro certificou não estarmos em tourist country. E o que é o Technopolis? Tipo a Central Tejo de Atenas, a antiga fábriga do gás para a cidade, transformada em museu e centro de espectáculos. Como chamariz adicional uma simpática grua segura uma base onde podiam jantar pequenos grupos de até 22 pessoas: "Dinner in the Sky!" A grua pode subir o pessoal até 50 metros, dependendo de como estiver o tempo, janta-se com cinto de segurança e, sim, pode-se ir ao WC mas equivale a ser um desmancha-prazeres, pois para tal a plataforma desce...

Após o conveniente intervalo no hotel jantámos em Plaka ao som das cigarras. A cerveja foi Alpha!

Big Eyes - 2014.




“Big Eyes” é o último filme de Tim Burton. Mas é mesmo um filme de Tim Burton? É. Mas o argumento não é dele, nem entra Helena Bonham Carter. Ergo… O filme utiliza as cores puras dos anos 50 e 60, a geometria das casas de então, os “olhos grandes” dos quadros de Margaret Keane dominam até à exaustão. Margaret – uma Amy Adams excepcional – foge de um divórcio para um sonho/casamento que vira pesadelo. Burton não foge ao facto desta pintura ser… rasca e foleira, brincando via Schartzman e Terence Stamp com a crítica e a pintura bem-pensada, e também não foge ao facto de ter sido a boa companhia das Testemunhas de Jeová que deu a coragem a Margaret de abrir o livro e provar que sabia pintar… aquilo, enquanto o seu marido nem isso sabia fazer: as Testemunhas de Jeová não mentem? 
É um filme a contar muito bem a sua história, com toques de Burton aqui e ali a aparecer, Burton teve medo que “Dark Shadows” , o filme anterior fosse entendido como mais do mesmo e abriu o leque. Gostei do filme. E agora, Tim?

Rushmore - 1998.








Wes Anderson  procurou reconhecimento nos últimos filmes, “Moonrise Kingdom” e “Grand Budapest Hotel”. Mas a sua aventura começou a ganhar asas com “Rushmore”, em1998, com argumento seu e do wedding crasher Owen Wilson. Há um colégio americano onde Jason Schwartzman, com 18 anos a fazer de 15, faz de tudo mesmo tudo excepto estudar. O professor fixe é Bill Murray – a criar a sua imagem alternativa, sedimentada depois com “Lost in Translation” – e a professora nova de quem todos gostam é Olivia Williams. O DVD estava há anos por ver na estante. E vê-lo depois dos outros filmes corta todas as surpresas. Os diálogos são deliciosamente alternativos, Schwartzman aterrou no mundo dos filmes com estrondo e na realidade é o motor do filme, recomendo a posteriori a série “Bored to Death”. Bill Murray gets the girl, os truques de Wes Anderson – primeiros planos, odd music, etc. – levam bem o filme até ao fim. Uma excelente comédia, um excelente filme. Sorri imenso, e gostei. Claro que este visionamento retrospectivo atrapalhou a pedida superadesão. E porque não rir, como por ex., em “Bridesmaids” ? Rir é out?