terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Outros poetas mas agora quinze (chegamos assim aos 68!).

Estes poetas compõem o resto dos anos sessenta ou já entram pelos anos setenta adentro. Uma parte importante deles incorporou o grupo Poesia 61, muito jovens ainda. A narrativa da poesia portuguesa escrevia-se na resposta aos excessos de discurso da Poesia Experimental,  a Poesia 61 no meio, uma ditadura perto do fim. No fim sobraram os Poetas e foram uns quantos. E bons.



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ERNESTO SAMPAIO (1935-2001)

"É uma planta que continua a florescer depois de ter sido arrancada" Assim falava Ernesto Sampaio da morte da esposa e companheira de uma vida, ocorrida um ano antes da sua, a actriz Fernanda Alves. Mas não vamos resumir a isto a história deste poeta do surrealismo, também tradutor, excelente fotógrafo, teórico, jornalista. Foi antologiado por Herberto Helder. Das escolhas deste retiro um extracto.


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(...) Ser absolutamente consciente - eis o primeiro objectivo. Eis a condição especiosa e teatral para ultrapassar a nojenta situação de ser condicionado, fantoche do Bom e do Justo, imundo agente dos sentimentos, dos juízos, da luxúria, do temperamento "humano, demasiado humano". "O homem é uma coisa que deve ser ultrapassada" (suponho que esta afirmação é de Nietzsche), esta é a primeira aquisição a purificar a nossa vontade, o primeiro esboço terrivelmente inquieto de um sangue destinado a ser livre ou, pelo menos, a tentar sê-lo até onde o permitir a sua resistência à força da dor.



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M. S. LOURENÇO (1936-2009)

Pai do helenista Frederico Lourenço, filósofo e professor de filosofia antes do mais, escreveu poesia também com um pé de partida no surrealismo mas depois... foi-se embora! Para não desirmanar do texto acima e por pouco conhecedor do poeta em questão, transcrevo sim um texto seu sobre o Cacém.


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(...) Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida. (...)



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JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937-1984)

É necessário esquecer muita coisa para chegar à poesia de José Carlos Ary dos Santos. Esquecer a desfolhada, a bandeira do PCP sobre o caixão, a voz rouca a declamar, a imagem televisa. Muita poesia é apenas fácil, alguma aqui e ali é bem boa.


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HERÓI



Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.


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MARIA TERESA HORTA (1937- )

Muito nova foi uma das "Três Marias" que publicaram as "Novas Cartas Portuguesas" e pouco depois participou na Poesia 61. Também jornalista, mais recentemente romancista. Poesia lírica, sensual. Casada desde os 17 anos de idade. Recusou receber o Prémio D. Dinis de 2011 das mãos de Pedro Passos Coelho.


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A VAGINA


É cálida flor
E trópica mansamente
De leite entreaberta às tuas
Mãos

Feltro das pétalas que por dentro
Tem o felpo das pálpebras
Da língua a lentidão

Guelra do corpo
Pulmão que não respira

Dobada em muco
Tecida em água

Flor carnívora voraz do próprio
suco
No vertre entorpecida
Nas pernas sequestrada



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FERNANDO ASSIS PACHECO (1937-1995)

Terá morrido à porta de uma livraria e em sua casa não havia televisão. Por todos conhecido como jornalista no Jornal e no Se7e, chegou a colaborar na RTP. Escreveu um bom romance como homenagem ao seu avô da Galiza, "Trabalhos e Paixões de Benito Prada". Mas a sua poesia, a sua poesia... é tão Grande! Menos mal que houve o Fernando Assis Pacheco!


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MAS AGORA QUE VAI DESCER A NOITE NA MINHA VIDA


Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores

triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola

triste de mim triste e perdido
entre duas ruas
uma que vai para o Norte outra para o Sul
e ambas cortadas aos peões
que não cooperam devidamente
(com este governo de merda é claro)

triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona

a tarde triste os anos tristes
a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre

triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura 

do córtex cerebral



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ALBERTO PIMENTA (1937- )

Melhor a escrever do  que em intervenção televisiva. Mas performances como o fechar-se numa jaula no Zoo de Lisboa ao lado dos macacos com o letreiro "Homo sapiens" fizeram história, pelo menos portuguesa. A sua obra não é só o "Discurso sobre o Filho-da-Puta". E também não é só provocação ou experimentalismo.


