segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Amadeo dizia a verdade.

A chalupa

Amadeo de Souza Cardoso disse, entrevistado: "Sou impressionista, cubista, futurista, abstraccionista? De tudo um pouco." A exposição que reside até 16/12 no MN Soares dos Reis no Porto recomenda-se e em abundância. Atravessa-se as cores escuras das primeiras salas da exposição permanente, os tons suaves dos primeiros realistas, Silva Porto, etc., e a sala das esculturas do patrono, Soares dos Reis. E preparem-se. A pintura acima, "A chalupa". Futurismo, certo? A pintura do meio, "Máscara de Olhos Verdes". Fauvismo, não? Amadeo foi muito mais do que a última descoberta da explosão cubista da Escola de Paris. E a pintura final? Lembra Mário Eloy, o pintor português louco, décadas depois, o que mais próximo nós tivemos do... Expressionismo! Como se chama o quadro? "O Jovem Louco".

Green Eye Mask - Amadeo de Souza-Cardoso

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O Exame, de Cristian Mungiu (with spoilers).

Porque decido ver um filme? Porque fui ver o filme “O Exame” de Cristian Mungiu (vidé entrevista)? Por um equívoco de metalinguagem. Nem mais. Giro. Correu bem.

É de cem minutos a demora média de um filme. É muito tempo. É um piscar de olhos. 

O PIB per capita da Roménia é metade do de Portugal. Tenho talvez metade da capacidade de esforço que tinha há vinte e cinco anos. Fiz recruta há, isso, exactamente 25 anos. Sofri o velho teste de Cooper à entrada e à saída. Impressionante o que um mês fez pela minha capacidade física, já então no limiar da deficiência. Hoje… O romeno é uma língua engraçada, soa a italiano cortado com checo, como se fosse uma droga de rua. Soa bem mesmo assim, como as drogas de rua que batem bem mesmo assim, cortadas. Portugal vive em queixa. Imaginem agora metade do nível de vida que temos, metade ou um pouco menos.

E, porém, o nível de vida não tem nada a ver com a vida das pessoas, suas curvas e acidentes. As linhas que prendem e seguram, grossas ou finas. Sempre há  linha que é mais fina, mal entrançada ou enganosa na força. Pensamos que apenas parte delas são importantes, que há aquela e aquela amarra que podemos deixar cair e porém olhamos para baixo e o abismo logo aparece, logo ali. Assim o filme, que é o filme sobretudo de um pai, um cirurgião predominamente honesto numa Roménia predominantemente mini/médio-corrupta, que quer lançar a filha, rapariga de boas notas para fora dde tudo aquilo, para Cambridge, para fugir ao PIB per capita inferior a metade do português. Um romeno que sobreviveu a toda a Roménia – tem idade para ainda ter conhecido Ceausescu, e depois a transição, e depois todos os desastres da história política romena recente… - mas que quer, em suma, que a filha deixe de ser romena. Um doente meu pagou o curso de medicina a um sobrinho na Roménia – correu bem, divertiu-se imenso, foi bem recebido mas as palavras-chave são “já voltou”. Ninguém quer aquilo?

O filme tem duas cenas que ditam a sua qualidade, que me parece bastante. Numa a polícia romena, num alto arborizado e servido por um teleférico, procura alguém. Vemos meia dúzia de polícias, parados, com binóculos, olhando para um lado, para o outro, parados. Procuram sem procurar. Que se só para que conste. O chefe de polícia, amigo de infância do cirurgião, conversa com este sobre o que são os "factos da vida" na Roménia. E depois diz: “Bela vista, esta!”. Responde o cirurgião: “Quando éramos crianças a vista para o outro lado era a melhor. Mas as árvores cresceram!” Sim, como ver? Como decidir? As árvores cresceram. Pouco depois o cirurgião, que degrau a degrau vi perdendo mulher, amante, filha, honestidade, carro, numa paragem de autocarro julga ver o maltratador da sua filha. Sai e procura-o, no meio da noite, por entre estranhas casotas de madeira, zonas abandonadas. Mas nada lhe acontece. Nada. Espera-se um ataque que não acontece. Chega a casa da amante e dorme no sofá. "Onde" em sua casa dormia antes, no sofá.

Assim é sempre, as verdadeiras e definitivas crises são raras, vislumbramos o abismo, o ataque, a degola. E não. O tempo passa e sempre acontece menos do que parecia. Mas passa o tempo, ora se passa. Cem minutos, e o fim de um período lectivo. Pai a querer o melhor para a filha. Filha que duvida. O que um filho não vê não é visto - regra número um.

O exame final acontece, no Norte costumamos dizer que “quem não chora não mama”. Uma vez vigiei uns testes, uma aluna começou a soluçar, não entregava o teste, já passava a hora. Esperei um pouco. Outra aluna veio ter comigo. “Quero o meu teste de volta. É que se não recolhe o dela...”. A Roménia não é Portugal, na minha consulta muitos doentes contam-me de familiares mais novos que emigraram, sem grande drama anexo, que estão bem, que talvez não voltem. Mas eu não sou cirurgião. Ninguém é o outro ninguém. A dificuldade está no alguém que tentamos ser e, no entanto, o caminho para lá não é fácil de ver, crescidas as árvores - lá e cá.



sábado, 26 de novembro de 2016

Alto Douro, fim de Novembro.

