sábado, 3 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Revisão da matéria dada, ou seja, chegamos aos 146!
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ANTÓNIO GEDEÃO (1906-1997)
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SUSPENSÃO COLOIDAL
Penso no ser poeta, e andar disperso
na voz de quem a não tem;
no pouco que há de mim em cada verso,
no muito que há de tudo e de ninguém.
Anda o cego a tocar La Violetera,
e eu a vê-lo e a cegar;
e a pobre da mulher esfregando e pondo a cera,
e eu a vê-la, e a esfregar
Que riso perto, que aflição distante,
que infíma débil, breve coisa nada,
iça, ao fundo, esta draga carburante,
rasga, revolve e asfalta a subterrânea estrada?
Postulados e leis e lemas e teoremas,
tudo o que afirma e fura e diz sim,
teorias, doutrinas e sistemas,
tudo se escapa ao autor dos meus poemas.
A ele, e a mim.
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MIGUEL TORGA (1907-1995)
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
O que ouve desta vez?
Os cedros no meio do vento
E quem sabe? o mar talvez…
A quatro palmos do chão,
Quem sabe lá se não sente
O direito à criação…
— Equinócio pontual —
É planta que não gera
Canteiro em mina de sal.
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ANUNCIAÇÃO
negro sol latejando na vertical
ave branca explodida no meu ventre
o amor que me anuncias
nem é humana
ou tua
a sombra que cresceu sobre o meu corpo
e por mim se alongou
e me alongou num fundo mar
sem esperança
pois não há esperança no mistério revelado
e o que a carne concebe
é já divino
porque sem comando.
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LUÍS AMORIM DE SOUSA (1937)
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UM OUTRO QUE NÃO EU
um outro que não eu
bem mais voraz
e subtil
te poderá depois talvez contar
destes momentos cúmplices de agora
perfeitos na intimidade
da vaga dor de cabeça
não te posso adiar por minha culpa
não te posso invocar
por excesso de altruísmo ou de rancor
arquitectura fria
dum gesto quase orgulho
do que já lá não coube
se nutre a tua imagem
mais fácil do que tudo
seria perdoar-me
perde-se o vício
por falta de virtude
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CARLOS MOTA OLIVEIRA (1951)
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Uma espécie de Luiz Pacheco da poesia, bebe no surrealismo e joga entre a paródia e o lirismo e o escárnio puro e simples. Publica convenientemente muito na & etc.
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Senta-te e limpa os lábios.
Acende cada uma das lâmpadas
Dos meus olhos,
Passa a tua mão, a mais nova,
Sobre a minha testa.
Deixa-me com a noite colada às têmporas,
Crisálidas saindo pela boca
Como um deus egípcio;
Quando a manhã chegar
Mil anos de terra e esquecimento
Tornar-me-ão amante por superstição,
Aquele que por medo evocarás
Quando passeares o cão no jardim.
Antes de partires deixa o mapa,
Em rima cruzada, suspenso
Na porta do frigorífico.
O amor não é um íman.
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LUIS MANUEL GASPAR (1960)
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Encontrei a doca e o toldo lilás
desarvorado. Não havia mais água
nos carris para tingir a camisola
translúcida, só e trémula a ferrugem
p'lo remoto coração. Deixei-o negro
em parapeitos usados, outra roupa
recebida num sufoco, veia rasa
ao voo dos lençóis. Apareces? leva
a luz do cerco, a barca certa e sabida
na toalha; toarei os teus retratos
pela noite, a espuma do vinho que vela
a vela incisa, a cabeceira trancada.
Fora, ao candeio, cruzei o patamar -
para a partilha das pétalas p'los cães.
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FERNANDO EDUARDO CARITA (1961-2013)
Poeta que quase só publicou no exterior mas que era professor de português em Agualva-Cacém. Go figure... Nasceu em Nisa, terra de que muito gosto.
