Cá estou mais uma vez nesta praia cujo nome ainda não aprendi, se ainda é a da Boa Nova, se já é a do Aterro, tenho um para-vento laranja e uma toalha Deeply, porque insistem em arrumar-me a mala do carro... Começa a apertar a fomeca e o fuso horário, à minha frente pedras e uma capela, vento norte por todos os lados. Ponho os Sundays em repeat, uso o Miguel-Manso para escrever isto. O vento é um pouco a minha história, tantas coisas que o vento levou, eu sei, um filme. Mas este é um vento furioso que o que leva é para longe. À minha direita o mar de sempre, frio - um pouco, encapelado - também. Um pardal tenta almoçar. Um petroleiro é rebocado em direcção ao mar alto, levando talvez o combustível que tanta falta me faz. Distraio-me, New Order.
sábado, 8 de agosto de 2015
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Sophie, la malheureuse e Sophia de Mello Breyner.
"Ma bonne, ma bonne, dit un jour Sophie en accourant dans sa chambre, venez vite ouvrir une caisse que papa m'a envoyée de Paris; je croi que c'est une poupée de cire, car il m'en a promis une."
A Condessa de Ségur - Sophie de primeiro nome - começou a escrever depois dos cinquenta anos, cansada de se sentir abandonada pelo marido, e publicou o primeiro livro aos 57. Dois anos depois surgem "Les Malheurs de Sophie", o livro pelo qual é mais conhecida. Sophie - num relato que tem muito de autobiográfico - é uma menina voraz de viver a quem tudo corre mal, sendo castigada corporalmente com muita frequência. Este retrato cru da infância e onde a injustiça do castigo era frequentemente mostrada, influenciou bastante a evolução dos costumes educativos daquele tempo, a segunda metade do século XIX. Sophie é uma qualquer criança - que hoje sabemos que "não nasce ensinada". Mas Sophie ultrapassa a criança habitual pela sua paixão, pelo seu ímpeto. É difícil não nos apaixonarmos por Sophie.
Sophia de Melo Breyner é o único poeta português do século XX a ter lugar no Panteão Nacional. A sua poesia, que sustém a unanimidade de ser das mais importantes deste século em Portugal, e que apareceu na mágica década de quarenta onde também apareceram Sena, Eugénio de Andrade, Cesariny, Carlos de Oliveira, nunca foi a minha praia. Hoje percebo porquê. É demasiado perfeita. E como as coisas assim tão perfeitas, clássicas - Sophia tinha um fascínio particular pela Grécia Antiga - é uma poesia onde só se pode penetrar às vezes. É poesia apenas alguns para momentos. Eu prefiro poesia para todos os dias. Ou... histórias como as de Sopia/Sophie, la malheureuse, que pôs a sua boneca de cera ao sol para não apanhar frio e os olhos entraram-lhe pela cara dentro, que tinha derretido. Felizmente a mãe conseguiu resolver o problema e não houve castigo...
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Espuma das sextas: Maria Isabel Ferreira.
A D. Maria Isabel Ferreira tem duas casas. Na primeira vive. A segunda estará muito ligada a memórias passadas e, por isso, está organizada como se fosse a casa-museu de seu pai, o jornalista e pintor portuense Jaime Ferreira. Uma casa-museu não é habitação permanente a não ser das coisas que lá estão. E são frequentemente assaltadas, sobretudo se têm um estatuto apenas oficioso. Assim aconteceu. A PJ, quando foi tomar conta da ocorrência, fotografou as ausências mas também o que restava. Estranharam a quantidade e a qualidade do recheio. Silva Porto, Stuart Carvalhais. Papéis e papéis e papéis. A D. Maria Isabel desconfiou mas/e teve esperança que algo acontecesse. Não voltou a ouvir falar deles.