As boas coisas, as boas terras, merecem ser vistas não só quando mandam os cartazes e os guias mas também nos outros dias. A aposta não será assim tão arriscada porque, se as coisas são boas e se as terras também, a recompensa é mais do que provável. Assim o Alto Douro Vinhateiro.

Hoje, passado o Marão, que me ofereceu as suas primeiras nevadas - e que bom fazer a IP4 agora com menos trânsito do que antes - tinha pensado ir espreitar o Montemuro por trás, que nevado também deveria estar. Ao descer a A24 pouco antes da Régua vi à minha frente as Meadas completamente fechadas com nuvens e percebi que iria gastar muito gasóleo para nada. Sendo assim, não havia como olhar à minha volta e sair da auto-estrada, onde parar não se pode, e fazer um pouco da N2. Novembro a acabar, as cores são de um Outono final. A vindima aconteceu ainda não há muito, a apanha da azeitona é por estes tempos. A terra deu tudo o que tinha para dar. Toda a chuva é bem vinda. As cores acobreadas das folhas da videira contrastam com o verde perene da oliveira, com o castanho escuro do terreno. Onde as há as cerejeiras também amarelaram. Os tons são de fim de festa, soa o aviso "vamos recolher", vem aí o Sr. Inverno, e eu bem que o sei porque a neve, já a vi.


ABE, pá, da-se!!!!

Deparei-me com um guia simpático, gratuito, chamado "Inbicta", produzido pela ABE, Marketing & Comunicação. Pousado estava em Serralves para disfrute, por ex., meu, e incluia referências aos restaurantes, sítios para visitar e lojas de maior interesse nas três zonas do Porto com mais "footfall". Nem mais. Longe de ser exaustivo mas bem feito, trata-se de um daqueles guias alt-mainstream que toda a Cidade Europeia tem, tal, hoje em dia, o Porto.

Dediquei-me, porque sem mais o que fazer, a contar das 22 lojas mencionadas, quantas tinham nome (em) português. Contei 4. Considerei a Haity e a Eureka matchs nulos. Explicito que as zonas de maior "footfall" eram Clérigos, Santa Catarina e Boavista.

Portanto, as 4 portuguesas: Luís Buchinho, Anselmo 1910, Porto Meia e Fátima Mendes.

As apátridas: Fashion Clinic x 2, Max&Co, Fly London, La Petite Coquette, Porto In, Paez, Clérigos In, Daily Day, Dumonde Chocolat, Violet & Ginger, The Feeting Room, FreshJealous, Skunkfunk, Pollux, Xtreme.

Da-se!!!!

PS: a ABE tem escritórios em Vale de Cambra, S.João da Madeira e Luanda, por esta ordem.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Insisto, é o Silo!

Só eu para falhar o quase único dia em que o Nuno Malheiro Sarmento não podia estar presente no Silo do Norte Shopping, a galeria de arte que eu mais aprecio e frequento no Grande Porto, estrategicamente localizada no Norteshopping. Mas estavam lá as obras, ergo...

O Silo, concebido pelo Eduardo Souto Moura, está feito de uma forma que permite criar uma enorme diferença de ambiente entre o piso superior, luminoso, e o piso inferior, mais nocturno. Claro que o tijolo que domina o espaço modera todo e qualquer excesso de luz. E, no entanto, mas, porém...

Nunca o Silo tinha arriscado, que eu tenha tomado conhecimento, uma exposição colectiva desta dimensão. São trinta, os artistas, trinta. Trinta caminhos, trinta hipóteses de trabalho. É tirar apontamentos. 

Poderei tomar a liberdade de apelidar o meu amigo Nuno de galerista? Não vai ficar chateado? Pois assim não sendo, aqui deixo escrito que o galerista dispôs as obras com suprema inteligência, com um crescendo nas técnicas e nos volumes no piso superior da direita para a esquerda, e guardando algumas opções mais atípicas para o piso inferior. Não vou destacar nomes, destaco a diversidade das propostas, a curiosidade que quase todas as obras me suscitaram. Ah, e, aqui e ali, a preços muito acessíveis, caro galerista!

Pois é, visitemos então!


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Quatre-vingt-dix.

Os franceses é que a sabem toda, com aquela coisa do quatre-vingt-dix, como se os oitenta fossem uma espécie de limiar e a partir daí os anos a haver um sobejo, quatre-vingt-un, quatre-vingt-deux...
 
Noventa anos é mesmo muito tempo. E quando ontem me perguntaram se havia algum dvd ou cd que tu, dentro dos teus gostos que assumiram que eu conhecia, tu gostarias de receber, respondi a verdade, que não sabia, e depois menti: disse que não me lembrava de alguma vez ter tido conhecimento de tu com a minha mãe terem alguma vez ido juntos ao cinema. Efectivamente vocês foram uma noite ao cinema, uns tios meus ficaram a tomar conta de mim, a experiência não correu bem, eu expliquei-vos isso na volta. Hoje que penso, como diz a tua neta, nasceste antes do Sunrise do Murnau (27) e do Maria do Mar, do Leitão de Barros (1930). Nasceste meses depois do Vinte e Oito de Maio, e o teu primeiro Presidente da República foi o Marechal Gomes da Costa, que hoje por hoje dá nome a tantas avenidas.
 
