O meu vizinho do lado estava agora mesmo a acabar de esvaziar o apartamento, verdade seja dita que é melhor do que o meu, no chão da sala uma casa de bonecas como nos filmes, a porta estava aberta, a mudança provavelmente quase no fim e eu pensei: sim, é mesmo verdade o que dizem, nunca é tarde de mais nem nunca é o dia errado para MUDAR!
domingo, 24 de dezembro de 2017
sábado, 23 de dezembro de 2017
Mais onze poemas de onze poetas - o que perfaz setenta e nove! Ou doze?
Agora estamos mesmo metidos nos anos setenta e, muito, no "Cartucho". Vinte poemas embrulhados num cartucho de papel fechado por um cordel chumbado, e quatro autores, três aparecerão abaixo, descreve Joaquim Manuel Magalhães (JMM) o terem saido da tipografia e sido parados no 28 de Setembro de 74 pelos comités de vigilância, a data do "Cartucho" acabou por ser só 76. JMM decidiu que era tempo do "regresso ao real", que o fez só ele e todos os outros que começaram a escrever como ele, mas isso é outra história, oitenta, noventa, sigam os poemas, vá! Na verdade gente muito vária por aqui anda.
############
NUNO GUIMARÃES (1942-1973)
Pendurado ainda sobre poesia dos anos sessenta, nomeadamente a Poesia 61 e o Carlos de Oliveira contemporâneo. Mais um meteoro poético, e houve muitos por cá. Que um livro seu se tenha chamado "Corpo Agrário" é o pouco que lhe resta de um neo-realismo há muito perdido.
##
Palavras que rebentam. Aflorando
a pedra, a solidão, deslizam, vagas,
gramaticais, roendo inconformadas
as arestas, o atrito, puras. Quando
nos líquidos, no éter, na distância,
diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
combatem, rumorosas, cal e cântico.
É difícil atarem corpo e vida
aos que vivem e morrem subjacentes
subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
rebentam em ogiva, funcionais
chamas supostamente adormecidas.
############
INÊS LOURENÇO (1942- )
Só publicou em 1980 e portanto não fez parte das guerrilhas dos setenta. A mulher dos Cadernos de Poesia - Hífen, por isso muito lhe devemos. Poesia presente, atenta. Protestante, diria.
##
indolor
Se querem musa legal
e registada, hábeis
balbuceios desejantes,
sentidos soporíferos de
inócua saliva, não
me leiam.
Porque um livro
é superior á vida (que
de resto não é
grande coisa). Pode-se
fechar reabrir a
cada instante,
esquecer abandonar perder
e não dói nada.
############
VASCO GRAÇA MOURA (1942-2014)
Outro caso de muito barulho à volta, ele é a política, ele é a tradução,ele é toda a intervenção pública, a Fundação Casa de Mateus... começou a publicar ainda nos anos 60, e a sua poesia, até talvez mais por teimosia do que por convição ficou-se por um classicismo fora do seu tempo. Uma boa antologia, que eu saiba, não existe. Terá exigido que não?
##
FANNY
fanny, a grande
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto,
e filha de uma inglesa,
tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.
uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e
deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro
se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e
fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,
na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto,
e filha de uma inglesa,
tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.
uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e
deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro
se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e
fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,
na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.
############
CAEIRO, RUI (1943- )
Homem do mundo "& etc", começou a publicar discretamente e tarde. Sem partido nem escola, a água a correr do que escreve é da melhor qualidade.
##
Deixar a vida como quem se cura de uma doença má
CAEIRO, RUI (1943- )
Homem do mundo "& etc", começou a publicar discretamente e tarde. Sem partido nem escola, a água a correr do que escreve é da melhor qualidade.
##
Deixar a vida como quem se cura de uma doença má
saborear o último momento como um fruto exótico
amarrotar o papel do poema derradeiro
expelir com um piparote
############
JOÃO CAMILO (1943- )
Um estrangeirado, nesta fase do campeonato pelos States, creio. Um académico exterior. Uma fixação antiga que ainda não descorou por completo. Poesia no limiar da prosa, do anonimato. Apontamentos.
##
SE POSSÍVEL
Uma árvore à beira da estrada.
Eu estarei à tua espera ou surgiremos
os dois ao mesmo tempo da confusão
dos caminhos. A montanha perto ou
a planície com a seara e as papoilas.
A paixão já se terá tranquilizado
no teu espírito e no meu. Supor-
taremos o seu peso sem que nos
vergue para o chão a dor da emoção
intensa. Nesta vida ou na outra havemos
de encontrar-nos. Antes de morrer, se
possível, digo eu aos deuses, deixai-nos
remediar o erro, recuperar uma parte
da alegria antiga, do fogo que teria
queimado na nossa juventude a sua
pele e a minha, até nos rebentarem
as lágrimas de uma insuportável feli-
cidade nos olhos. Deixai, ó deuses,
antes de morrermos. Nesta vida.
############
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE (1943- )
Fernandes Jorge está entre os poetas portugueses do século XX que melhor conseguiram definir o seu território de escrita, e tão bem o fez que por ali quase ninguém o seguiu. Filho espiritual de Ruy Belo, par estratégico nos primeiros tempos de JMM, os dois entraram pelos anos setenta para redefinir o que era a poesia portuguesa. E conseguiram. Só antologiado por Eugénio de Andrade na colectânea "Eros de Passagem", a todos os outros reconhecimentos disse não, idem o seu par. A poesia de João Miguel utiliza um método meticulosamente fragmentado de retratar os quotidianos, acotovelando inúmeras vezes na pintura, a escultura, a História, para dizer. É como uma silenciosa (quase) corrente de água onde ninguém vai e, porém... por ali passou-nos o Poeta. É uma poesia absolutamente confessional e/mas completamente elíptica. João Miguel ensinou filosofia, e escreve. A sua vida, eis! Lembro-me do MEC o definir como o "maior poeta português vivo", acabavam então os anos oitenta. Era muito whisky, muita pastilha, meu. Mas a verdade é que nunca voltaste a escrever (e a pensar) tão bem!
##
para a Fátima Maldonado
Todos podem compreender
a necessidade que tenho de partir
esta manhã.
Não penso senão no barco
que me vai levar.
É preciso que parta depressa
branco, sobre o Tejo.
Por causa desta manhã,
por causa deste barco tenho vivido
todos estes dias
de vinho e do sol,
vejo-o brilhar,
branco,
eu
aqui sentado,
uma garrafa e um copo sobre a
mesa de mármore e ferro,
bebo
a um cais, a um sol, a um rio
ao branco navio
que me vai levar.
############
MANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)
Que o jornalismo faz bem à poesia provam-no o Fernando Assis Pacheco e este, bem mais discreto, Manuel António Pina. O seu primeiro livro chamava-se "Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas um Pouco Tarde", saído em 74, o que soa hoje um pouco a um manifesto de toda a sua poesia, que nos pede calma, e quase nos faz esquecer que é sempre um pouco tarde - demais. Entre o nonsense e Pessoa, do melhor que a segunda metade do século nos ofereceu.