Jaime Ferreira foi jornalista, pintor e professor de pintores. A D. Maria Isabel traz catálogos de exposições de alunos do pai para me mostrar. Esta conversa já vem de consulta anterior. Num deles um seu retrato. Traz ainda uma cópia de uma reportagem aparecida no JN sobre seu pai, em 94. E mostra-me uma fotografia. 'Vê esta homenagem a Raul Brandão? A que está na Foz? Os moldes, os gessos, em tamanho natural, tenho-os eu!' Mostra-me ainda uma separata sobre Bernardino Machado exilado na Galiza, n'A Guarda, a ser entrevistado pelo jovem Jaime Ferreira, o ano? 1934.
Referi que a D. Maria Isabel tem 77 anos? Foi professora primária 47 anos, outra paixão que nos toma um quarto de hora. Hoje faz - sim, com 77 anos - a contabilidade do negócio do único filho.
Pede-me desculpa pelo tempo tomado. Pelas cópias, pela fantástica conversa. Esperou duas horas e um minuto pela minha consulta. Não sei como me permiti esperar tanto tempo!
Chick Corea & Gary Burton - Crystal Silence
Foi com este disco que nasceu o meu fascínio com os vibrafonistas de jazz, personificada em Gary Burton. O disco é de 73, o par toca aqui o tema-título 40 anos depois.
Por isto fui ver o Quinteto de Eduardo Cardinho à Casa da Música sem conhecer nada deles.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Varoufakis e a Esquerda Caviar.
Não me pareceu que Varoufakis ficasse bem parado na fotografia da crise grega. E também não gosto por aí além de caviar.
Não entendo porém a obrigação da esquerda dita "extrema" de viver em bairro social, usar palito nos dentes e ter uma higiene deficiente. Sei que a inveja não só move montanhas mas também destrói a praia que devia ser a nossa comum praia de descanso, a saber: o querer uma sociedade menos desigual, sobretudo à partida, também à chegada. Por isso as reacções a Varoufakis foram, às vezes, mais "quentes" e irracionais na nossa "quase-esquerda", ciosa da sua pertença ao arco da governabilidade e, também, viciada no seu caviarzinho... com chouriço porque há eleições.
PS.: pelo que vi nos sites dos hotéis de Atenas, no Booking.com, ter casa com vista para o Partenon não é assim tão raro como isso. Desconheço aliás qual é a vista do condomínio Heron Castilho.
Retratos da Fundação: Terra Firme por José Navarro de Andrade.
A Fundação Francisco Manuel dos Santos - to cut a long story short - ligada ao Pingo Doce, tem publicado ultimamente uns livrinhos chamados "Retratos da Fundação", com sucesso assinalável.
Acabei de ler um chamado "Terra Firme", onde se conta a história - verdadeira - de uma herdade no Alentejo, a Herdade das Figueiras, o seu nascer e crescer, como passou o PREC, a adesão à CEE, a globalização. Há essa história, há outras histórias e há também ainda outra, a de um ano, um ano agrícola, porque a agricultura é o passar activo do tempo aplicado à terra.
O livro lê-se rápidamente e bem.
E está muito mas muito bem escrito! O que também é outra forma de homenagear a... "ingrícola"!
"Quando o telão da máquina fica repleto, a azeitona é despejada num saco de 100 quilos, daqueles de polipropileno reciclado - com textura de ráfia ao toque: quais cestos de verga de outrora... - que os recolectores abandonam. Logo que puder, um reboque percorrerá o olival a coligir esses sacos, para os esvaziar em tulhas no pátio central da Torre de Figueiras; daqui a carga transitará pela tarara de limpeza de maneira a que fique purgada de lixo e detritos. A pura azeitona é de seguida elevada até à grande tremonha aérea donde escorrerá a pique e com muito rufo para o bojo de um dos camiões que a vêm buscar e que vai sair da herdade pelo mesmo caminho por onde entrou, ou seja, pela balança. É na diferença entre o peso à chegada e à saída do camião que se calcula o volume da venda e o concomitante valor do negócio."
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