segunda-feira, 5 de maio de 2025

A minha preocupação com os cadidatos a PM que... "NÃO LÊEM" - parte dois (os três B's).



Sá Carneiro morreu e o ónus da governação passou a Francisco Pinto Balsemão que liderou 2 governos. Ministro 80-82 aconteceu alguma reconciliação dentro do PSD. Manteve-se a coligação AD. Cavaco Silva foi substituido por João Salgueiro. Dos opositores a Sá Carneiro Meneres Pimentel tomou conta da Justiça. Apareceram no governo as estrelas Ângelo Correia e Marcelo Rebelo de Sousa. O CDS ofereceu ao mundo Francisco Lucas Pires. Em resumo, um governo com um elevado grau de... LITERACIA. Vindo dos governos de Sá Carneiro aparecia Álvaro Barreto, o tecnocrata que já servira sob Mota Pinto num governo daqueles de iniciativa presidencial. era o 3ª Primeiro-Ministro que conhecia, e trabalharia com mais três, Soares, Cavaco Silva e Santana Lopes. Nos intervalos circulava alegremente por bancos e indústrias. Um exemplo que foi amplamente seguido. Encontrei poucas palavras más sobre ele na net, falecido em 2020., sim elogios. Muito do percurso industrial português durante pelo menos 25 anos por ele terá passado. Eu explico: CUF/Lisnave/Setenave até 74. Ministro em 78-79. TAP em 79-80.  Ministro em 80-82. Soporcel  em 82-83. Ministro de 83 até 90. Outra vez Soporcel até 2004. Ministro pela última vez em 2004 com Pedro Santana Lopes, fixou-se finalmente no mundo empresarial, terminando no Millenium BCP já octogenário. A sua LITERACIA estava assegurada pela sua formação, ainda antes do 25 de Abril, em Harvard, bolseiro pago pela CUF. De base sendo Engenheiro Civil do IST. E que foi duas vezes também Ministro da Agricultura.

Pinto Balsemão cansou-se de intrigas, nomeadamente da oposição no próprio PSD e da instabilidade no CDS e foi-se embora no início de 83, para nunca mais. 4 anos depois criaria a SIC e continuaria a influenciar Portugal, até hoje, lembrando ainda o Expresso criado em 72. O PSD ficou entregue a Carlos Mota Pinto, que perdeu honrosamente as eleições para Mário Soares. Eram os dois conhecidos... LEITORES. E criou-se o famoso governo do Bloco Central. E aqui temos o terceiro "B".

PS: CUF era Companhia União Fabril, não um qualquer hospital privado.

A minha preocupação com os candidatos a PM que... "NÃO LÊEM " - parte um. (o começo).



Nestes tempos incertos em que nos encaminhamos uma vez mais para eleições torna-se importante PENSAR nos cinquenta anos que aconteceram e que, aliás, decoram um cartaz que aparece pelas ruas e pertence ao partido Chega. E vou reflectir nos primeiros-ministros que tivemos. 

As pessoas não precisam de se preocupar com as minhas reflexões, elas não vão ser profundas. Vou apenas dividir os primeiros-ministros que tivemos entre aqueles que... "LÊEM" e aqueles que... "NÃO LÊEM".  Ler acrescenta, ler optimiza, ler potencia. Ler permite um outro olhar. Uma pessoa que vai liderar um país tem que ser uma pessoa "LIDA" ou, para ser mais correcto, "LEDÔRA". Tem? Então estamos mal porque, para não ir mais longe, os dois candidatos a primeiro-ministro que hoje temos, Pedro Nuno Santos e Luis Montenegro... "NÃO LÊEM". Como é que eu sei? Sei! Ninguém mais notou?

Quando o partido Chega - cujo líder André Ventura não só NÃO LÊ como ainda por cima ESCREVE MAL - fala de 50 anso comete uma pequena imprecisão. O 1ª governo constitucional, de Mário Soares, tomou posse em 1976 - há 49 anos. Mário Soares... "LIA", bem como o seu oponente Sá Carneiro. Uma situação oposta à de hoje. Como é que isto foi acontecer?