##
A poesia vai
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
############
ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE (1944- )
Matemático, filósofo e poeta. Foi para França aos 18 anos e só voltou depois do 25 de Abril. O seu segundo livro "Sem Palavras nem Coisas", saído em 74, foi um acontecimento. Herberto Helder podia ter ido por ali mas não foi. Não publica desde 2004 ("Aracne", um livro redondo). Li algo sobre uma "terrível tragédia pessoal". O escrever de Franco Alexandre é o melhor dos últimos cinquenta anos em Portugal. E quer em poemas curtos, longos, meia bola ou jantar de amigos, a escrita de Franco Alexandre transforma-se na melhor música. Em ciclismo seria um all-rounder. Que não se levaria demasiado a sério. Ah, sim, também estava no "Cartucho".
##
RELATÓRIO UM
a) alguns factos da nossa vida exigem uma teoria
que os confunda: assim estas coisas simples à transparência
se tornaram invisíveis, se deixam percorrer
numa prematura infâmia. não são excessivas as
palavras que a percorrem, como dentro da infância
os vestidos cor de água, as ágatas, a luz azul dos ogres,
don't worry, we're safe
nos guardam: o grande imperador do pico de leste;
a senhora que torna o céu sereno;
os deuses das muralhas & dos fossos.
depois estremecemos ao olhar os toldos,
she wants the young american
era um linho muito brando. estes
são os factos, e uma linha de fogos incessantes,
porisso se justificam igualmente
as inundações, a pestilência. não tem havido tempo
onde encostar o peso das aves. a exaltação,
& depois a necessidade destes juízos,
vêm de uma face longínqua que protege
o olhar, ou a sua imperícia.
aos factos juntarei agora a permanência
de um pavor indeciso. deito-me num corpo,
espalho na boca as sementes, o vidro, e ainda assim
acordo sem boca. as paredes, os toldos, e a desolação
dos animais absortos na brancura,
o meu país das Naus, de esquadras & de frotas
tudo se conjuga numa pequena caixa de latão
onde escondeste uma renúncia: quase descolorida.
este libro está dedicado a la historia actual, a la política.
Considera el pasado
unicamente como una introducción
al porvenir
porisso certamente as naves, o seu cheiro a erva
quando ardem as velas,
& o rumor azul
dos pássaros na água.
este é um país de razões surdas, de vagas
transparências, e depois despedimo-nos
com os telefones imóveis, opacos, oblíquos, os ombros
telescópicos & esse desejo torpe de ocultar-se.
ao pavor
ficarei devendo o auxílio, exactamente, oculto.
alguma face cai na água, no meio das velas, um rumor
exacto: este o enigma, as paredes absortas,
as janelas douradas onde espalhas
a vasta lentidão do sofrimento.
lembro-me
de te ter hesitado, algum horror imóvel
ao sangue, ao hálito das luzes.
dedico-me
à história actual, à política,
ao desatar dos nomes, à oblíqua precessão
dos telefones, estes são os factos, e a sua indecisão
não me permite recusá-los.
considere-se esta realidade imóvel unicamente
como uma introdução
movimento
incessante das águas.
recuso-me a acrescentar a indicação das senhas
b) o que caracteriza a situação é a dialéctica
minuciosa da exaltação & dos nomes.
esta define um primeiro sector de avanços & renúncias.
algumas noites o ciúme devora a insensatez
destas caixas secretas, e é muito tarde que te invento.
ficarei exausto dentro da tua voz. então
é necessário variar as dunas,
percorrer com decisão as ruas devastadas,
exigir um poder sem complacência.
tudo isto ignora a tua desolação, a minha
breve repugnância. mas essa é a lei que nos transformamos
à medida que as águas avançam.
c) só com a actividade revolucionária é que a tranformação de si
coincide com a transformação das coisas
e a transformação das coisas é, talvez, o lugar
de uma coincidência obscura
reunindo a transparência.
aceito a pele, a água, a leve repugnância
do teu suor imóvel, sei
que os teus ombros se apagam na nudez.
assim nasce o pavor. o futuro saberá
lentamente adiar o que sofremos, as naves,
o teu olhar dourado nas janelas.
trocaremos de sonhos, de lugares, de
lágrimas, tão leves os teus dias me inventaram.
esta é, sem dúvida, a teoria sem a qual
pereceremos juntos.
d) alguns outros factos deliberadamente ocultos
se opõem a uma descrição exaustiva. uma vez
decidido o início, é fácil realizá-lo
no excesso das palavras. de dentro da brancura
soam as vagas que nos justificam, quando
& como se torna necessário.
dedico-me unicamente
a uma cólera incessante,
este horror da tua transparência
desaparecerá, como as mais coisas que as palavras
tornaram invisíveis.
o céu será, então, torpemente sereno sobre as naves,
os fossos inundados, a muralha.
estes, camaradas, são os factos. dez de julho, lisboa.
Refs.: D. Hockney; D. Bowie; A. Nobre; Trotsky, La Revolución desfigurada, trad., Madrid, 1929; Marx, A Ideologia Alemã.
############
NUNO DEMPSTER (1945- )
Deste homem nada sei. Que um livro de poemas chama-se K3 e é sobre a guerra na Guiné. Tem um blogue. Começou a publicar tarde, bastante tarde. Fora o tal K3 a sua poesia é concisa, seca, sózinha. Fica connosco e não vai - como não vamos nós - a lado nenhum.
##
Senta-te no silêncio das arcadas
místicas da abadia. Frente a Cristo,
vai pensando nos ossos de Pedro e Inês
e na imagem do filho abandonado
pelo pai, quando Deus se tornou o
grito «Eli, Eli, lama sabachthani?»
Medita então na morte dos amantes,
como deles se foi a luz e a força
centrípeta que os chamava, o íman real
da gravidade humana, e pensa o grito
que alguém deixou no livro dos profetas.
Sai então do mosteiro, observa a praça
e as casas em redor, cruas de sol.
Onde estão Pedro e Inês? Ninguém os vê.
Um a seguir ao outro, a morte teve
a carne luminosa dos seus corpos,
e hoje os ossos antigos nada dizem:
o presente é o largo do mosteiro
e a lojista ao fundo que dispõe
a tralha de ‘recuerdos’ sempre iguais,
e nada irá surgir ali que espante.
############
NUNO DEMPSTER (1945- )
Deste homem nada sei. Que um livro de poemas chama-se K3 e é sobre a guerra na Guiné. Tem um blogue. Começou a publicar tarde, bastante tarde. Fora o tal K3 a sua poesia é concisa, seca, sózinha. Fica connosco e não vai - como não vamos nós - a lado nenhum.
