domingo, 19 de março de 2017

O Mundo.

Os nomes têm misteriosa origem. Ninguém sabe porque Ovar assim se chama, para não ir mais longe. 
Por outro lado desconheço se a ordenação da nossa Costa, passadiços e barreiras e aterros, tudo incluido, contou no seu orçamento com o facto conhecido de esta nossa Costa ir desaparecer em décadas, porque o Mar subiu. Talvez não. Enquanto não, caminhamos. Caminhemos então.
Que o Mundo gira é apresentado como facto da maior relevância. Gira sobre um eixo mas, o que importa mais, avança, filho do Sol, neto da Via Láctea, bisneto de alguma Outra Coisa. Avança e vai, com o tal eixo que inclinado prossegue, e eu acredito que alguma coisa há que o puxa e lhe dá sentido. Eu chamo a isso, a essa coisa, o Cabo do Mundo.

A Espuma das Sextas.

"As horas altas", "o sol queimoso", "comer pela hora do lavrador". D. Rosa,quanto lhe devo pela consulta?

sábado, 11 de março de 2017

Na Margem / En La Orilla por Rafael Chirbes.

Finalmente acabei, Henrique.

Enganamo-nos de propósito quando, ao falar dos tempos de riqueza que passaram, falamos de uma "bolha imobiliária" ou de uma "bolha financeira". A bolha foi do país como um todo, dos países, houve a bolha portuguesa, a irlandesa, a americana - esta imensa, tão ameaçadora -, a islandesa, a grega - uma tragédia (piada fácil)...
Temos nós este particular prazer de podermos comparar pondo-as lado a lado as bolhas portuguesa e espanhola, como nasceram, cresceram, como Portugal agora está a safar-se "disto tudo" pela esquerda, a Espanha pela direita - sim, Podemos, pela direita. Os países portanto incham e desincham, mas as consequências disto tudo nem sempre passam. Preocupa-me mais a Espanha do que Portugal, e isto porque um país é muito mais do que as suas finanças. As finanças portuguesas estão pior, mas a Espanha está muito mais doente. A bolha rebentou e o que resta é um país que é afinal como que uma grande escara, carne viva, ferida que não fecha e não fecha.
Não sabia que Rafael Chirbes morrera em 2015 - o ano em que tu, Henrique, me ofereceste este livro. "Na Margem" foi livro do ano para o Babelia em 2013. E de que trata o livro? Da escara. Do que resta de Espanha. Há um pântano, há a memória. Duas. Da eterna Guerra Civil que em Espanha parece ainda dar mais do que falar, e do ladrilho, do dinheiro fácil, e da correspondente perda das inocências, dos ideais e das possibilidades de um amor limpo, de um olhar claro, de que tudo tenha  alguma lógica e um lampejo de justiça. Chirbes escreve majestaticamente, ou seja, muito bem. Os capítulos sucedem-se lentamente, como lenta pode ser a morte, fornecendo pistas, dados, camadas de conhecimento sobre o mal, todo o mal que tomou conta de um país. Curiosamente há um pântano mas que é a antítese da metáfora fácil - foi o pântano que escondeu os republicanos dos franquistas, é o pântano que num fim (que acontece no início) fornecer uma saída lógica, uma solução (a)final. 
Chirbes consegue páginas de um grande lirismo mas logo a seguir volta à crueldade dos nossos tempos. Luiza Neto Jorge lembrava que "a vida é gesto e o amor é foda". Chirbes reforça que estes tempos são uma sucessão de más fodas ou nem isso. Chirbes tem o cuidado de no fim fugir ás metáforas e ao pessoal: as últimas palavras, o capítulo "Êxodo" lembra cuidadosamente o que aconteceu.