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Que põe os amantes um contra o outro,
Bastará que a libertem;
Que põe os amantes a favor um do outro,
Bastará que a mantenham em cativeiro;
Que há-de preservar os amantes
De sucumbirem nas margens um do outro,
Bastará que a coloquem já onde o amor os não alcança.
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JOÃO ALMEIDA (1965)
Mais um vimaranense a publicar poesia discretamente nas editioras certas. Poesia medida, cortada, precisa.
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HEIMAT
Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia
Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia
Os bárbaros chegaram
Governam com ferro e pandemias.
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terça-feira, 23 de janeiro de 2018
Smart.
"Bom dia. Eatacionou num lugar de garagem que não é o seu. Peço-lhe que retire o seu carro do mesmo quanto antes e que não o volte a fazer ou o mesmo será rebocado. O Proprietário."
O carro era um Smart, acho que era um Smart, e tinha entre um limpa para-brisas e o vidro da frente um papel com os dizeres acima. Li o papel a meio da tarde quando passei pela primeira vez pelo carro. Ao voltar a sair para jantar, uma mulher, que eu podia definir como ainda jovem, estava a arrancar com o Smart para ir embora, removido o papel.
Onde moro a garagem, grande, tem uma cancela que controla a saída (outra a entrada, claro). O Smart chegou à cancela e parou, fazendo um pouco de marcha atrás. Passei-o e acionei o comando. O Smart mexeu-se e pôs-se logo atrás. Eu passei a cancela lentamente e depois acelerei. A cancela falhou o Smart por pouco, que ficou ainda retido dentro da garagem, falhada a manobra. Vi-o recuar. Ela ia tentar outra vez, à boleia de alguém.
Não sei porque não sou assim.
sábado, 20 de janeiro de 2018
De "Cidadela"
"Ao legislar sobre o amor, faço nascer determinada forma de amor."
Antoine de Saint-Exupéry
De um nome.
Celebramos a longevidade nossa e alheia, a pessoal e também a partilhada, aquilo a que costumamos chamar de relacionamentos. Eu por estas alturas celebro os vinte e cinco anos de bem estar com o meu nome.
Estas coisas têm sempre um começo. O meu nome, "Guilherme", é um nome sem vizinhos. O "José" tem logo ali o "João" e o "Jaime". A "Maria" tem perto a "Manuela" e a "Mariana". Por outro lado é um nome que não é suave, parece quase um escolho na estrada, um nó no caminho.
Faz agora vinte e cinco anos explicaram-me que não. O som que sai depende sempre do emissor para soar bem. É.
Nem sempre sou rápido a aprender. Hoje sei. Que o meu nome reivindica. Que destaca e faz-se notar. Que a sua singularidade promete e resta-me a mim, portador, o trabalho de cumprir. Se não singular, para quê ser? O meu nome, "Guilherme", obriga-me e eu obedeço. Arte de que fui, também, tardio aluno.
Há dois amigos (um, uma) que filhos têm com este nome. Vida um pouco mais fácil mas nem por isso. Óptima escolha, penso. Enquanto, vinte e cinco anos depois, me explicam o importante que é eu chamar-me também Manuel!
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Das urgências.
Os portugueses são viciados em ir ao Serviço de Urgência e fazer umas análises e uns exames. Hipertrofiar os Serviços de Urgência ainda mais é recompensar a perversão, o vício.
A solução sempre passou e sempre passará pelos Cuidados Primários. Os SASU's precisam de ser reformulados e, sim, reforçados, ter alguns meios auxiliares de diagnóstico e capacidade de interagir no momento com o Hospital de Referência. Os Médicos de Família precisam de ver a sua lista de doentes drasticamente reduzida, bem como todas as burocracias a que hoje em dia vivem atados, e ter diariamente uma Consulta Aberta adequada, com uma pre-triagem como salvaguarda.
A falta de investimento no SNS existe. Acontece há décadas. A fuga dos mais novos e, MAIS GRAVE, dos MELHORES, é uma triste realidade. Mas aqui não estamos a falar da Urgência.
A Urgência só se resolve com uma mudança de paradigma.