Da tua infância nada sei também. Um destes recentes dias - recentes querendo dizer nos últimos anos - em conversa com o teu irmão Mário, este contou-me pequenas peripécias da sua infância, da tua também, portanto. Nesses pouco minutos pude espreitar pela primeira vez o nunca contado, como foi Ovar nos anos trinta, nos anos quarenta, como foram as coisas que eu nunca te perguntei e por isso tu nunca me contaste.
 
Uma história apenas contas uma e outra vez, a do namoros dos teus pais, meus avós, de talho para talho, porque os mesmos onde trabalhavam ficavam na mesma rua. Vamos assumir que se trata de uma história com um final feliz, mais propriamente sete, pois foram sete os filhos que vingaram. E porque vingam os filhos? Porque a má sorte é assumida ao nascer, o chegar a adulto um calhar, uma coincidência, um bafejo da sorte. Dos filhos só tu e o meu tio Guilherme não fizeram do cortar carne profissão, parcial ou completa. Ser talhante, cortar a carne que outros vão comer, é uma profissão peculiar. Começa pelos cheiros. Aos quais me habituei de pequeno. O cheiro da carne crua, nomeadamente da de vaca, é-me agradável. Depois o toque. Pegar nela, escolher o melhor lado para cortar, adivinhar as aponevroses, o fio da carne, de forma a que saiam bons nacos para cozer, para assar, bifes. E antes olhaste e disseste de onde era a carne, a peça pendurada de um gancho na tua imaginação. Chambão, chã-de-dentro, a pá. A rabada, que me ficava na boca ao trincar e eu não gostava dela. Nos supermercados começaram a cortar a carne de uma forma diferente - disseste-me. E eu a pensar, solidário. "que pena!". Quando, uma vez por semestre, compro carne num talho e a cozinho, preparo-me, lavo as mãos, escolho a melhor faca e pego na carne, dou-lhe voltas e voltas, corto e volto a cortar. Como se soubesse.
 
Penso agora que a minha filha pouco ou nada sabe também da minha infância. Talvez a minha seja a tua vergonha, porque a minha infância foi confusa, pequena, escondida. Mas mais um vez engano-me. A tua vergonha não será, certamente, a minha. Para começar, quarenta anos de distância nos separam. Depois seis irmãos. Sei hoje, levei cinquenta e dois anos para o aprender, que coisas minhas há que são tuas, outras da minha mãe, outras minha tão somente. Ninguém copia ninguém. Peça a peça, fui-me reavendo, recentrando. Assim a minha filha que, esquecido o disfarce da cara, nada a mim deve.
 
Numa coisa porém te copio: os cuidados que pela manhã tinhas comigo nos tempos de apanhar o comboio para a faculdade, o acordares-me, o certificares-te que eu acordei, o aqueceres-me o pequeno almoço. Assim mais ou menos faço hoje, quando o turno é meu. Lembro-me porém quando, quase preocupado, me avisavas de como o café pode ser forte, melhor o descafeinado, ainda não te tinhas apercebido como o Porto me tinha feito crescer tão rápido e tão para fora.
 
Não conheço quem, com valia, de ti tenha má opinião. Essa unanimidade exterior à casa confundiu-me em tempos. Hoje sei que é afinal muito cansativo fazer o correcto todos os dias nesta vida sem prémio. Sem prémio, repito. Todos os dias. Mas prémio haverá às vezes, como agora, noventa anos passados, no simples que tens os teus dias. Merecidos dias simples e claros.
 
Falo, ou escrevo, demais. Estendo-me as mais das vezes ao comprido. Hoje também. Uma última coisa há que queria reaprender contigo: a, só, palavra justa. Ou, na sua ausência, o silêncio.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Balanço rápido de um C.


Sobrevalorizamos as diferenças percentuais.

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Uma não inferioridade habitualmente não chega, pelo que estou lembrado.

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Um intervalo de não inferioridade desenha-se entre as minhas noites e as tuas manhãs.

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O subgrupo que mais me interessa é o das mãos.

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Elegíveis? Ilegíveis?

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Craig Anderson, you are so wrong!

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Que problema havia com a saia dela? As ancas subjacentes? Ou o diálogo entre ambas?

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Não, ninguém troca experiências.

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Houve quem fosse mesmo embora. Uns poucos.

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Preso, transportam-te na boca, fraco animal domado. Á porta te deixaram desta sala - "Vai, mas

com cuidadinho!" Entras, humilhas. No regresso és agraciado com um abocanhar vagamente

meigo, os dentes buscando repetir por piedade ou desdém as mesmas feridas que eles na tua

carne mole provocaram na vez anterior

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Mas, já agora, palmas que se ouçam!