##
Senta-te no silêncio das arcadas
místicas da abadia. Frente a Cristo,
vai pensando nos ossos de Pedro e Inês
e na imagem do filho abandonado
pelo pai, quando Deus se tornou o
grito «Eli, Eli, lama sabachthani?»
Medita então na morte dos amantes,
como deles se foi a luz e a força
centrípeta que os chamava, o íman real
da gravidade humana, e pensa o grito
que alguém deixou no livro dos profetas.
Sai então do mosteiro, observa a praça
e as casas em redor, cruas de sol.
Onde estão Pedro e Inês? Ninguém os vê.
Um a seguir ao outro, a morte teve
a carne luminosa dos seus corpos,
e hoje os ossos antigos nada dizem:
o presente é o largo do mosteiro
e a lojista ao fundo que dispõe
a tralha de ‘recuerdos’ sempre iguais,
e nada irá surgir ali que espante.
############
MANUEL GUSMÃO (1945- )
Foi deputado do PCP na Assembleia Constituinte. A publicação do primeiro livro de poesia só lhe aconteceu 15 anos depois, daí o equívoco de aparecer na antologia sobre os anos 90 da Quasi. Enfim... Poesia lenta, extensa. Usando excelentes meios e às vezes com bons fins. Feita por alguém que primeiro é um universitário das letras. Ainda milita no PCP, pelo que sei.
##
O MUNDO QUANDO NÃO ESTAMOS A OLHAR
(...)
s;
Durante anos e anos inventou paisagens -
A mão ensinara-o a fazer herbários - mas ele
dedicou-se à arte narrativa das paisagens
Ano após ano armazenava as que ia fabricando
cidades marítimas que os desertos enterravam;
cidades herbáceas do interior, encravadas entre estratos
de xisto; cidades de mármore rosa onde nasciam verdes rios.
Nascera numa família que, feitas as escrituras da terra,
fora acompanhando a fuga do mundo e conseguira
imobilizar o tempo. O tempo assim imóvel, tinha sido
a vez de arquivar as razões da terra, os papéis da casa,
os livros de poesia; E, agora, através dele,
o mundo, que os ia deixando para trás,
guardava as suas paisagens.
Como as fazia, assim as via diante de si: as imagens
das coisas vivas e mortas e das coisas em trânsito.
Deitava-lhes a mão, modelava-as e sonhava;
Olhava com vagar o sonho; o mundo podia ser,
era como se fosse: um teclado que acendia e
iluminava por dentro as palavras, as paisagens.
Depois esperava que cicatrizando se tornassem
as formas evidentes e enigmáticas do mundo
que ele guardava como um arquivista paciente.
Então um cão vinha pôr-se à sua frente, olhando-o
Enquanto as aves brancas desciam e o rodeavam.
############
JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES (1945- )
"Os Dois Crepúsculos" são o seu opus magnum, na realidade. Nesse livro, publicado em 1981, ditou um novo cânone. Anões (Quasi, etc.) decidiram arrepiar caminho e reescrever a coisa, por isso a poesia está como está. Lembro-me dele numas provas quaisquer na FLUP, era ele parte do júri. Um convencido com uma voz empolada, o casaco - sonhei? - era azeitona e de veludo. A sua poesia ganhou foros de primeira linha com os livros "Os Dias, Pequenos Charcos" e "Segredos, Sebes, Aluviões". Cada livro era aguardado com ansiedade. Tudo isto implodiu quando em 2010 a reescrita completa da sua obra poética, "Um Toldo Vermelho" aconteceu. Como se uma nova poesia ou então o criador a matar a sua criação, pois que do real, na nova versão, nada ficava. Corrigir portanto acima, JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES (1945-2010).
##
A TAÇA VAZIA
De muitas das coisas, das que mais amo são as fogueiras.
Às vezes acendem-se à beira do mar, uma grade
quebra nos rolos de fumo onde podia agora a tua boca
curvar-se para a minha.
Cobrem o céu com a carlinga abrupta dos clarões,
semeiam a noite de inverno, a noite, ramagens, troncos,
a solidão das faúlhas, a granada que não vais lançar.
Quantas vezes ao encontrar um corpo, depois
das conversas espias que produzem o encantamento,
descubro que não encontrei ninguém.
Deitavas-te na banheira, só a água te prendia,
esse motim de cicatrizes navegantes
a que chamei nostalgia no bastião das ruas.
Tu sabes como cantam ainda, futuras, fortuitas,
a toalha, a colónia, o talco, tu sorris,
não é a mim mas ao que vem, ao golpe de cada um.
Vagas do fundo do céu afastam-nos do gatilho
da fogueira sem fim, a encina, o canavial,
primeiro incendiado, depois um mapa que desiste
alguém, nós dois, vê-se de alto a baixo rasgado.
Quantas vezes, depois de enredos furtivos, descobri
que nada nos teus olhos seguia o que meus olhos viam.
Cavalo e cavaleiro paravam no descampado de febre.
E já era tarde. A primeira geada, a harmonia da extinção.
############
JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES (1945- )
E não, não me estou a repetir. Antologio aqui "Um Toldo Vermelho", e é na realidade outro poeta. O real foi-se. Fica a enumeração léxica, o uso das mais estranhas palavras, o salto descarnado que obviamente só serve a "quem lá esteve", i.e., o Autor. Que linda despedida! Porém, como já notaram, Gil de Carvalho faz melhor.
##
O ruivo plexo
ruma abolido,
efémero de treva.
O cinzel deprava,
o rombo baldio de um cereal
ressoa na faia.
Bem-vindo ao latão do crivo.
À lúgubre origem.
Plano cordato que não prosseguiu.
############
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
Outros poetas mas agora quinze (chegamos assim aos 68!).
Estes poetas compõem o resto dos anos sessenta ou já entram pelos anos setenta adentro. Uma parte importante deles incorporou o grupo Poesia 61, muito jovens ainda. A narrativa da poesia portuguesa escrevia-se na resposta aos excessos de discurso da Poesia Experimental, a Poesia 61 no meio, uma ditadura perto do fim. No fim sobraram os Poetas e foram uns quantos. E bons.
############
ERNESTO SAMPAIO (1935-2001)
"É uma planta que continua a florescer depois de ter sido arrancada" Assim falava Ernesto Sampaio da morte da esposa e companheira de uma vida, ocorrida um ano antes da sua, a actriz Fernanda Alves. Mas não vamos resumir a isto a história deste poeta do surrealismo, também tradutor, excelente fotógrafo, teórico, jornalista. Foi antologiado por Herberto Helder. Das escolhas deste retiro um extracto.