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A SITUAÇÃO DA OVELHA


a ovelha vive em rebanho
e sente-se orgulhosa
(excepto, claro, a ranhosa)

a ovelha produz a lã,
em troca tem o sustento
e já não precisa de
passar a noite ao relento

é guiada pelo cão-pastor
e governada por pelicanos
e outros moradores dos céus
que lhe têm um grande amor
e lhe pedem o seu voto
por favor ou por amor de deus:

vota TETRÁS
          o que melhor te leve (e te trás)
vota ROLA
          a única que não te enrola
vota SANTÍSSIMA TRINDADE (símbolo POMBA)
          sempre são três
não votes MAL
          pensa no que diz o cardeal
vota CATATUA
          sempre é a tua

A ovelha entrega o boletim dobrado em quatro
e por hábito pergunta: - Quanto é?
- A nossa democracia assenta no voto gratuito -
diz o presidente da mesa.



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JOSÉ AUGUSTO SEABRA (1937-2004)

Home do Alto Douro, preso e exilado, voltou a Portugal em 74. Foi Ministro da Cultura pelo PSD de Mota Pinto no Bloco Central. No mais tempo andou por fora, entre outras coisas um erudito pessoano. Lembro-me de não penetrar bem na sua poesia antologiada na 4ª série das "Líricas Portuguesas" pelo Ramos Rosa. Mas este poema abaixo Vale.


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Nem nos defende a ausência:
é o reversoSabemos todos já bem a ciência
da traição que se oculta a cada verso.

Nem nos salva a desculpa
de anoitecer, poetas:
por cada mea culpa,
apontam-nos a morte noutras setas.

Ficar nem chega. Ou ir
ou sepultar-nos.
Foge-nos o tempo já de decidir
Sequer suicidar-nos.

Abem ou mal, poetas.
Liberdade
só esta que sorri por entre as frestas
hesitante do peso da verdade.



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FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (1938-2007)

Parte também do grupo Poesia 61, foi dos poetas deste grupo aquele/a que melhor depurou a sua escrita e conseguiu chegar a uma poesia essencial, da palavra pouca e da efusão contida.  Ligada também ao teatro. Praticou também a prosa.


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EPÍSTOLA PARA OS MEUS MEDOS


Sois: os sons roucos, a esperança vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem,
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, medo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.



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ARMANDO DA SILVA CARVALHO (1938-2017)

Esqueceram-se de me avisar que tinha morrido o Armando da Silva Carvalho. O primeiro livro dele chamava-se "Lírica Consumível". O inesperado, a ironia, o sarcasmo desmontam a poesia deste autor. O livro premiado "O Amante Japonês" era dedicado ao seu carro. Seria um Toyota?


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Mas quando vi de novo o teu perfil
Em Campo de Ourique
Eu ergui nos ares a vitória antiga
Vivida tantas vezes em noites de álcool
E contigo à espera numa escura
Esquina.

Quem não conhece o amor que não critique
A boca não se perde em lábios grossos
O sexo não se leva a passear como um podengo.

Contigo à minha espera
No silêncio metálico da polícia
O mundo revivia devagar e nem se ouvia
O dia deitava sobre ti a luz imperturbável do milagre
E o desejado que foste
Abriu no meu peito o seu regresso.



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ANTÓNIO BARAHONA DA FONSECA (1939- )

Casado que foi com a actriz Eunice Muñoz, que pensará o poeta das participações desta nas telenovelas? Outro que partiu do surrealismo do Café Gelo e da poesia experimental para Oriente. Converteu-se ao islamismo, aprendeu sânscrito, etc., etc. 


