segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

The Quiet Man e a violência doméstica.

The Quiet Man é o filme de John Ford que eu prefiro. Talvez por não ser um fã do western ou do filme de cavalaria. Ou ainda porque The Quiet Man tem Mauren O'Hara.
Trata-se de um filme saído em 1952, e é um velho projecto de John Ford, homem com raízes irlandesas, que ele finalmente consegue realizar nos estúdios Republic, uma segunda linha. John Wayne é um irlandês que volta da América para comprar a casa que foi dos seus pais. Todo o resto é a Irlanda que nós não sabemos se alguma vez existiu mas supomos que antigamente assim seria, pois os arquétipos, como as lendas, alguma razão terão para existir. O filme, um clássico, é intemporal. Tem detalhes que só por si valem a visita. Mas hoje queria falar sobre a cena final.
Li algumas coisas na internet sobre o fantástico papel de Maureen O'Hara. Incluindo algumas considerações sobre o anacronismo das relações homem-mulher no filme e, inclusive, algumas menções bastante explicitas à violência do personagem masculino representado por Wayne. A relação entre John Wayne e Maureen O'Hara é tempestuosa durante todo o filme mas nunca violenta. "Sacudida" talvez, violenta não. Na famosa cena de pugilato - com o irmão dela - em que John Wayne pretende voltar a ganhar o respeito da aldeia e o da esposa, uma assistente - mulher portanto - oferece-lhe um pau para que ele possa "educar adequadamente a sua adorável esposa". Na última cena Maureen O'Hara segreda algumas palavras ao ouvido de John Wayne e este depois segue-a saltitando para dentro de casa. Consta que essas palavras segredadas ficaram em segredo entre os dois actores e o realizador. Ninguém reparou porém que imediatamente antes do segredar John Wayne tem um pau - será o mesmo? - nas mãos e Maureen O'Hara lho tira das mãos e atira-o para o chão, sem mais. Este final feliz, que o é, inclui este detalhe, mas que é - oh tão - importante.

The Quiet Man é um filme que os homens portugueses não viram.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

G. K. Chesterton - extracto de "Tremendas Trivialidades".

"Se os ceifeiros cantam ao ceifar, porque é que os contabilistas não haverão de cantar ao contabilizar, e os banqueiros ao realizarem o seu comércio bancário? Se há cânticos diferentes para cada uma das coisas que se fazem num barco, porque é que não há cânticos diferentes para cada uma das coisas que se fazem num banco? Enquanto o comboio voava através dos jardins de Kent, tentei escrever umas cantigas apropriadas a cavalheiros comerciantes. Desse modo, a tarefa dos bancários de calcular colunas de números poderia comecar com um coro ribombante em louvor da Adicão Simples:

(...)

E de seguida, naturalmente, necessitaríamos de outra cantiga para os tempos de crise financeira e de coragem, uma cantiga de métrica mais feroz e mais assustadora, como o galopar de cavalos na noite:

(...)

E, à medida que me aproximava da nuvem de Londres, encontrei um amigo  que trabalha efectivamente num banco, e mostrei-lhe estas sugestões em rima para uso entre os seus colegas. Mas ele não se mostrou particularmente entusiasmado sobre o assunto. Não era que (assegurou-me) considerasse os meus versos inferiores, ou que de algum modo lamentasse a minha falta de mestria. Não: era antes devido, assim o sentia, a algo indefinível na própria atmosfera da sociedade em que vivemos, que faz com que seja espiritualmente difícil cantar em bancos. E parece-me que ele deve ter razão, apesar de o assunto ser muito misterioso. Posso observar, neste ponto, que deve haver algum erro nos cálculos dos socialistas. Responsabilizam, pelas nossas dificuldades, não o nível moral, mas o caos da iniciativa privada. Pois bem, os bancos são privados; mas as estacões de correio são socialistas; em consequência, eu, naturalmente, esperaria que numa estação de correios incorreria a ideia colectivista de coro. Julguem a minha surpresa quando a senhora adstrita à estação de correios do meu distrito (e a quem incitei a cantar) rejeitou a ideia com muito mais frieza do que a mostrada pelo meu amigo bancário! Ela de facto parecia estar num estado de depressão consideravelmente maior do que ele. Acaso alguém suponha que tal derivava do efeito causado pelos próprios versos, é bom referir que se destinavam a ser o hino da estacão de correios estes versos que diziam assim:

(...)

Quanto mais pensava sobre o assunto, mais dolorosa se tornava a certeza de que as coisas modernas mais típicas e importantes não podem ser levadas a cabo com um coro. Não se pode, por exemplo, ser um grande financeiro e cantar, porque a essência do grande financeiro consiste em estar calado."






"Os bancários estão desprovidos de cánticos, não porque sejam pobres, mas porque estão tristes."

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Nem Moretti já nos salva.