##
(...) Ser absolutamente consciente - eis o primeiro objectivo. Eis a condição especiosa e teatral para ultrapassar a nojenta situação de ser condicionado, fantoche do Bom e do Justo, imundo agente dos sentimentos, dos juízos, da luxúria, do temperamento "humano, demasiado humano". "O homem é uma coisa que deve ser ultrapassada" (suponho que esta afirmação é de Nietzsche), esta é a primeira aquisição a purificar a nossa vontade, o primeiro esboço terrivelmente inquieto de um sangue destinado a ser livre ou, pelo menos, a tentar sê-lo até onde o permitir a sua resistência à força da dor.
############
M. S. LOURENÇO (1936-2009)
Pai do helenista Frederico Lourenço, filósofo e professor de filosofia antes do mais, escreveu poesia também com um pé de partida no surrealismo mas depois... foi-se embora! Para não desirmanar do texto acima e por pouco conhecedor do poeta em questão, transcrevo sim um texto seu sobre o Cacém.
##
(...) Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida. (...)
############
JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937-1984)
É necessário esquecer muita coisa para chegar à poesia de José Carlos Ary dos Santos. Esquecer a desfolhada, a bandeira do PCP sobre o caixão, a voz rouca a declamar, a imagem televisa. Muita poesia é apenas fácil, alguma aqui e ali é bem boa.
##
HERÓI
############
##
HERÓI
Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.
############
MARIA TERESA HORTA (1937- )
Muito nova foi uma das "Três Marias" que publicaram as "Novas Cartas Portuguesas" e pouco depois participou na Poesia 61. Também jornalista, mais recentemente romancista. Poesia lírica, sensual. Casada desde os 17 anos de idade. Recusou receber o Prémio D. Dinis de 2011 das mãos de Pedro Passos Coelho.
##
A VAGINA
É cálida flor
E trópica mansamente
De leite entreaberta às tuas
Mãos
Feltro das pétalas que por dentro
Tem o felpo das pálpebras
Da língua a lentidão
Guelra do corpo
Pulmão que não respira
Dobada em muco
Tecida em água
Flor carnívora voraz do próprio
suco
No vertre entorpecida
Nas pernas sequestrada
############
FERNANDO ASSIS PACHECO (1937-1995)
Terá morrido à porta de uma livraria e em sua casa não havia televisão. Por todos conhecido como jornalista no Jornal e no Se7e, chegou a colaborar na RTP. Escreveu um bom romance como homenagem ao seu avô da Galiza, "Trabalhos e Paixões de Benito Prada". Mas a sua poesia, a sua poesia... é tão Grande! Menos mal que houve o Fernando Assis Pacheco!
##
MAS AGORA QUE VAI DESCER A NOITE NA MINHA VIDA
Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores
triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola
triste de mim triste e perdido
entre duas ruas
uma que vai para o Norte outra para o Sul
e ambas cortadas aos peões
que não cooperam devidamente
(com este governo de merda é claro)
triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona
a tarde triste os anos tristes
a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre
triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura
do córtex cerebral
#
ALBERTO PIMENTA (1937- )
Melhor a escrever do que em intervenção televisiva. Mas performances como o fechar-se numa jaula no Zoo de Lisboa ao lado dos macacos com o letreiro "Homo sapiens" fizeram história, pelo menos portuguesa. A sua obra não é só o "Discurso sobre o Filho-da-Puta". E também não é só provocação ou experimentalismo.
##
A SITUAÇÃO DA OVELHA
a ovelha vive em rebanho
e sente-se orgulhosa
(excepto, claro, a ranhosa)
a ovelha produz a lã,
em troca tem o sustento
e já não precisa de
passar a noite ao relento
é guiada pelo cão-pastor
e governada por pelicanos
e outros moradores dos céus
que lhe têm um grande amor
e lhe pedem o seu voto
por favor ou por amor de deus:
vota TETRÁS
o que melhor te leve (e te trás)
vota ROLA
a única que não te enrola
vota SANTÍSSIMA TRINDADE (símbolo POMBA)
sempre são três
não votes MAL
pensa no que diz o cardeal
vota CATATUA
sempre é a tua
A ovelha entrega o boletim dobrado em quatro
e por hábito pergunta: - Quanto é?
- A nossa democracia assenta no voto gratuito -
diz o presidente da mesa.
############
JOSÉ AUGUSTO SEABRA (1937-2004)
Home do Alto Douro, preso e exilado, voltou a Portugal em 74. Foi Ministro da Cultura pelo PSD de Mota Pinto no Bloco Central. No mais tempo andou por fora, entre outras coisas um erudito pessoano. Lembro-me de não penetrar bem na sua poesia antologiada na 4ª série das "Líricas Portuguesas" pelo Ramos Rosa. Mas este poema abaixo Vale.
##
Nem nos defende a ausência:
é o reversoSabemos todos já bem a ciência
da traição que se oculta a cada verso.
Nem nos salva a desculpa
de anoitecer, poetas:
por cada mea culpa,
apontam-nos a morte noutras setas.
Ficar nem chega. Ou ir
ou sepultar-nos.
Foge-nos o tempo já de decidir
Sequer suicidar-nos.
Abem ou mal, poetas.
Liberdade
só esta que sorri por entre as frestas
hesitante do peso da verdade.
##
A SITUAÇÃO DA OVELHA
a ovelha vive em rebanho
e sente-se orgulhosa
(excepto, claro, a ranhosa)
a ovelha produz a lã,
em troca tem o sustento
e já não precisa de
passar a noite ao relento
é guiada pelo cão-pastor
e governada por pelicanos
e outros moradores dos céus
que lhe têm um grande amor
e lhe pedem o seu voto
por favor ou por amor de deus:
vota TETRÁS
o que melhor te leve (e te trás)
vota ROLA
a única que não te enrola
vota SANTÍSSIMA TRINDADE (símbolo POMBA)
sempre são três
não votes MAL
pensa no que diz o cardeal
vota CATATUA
sempre é a tua
A ovelha entrega o boletim dobrado em quatro
e por hábito pergunta: - Quanto é?
- A nossa democracia assenta no voto gratuito -
diz o presidente da mesa.
############
JOSÉ AUGUSTO SEABRA (1937-2004)
Home do Alto Douro, preso e exilado, voltou a Portugal em 74. Foi Ministro da Cultura pelo PSD de Mota Pinto no Bloco Central. No mais tempo andou por fora, entre outras coisas um erudito pessoano. Lembro-me de não penetrar bem na sua poesia antologiada na 4ª série das "Líricas Portuguesas" pelo Ramos Rosa. Mas este poema abaixo Vale.
##
Nem nos defende a ausência:
é o reversoSabemos todos já bem a ciência
da traição que se oculta a cada verso.
Nem nos salva a desculpa
de anoitecer, poetas:
por cada mea culpa,
apontam-nos a morte noutras setas.
Ficar nem chega. Ou ir
ou sepultar-nos.
Foge-nos o tempo já de decidir
Sequer suicidar-nos.
Abem ou mal, poetas.
Liberdade
só esta que sorri por entre as frestas
hesitante do peso da verdade.