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SONETO A UM SONETO DE BOCAGE


Aproveitar o sangue, prever até à
última gota o suor da letra
e dirigir a dança que se inflitra
pé ante pé na escrita ao pé da pauta

À custa de sofrer na caverna com a
sombra cada vez mais nítida, água
pla cinta no martírio da metáfora:
não desviar da luz a sombra branca

Quando já não puder fazer o ponto
na rota do navio em que derivo
exactamente até ao pé do espírito

saiba morrer o que viver não soube
ressuscitado cada vez mais vivo
por ter vida de mais em cada morte



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LUIZA NETO JORGE (1939-1989)

O maior nome da Poesia 61 escreveu pouca poesia. "Os Sítios Sitiados" coligiram o feito em 73 e depois só apareceu póstumo o volume "A Lume". Vai de barato que da poesia escrita por mulheres neste Portugal do século XX esta é sem dúvida a mais poderosa. E que de toda a poesia que sucedeu a Herberto Helder é a única que lhe sobreviveu dialogando.


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O SÍTIO EM VISTA


Trazem as árvores insignificantes
o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,
alçam outros armazéns sonoros
casas de relâmpagos e de cataclismos.

Chega-se. Parte-se. Segreda-se
de seres indeterminados que movem
resistência. Pelejam mais.

E quando a sua pele se usa vence
a moda, mudança de uma árvore para a mundanal
outra árvore carregada.

Podem aliás irromper quentes florestas.
Abate-se sobre o lenhador a opulência, o triunfo
do fruto desenvolvido no seu trono
iluminado por quatro archotes de seiva.

*

Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua
difícil de encontrar.

São os campos, gente humílima, absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.


Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.
Algumas cartas, de marear,
não chegam.

*


Criaturas que se reproduziam em interstícios
que se deitavam em divâs
cada vez mais estreitos

a luminosa vocação, a luminosidade
de uma terra sábia e rotunda
suplantava aqueles gritos portadores
de uma defunta órfica voz

Eram as criaturas presas 
do seu século
retraídas nos olhos mal afeiçoados

Filhos mais velhos a atentarem
em como o corpo incha e se perfaz a polpa
como o limite se delimita corpo a corpo
e engorda

Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta
e os mais novos sorriam como lábios
.



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SEBASTIÃO ALBA (1940-2000)

Poeta português naturalizado moçambicano mas que viveu os seus últimos anos nas ruas de Braga, onde morreu atropelado. Foi mais um marginal também da poesia a quem Herberto Helder deu uma mão.


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Quando escreve descalça-se
à entrada do poema,
encurvado cisma, inala
o flato dos fiéis.

Mas não terá huri
que lhe perfume o lingam,
lhe remova os estigmas -

escriba moroso, aquém
da rede mosquiteira,
com um pôr do sol
irresolúvel, no índico,

e telhados sob a chuva,
sob os telhados, nós
olhando as sebes
e, sob as sebes, sapos.



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A. M. PIRES  CABRAL (1941- )

Cansa que sempre que se fale deste poeta se comece por o identificar como natural e residente em Trás-os-Montes. Verdade seja dita que a primeira colectânea de poemas sai em 74 e chama-se "Algures a Nordeste". A sua escrita poética, cada vez mais clássica mas nunca abdicando do salto que sempre está na poesia Maior, salva-o da prosa, que, confesso, aprecio bem menos. Na verdade toda a sua poesia Vale.  O poema abaixo é um doutoramento em Interior, agora que está, fumegante ainda, na moda.


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PREÇO


A ira linear aqui sentada
e os seus sintomas.

Trabalhos que transbordam das alfaias,
invernos dados à carne.

Pela prenhez da terra
é muito preço.



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GASTÃO CRUZ (1941- )

O mais novo do grupo Poesia 61, nele publicou "A Morte Percutiva" com 20 anos. Homem também de teatro. Chegou a estar casado com Fiama, o que é engraçado. A sua escrita tem vindo a tornar-se cada vez menos percutiva com os anos, mas não menos interessante.


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Um ano na aventura na altitude
do mundo
fim do ano alteração do sangue
nomenclatura
mudança noite
estatura
de quem já tarde conhece a solidão
que procura.