A filmografia de Moretti organiza-se em grupos de três filmes, depois de dois, e, finalmente, um a um. Voltará a realizar?
Não vi os seus primeiros três filmes, ditos panfletários, "Io Sono un Autarchico", "Ecce Bombo" e "Sogni d'Oro". Diga-se que Moretti, se é muito aplaudido pela Europa fora, em Itália está longe de ser consensual. É visto como um (ex-)esquerdista dogmático filho de uma família bem romana.
Com "Bianca", "La Messa é Finita" e "Palombella Rossa", Moretti cruza os anos oitenta e a progressiva desintegração das certezas da esquerda italiana. Moretti tinha criado nos seus primeiros filmes um alter-ego, Michelle Apicella. Moretti escreve, representa, produz, dirige. Em "Bianca" Michelle é um professor desadaptado numa escola de fantasia chamada Marilyn Monroe. Não consegue encetar uma relação douradoura com as mulheres porque antecipa a mentira e a traição. A vida é incerta e Michelee não aceita isso. Em "La Messa e Finita" o mesmo raciocínio é levado mais além. Moretti foge ao seu alter-ego e faz de padre, "don Giulio", que, após uns tempos numa comunidade afastada volta à sua terra de juventude para constatar que todos os seus amigos "se perderam": separaram-se, tornaram-se violentos e estão presos, enfim, até a sua irmã mudou. Don Giulio não aceita estas mudanças de bom grado e o filme alterna momentos lúdicos com situações de conflito físico. É o primeiro grande filme de Moretti e pô-lo no mapa europeu do cinema. A seguir vem "Palombella Rossa". Moretti foi praticante federado de polo aquático, Este filme é ainda com o alter-ego Michelle e gira à volta de uma piscina onde se joga, metaforicamente, numa partida de polo aquático o futuro da esquerda italiana. É um filme ruidoso, onde todos falam e ninguém ouve, e onde repetidamente se ouve a litania de "Somos iguais, mas somos diferentes! Somos iguais, mas somos diferentes!" Nem sempre há paciência para todo o filme que, literalmente, demora a acabar. Mas a amargura é evidente. Assim como não ser este filme a sequência mais óbvia a seguir a "La Messa é finita".
O próximo filme demorou cinco anos a aparecer. Antes Moretti rodou um documentário sobre a desintegração do PCI. Depois aparecem dois filmes, "Caro Diário" e "Aprile", que colocam Moretti no centro do cinema dos anos 90. São dois filmes onde Moretti já não se chama Michelle mas sim ele-mesmo, "o" Nanni Moretti. "Caro Diario" é uma narrativa em três capítulos da indecisa vida de um realizador de cinema que não se decide a fazer um filme mas sim anda de vespa, viaja de ilha em ilha e, no fim, tem uma doença grave. A política está "escondida", o humor não: Moretti exibe-se e provoca e transforma um argumento aparentemente simples numa comédia refinada, menos truculenta, e onde a singularidade de um autor definitivamente se afirma. Assim aconteceu também em "Aprile": Moretti passa todo o filme a pensar em fazer um filme comprometido, um documentário sobre a "nova esquerda" - o follow up hipotético aquele que realmente ele já tinha feito, mas perde por completo a paciência, parece-me com a Itália. Coisas mais importantes acontecem - um filho, por ex., e termina literalmente a cagar-se para a política e... a Itália? Ficou para a história a imprecação contra uma televisão onde um d'Alema escutava silencioso a Berlusconi: "d'Alema, diz qualquer coisa de esquerda! Diz, diz qualquer coisa ao menos cívica!" Moretti desiste e assume-se como "superior" à pavorosa nova Itália televisiva de Berlusconi. E agora?
Em dezoito anos Moretti ofereceu-nos mais quatro filmes. Mas o Moretti antigo só ofereceu um... e meio.
Em 2001 sai "O Quarto do Filho". Foi Palma de Ouro em Cannes. Neste filme Nanni Moretti é Giovanni e é um pai que perde um filho num acidente de mergulho. Serviu este filme linearmente para que Moretti exorcizasse todo o medo que qualquer pai tem: o de perder um filho sem razão. que sempre o é. O filme é mais palavroso e extrovertido mas anuncia em alguns dos seus mecanismos o "Mia Madre" de 2015, de que já falei. Literalmente percebemos que, embora com um grau de poesia singular, o filme conta-nos uma história que-podia-ter-acontecido-exactamente-assim. Como "Mia Madre" 14 anos depois, com a diferença de neste a mãe de Moretti efectivamente ter falecido. Dizem que em "Mia Madre" Moretti representa o filho que gostaria-de-ter-sido.
Em 2006 sai "Il Caimano". E a política volta à primeira linha. Moretti tem um pequeno papel no filme. Silvio Orlando é um realizador que tem uma vida em torvelinho e que não consegue fazer um filme sobre Berlusconi. Que é, pelo meio, o que Moretti consegue fazer. A crítica à forma directa e obscena como Berlusconi domina o audiovisual italiano está ali. Mas o filme é muito mais e, talvez, seja o retrato mais carinhoso que Moretti faz sobre o "fazer cinema". Com música, coreografias e o romper de todas as ilusões: a nova Itália não é para sonhadores.
Em 2011 sai "Habemus Papam". Michel Picolli é um papa-eleito que tem dúvidas. Moretti o psicanalista que o vai ajudar a decidir. Moretti é, pela última vez, bastante divertido. O filme é uma boa ideia que então pareceu ousada mas que o tempo, Ratzinger e Bergoglio, banalizaram: afinal um Papa resigna e um Papa "novo", ao contrário do do filme de Moretti, não tem dúvidas. A crítica a uma Igreja "esclerosada" já foi ultrapassada pelos eventos. 
Já escrevi que "Mia Madre" "não é" um filme de Moretti. Mas é. Acontece que aquele Moretti que nos invectivava nos anos oitenta e noventa já cá não está. E agora?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