############
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (1938-2007)
Parte também do grupo Poesia 61, foi dos poetas deste grupo aquele/a que melhor depurou a sua escrita e conseguiu chegar a uma poesia essencial, da palavra pouca e da efusão contida. Ligada também ao teatro. Praticou também a prosa.
##
EPÍSTOLA PARA OS MEUS MEDOS
Sois: os sons roucos, a esperança vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem,
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, medo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.
############
ARMANDO DA SILVA CARVALHO (1938-2017)
Esqueceram-se de me avisar que tinha morrido o Armando da Silva Carvalho. O primeiro livro dele chamava-se "Lírica Consumível". O inesperado, a ironia, o sarcasmo desmontam a poesia deste autor. O livro premiado "O Amante Japonês" era dedicado ao seu carro. Seria um Toyota?
##
Mas quando vi de novo o teu perfil
Em Campo de Ourique
Eu ergui nos ares a vitória antiga
Vivida tantas vezes em noites de álcool
E contigo à espera numa escura
Esquina.
Quem não conhece o amor que não critique
A boca não se perde em lábios grossos
O sexo não se leva a passear como um podengo.
Contigo à minha espera
No silêncio metálico da polícia
O mundo revivia devagar e nem se ouvia
O dia deitava sobre ti a luz imperturbável do milagre
E o desejado que foste
Abriu no meu peito o seu regresso.
##
Mas quando vi de novo o teu perfil
Em Campo de Ourique
Eu ergui nos ares a vitória antiga
Vivida tantas vezes em noites de álcool
E contigo à espera numa escura
Esquina.
Quem não conhece o amor que não critique
A boca não se perde em lábios grossos
O sexo não se leva a passear como um podengo.
Contigo à minha espera
No silêncio metálico da polícia
O mundo revivia devagar e nem se ouvia
O dia deitava sobre ti a luz imperturbável do milagre
E o desejado que foste
Abriu no meu peito o seu regresso.
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ANTÓNIO BARAHONA DA FONSECA (1939- )
Casado que foi com a actriz Eunice Muñoz, que pensará o poeta das participações desta nas telenovelas? Outro que partiu do surrealismo do Café Gelo e da poesia experimental para Oriente. Converteu-se ao islamismo, aprendeu sânscrito, etc., etc.
##
SONETO A UM SONETO DE BOCAGE
Aproveitar o sangue, prever até à
última gota o suor da letra
e dirigir a dança que se inflitra
pé ante pé na escrita ao pé da pauta
À custa de sofrer na caverna com a
sombra cada vez mais nítida, água
pla cinta no martírio da metáfora:
não desviar da luz a sombra branca
Quando já não puder fazer o ponto
na rota do navio em que derivo
exactamente até ao pé do espírito
saiba morrer o que viver não soube
ressuscitado cada vez mais vivo
por ter vida de mais em cada morte
############
LUIZA NETO JORGE (1939-1989)
O maior nome da Poesia 61 escreveu pouca poesia. "Os Sítios Sitiados" coligiram o feito em 73 e depois só apareceu póstumo o volume "A Lume". Vai de barato que da poesia escrita por mulheres neste Portugal do século XX esta é sem dúvida a mais poderosa. E que de toda a poesia que sucedeu a Herberto Helder é a única que lhe sobreviveu dialogando.
##
O SÍTIO EM VISTA
Trazem as árvores insignificantes
o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,
alçam outros armazéns sonoros
casas de relâmpagos e de cataclismos.
Chega-se. Parte-se. Segreda-se
de seres indeterminados que movem
resistência. Pelejam mais.
E quando a sua pele se usa vence
a moda, mudança de uma árvore para a mundanal
outra árvore carregada.
Podem aliás irromper quentes florestas.
Abate-se sobre o lenhador a opulência, o triunfo
do fruto desenvolvido no seu trono
iluminado por quatro archotes de seiva.
*
Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua
difícil de encontrar.
São os campos, gente humílima, absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.
Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.
Algumas cartas, de marear,
não chegam.
*
Criaturas que se reproduziam em interstícios
que se deitavam em divâs
cada vez mais estreitos
a luminosa vocação, a luminosidade
de uma terra sábia e rotunda
suplantava aqueles gritos portadores
de uma defunta órfica voz
Eram as criaturas presas
do seu século
retraídas nos olhos mal afeiçoados
Filhos mais velhos a atentarem
em como o corpo incha e se perfaz a polpa
como o limite se delimita corpo a corpo
e engorda
Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta
e os mais novos sorriam como lábios.
##
O SÍTIO EM VISTA
Trazem as árvores insignificantes
o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,
alçam outros armazéns sonoros
casas de relâmpagos e de cataclismos.
Chega-se. Parte-se. Segreda-se
de seres indeterminados que movem
resistência. Pelejam mais.
E quando a sua pele se usa vence
a moda, mudança de uma árvore para a mundanal
outra árvore carregada.
Podem aliás irromper quentes florestas.
Abate-se sobre o lenhador a opulência, o triunfo
do fruto desenvolvido no seu trono
iluminado por quatro archotes de seiva.
*
Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua
difícil de encontrar.
São os campos, gente humílima, absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.
Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.
Algumas cartas, de marear,
não chegam.
*
Criaturas que se reproduziam em interstícios
que se deitavam em divâs
cada vez mais estreitos
a luminosa vocação, a luminosidade
de uma terra sábia e rotunda
suplantava aqueles gritos portadores
de uma defunta órfica voz
Eram as criaturas presas
do seu século
retraídas nos olhos mal afeiçoados
Filhos mais velhos a atentarem
em como o corpo incha e se perfaz a polpa
como o limite se delimita corpo a corpo
e engorda
Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta
e os mais novos sorriam como lábios.
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SEBASTIÃO ALBA (1940-2000)
Poeta português naturalizado moçambicano mas que viveu os seus últimos anos nas ruas de Braga, onde morreu atropelado. Foi mais um marginal também da poesia a quem Herberto Helder deu uma mão.
##
Quando escreve descalça-se
à entrada do poema,
encurvado cisma, inala
o flato dos fiéis.
Mas não terá huri
que lhe perfume o lingam,
lhe remova os estigmas -
escriba moroso, aquém
da rede mosquiteira,
com um pôr do sol
irresolúvel, no índico,
e telhados sob a chuva,
sob os telhados, nós
olhando as sebes
e, sob as sebes, sapos.
############
A. M. PIRES CABRAL (1941- )
Cansa que sempre que se fale deste poeta se comece por o identificar como natural e residente em Trás-os-Montes. Verdade seja dita que a primeira colectânea de poemas sai em 74 e chama-se "Algures a Nordeste". A sua escrita poética, cada vez mais clássica mas nunca abdicando do salto que sempre está na poesia Maior, salva-o da prosa, que, confesso, aprecio bem menos. Na verdade toda a sua poesia Vale. O poema abaixo é um doutoramento em Interior, agora que está, fumegante ainda, na moda.