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FÁTIMA MALDONADO (1941- )

Marginal, assumo, porque pouco consigo descobrir sobre ela. Exerceu crítica literária no Expresso. A primeira recolha de poemas só saiu em 1980. Sem concessões escreve. Se quiséssemos criar uma banda-sonora para os seus poemas ela estaria algures entre a Segunda Escola de Viena e o Speed Metal.


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EQUÍVOCO


É-se feliz quando acaba a servidão
pode ver-se outro corpo
e já não nos perturba
a paz espreguiça-se
um gato sonolento
nos pequenos oásis reconquistos.
Em incursões diárias
vão derruindo coisas
o recorte da boca, o moreno da pele,
o combate dura há tanto tempo
que cada fortaleza me é familiar
às vezes descanso nas ameias
aceito pão e vinho
o som dos tímbalos
os banhos de vapor.
Mas de manhã aperto a armadura
levanto pó e cruzo-me na praça
com cavalos sedentos
(tratadores cabisbaixos
afastam-se do sol)
na sombra reclina-se
a paz de carmesim
as ondas do veludo
naufragam-lhe nos joelhos
acena-me que pare
mas nunca lhe obedeço
e volto a arrasar
mais um dos teus refúgios.



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domingo, 17 de dezembro de 2017

Agora são Treze Poetas.

Agora chegámos aos anos de Herberto Helder. "Sabemos todos" que Herberto Helder foi o segundo "monstro" que a poesia portuguesa produziu no século XX. Esta unanimidade levou a extremos de mimetismo - houve uma fase em que todos escreviam "à Herberto Helder" - e à famosa carta de amor de Joaquim Manuel Magalhães onde este rejeitava - por amor - o mimetismo atrás descrito. Foi pouco antes de chegarmos ao famoso "regresso ao real". Mas estes anos produziram muito mais, por exemplo, Ruy Belo. Quem sobrevive ileso a conhecer Ruy Belo? E Gabriela Llansol. E mais. Estes anos sessenta entretiveram-se com uma coisa chamada Poesia Experimental. Esta brincadeira fez-nos perder algum tempo... Herberto Helder foi um dos pais da brincadeira, é certo. Vamos a isto.



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HERBERTO HELDER (1930-2015)

Nascido madeirense e morto eremita em Cascais, a sua poesia, libertária e com um pé de saída no surrealismo, é declamativa e xamânica e tudo o mais. O seu sopro vital obscureceu durante uns anos por cá o facto de que há outras formas de fazer a dita e cuja. A fantástica canção dos primeiros livros secava todas as alternativas. Vivíamos deslumbrados, havia um Sol. Depois livros vários, os textos de "Passos Em Volta", as famosas traduções do "Bebedor Nocturno" ou das "Magias" sedimentaram o mito, bem como o não dar entrevistas, recusar prémios, as escassas fotografias. Os últimos anos - porque a Assírio & Alvim ficou diferente? - mudaram um pouco a táctica. Um longo silêncio poético foi interrompido para gáudio das massas. Houve um acelerar do refazer do texto das poesias completas, o tal "Poema Contínuo". E a campanha publicitária à volta do "A Morte Sem Mestre"... Um ano ou dois e vai acontecer um poemário, tenho a certeza. Mas, feitas as contas, que Poesia! Logo abaixo um poema perfeito.


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EM MARTE APARECE A TUA CABEÇA -


Em marte aparece a tua cabeça -
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina -
eu queria dizer.

Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas -
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos ll, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.

O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.

A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes -
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.

Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, como maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio - e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. A tua cabeça, a cortina fria.

Dou-te as letras dos peixes, escutando -
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.



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MARIA ALBERTA MENERES (1930-)

Foi casada com E. M. Melo e Castro e organizou com ele a Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa. Passou um pouco ao lado das polémicas experimentais dos anos sessenta embora a sua poesia fosse do seu tempo e de muita valia. Tornou-se muito mais conhecida pelo seu papel em criar uma literatura infanto-juvenil e sobretudo uma poesia infanto-juvenil capaz. É a mãe da Geninha Melo e Castro, é verdade.


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Hoje me chamo estrela
ou me chamam navio
ou rota de fadiga.

