terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Nada.

Hoje ouvi na Euronews a resposta à pergunta: "Quanto é que cada contribuinte europeu já gastou com a crise da dívida grega?".

A resposta correcta é: NADA!

Os governos europeus têm financiado o governo grego com dívida que contraem no mercado financeiro normal, a juros mais baixos do que os juros que os gregos pagam. 

Ou seja: os governos europeus LUCRAM com a crise da dívida grega.

Uma cerimónia.

Há noites onde na minha casa acontece uma cerimónia do chá. Que passo a explicar. 

Lavados os dentes em sincício e cuspida toda a maldade, disfarçada por uma espuma branca, para que a noite seja em paz dirijo-me para a cozinha onde escolho um copo alto. Encho-o com quatro dedos de água e aqueço-o sessenta segundos em micro-ondas na potência máxima, ou seja, novecentos watts. A água sai quase a ferver. Procedo à imersão nessa água de um saco com folhas esmagadas de tília. Digo tília e, portanto, não se trata verdadeiramente de chá mas de uma infusão. Vamos esquecer  o detalhe, que “cerimónia da infusão” não bate igual. O copo alto a fazer a infusão encerro-o com outro copo preenchido por três dedos de água, sendo que o encaixe permite aumentar a rapidez da infusão e manter o calor. O tempo de espera que agora se adivinha como obrigatório serve para a colocação de um banco, o acertar de um despertador, o discutir a hora de reinício da vida cá dentro, da vida lá fora, bem como o seu financiamento. A infusão já está feita e acolhe com agrado uma colher de chá de mel que se dissolve com afinco. Os dois copos são transportados para a mesa de cabeceira. O quarto já deve neste momento estar com iluminação focal que permita dirigir a atenção de olhos diligentes mas cansados e presbíopes para um livro do qual se vão ler algumas passagens. Negoceia-se o fim da leitura, bem como o descansar do livro. Bebe-se, agora sim, a infusão, e no fim a água que antes a cobria. Apaga-se a luz. Pratica-se uma mnemónica que afugenta e alimenta. Promete-se sonhar com anjos, aproveitando que não existem. 

A cerimónia que descrevi serve para bem terminar um dia. Tomara que nunca acabasse.

Dêdêtê

Para os neófitos e neófitas, este blogue durou oito anos. Existiu entre doenças. Morreu de morte natural.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

La Caixa vai comprar BPI.

Tivémos maus banqueiros (Salgado), temos bons bancários (Ullrich). Pena serem apátridas (Horta Osório tb.). O BPI vai ser vendido ao La Caixa, aparentemente. Que pretende comprar o NovoBanco. Tudo aponta. Numa fusão que pretende optimizar activos (entrega-se desempregar gente). O maior banco em Portugal pode deixar de ser português. E siga a rusga. Estragamos o que criamos (Salgado), obedecemos com brilhantismo (Ullrich). Foda-se prá raça!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Há neve no Montemuro - 2.

Saí de Cinfães um pouco descrente. A temperatura que o meu carro acusava era a mesma desde Valongo e não prenunciava neve no Montemuro. Uma hora levava já de caminho, era tarde para desistir e a estrada estreita para inversões de marcha.
Finalmente abandonei a companhia forte do rio Douro e comecei a subir paralelo a um vale encaixado dum pequeno afluente do grande rio chamado Bestança. Rede Natura 2000, ah pois é! A tarde já descia e os tons amarelos marcavam o outro lado do vale, onde a espaços aldeias inclinadas dominavam campos e socalcos. Aqui e ali um verde autóctone. Muito ao fundo um rio. Pedra e pedra




e pedra. Eu subia, parava, fotografava e subia. Finalmente  o Portugal de que eu gosto mais, este. A montanha humana onde Portugal nasceu. E o termómetro começou a descer. Curvas e curvas, o dourado do outro lado, deste lado o começo da sombra da noite, no nosso inverno tão precoce.

Até que comecei a ver ao fundo as eólicas da Gralheira e do Montemuro e algumas zonas mais claras – granito polido, seria?
Uma curva mais e a geada transforma-se em escassa neve que começa a debruar o caminho. A atenção redobrada ao gelo na estrada não impede o êxtase do espectáculo da neve cada vez mais presente. O Montemuro é bastante descampado. Nas Portas do Montemuro, onde os concelhos de Cinfães e Castro Daire – isto é, o Douro e a Beira Alta, se comunicam, a altitude ultrapassa os 1200 metros, ou seja 200 metros mais alto do que o Alto de Espinho na IP-4. Ali está uma estação de serviço da Galp, a mais alta também de Portugal, segundo me disse o senhor que me serviu um café. O carro acusava meio grau negativo. À mão direita um estradão gelado levaria até às eólicas e ao ponto mais alto da serra. Olhando para trás o Douro, ainda e sempre mas, pela distância, feito uma poça de brincar. A primeira vez que fiz as Portas do Montemuro foi a partir de Castro Daire. Assim avancei uns kms  para sul e voltei para trás, para confirmar. Assim o nome da serra ganha significado. À nossa frente um enorme muro de pedra rolada impede a passagem. Cada pedra tem uma mancha branca na capa nascente, escondida do sol. A estrada vira à esquerda para evitar este muro e franquear as portas do dito. Assim eu fiz e, por ser quase noite, voltei pelo caminho mais lógico,
Cinfães, Entre-os-Rios, Rio Mau, Gondomar. Em Rio Mau, terra que me fornece doentes e lampreias, cumprimentei mentalmente a minha amiga São. Eu não gosto de lampreias mas gosto da São e conheço quem goste de lampreias, portanto tudo bem. Em Rio Mau a EN  108 finalmente desce ao lado do rio Douro e este empresta-nos com a sua presença todo o seu poder, mesmo de noite.