O primeiro governo de Soares era um governo onde aparecia muita gente alinhada com uma corrente mais moderada do PS. Lopes Cardoso, que estava na Agricultura e Pesca, foi substituido em meses por António Barreto. Medeiros Ferreira estava nos Negócios Estrangeiros. Os mais políticos eram o amigo Almeida Santos, Jorge Campinos e Mário Sottomayor Cardia. A caução republicana advinha de Henrique de Barros, já septuagenário. Neste governo encontramos as únicas intervenções governativas de Medina Carreira e de Rui Vilar. Em 77 Carlos Mota Pinto, então independente, entrou para o governo. Era um governo moderado, com dois militares dentro, Costa Brás na Administração Interna, Firmino Miguel na Defesa. Lembro que o Conselho da Revolução ainda era vigente. Mário Soares precisava de um governo moderado para trabalhar com a CEE, o FMI e roubar votos ao PSD. O socialismo "estava na gaveta". A austeridade levou à moção de censura e o governo caiu em 78. 
Soares surpreendeu voltando à carga com um governo PS-CDS. Antecipando as grandes coligações germânicas de hoje. O objectivo era a) a estabilidade. b) isolar o PSD, tentando a médio prazo minorar um partido que se dizia "social-democrata" mas que com Sá Carneiro se polarizara e alinhava com o centro-direita europeu.

O segundo governo de Soares aguentou enquanto o CDS aguentou. o que não chegou a um ano. Neste ano António Arnaut foi ministro e deu inÍcio oficial ao SNS, Vitor Constâncio foi ministro pela única vez no seu percurso e aparece na indústria o primeiro nome controverso associado ao PS (posteriormente ilibado - quem não?), Carlos Melancia. A Administração Interna passa para um civil que se chama Jaime Gama. No outono de 78 o CDS abandona o Governo. Acontecem depois 3  estranhos governos de iniciativa governamental, liderados respectivamente por Nobre da Costa, Mota Pinto e Maria de Lurdes Pintassilgo. Ninguém duvida de serem "LEITORES" cada um destes fugazes primeros-ministros nomeados por Ramalho Eanes. Que, já agora, "ANDAVA A LER".

Fomos para eleições, o CDS aliou-se com o PPD/PSD e o PPM e aconteceu a AD, liderada por Sá Carneiro. Que também "LIA". Vivia aliás uma relação amorosa com uma editora de livros - querem mais? Sá Carneiro apresentava-se neste governo com um triunvirato político constituido por ele, Eurico de Melo e Vitor Crespo. A dissidência que acontecera com a ASDI roubara muitos quadros ao PSD. O CDS brilhava no governo com Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Rui Pena, Vitor Sá Machado. Todos LEITORES. Nas Finanças pontuava um desconhecido, Cavaco Silva. Um mistério. LERIA? Era um governo com apoio maioritário na Assembleia da República. Um governo de combate, combate contra Eanes, contra Soares, contra o pós-PREC que ainda tomava conta do país. Sá Carneiro não funcionava de outra forma. Soares, na campanha de 80, apareceu de galochas com Maria Barroso em Nafarros a cultivar um talhão de terra e a defender os valores da família. Era os tempos de Snu Abecassis. O meu desprezo por Mario Soares criou-se nesse momento e ficou para sempre.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Bergoglio, Obama e Jacinda Ardern.



2025. E 25 anos passaram neste século malico.

E três figuras iluminaram estes anos.

Uma foi Barack Obama. De quem gostámos tanto que nem nos atrevemos a reavaliar o seu legado.

Outra foi Jacinda Ardern, a primeira-ministra neozelandesa que durante cinco anos foi o melhor político do planeta até que, esgotada, saiu de cena. A mensagem sendo dupla: os cinco anos e o seu sincero cansaço.

E tivemos Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco. Que morreu hoje.

Apagou-se a luz ao mundo.


PS: a minha visão tem um óbvio viés ocidental. Curiosamente as três figuras que elejo provém das Novas Europas definidas por George Steiner. Este velho e pequeno continente em que me movo e situo neste 25 anos ofereceu ao mundo uma folha em branco.




Bergoglio, Nietzsche e Trump.