Hoje me chamo névoa
ou mãe de cinco filhos
que o pensamento abriga.

Ou lúcida sirene
do violento incêndio
que para nós destrói.

Ou vidro revoltado
na funda transparência
que hoje em meu nome dói.



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ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988)

Um surrealista tardio, a sua colectânea de poemas "Uma Faca nos Dentes" saiu em 83 prefaciada por Herberto Helder. Durante mais de vinte anos foi o encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, o que faz dele um amigo meu.


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POEMA


Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada.

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar.



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MARIA GABRIELA LLANSOL (1931-2008)

Se o que escreveu Maria Gabriela Llansol não é poesia, então o que é poesia? Exilada na Bélgica de 65 a 84 (para fugir, o marido, à tropa), participou lá na criação dum espaço educativo alternativo, a Escola de Namur, que ganhou foros de lenda. Enquanto isso escrevia. Escrevia algo que é texto. Onde as palavras fluem sobre a vida, o mundo, o de hoje, o antigo, onde a diferença está ou esteve. O texto cria um mundo novo, diferente, uma alternativa a este porque alternativas são as vidas que os rebeldes, os diferentes buscam, buscaram. Atenção, diferente pode ser uma pedra. Dizem que Llansol, o duplo "ll" por uma ascendência catalã, pode ser viciante, portanto atenção. Mas não é assim a poesia Maior?


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106


Basta fechar os olhos _____________ perdê-los
De vista _________________________, para que as cores,
Libertas das formas _____________________________ corram,
Inquietas pelo cérebro _________________________ em busca deles

"Onde parais? Que não nos vedes."
Ou seja, onde se perde a frequência não absorvida
Pela forma.

Mas o olhar, servindo-se do poema de Rilke
(Que para essa ocasião o escreveu), velando-se
Com as pestanas, dir-lhe-á que anda por aí e não
Perdido, que pode estar calma, que anda por aí,
Que se apagou por falta de chama momentânea,
Que anda por aí e não se sobressalte com a ventana
Fechada, que nenhuma frequência se perde

"Ó meu amor, eu estou por aí."



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JOSÉ BENTO (1932-)

Da próxima vez que passar por Pardilhó vê-la-ei com novos olhos porque foi ali que nasceu José Bento. Discreto e compreensivo tradutor de TODA a grande poesia espanhola, tem-se esquecido quase sistematicamente de publicar a sua própria poesia. A colectânea "Silabário" vale ouro. 


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41


   Não peças a quem deste: evitarás
mais que a rajada rija da recusa:
o asco pelo embuste inverosímil
e o responso rançoso do teu mérito,
invocados para diluir a negativa.

   O que não te foi dito esquece.
Melhor que contestá-los, aprender
a indiferença, para ninguém gratuita:
o alheio desprezo, mais benévolo
que o total que te concedas, te liberte.



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E. M. MELO E CASTRO (1932-)

Ao contrário de José Sócrates este engenheiro nasceu mesmo na Covilhã. O seu papel nos tempos na Poesia Experimental nos anos sessenta grangeou-lhe inimigos qb e que felizmente não tinham porte de arma. Admito a irregularidade da sua prestação e o vazio de muitas das experiências. E que um livro se chame "Cara lh amas" é imperdoável, mesmo se publicado em 1975. Serralves dedicou uma exposição retrospectiva à sua obra poétca, gráfica, e filmada no ano de 2006. Eu confesso gostar dos seus primeiros livros onde, por ex., reside o manifesto abaixo. 


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REFUTAÇÃO PACÍFICA DA BELEZA


1. esquema


Na História
símbolos de civilização

na memória
miséria e desespero

não há poesia
no ideal.