Cheguei tarde a casa porque tinha havido um acidente na VCI. Mas não importa: tinha pisado neve!

Há neve no Montemuro.

Ontem não consegui ir do trabalho para casa. Precisava de ver a neve. Decidi pegar no carro ir até às Portas do Montemuro.

Eram três da tarde. Liguei o navegador do Google Maps. Este (ou melhor esta) passou os primeiros quinze minutos desorientada mas depois atinou quando já eu tinha decidido enveredar pela A4. Seguimos até Penafiel e depois foi descer para Termas de S.Vicente e Entre-os-Rios.

A divisão territorial portuguesa está por fazer. Os distritos são uma invenção relativamente recente e sem sentido, e mesmo as províncias “de sempre” são adaptações de noções vagas tradicionais a um mapa desenhado no século XIX. A A4 é a auto-estrada do Vale do Sousa. Mas o que é o Vale do Sousa? 
O Norte e o Centro em Portugal têm uma dicotomia muito marcada Litoral/Interior. Dicotomia económica, social, cultural e, para começar, geográfica. O Vale do Sousa é a região mais atrasada do Litoral Português. Era também, até à poucos anos, a região mais fértil - não no sentido agrícola mas  reprodutivo - da Europa Ocidental, à frente do Vale do Ave. As regiões portuguesas com nomes de rios parasitam rios de valor, marcantes: Minho, Douro e (riba- e além-) Tejo. Alguém alguma vez viu o Sousa? Conhecemos a foz dos cruzeiros no Douro. Encaixado em ladeiras como todos os rios por cá, mal se vê sob as pontes que sucessivamente lhe faltam ao respeito. O Vale do Sousa é geograficamente o corpo central dum terreno rugoso, agreste, acidentado e martirizado por acácias, eucalipto, indústria, pedreiras e gente que se chama Douro Litoral. Será Verde o vinho, mas aqui não está a gentileza do Minho.

Cheguei a Penafiel, terra que fica num alto, como diz o nome, vizualizei o hospital – também lá em cima – onde amigos trabalham e sofrem acrise gripal, e derivei para a estrada que desce pelas Termas de S.Vicente até ao simbólico ponto de Entre-os-Rios. As Termas estão a ser recuperadas. Entre-os-Rios, depois do drama, foi sobrevoada por pontes, viadutos, acessos e rotundas. Os mortos continuaram mortos, e a água dos dois rios, Douro e Tâmega, continua por ali majestosamente a confluir em variável harmonia. Passado o rio há que subir para Cinfães.
São mais de vinte quilómetros até Cinfães. Que ao distrito de Viseu pertence mas da Beira não é. Cruza-se o Paiva e é logo a subir. Nestes vinte e tal km estamos sempre a olhar para o poderoso rio que nos contraria lá em baixo, a fazer o seu percurso em sentido oposto. Este sim é o rio que define, estas terras são o que este rio dá e tira, este rio e os seus tributários. É uma estrada portanto que requer cuidado e não permite grande disfrute do que se quer ver. Progressivamente o desastre urbanístico e ambiental dos concelhos de Valongo, Paredes e Penafiel cede o lugar a uma natureza mais coerente, a socalcos mais vivos, a uma presença humana mais esparsa. O rio está umas centenas de metros abaixo e, em frente, o mosteiro de Alpendurada. Recuperado mas não sei bem para quê. À sua volta não há um verde que perdure, como se a envolvente tivesse sido bombardeada. No monte que sobrejaz uma enorme pedreira dita a sua cicatriz. E continuamos a subir. Com paciência chegamos a Cinfães. Que se desenha à volta da estrada que segue na encosta. Virada para o Douro. E a adivinhar a serra para onde vamos. Pequena vila arranjada pelo (seu) poder autárquico, tem umas que parecem ser estátuas de/à Cutileiro para celebrar  o (seu) Carnaval. As estátuas estão ao correr da rua que assim é a terra. A vista para o rio define Cinfães.

A rapariga brasileira do Google Maps avisa-me de que em trinta minutos chegarei ao destino.