Em 1882 Friedrich Nietzsche declarou pela primeira vez, no seu livro "Gaia Ciência", que "Deus estava morto e que nós o tínhamos matado". Nietzsche receava que o ruir da coluna vertebral fornecida pelos princípios da Igreja Cristã ao Ocidente perante a ciência, a racionalidade, o secularismo e o porvir industrial, provocasse um vácuo na existência humana. Nietzsche duvidava que a humanidade conseguisse uma auto-determinação plena e conseguisse tomar o seu destino entre mãos e bem, construindo um mundo melhor.

143 anos depois, repete-se o raciocínio. Mas desta vez quem morre é mesmo alguém, palpável, Jorge Mario Bergoglio, um homem argentino de 88 anos que decidiu chamar-se a si mesmo de Francisco buscando inspiração no mais humilde dos Santos. Francisco era o representante terreno do Deus Morto de Nietzsche. E, porém, ele era sobretudo a consciência moral de um Ocidente a ruir. Podia alegar não ser dele a voz. Mas era. Ao ouvi-lo falar eu não ouvia mais ninguém mas a voz dele sozinha era mais do que suficiente. 

A ciência e a razão estão a ser atacadas, a ideia de Deus é traficada por vendilhões do templo, o secularismo não conseguiu cumprir as suas promessas de iluminação e paz. Eu, que não sou filho de nenhum Deus, sei bem que hoje morreu um Filho de Deus. Donald Trump e associados são um rebanho de novos Bezerros de Ouro. Saio do meu trabalho, olho à minha volta e fico com uma sensação de que falhámos.

E sinto-me órfão da voz e do olhar de Francisco.  Do seu passado argentino de crescimento lento. Órfão da palavra. Dos seus tão humanos humores. Órfão de tudo. 

Está cada vez mais difícil manter-me Vivo, Francisco.

terça-feira, 18 de março de 2025

Este Cabelo.




Acabei de ler o primeiro livro de Djaimilia Pereira de Almeida, "Esse Cabelo". O computador não parece concordar com a grafia do nome Djaimilia, a mesma leva todo um livro a tentar concordar consigo e com o seu cabelo, crespo e seco porque filha de branco e de negra. "O cabelo é a pessoa.", remata na última página do texto. Assim sendo, o que sou eu?

Reduzido o meu cabelo a escassa expressão entre os meus 25 e 30 anos, assim me possa talvez definir: "escasso". Mas o pouco cabelo que exibo sou eu. Um núcleo, meia dúzia de frases que existem, não mais, e que algures lá foram ditas numa qualquer cerimónia sem aviso nem marcação.  Frases perdidas? De livros feito, nunca nenhum ultrapassou aquele conto da Ana Maria Matute refeito pela Maria Alberta Meneres que, lido na minha infância, atirou a minha imaginação para uma Ilha Maravilhosa onde nada mais era preciso dizer porque todas as palavras já estavam ditas. Acabei de fazer 61 anos de idade e tudo o que ainda possa dizer parece-me hoje pura redundância. 

Assim acontece com algumas doenças que nos roubam o cabelo. Duras e inapeláveis doenças. O cabelo que volta, e demora tanto a voltar, pode não ser o mesmo que partiu. E a pessoa que resta e prossegue pode não ser já a mesma a quem a doença sem atenção nem pudor entrou pela janela.

Por último penso no cabelo da minha filha. 

quarta-feira, 12 de março de 2025

Montenegro e a palavra "pactuar".


Hoje como de costume fui visitar a minha mãe que, pela sua fragilidade, vive e é (bem) cuidada numa residência de idosos. Falámos do costume e fizemos o habitual, sendo o habitual também fazer as palavras do JN. A primeira palavra na 1ª linha horizontal era de 7 letras, um sinónimo de "condescender". Não fomos logo lá, mas a meio da jornada a minha mãe descobriu e disse: "pactuar!"

Pactuar.