##
PREÇO
A ira linear aqui sentada
e os seus sintomas.
Trabalhos que transbordam das alfaias,
invernos dados à carne.
Pela prenhez da terra
é muito preço.
##
PREÇO
A ira linear aqui sentada
e os seus sintomas.
Trabalhos que transbordam das alfaias,
invernos dados à carne.
Pela prenhez da terra
é muito preço.
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GASTÃO CRUZ (1941- )
O mais novo do grupo Poesia 61, nele publicou "A Morte Percutiva" com 20 anos. Homem também de teatro. Chegou a estar casado com Fiama, o que é engraçado. A sua escrita tem vindo a tornar-se cada vez menos percutiva com os anos, mas não menos interessante.
##
Um ano na aventura na altitude
do mundo
fim do ano alteração do sangue
nomenclatura
mudança noite
estatura
de quem já tarde conhece a solidão
que procura.
############
##
Um ano na aventura na altitude
do mundo
fim do ano alteração do sangue
nomenclatura
mudança noite
estatura
de quem já tarde conhece a solidão
que procura.
############
FÁTIMA MALDONADO (1941- )
Marginal, assumo, porque pouco consigo descobrir sobre ela. Exerceu crítica literária no Expresso. A primeira recolha de poemas só saiu em 1980. Sem concessões escreve. Se quiséssemos criar uma banda-sonora para os seus poemas ela estaria algures entre a Segunda Escola de Viena e o Speed Metal.
##
EQUÍVOCO
É-se feliz quando acaba a servidão
pode ver-se outro corpo
e já não nos perturba
a paz espreguiça-se
um gato sonolento
nos pequenos oásis reconquistos.
Em incursões diárias
vão derruindo coisas
o recorte da boca, o moreno da pele,
o combate dura há tanto tempo
que cada fortaleza me é familiar
às vezes descanso nas ameias
aceito pão e vinho
o som dos tímbalos
os banhos de vapor.
Mas de manhã aperto a armadura
levanto pó e cruzo-me na praça
com cavalos sedentos
(tratadores cabisbaixos
afastam-se do sol)
na sombra reclina-se
a paz de carmesim
as ondas do veludo
naufragam-lhe nos joelhos
acena-me que pare
mas nunca lhe obedeço
e volto a arrasar
mais um dos teus refúgios.
############
domingo, 17 de dezembro de 2017
Agora são Treze Poetas.
Agora chegámos aos anos de Herberto Helder. "Sabemos todos" que Herberto Helder foi o segundo "monstro" que a poesia portuguesa produziu no século XX. Esta unanimidade levou a extremos de mimetismo - houve uma fase em que todos escreviam "à Herberto Helder" - e à famosa carta de amor de Joaquim Manuel Magalhães onde este rejeitava - por amor - o mimetismo atrás descrito. Foi pouco antes de chegarmos ao famoso "regresso ao real". Mas estes anos produziram muito mais, por exemplo, Ruy Belo. Quem sobrevive ileso a conhecer Ruy Belo? E Gabriela Llansol. E mais. Estes anos sessenta entretiveram-se com uma coisa chamada Poesia Experimental. Esta brincadeira fez-nos perder algum tempo... Herberto Helder foi um dos pais da brincadeira, é certo. Vamos a isto.
############
HERBERTO HELDER (1930-2015)
Nascido madeirense e morto eremita em Cascais, a sua poesia, libertária e com um pé de saída no surrealismo, é declamativa e xamânica e tudo o mais. O seu sopro vital obscureceu durante uns anos por cá o facto de que há outras formas de fazer a dita e cuja. A fantástica canção dos primeiros livros secava todas as alternativas. Vivíamos deslumbrados, havia um Sol. Depois livros vários, os textos de "Passos Em Volta", as famosas traduções do "Bebedor Nocturno" ou das "Magias" sedimentaram o mito, bem como o não dar entrevistas, recusar prémios, as escassas fotografias. Os últimos anos - porque a Assírio & Alvim ficou diferente? - mudaram um pouco a táctica. Um longo silêncio poético foi interrompido para gáudio das massas. Houve um acelerar do refazer do texto das poesias completas, o tal "Poema Contínuo". E a campanha publicitária à volta do "A Morte Sem Mestre"... Um ano ou dois e vai acontecer um poemário, tenho a certeza. Mas, feitas as contas, que Poesia! Logo abaixo um poema perfeito.
##
EM MARTE APARECE A TUA CABEÇA -
Em marte aparece a tua cabeça -
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina -
eu queria dizer.
Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas -
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos ll, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.
O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.
A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes -
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.
Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, como maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio - e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. A tua cabeça, a cortina fria.
Dou-te as letras dos peixes, escutando -
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.
##
EM MARTE APARECE A TUA CABEÇA -
Em marte aparece a tua cabeça -
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina -
eu queria dizer.
Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas -
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos ll, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.
O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.
A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes -
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.
Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, como maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio - e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. A tua cabeça, a cortina fria.
Dou-te as letras dos peixes, escutando -
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.
############
MARIA ALBERTA MENERES (1930-)
Foi casada com E. M. Melo e Castro e organizou com ele a Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa. Passou um pouco ao lado das polémicas experimentais dos anos sessenta embora a sua poesia fosse do seu tempo e de muita valia. Tornou-se muito mais conhecida pelo seu papel em criar uma literatura infanto-juvenil e sobretudo uma poesia infanto-juvenil capaz. É a mãe da Geninha Melo e Castro, é verdade.
##
Hoje me chamo estrela
ou me chamam navio
ou rota de fadiga.
Hoje me chamo névoa
ou mãe de cinco filhos
que o pensamento abriga.
Ou lúcida sirene
do violento incêndio
que para nós destrói.
Ou vidro revoltado
na funda transparência
que hoje em meu nome dói.
##
Hoje me chamo estrela
ou me chamam navio
ou rota de fadiga.
Hoje me chamo névoa
ou mãe de cinco filhos
que o pensamento abriga.
Ou lúcida sirene
do violento incêndio
que para nós destrói.
Ou vidro revoltado
na funda transparência
que hoje em meu nome dói.
############
ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988)
Um surrealista tardio, a sua colectânea de poemas "Uma Faca nos Dentes" saiu em 83 prefaciada por Herberto Helder. Durante mais de vinte anos foi o encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, o que faz dele um amigo meu.
##
POEMA
Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada.
alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler
alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios
alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar.
