segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Penso agora, vírgula.

Penso agora ao ir para casa que, mesmo quando, não hoje, hoje não, o piso não estiver molhado, será adequado manter uma distância de segurança.

domingo, 13 de dezembro de 2015

O Bolhão e a Bolsa.

Há aproximadamente um mês pude visitar o mercado do Bolhão de manhã. Adivinha-se que o mercado não consegue a azáfama de outros tempos, mas as mulheres de sempre ainda ali estão, os cães, os sanitários "à indiana". E as bifanas, o verdadeiro prato popular do Porto, já que a francesinha é na verdade uma invenção tardia e burguesa. O Bolhão é uma preciosidade, uma jóia, um leão ferido mas que ainda vive. Quase lhe confere dignidade adicional a presença dos  andaimes e a noção de qua há ali um risco, de que a qualquer momento um pedaço de parede, de reboco, de tecto pode dar-nos a honra de ruir e nos mandar para o hospital ou para o cemitério.
O palácio da Bolsa curiosamente está numa parte mais antiga da cidade. A Bolsa já não existe, claro, e muita da capacidade burguesa da cidade migrou para sul, para a capital. Capacidade que em parte era inglesa - e a Feitoria Inglesa fica a cem metros - e em outra parte era "brasileira" ,pois só um gosto brasileiro pode explicar o faiscante Salão Árabe. Hoje o mesmo gosto que sanciona o Yeatman como "a varanda para ver o postal". O Porto é uma cidade desigual, injusta e


bruta. É uma paixão muitas vezes não correspondida. Entra-se numa sala e sentimo-nos em casa só porque reconhecemos as fartas patilhas do falecido Paulo Valada. E descansamos no facto de Rui Moreira ainda não se ter retratado, detalhe que em Lisboa, terra de vaidades fáceis, não seria compreendido. A Bolsa já não existe. O seu palácio merece uma que outra visita. Ao mercado do Bolhão queria eu poder ir todos os dias...

France, troisiéme tour.

Portanto, não é com desistências e coisa e tal que se resolve o problema Marine Le Pen. O elefante na sala não é ela mas sim os 50% de eleitores que não votam. Os candidatos socialistas ainda não perceberam o que fazer, por isso, confusos, desistiram dois em três para fazer a chamada "barragem republicana". Sarkozy sim ,que percebeu - e não desistiu. Sarkozy ainda acha que pode "comer" le Front National. No fim vai perceber quem come quem. A direita sempre achou que a extrema-direita podia ser útil. Mas no fim da história a direita vai ser apenas "a terminação" no dia em que a Le Pen sair a sorte grande. Enquanto isto não acontece, deixem a FN governar! Ou têm medo que afinal o seu governar não se diferencie dos governares do "arco da governabilidade"? Hitler subiu ao poder numa Alemanha com instituições democráticas muito muito muito frágeis. São assim frágeis as instituições democráticas em França?
Para finalizar, porque 50% dos franceses não votam? Uma razão será Hollande. Outra será... Sarkozy! Fico contente por dizer que - apesar de tudo, as opções portuguesas de há meses eram - ambas - menos más!

France, second tour.

Mais de metade dos franceses não votaram a seis de Dezembro. Os votos do Front National correspondem apenas a 13% do colégio eleitoral. Mas os votos nos Socialistas correspondem a 11%!. O problema não está no fascismo, está no desinteresse.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano - extracto.

"A doença punha a descoberto os piores aspectos daquele carácter seco e superficial; a mulher visitou-o; como sempre, a sua entrevista acabou com palavras amargas; ela não voltou mais. Trouxeram-lhe o filho, uma bela criança de sete anos, desdentada e risonha; olhou-o com indiferença. Informava-se com avidez das notícias políticas de Roma; interessava-se por elas como jogador, não como homem de Estado. Mas a sua frivolidade continuava a ser uma forma de coragem; despertava de longas tardes de sofrimento ou de torpor para se entregar por completo a uma das suas brilhantes conversações de outrora; aquele rosto molhado de suor sabia ainda sorrir; aquele corpo descarnado erguia-se com graça para receber o médico. Seria até o fim o príncipe de marfim e ouro.
À noite, não podendo dormir, instalava-me no quarto do doente; Céler, que gostava pouco de Lúcio, mas que me é demasiado fiel para não servir com solicitude aqueles que me são caros, dispunha-se a velar a meu lado; subia dos cobertores uma respiração ofegante. Invadia-me uma amargura profunda como o mar; ele nunca me tinha amado; as nossas relações tornaram-se depressa as do filho dissipador e do pai benévolo; esta vida escoara-se sem grandes projectos, sem pensamentos graves, sem paixões ardentes; ele tinha dilapidado os seus anos como um pródigo deita fora moedas de ouro. Apoiara-me a uma parede em ruínas: pensava com cólera nas enormes somas despendidas com a sua adopção, nos trezentos milhões de sestércios distribuídos aos soldados. Num sentido a minha triste sorte acompanhava-me: estava satisfeito o meu velho desejo de dar a Lúcio tudo quanto pode dar-se; mas o Estado não sofreria com isso; mas não me arriscaria a ser desonrado por aquela escolha. Bem no fundo de mim mesmo chegava a temer que ele melhorasse; se por acaso se aguentasse ainda alguns anos, eu não podia legar o império aquela sombra. Sem nunca fazer perguntas, ele parecia penetrar o meu pensamento nesse ponto; os seus olhos seguiam ansiosamente os meus menores gestos; tinha-o nomeado cônsul pela segunda vez; ele inquietava-se por não poder desempenhar as suas funções; a angústia de me desagradar fez piorar o seu estado. Tu Marcellus eris... Repetia para mim estes versos de Virgílio, consagrados ao sobrinho de Augusto, ele também destinado ao império e que a morte arrebatara no caminho. Manibus date lilia plenis... Purpureos spargam flores... O amador de flores não receberia de mim mais que inanes ramos fúnebres.
Julgou-se melhor; quis regressar a Roma. Os médicos, que já não discutiam entre si senão o tempo que lhe restava para viver, aconselharam-me a fazer-lhe a vontade; levei-o, por etapas, para a Villa. A sua apresentação no Senado na qualidade de herdeiro do império devia realizar-se na sessão que se seguiria quase imediatamente ao Ano Novo; o uso queria que ele me dirigisse nessa ocasião um discurso de agradecimento; essa peça de eloquência preocupava-o há meses, limávamos juntos as passagens difíceis. Trabalhava nela durante a manhã das calendas de Janeiro quando lhe sobreveio uma expectoração de sangue; sentiu uma vertigem; apoiou-se às costas da cadeira e fechou os olhos. A morte não foi mais que um atordoamento para aquele ser frívolo. Era o dia do Ano Novo: para não interromper as festas públicas e os regozijos privados, impedi que divulgassem imediatamente a notícia do seu fim; só foi oficialmente anunciada no dia seguinte. Foi enterrado discretamente nos jardins da sua família. Na véspera daquela cerimónia, o Senado enviou-me uma delegação encarregada de me apresentar as condolências e de oferecer a Lúcio as honras divinas a que tinha direito, como filho adoptivo do imperador. Mas eu recusei: todo aquele caso havia já custado demasiado dinheiro ao Estado. Limitei-me a mandar-lhe construir algumas capelas fúnebres,  a erigir-lhe estátuas aqui e ali, nos diferentes sítios onde ele tinha vivido: aquele pobre Lúcio não era deus."