outra vez O Ano do Cometa de Álvaro Cunqueiro.

"Quando o cadáver, levado pelos maqueiros, entrou na cidade, as casas afastaram-se, redemoinhando como folhas secas levadas pelo vento. As ruas alargaram, misturaram-se, perdendo-se umas das outras, abrindo-se como praças. Os maqueiros voluntários pousaram a carga no meio de uma que nunca tinham visto, pavimentada de mármore, que através de umas escadas deixava chegar ao mar. Pelos quatro lados. Sim, era uma ilha. Fez-se noite e a luz do farol lambeu as águas. Do veleiro ancorado na baía chegava um homem, caminhando sobre as vagas. Era muito alto, envolto numa capa negra. Os seus olhos tinham uma luz estranha. Para onde olhava, via-se um pequeno círculo dourado, que ia para onde queriam os olhos, iluminando as coisas que desejava ver.
- Indocumentado! - explicou-lhe o comissário de estrangeiros, que falava de uma varanda que se separara de uma casa que viajava para o mar.
O homem da capa negra puxou o lençol que cobria o cadáver. A sua cabeça descansava numa almofada coberta de seda vermelha, apoiando a face esquerda na palma da mão. Na mão direita agarrava um livro fechado, onde um punhal, com a cruzeta adornada de pedras preciosas, marcava o lugar onde estava a ler quando adormeceu. Ou morreu. Vestia de branco e verde. Os candeeiros da praça, que se desprendiam das suas esquinas e vinham revolutear como pássaros sobre ele, permitiam contemplá-lo. Tinha o cabelo negro comprido, muito bem aparada a pêra provençal no rosto redondo e pálido. Respirava? Dir-se-ia que respirava pausada e tranquilamente.
 - Quando disparámos tinha umas calças encarnadas!"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

The Right Hemisphere.

"The right hemisphere is mainly in charge of spatial habilities, face recognition and processing music. It performs some math, but only rough estimations and comparisons. The brains's right side also help us to comprehend visual imagery and make sense of what we see. It plays a role in language, particularly in interpreting context and a person's tone."

A mãe tinha uma hemorragia cerebral profunda mas que se manifestava com algumas das alteracões acima, para além de outras. Tinha repetido TAC, tinha feito levante. A filha entrou na sala a pedir informacões no preciso momento em que, por artes do escafandro, o meu computador ganhou vida e comecou a emitir música, alto. "Eu peco imensa desculpa", dissemos ao mesmo tempo. "Eu não lhe queria interromper o Lionel Ritchie..." "Marvin Gaye", corrigi. 


Informei, esclareci, Menti ao dizer que a mãe seria transferida para Santo Tirso domingo: foi sábado porque estava bem e era necessário. Despediu-se agradecendo e pedindo outra vez desculpa por interromper: "Marvin Gaye" - antecipei-me - "Era Marvin Gaye...". Ela sorriu.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Daqui a ano e meio.

Daqui a ano e meio vou ser mulher. Perdida num grande hospital conseguirei encontrar a minha consulta e o meu médico. Tido um pequeno AVC meses antes, nada de especial na carta de apresentação: diabetes, hipertensão arterial, peso a mais, por artes do diabo sei que o meu médico de família diz e escreve que eu tenho um "avental abdominal" - será porque já fui cozinheira? - sei também que ele escreveu há dois anos "abuso crónico do álcool" e, a verdade é que não me lembro de isso ter acontecido, por ter acontecido é que eu esqueci? Razões teria, pois já sou viúva com esta idade. Razões teria, pois da minha mão esquerda faltam-me um total de cinco falanges de um acidente com uma máquina numa fábrica de fazer brinquedos, tinha eu treze anos, 1975, o ano do PREC. O anelar não dá para trazer uma aliança, posso portanto dizer que foi ela por ela. Chegarei à conclusão que era simpático o médico, até aliviou um pouco a medicacão e eu terei prometido perder peso. No fim da consulta ele dir-me-á: "pode começar a beber forte e feio, não vamos desiludir o seu médico de família!". 
Não perceberei se brinca.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Notting.

Descubro com dezassete anos de atraso que o personagem representado por Hugh Grant no filme "Notting Hill" chamava-se William...