############
MARIA GABRIELA LLANSOL (1931-2008)
Se o que escreveu Maria Gabriela Llansol não é poesia, então o que é poesia? Exilada na Bélgica de 65 a 84 (para fugir, o marido, à tropa), participou lá na criação dum espaço educativo alternativo, a Escola de Namur, que ganhou foros de lenda. Enquanto isso escrevia. Escrevia algo que é texto. Onde as palavras fluem sobre a vida, o mundo, o de hoje, o antigo, onde a diferença está ou esteve. O texto cria um mundo novo, diferente, uma alternativa a este porque alternativas são as vidas que os rebeldes, os diferentes buscam, buscaram. Atenção, diferente pode ser uma pedra. Dizem que Llansol, o duplo "ll" por uma ascendência catalã, pode ser viciante, portanto atenção. Mas não é assim a poesia Maior?
##
106
Basta fechar os olhos _____________ perdê-los
De vista _________________________, para que as cores,
Libertas das formas _____________________________ corram,
Inquietas pelo cérebro _________________________ em busca deles
"Onde parais? Que não nos vedes."
Ou seja, onde se perde a frequência não absorvida
Pela forma.
Mas o olhar, servindo-se do poema de Rilke
(Que para essa ocasião o escreveu), velando-se
Com as pestanas, dir-lhe-á que anda por aí e não
Perdido, que pode estar calma, que anda por aí,
Que se apagou por falta de chama momentânea,
Que anda por aí e não se sobressalte com a ventana
Fechada, que nenhuma frequência se perde
"Ó meu amor, eu estou por aí."
############
JOSÉ BENTO (1932-)
Da próxima vez que passar por Pardilhó vê-la-ei com novos olhos porque foi ali que nasceu José Bento. Discreto e compreensivo tradutor de TODA a grande poesia espanhola, tem-se esquecido quase sistematicamente de publicar a sua própria poesia. A colectânea "Silabário" vale ouro.
##
41
Não peças a quem deste: evitarás
mais que a rajada rija da recusa:
o asco pelo embuste inverosímil
e o responso rançoso do teu mérito,
invocados para diluir a negativa.
O que não te foi dito esquece.
Melhor que contestá-los, aprender
a indiferença, para ninguém gratuita:
o alheio desprezo, mais benévolo
que o total que te concedas, te liberte.
############
##
41
Não peças a quem deste: evitarás
mais que a rajada rija da recusa:
o asco pelo embuste inverosímil
e o responso rançoso do teu mérito,
invocados para diluir a negativa.
O que não te foi dito esquece.
Melhor que contestá-los, aprender
a indiferença, para ninguém gratuita:
o alheio desprezo, mais benévolo
que o total que te concedas, te liberte.
############
E. M. MELO E CASTRO (1932-)
Ao contrário de José Sócrates este engenheiro nasceu mesmo na Covilhã. O seu papel nos tempos na Poesia Experimental nos anos sessenta grangeou-lhe inimigos qb e que felizmente não tinham porte de arma. Admito a irregularidade da sua prestação e o vazio de muitas das experiências. E que um livro se chame "Cara lh amas" é imperdoável, mesmo se publicado em 1975. Serralves dedicou uma exposição retrospectiva à sua obra poétca, gráfica, e filmada no ano de 2006. Eu confesso gostar dos seus primeiros livros onde, por ex., reside o manifesto abaixo.
##
REFUTAÇÃO PACÍFICA DA BELEZA
1. esquema
Na História
símbolos de civilização
na memória
miséria e desespero
não há poesia
no ideal.
2. panorama
No alto das casas da cidade
vejo os telhados divididos em dois
luz - sem luz
das casas conhecidas demais
No alto dos telhados da cidade
olhos os quartos fechados
e vejo os quartos abertos
divididos em dois
Por dentro dos dois quartos que habito
vejo distintamente
todos os homens divididos em dois
fazendo equilíbrios forçados
Vejo por dentro de toda a escuridão
a nossa vida toda retalhada
em dois enormes pedaços retalhados
3. factos
Desde que há mais do que um homem
o Belo já não chega.
As mãos são supérfluas
desde que há mais do que um homem no mundo.
Foi por isso que Abel matou Caim matou Abel
e o fogo invisível queimou o espírito novo.
Se me olhas nos olhos
não me olhas - devoras-me, meu irmão.
Se penso em ti, destruo-te.
Para que a pura beleza em movimento possa reinar
aprendemos as guerras.
Mas na paz a beleza não chega.
É necessário inventar outra forma de destruição.
############
RUI KNOPFLI (1932-1997)
A história aconteceu e não há volta atrás. A presença portuguesa em Moçambique pode ser redimida pela criação da poesia de Rui Knopfli, nascido em Inhambane. Delegado de Informação Médica vinte anos, até 74, muito teríamos para conversar. Desistiu da sua terra em 75 mas com pena. O livro que escreveu sobre e as fotografias que tirou à Ilha de Moçambique é um dos meus livros de cabeceira.
##
SMILE
O teu sorriso punha uma breve nota
cálida no cenho franzido do céu.
O teu sorriso arriscava um tímido fulgor
na máscara de gelo, errava no perfil rígido
da cidade vestida de rigoroso escuro,
escorria mordiscante pela curva
gótica dos monumentos e saltitava,
ave transida de frio,
na relva húmida de Regent Park.
Pairava acrobático em redor da coluna
sob a mirada sorrateira de Lord Nelson
e partia célere no primeiro subway
até Tower Bridge, para logo surgir
junto à pedra negra e solene da Abadia.
Distraída um instante do seu ar very british
a cidade ameaçava sorrir para o teu sorriso,
alegre como o brilho plástico das minissaias,
desenvolto como as cabeleiras soltas
ao vento de King's Road.
O teu sorriso, todo dentes e ternura.
############
RUY BELO (1933-1978)
Se eu fosse um bom poeta gostaria de escrever como o Ruy Belo. Porque nas centenas de poemas que dele já li nunca discordámos sequer num acento. Fui aqui há uns anos à praia da Consolação, onde Ruy Belo passava férias, e apresentei-a à minha filha. Ruy Belo escreveu sempre para além desta terra. Aceitava-a, amava-a até, mas via sempre algo mais. Quando percebeu que a explicação para o que via não era divina ficou triste. E essa tristeza atravessou a sua poesia até ao fim. Porque Ruy Belo morreu nunca estamos completamente vivos. E isto pode explicar um pouco o quanto gosto desta poesia. Assírio & Alvim, cuidado com o que fazes com este Poeta!