"- Choraremos pelos velhos tempos?
À refeição das dez da manhã, com saladas, conservas e salgados regados com azeite (polvo seco, cavala, finas fatias de moxama e ovas de atum), umas costeletas, uns enchidos, vinho e cerveja, tudo isto rematado com um café e - no meu caso - um bom conhaque (não, a mim não me sirvas whisky como a estes, dá-me antes um Martell da garrafa que tenho aí reservada), segue-se uma tertúlia sem mudar de cadeira, que se prolonga até à hora do vermute (levantamo-nos para esticar um pouco as pernas junto ao balcão? Estou meio entorpecido) e da paella (foda-se, já são horas de almoçar, e se comêssemos aqui também?), o arroz caldoso ou a aletria, que chega quando o relógio dá as três. Em redor da mesa, pedreiros convertidos em promotores imobiliários, proprietários de negócios prósperos, como eu próprio - vidrarias, canalizações, carpintarias, lojas de móveis, armazéns de materiais de construção e de tintas, gente que vive de rendimentos diversos - reunidos em harmoniosa convivência, bons rapazes que almoçam juntos e que ao mesmo tempo recebem - como uma chuva de ouro de uma máquina de moedas - as mais-valias que lhes rendem, hora após hora, cada empregado que se move por detrás de um balcão, cada secretária sentada a um computador, cada pintassilgo - espanhol, peruano, colombiano, marroquino, búlgaro ou romeno - empoleirado num andaime a assentar tijolos. 
(...)
Também eu ouço o tilintar dessa chuva, e é a felicidade perfeita, o verdadeiro paraíso. Claro, homem, digo eu, mas nada de harpas e asas angelicais, nada de sombras e formas de espírito nem de indagações teológicas, não, o nosso paraíso não é o dos católicos, mas antes um paraíso de perfil maometano: guloseimas, carne humana e álcool. O promotor charlatão confessa que passa o dia inteiro a preguiçar, da mesa para a cama e da cama para a mesa, e que, ao fim de cada dia, gosta de fazer contas: duas dezenas de mouiros ou romenos ou conguitos, ou um sortido de gente de diferentes nacionalidades, cumprem oito horas de trabalho cada um, o que dá ao todo 160 horas. Cobro ao cliente - fazendo a média das horas de trabalhadores especializados e não especializados - cerca de quinze euros à hora por cada um: portanto, 2400 euros; pago aos não especializados seis, sete ou oito euros à hora (depende da amizade e da simpatia que lhes tenho, ou do tempo que trabalham para mim; desde que trabalho por conta própria, sem o cabrão do Bertomeu, posso fazer o que me dá na gana, sou eu o patrão) e doze euros aos especializados (é pegar ou largar); ora bem, feitas as contas - somando, como te disse, as horas de especializados e não especializados - , dá uma média de oito euros à hora, o que equivale a um total de 1280 euros, os quais, subtraídos aos 2400, vem a dar 1120 de lucro: ou seja, esta tarde tão agradável, tlim, tlim, tlim, caíram-me no bolso mil cento e picos limpos, o que não é nada mau, sobretudo porque mais de metade desses trabalhadores são clandestinos e com os outros combinei deduzir-lhes do salário líquido a contribuição para a segurança social. A partir deste ponto, perco o fio à meada, porque somar dá muito trabalho."

Águas Negras / Black Water por Joyce Carol Oates.

Em Portugal os escritores norte-americanos são venerados. Eu venero Joyce Carol Oates. Voltou à minha mão - oh felicidade - um pequeno livro editado pela ASA e que se chama "Águas Negras" (no original "Black Water"). Baseado fortemente no acidente de Chappaquiddick de 1969, em que o senador Edward Kennedy atirou com um carro para um canal salvando-se e deixando morrer por falta de assistência a sua jovem acompanhante, Oates insistiu que o livro era mais do que isso, uma história sobre qualquer mulher que vê a sua confiança num homem mais velho atraiçoada, "violada". Há uma actualização temporal - o livro sai em 92 e, por exemplo, faz uma referência à primeira Guerra do Golfo - mas,,, todo o resto existe, todo o resto é triste e toda a escrita é brilhante, ou melhor, brilha no escuro da água negra em que a protagonista Kelly se afoga. Há um acrescentar de um primeiro homem violento, "G", que serve de antecâmara para a penetração decisiva, mortal, do "Senador" na vida, na morte de Kelly. 
Homens, façam o favor de ler. Mulheres, também! Mas, atenção, este livro não é um manifesto, é literatura supina. E um aviso negro.