Vou rapidamente explicar porque votei PSD/AD nas últimas eleições. Há partidos com projecto e há partidos de causas. Sempre achei que o PS podia ser o partido com o projecto certo para Portugal. Depois de Guterres, Sócrates e Costa, acabei por desistir do PS. António Costa nomeadamente dispôs de uma maioria absoluta a sustentar o que se revelou ser um completo "NÃO-GOVERNO". Em oito anos nada de relevante aconteceu que servisse para modelar o futuro do meu país, nada. António Costa, que chegou ao poder com talvez o pior resultado da história do PS, conseguiu fugir durante oito anos a tomar qualquer decisão com o mínimo de ousadia. Muitos ministros pareciam  "Ministros-Zero". Por isso votei AD. Por não poder PACTUAR com o estado das coisas. Sabendo que não ia concordar com muitas das decisões, mas sim com algumas, até porque uma coisa é a ideia, outra coisa a realidade de uma sociedade castigada pela inacção, pela paralisia. 

Com a subida da votação no partido Chega, essa negação do racional e da coisa política, era pedido ao governo que surgisse das eleições uma prática limpa, impoluta. Sob o risco de a extraordinária votação do Chega continuar a subir, regada pela suspeição e o logo de "todos maus, todos iguais".

E a governação do mais minoritário dos governos começou a governar. Notou-se que não era um "Não-Governo" como o de António Costa, ora acertava bastante (na Educação) ora errava.. muito (na Saúde). A população portuguesa notou isto e respondeu com sondagens positivas que colocaram o novo líder do PS, Pedro Nuno Santos, na defensiva.

Até que aconteceu o caso da empresa familiar de Montenegro com o nome difícil, Spinumviva. Empresa constituida em Janeiro de 2021 à volta aparentemente dos saberes de Montenegro na legislação sobre a protecção de dados mas com objectivos difusos envolvendo variadíssimos aspectos decorrentes do património pessoal e familiar de Montenegro. Ao saber-se primeiro-ministro Montenegro vendeu ou doou a sua quota à esposa e portanto "saiu" da empresa, mas na realidade "sem sair", estando eles casados em comunhão de adquiridos. Não acredito aqui que tenha havido corrupção, não acredito. Espero não estar enganado. Espinho "é" a Solverde.  E Montenegro é de Espinho. Mas foi um erro infantil Montenegro não "congelar" ou até vender esta empresa, como se chegar a primeiro-ministro afinal lhe acontecesse como um aguaceiro de verão, um detalhe apenas no seu percurso profissional, não aquilo que só pode ser, um Serviço Maior ao País que nele votou. Com este erro, esta infantilidade, ou falta de inteligência, eu não devia poder PACTUAR. Se Montenegro não ganhar as eleições, e porque a maioria de votantes vai continuar a ser de direita, "encrava" por completo a governação do País.  Ele que até estava a governar melhor, bem melhor do que António Costa (excepto na Saúde...).

Pelo interesse nacional, Montenegro, indeciso embora, posso eventualmente voltar a votar em ti. Para bem de um país, do qual, distraído, te esqueceste.

Serei condescendente. Pactuarei. Ou não, Montenegro, ou não. 


PS.: apesar de tudo esta sorte temos, nós os portugueses, o Chega andar indiciado por pedofilias, alcoolémias, roubo de malas. Sobre a Ministra da Saúde, agora passado, falarei outro dia.


sábado, 1 de março de 2025

O Solverde e Montenegro. Ou e se fosse eu o Ministro da Saúde?


Para explicar esta trapalhada  entre o Montenegro e a Solverde vamos imaginar uma coisa: e se eu chegasse a Ministro da Saúde?

Trabalhador da saúde - médico - no Hospital de São João no Porto, 35 anos de salários seriam imediatamente questionados, o que é um salário senão uma avença! E todos mas todos estariam à espera de avaliar o meu favoritismo em relação ao "meu" hospital. Seria obrigado a pedir escusa de decisão sobre ele, etc. A minha mulher, trabalhadora da saúde também - enfermeira - durante 37 anos na mesma casa, ao receber o seu salário, seria eu na realidade a receber esta outra avença, a minha mulher feita transparente, não contando. Mas não contando ela teria que se despedir não só do São João mas também do grupo privado de saúde onde trabalha (outra avença), pensando bem, não fosse eu favorecer, etc.

Chamem-me Montenegro e casem-me com a esposa dele e está tudo explicado, não?