##
POEMA PARA A CATARINA
Hei-de levar-te filha a conhecer a neve
tu que sabes do sol e das marés
mas nunca repousaste os teus pequenos pés
na alvura que só longe e em ti houve
Tinha estado na morte e não pudera
aguentar tamanha solidão
mas depois tive a companhia do nevão
e tu hás-de vir filha com a primavera
E o deslumbrante resplendor da alegria
tua fidelidade eterna à vida
já não permitirão tua partida
quando raiar fatal o novo dia
As barcas carregadas com as rosas
virão perto daquela pura voz
abandonada pelos meus longínquos avós
em lagoas profundas perigosas
Não me afecta o mínimo cuidado
sinto-me vertical sinto-me forte
embora leve em mim até à morte
a cabeça de um príncipe coitado
Naquelas madrugadas primitivas
eu segregava um secreto pranto
vizinho da alegria enquanto
pelos dias tu ias de mãos vivas
O costume da minha solidão
é ver pela janela as oliveiras
que de todas as árvores foram as primeiras
que tocaram meu jovem coração
Purificado pelo tempo estou
um tempo de feroz esquecimento
vem minha filha vem neste momento
em que eu liberto ao teu encontro vou
Recordo-me do teu cabelo de chuva
quando tu caminhavas ágil e ladina
pelos desfiladeiros da neblina
nessa distante região da uva
Minha paixão viril serena pelos ritos
deseja que na minha companhia
tu sejas imolada à alegria
na surda região alheia aos gritos
Não olhes o meu rosto devastado pela idade
a vida para mim é como se chovesse
mas se viesses seria como se me acontecesse
cantar contigo a perene mocidade
O tempo em que viesses sim seria
um tempo vertebrado um tempo inteiro
e não meras palavras arrancadas ao tinteiro
e alinhadas em fugaz caligrafia
Viesses tu que a tua vinda afastaria
todos os meus cuidados transumantes
e para sempre alegre viveria
os meus dias infantes já distantes
A solução da solidão compartilhada
onde vejo o meu mais profundo mundo
seria a solução ampla e sem fundo
oposta sem resposta ao meu país do nada
Com a voracidade do olvido
seria só tu vires e lutares
e por mim de olhos enormes e crepusculares
serias ente querido recebido
Volta com os primeiros anjos de dezembro
num vasto laranjal eu quero amar-te
e então a tua vida há-de ser a minha arte
e o teu vulto a única coisa que relembro
O passado é mentira digo eu
sensível ao esplendor do meio-dia
e sob a árvore plena da alegria
o mínimo cuidado esmoreceu
Ao grande peso de tanto passado
com a insónia da dúvida na testa
basta a tua presença que protesta
e todo eu me sinto renovado
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JOÃO PEDRO GRABATO DIAS (1933-1994)
O nome literário do pintor António Quadros, ou outro dos poetas que Moçambique nos ofereceu. Grabato Dias viveu lá 20 anos, até 84, e despediu-se do país mais tarde do que Knopfli. Foi o não confesso autor do "mito" Mutimati Barnabé João, guerrilheiro morto que teria escrito uns poemas para a revolução moçambicana... depois escreveu as "Quybyrycas", sátira dos Lusíadas que consegue ser ainda mais extensa do que o original. Etc., etc., etc. O melhor que consegui sobre este homem é ouvir vezes sem conta "Eu, O Povo" do Zeca Afonso e o extenso artigo do António Cabrita sobre. Tenho a sorte de possuir o livro de Mutimati. Também foi dedicado apicultor e quinze mil outras coisas. A sua escrita fica um pouco abafada pelo extensão léxica mas está muito para além do exercício de ginásio.
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MÁRTIRMONIAL,
MATRIARMORIAL,
MATRIHORMONAL
Cavalheiro distinto, e modesto,
com alguma cultura, em pousio,
de boagnífica família e lavradio
passável, lutador ambidextro
com ursos superiores, bastante lesto
nas também duas pernas, de assobio
em coisas musicais e sem fastio
ou outro desarranjo; ainda intesto
por falta de vagares ou vícios; vivo
em jogos de sala e outro desporto
procura jovem fêmea com lascivo
andar, dotada quanto a dote e a dotes
glúteas nalgas de alevantar um morto
e, se possível, algo que decote.
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ANTÓNIO OSÓRIO (1933-)
Com mãe italiana, a sua poesia é, como muita da poesia italiana do século XX, deliberadamente menor, escassa, de poema curto e palavra escolhida. Lembro-me de uma caricatura escrita pelo Miguel Esteves Cardoso - brincadeira de amigo... - onde o MEC transformava o borda-de-água em poemas do António Osório. Publicou só nos setenta e com lógica - a sua poesia, embora não igual, vai paralela ao movimento do "regresso ao real". Foi bastonário da Ordem dos Advogados. Devo-lhe inúmeros poemas que fiz meus. E temos uma amiga em comum.
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UM SENTIDO
Porque há um sentido
no lírio, incensar-se;
e no choupo, erguer-se;
e na urze arborescente,
ampliar-se;
e no cobre, primeira cura,
que dou à vinha,
procriar-se.
E outro, pressago,
sentido há na memória,
explodirse.
E outro, imensurável,
no amor, entregar-se.
E outro, definitivo,
na morte, render-se.
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CRISTOVAM PAVIA (1933-68)
O último dos nossos poetas-mortos-jovens a ser redescoberto, era filho de um presencista. Leio a sua história, breve, onde o sofrimento mental e a busca de um ideal - cristão, outro - inatingível desempenharam um papel importante. Fez psicoterapia em Heidelberg e trabalhou nas obras, admirou raparigas loiras... por fim, decidiu parar.
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Se fizer um pequeno esforço levanto-me e caminho no ar
Porque o meu Deus dá-me forças já não minhas.
Se fizer mais um pequeno esforço tudo se transformará em verdadeiro prazer
E em cada gota de suor, em cada brilho frio nas gotas de suor
Rodará um mundo fresco como um leque que se abre.
Se fizer um último esforço será a vertigem, talvez a deliciosa vertigem.
E depois não interessa o que virá.
Creio neste amor angustiado.
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MANUEL DE CASTRO (1934-1971)
E chega mais um surrealista. Antologiado por Herberto Helder, despediu-se cedo da vida por "autodestruição premeditada" (cf Herberto Helder) ou "cinco anos de dolorosa doença" (Wikipédia).
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A ERC JOSAMU JOVE
Nós os intocáveis, os imundos, recusamos
nossa vida à condição comum.
Porque é intemporal a rosa que nos leva
entre o dia e a noite.
Nós os derrotados, impuros, oferecemos
nossa miséria a um significado
oculto e diferente -
asa branca na varanda
nome escrito nos telhados
estrada atravessando a terra de ninguém
Nós os últimos dos últimos coroamos
impérios e jardins
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PEDRO TAMEN (1934-)
Descente poético em linha recta de Jorge de Sena, Pedro Tamen foi depurando a sua escrita como se pode coligir na sua colecção "Retábulo de Matérias". Praticante de formas clássicas como o soneto e portanto também um poeta que olha muito para Camões. Foi um discreto director da Gulbenkian bem antes desta começar a encolher.
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3
Sentado no curto escabelo que me deram
espreito aqui da cave pela janela alta
as pessoas que passam.
Passam passam deixo de vê-las
enquanto ergo e baixo a ferramenta.
Continuo sentado no escabelo que me deram
e no escuro desta cave estou acompanhado.
Sim, acompanhado
não por quem passa
mas por quem não passa.
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