segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Dezasseis.

A minha filha não faz anos de uma só vez. Por alguns imponderáveis, e também porque sim, sucedem-se uma, duas, três, quatro festas de aniversário. Sucederam-se, porque já aconteceu. Ele foi o ballet, ele foi com as amigas, ele foi com os amigos da mãe, ele foi em casa de meus pais. A festa com as amigas decorreu nocturna na hospedaria do Parque Biológico de Gaia. Organizados e fornecidos os víveres, feita a visita nocturna - bem mais extensa do que uma anterior porque o visitador tinha outro empenho e o tempo estava melhor - , retirei-me estrategicamente. Por cansaço de tanta luz. E pudor. Que perfeitos são os dezasseis anos. Idade imensa, que se permite ser sem passado nem futuro. Grandes e magníficas crianças ali estavam, prontas para o salto. Mas nele não pensavam e sim no bem que estavam ali.

domingo, 28 de dezembro de 2014

E o 2014?

Simples. As férias: o Gerês visto do outro lado e o Larouco; o planalto antes de virar para Pitões; Tourém e ali comer e ver a etapa da Volta a Portugal. A hipótese de uma caminhada. Street Art no Axa. Nadir Afonso em Boticas. A hipótese de haver teatro e a certeza de um aparelho que vai corrigir. Os dezasseis anos. Um cachecol que repete e sublinha. E o desengano. Que rima com o fechar do ano.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

"Too many".

Caro Amigo: lembra-se daquele fime onde um príncipe qualquer dizia a Mozart que a música que ele tinha composto tinha demasiadas notas? “Too many notes!” Veio-me à ideia esse filme ao observar uma TAC Cerebral, a sua. Onde havia um exagero de imagens, novas, não boas. Conheço-o pouco e através de espelhos que deformam. Mas adivinho que a sua vida terá sido um exagero, um despautério de ideias, um exagero que em vidas normais daria para duas ou três vidas. Talvez por isso este queimar de órgão traduzido nas imagens que vi, desgostoso. Olhe, parabéns por essas duas ou três vidas pensadas que teve. Pudesse eu dizer outro tanto. Até porque sei que com alguma frequência passou do pensamento ao acto. E fez bem algumas coisas e outras não e outras ainda melhor. As imagens que eu não consigo esquecer embatem na minha estúpida inveja, inveja sim, eu que nada fiz e que nada vou fazer. “Too many ideas!” Disse que não o conheço bem mas deixe-me adivinhar: o seu coração também não deve estar grande coisa.

Uma consulta divertida.

Tinha-lhe pedido uma consulta divertida. Não pôde ser. Até tinha umas coisas para agradecer-lhe. Por exemplo um abismo. A consulta anterior: nunca tinha eu visto tão perto um abismo como o seu. Um abismo que falava, onde era dito e repetido a inutilidade do ser e do estar, a pressa em encontrar uma porta, uma janela, uma saída para isto tudo. Até na veemência e na abertura da explicação via-se o quanto nos tínhamos em mútuo apreço. Disse-me com todas as letras: quero morrer. Outubro, seis. E ontem o seu marido veio contar-me o seu último dia. E exibiu-me a convocatória da consulta: “quero uma consulta divertida” manuscrito no papel da convocatória, letra de médico et pour cause. Que grande parvo! Eu. Querias diversão? Vou-me divertir para outro lado. Diziam que estava incapaz de conduzir. Enganou-os. Pegou nas chaves, decidiu um caminho conhecido, uma praia e o mar de sempre. Lembro-me de um filme onde o mar é o fundo dado para um possível paraíso. Estacionou e deixou o carro fechado, mas aberto. Caminhou pela praia e pelo mar adentro. Permita-me que lhe pergunte: chegou onde, Maria Antónia? E a pergunta final, a maior de todas: porquê a Maria Antónia, a inteligente, atenta e exigente com a vida Maria Antónia? E eu, o que faço eu agora, como justifico o meu estar, persistir aqui?

domingo, 21 de dezembro de 2014