2. panorama


No alto das casas da cidade
vejo os telhados divididos em dois
luz - sem luz
das casas conhecidas demais

No alto dos telhados da cidade
olhos os quartos fechados
e vejo os quartos abertos
divididos em dois

Por dentro dos dois quartos que habito
vejo distintamente
todos os homens divididos em dois
fazendo equilíbrios forçados

Vejo por dentro de toda a escuridão
a nossa vida toda retalhada
em dois enormes pedaços retalhados


3. factos


Desde que há mais do que um homem
o Belo já não chega.
As mãos são supérfluas
desde que há mais do que um homem no mundo.
Foi por isso que Abel matou Caim matou Abel
e o fogo invisível queimou o espírito novo.
Se me olhas nos olhos
não me olhas - devoras-me, meu irmão.
Se penso em ti, destruo-te.
Para que a pura beleza em movimento possa reinar
aprendemos as guerras.
Mas na paz a beleza não chega.
É necessário inventar outra forma de destruição.



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RUI KNOPFLI (1932-1997)

A história aconteceu e não há volta atrás. A presença portuguesa em Moçambique pode ser redimida pela criação da poesia de Rui Knopfli, nascido em Inhambane. Delegado de Informação Médica vinte anos, até 74, muito teríamos para conversar. Desistiu da sua terra em 75 mas com pena. O livro que escreveu sobre e as fotografias que tirou à Ilha de Moçambique é um dos meus livros de cabeceira.


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SMILE


O teu sorriso punha uma breve nota
cálida no cenho franzido do céu.
O teu sorriso arriscava um tímido fulgor
na máscara de gelo, errava no perfil rígido
da cidade vestida de rigoroso escuro,
escorria mordiscante pela curva
gótica dos monumentos e saltitava,
ave transida de frio,
na relva húmida de Regent Park.
Pairava acrobático em redor da coluna
sob a mirada sorrateira de Lord Nelson
e partia célere no primeiro subway
até Tower Bridge, para logo surgir
junto à pedra negra e solene da Abadia.
Distraída um instante do seu ar very british
a cidade ameaçava sorrir para o teu sorriso,
alegre como o brilho plástico das minissaias,
desenvolto como as cabeleiras soltas
ao vento de King's Road.
O teu sorriso, todo dentes e ternura.



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RUY BELO (1933-1978)

Se eu fosse um bom poeta gostaria de escrever como o Ruy Belo. Porque nas centenas de poemas que dele já li nunca discordámos sequer num acento. Fui aqui há uns anos à praia da Consolação, onde Ruy Belo passava férias, e apresentei-a à minha filha. Ruy Belo escreveu sempre para além desta terra. Aceitava-a, amava-a até, mas via sempre algo mais. Quando percebeu que a explicação para o que via não era divina ficou triste. E essa tristeza atravessou a sua poesia até ao fim. Porque Ruy Belo morreu nunca estamos completamente vivos. E isto pode explicar um pouco o quanto gosto desta poesia. Assírio & Alvim, cuidado com o que fazes com este Poeta!


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POEMA PARA A CATARINA


Hei-de levar-te filha a conhecer a neve 
tu que sabes do sol e das marés 
mas nunca repousaste os teus pequenos pés 
na alvura que só longe e em ti houve 

Tinha estado na morte e não pudera 
aguentar tamanha solidão 
mas depois tive a companhia do nevão 
e tu hás-de vir filha com a primavera 

E o deslumbrante resplendor da alegria 
tua fidelidade eterna à vida 
já não permitirão tua partida 
quando raiar fatal o novo dia 

As barcas carregadas com as rosas 
virão perto daquela pura voz 
abandonada pelos meus longínquos avós 
em lagoas profundas perigosas 

Não me afecta o mínimo cuidado 
sinto-me vertical sinto-me forte 
embora leve em mim até à morte 
a cabeça de um príncipe coitado 

Naquelas madrugadas primitivas 
eu segregava um secreto pranto 
vizinho da alegria enquanto 
pelos dias tu ias de mãos vivas 

O costume da minha solidão 
é ver pela janela as oliveiras 
que de todas as árvores foram as primeiras 
que tocaram meu jovem coração 

Purificado pelo tempo estou 
um tempo de feroz esquecimento 
vem minha filha vem neste momento 
em que eu liberto ao teu encontro vou 

Recordo-me do teu cabelo de chuva 
quando tu caminhavas ágil e ladina 
pelos desfiladeiros da neblina 
nessa distante região da uva 