Vinte Anos Depois, de Alexandre Dumas - extracto.

"Vol 2 - cap XXXIII

O Regresso.

Atos e Aramis seguiram o itinerário que lhes tinha indicado d'Artagnan, e caminharam tão depressa quanto puderam. Parecia-lhes que seria mais vantajoso para eles serem presos perto de Paris, do que longe da grande cidade.
Todas as noites, com receio da prisão enquanto dormiam, traçavam, ou na parede, ou nos vidros, o sinal combinado; mas pela manhã acordavam livres com grande espanto seu.
À medida que se aproximavam de Paris, os grandes acontecimentos a que acabavam de assistir, e que tinham agitado a Inglaterra, apagavam-se-lhes da memória como se tivessem sido sonhos, ao passo que, pelo contrário, os que durante a sua ausência tinham emocionado Paris e a província, lhes acudiam à mente em confuso tropel.
Durante aquelas seis semanas de ausência, os incidentes que se desenrolaram em França foram tais e tantos, que quase constituiam um grande acontecimento. Os parisienses, ao despertarem pela manhã, sem rainha e sem rei, ficaram muito contrariados com esse abandono, e a ausência de Mazarino, tão vivamente desejada, não compensou a dos seus augustos fugitivos. 
O primeiro sentimento que emocionou Paris, quando soube da fuga para Saint-Germain - fuga a que fizemos assistir os nossos leitores - foi essa espécie de terror que se apodera das crianças quando acordam de noite na solidão. O parlamento agitou-se e decidiu que se enviasse uma deputação à rainha a pedir-lhe que não privasse por mais tempo Paris da sua real presença. 
Mas a rainha sentia ainda a impressão da vitória de Lens, e o orgulho da sua fuga, tão felizmente executada.
Os deputados não só não tiveram a honra de ser recebidos, como forma obrigados a esperar, na estrada, onde o chanceler Séguier, que vimos na primeira parte desta obra procurar tão obstinadamente uma carta no espartilho da rainha, lhes veio entregar o ultimato da côrte, dizendo que se o parlamento se não humilhasse ante a majestade real, condenando todos os motins que tinham originado esta separação, Paris seria cercada no dia seguinte; que já, na previsão desse cerco, o duque de Orleans ocupava a ponte de Saint-Cloud, e que o senhor príncipe, ainda na força do entusiasmo pela sua vitória de Lens, ocupava Charente e S.Dinis.
Desgraçadamente para a côrte que com uma atitude moderada teria talvez atraído grande número de partidários, esta resposta ameaçadora produziu um efeito totalmente contrário ao que se esperava. Feriu o orgulho do parlamento, que sentindo-se vigorosamente apoiado pela burguesia, cheia de prestígio pelo perdão de Broussel, respondeu declarando Mazarino autor de todas as desordens e inimigo do rei e do Estado, e ordenou-lhe que se retirasse nesse mesmo dia da côrte, e da França em oito dias; expirado esse prazo, se ele não tivesse obedecido, era lícito a qualquer súbdito matá-lo. 
Esta resposta enérgica com que a côrte nunca contou, punha ao mesmo tempo Paris e Mazarino fora da lei. Ia ver-se agora de que lado estava a vitória. A côrte fez então todos os seus preparativos de ataque, e Paris todos os seus preparativos de defesa."

Para a Ilha Deserta é que vamos!


Alexandre Dumas - Vinte Anos Depois.

Ana Maria Matute - O Gafanhoto de Ouro - versão portuguesa de Maria Alberta Meneres.

António Franco Alexandre - Aracne.

Joaquim Manuel Magalhães - Segredos, Sebes, Aluviões; Uma Luz Com Um Toldo Vermelho; A Poeira Levada Pelo Vento.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano.

Neil Gaiman - Neverwhere.

Raul Brandão - As Ilhas Desconhecidas; Os Pescadores.

Ruy Belo - Toda A Poesia.

Virginia Woolf - Mrs. Dalloway.