"E a água negra à sua volta subia imperceptivelmente, aqueles fios d'água a escorrerem a pingarem como lágrimas no seu rosto, era como o tactear, o sugar das bocas de centenas de sanguessugas cravadas na sua pele, não, era simplesmemente água, ela tremia convulsivamente na água com cheiro a esgoto, gasolina, óleo, a sua própria urina onde ela se sujara. Não me abandone. Estou aqui. 
Num momento estavam  a correr aos solavancos pela estrada sulcada, a Lua a brilhar em cima e o beijo dele ainda impresso na sua boca, no outro estavam a lutar para salvar as próprias vidas, e o que fazia, era pânico cego, ela compreendia.
Ela compreendia. Ela tinha fé.
Agora lembrava-se de quem ele era: O Senador.
Ela sentiu as pontas dos seus dedos nos seus ombros nus, a sua respiração que cheirava a cerveja, a álcool... ela não era uma má rapariga, podia explicar por que, na presença do Senador, se comportava de uma maneira que a fazia parecer, ou de facto ser, óbvia, previsível, banal.
No entanto, depois de terem sido apresentados, depois de terem estado a falar com tanta naturalidade, a descobrirem tantos assuntos de que falar, por exemplo o Carl Spader, por exemplo o Citizen's Inquiry, Kelly mudara a sua opinião sobre o homem.
- era de facto cordial, gentil. Interessava-se sinceramente pelos outros. E era sem dúvida inteligente.
Ensaiar o futuro, em palavras. As tuas palavras. A tua história. Pois não deves nunca duvidar de que haverá um futuro.
E que sentido de humor!"


domingo, 5 de março de 2017

Nothing and Everything.






Estive há poucos dias num jantar de Carnaval com colegas de trabalho - amigos? É engraçado como nestes jantares acabam sempre por aparecer umas cantigas para cantarolar, ou por estímulo de um animador de festa, ou por livre e expontânea vontade. As canções são quase sempre as mesmas e conhecidas, nunca falta um Rui Veloso, os Azeitonas, o lambujo Zambujo. Lá cantarolei, bati palmas, eu, definido pela vida como o "rapaz que desafina". Rapaz já não sou, desafinarei sempre. Foi uma interessante noite onde me deu para pensar nas letras das ditas canções, simples, frases em branco e preto cheias das queridas cores. Depois chegou a palavra-passe "kizomba!" - e bazei!
Hoje fui até Vila Boa de Quires - procurem, está no mapa, vive rodeada de vinhas, o resto era nevoeiro - e fui porque lá acontecia uma simpática angariação de fundos. Tão simpática era como falhada foi. A Rita - que voz podes ter, Rita! - fazia anos e, indiferente à chuva e ao possível prejuízo, atirava-se a canção atrás de canção, também conhecidas, também quase as mesmas, a surpresa o "Power Of Love" dos Frankie Goes To Hollywood. Mais umas letras simples, cheias de "sims" e de "nãos", nunca os eternos "talvezes" com que a vida se faz. E compreendi.
Que das simples letras nos socorremos para aos deuses pedir, em acto de euforia - era Carnaval, era aniversário... - um pouco de vida simples, aqui e ali, uns poucos de dias, semanas, meses. Sabemos que não vai ser assim sempre, sabemos até que não vai ser assim a maior parte do restante tempo. Custa pedir?

PS1.: Rita, cantaste duas canções do meu Repertório. Thanks!

PS2.: Quem não pede...

Numa esquina pode aparecer uma bicicleta encostada.


Dizem que é como andar de bicicleta. Que nunca se esquece. Não comparo mas verifico. Que não foi esquecido. Falamos então da velha arte do barro. E de como as mãos são modeladoras. Verifico. A Olaria - um largo na minha terra - busca no ar o fogo que depois a água modera e fortifica. O barro faz-se boca à procura. Não comparo porque sei. E já sabia. Dizem que é como andar de bicicleta. Mas eu não sei andar de bicicleta, embora a minha filha jure o contrário. Ou se calhar sei. Que não se esquece. É o tempo nesta história o oleiro e eu na roda me encontro mais uma vez, mais as mãos modeladoras...   


sábado, 4 de março de 2017

O Aquecimento Local.

Voltou o frio. O Montemuro, o meu amado Montemuro, cobriu-se de neve mais uma vez. Cesse tudo o que a cartilha verde manda, que este tempo de global não tem nada. O calor medra pouco e curto, escasso e incerto. É buscar, senhoras e senhores, é buscar. E conseguir, já agora. Como desiderato não vejo nada mais necessário, nada mais premente. Necessito portanto de um bom Aquecimento Local. O mais...