Minha paixão viril serena pelos ritos 
deseja que na minha companhia 
tu sejas imolada à alegria 
na surda região alheia aos gritos 

Não olhes o meu rosto devastado pela idade 
a vida para mim é como se chovesse 
mas se viesses seria como se me acontecesse 
cantar contigo a perene mocidade 

O tempo em que viesses sim seria 
um tempo vertebrado um tempo inteiro 
e não meras palavras arrancadas ao tinteiro 
e alinhadas em fugaz caligrafia 

Viesses tu que a tua vinda afastaria 
todos os meus cuidados transumantes 
e para sempre alegre viveria 
os meus dias infantes já distantes 

A solução da solidão compartilhada 
onde vejo o meu mais profundo mundo 
seria a solução ampla e sem fundo 
oposta sem resposta ao meu país do nada 

Com a voracidade do olvido 
seria só tu vires e lutares 
e por mim de olhos enormes e crepusculares 
serias ente querido recebido 

Volta com os primeiros anjos de dezembro 
num vasto laranjal eu quero amar-te 
e então a tua vida há-de ser a minha arte 
e o teu vulto a única coisa que relembro 

O passado é mentira digo eu 
sensível ao esplendor do meio-dia 
e sob a árvore plena da alegria 
o mínimo cuidado esmoreceu 

Ao grande peso de tanto passado 
com a insónia da dúvida na testa 
basta a tua presença que protesta 
e todo eu me sinto renovado 




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JOÃO PEDRO GRABATO DIAS (1933-1994)

O nome literário do pintor António Quadros, ou outro dos poetas que Moçambique nos ofereceu. Grabato Dias viveu lá 20 anos, até 84, e despediu-se do país mais tarde do que Knopfli. Foi o não confesso autor do "mito" Mutimati Barnabé João, guerrilheiro morto que teria escrito uns poemas para a revolução moçambicana... depois escreveu as "Quybyrycas", sátira dos Lusíadas que consegue ser ainda mais extensa do que o original. Etc., etc., etc. O melhor que consegui sobre este homem é ouvir vezes sem conta "Eu, O Povo" do Zeca Afonso e o extenso artigo do António Cabrita sobre.  Tenho a sorte de possuir o livro de Mutimati. Também foi dedicado apicultor e quinze mil outras coisas. A sua escrita fica um pouco abafada pelo extensão léxica mas está muito para além do exercício de ginásio.


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MÁRTIRMONIAL,
MATRIARMORIAL,
MATRIHORMONAL


Cavalheiro distinto, e modesto,
com alguma cultura, em pousio,
de boagnífica família e lavradio
passável, lutador ambidextro

com ursos superiores, bastante lesto
nas também duas pernas, de assobio
em coisas musicais e sem fastio
ou outro desarranjo; ainda intesto

por falta de vagares ou vícios; vivo
em jogos de sala e outro desporto
procura jovem fêmea com lascivo

andar, dotada quanto a dote e a dotes
glúteas nalgas de alevantar um morto
e, se possível, algo que decote.



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ANTÓNIO OSÓRIO (1933-)

Com mãe italiana, a sua poesia é, como muita da poesia italiana do século XX, deliberadamente menor, escassa, de poema curto e palavra escolhida. Lembro-me de uma caricatura escrita pelo Miguel Esteves Cardoso - brincadeira de amigo... - onde o MEC transformava o borda-de-água em poemas do António Osório. Publicou só nos setenta e com lógica - a sua poesia, embora não igual, vai paralela ao movimento do "regresso ao real". Foi bastonário da Ordem dos Advogados. Devo-lhe inúmeros poemas que fiz meus. E temos uma amiga em comum.


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UM SENTIDO


Porque há um sentido
no lírio, incensar-se;
e no choupo, erguer-se;
e na urze arborescente,
ampliar-se;
e no cobre, primeira cura,
que dou à vinha,
procriar-se.

E outro, pressago,
sentido há na memória,
explodirse.
E outro, imensurável,
no amor, entregar-se.
E outro, definitivo,
na morte, render-se.



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CRISTOVAM PAVIA (1933-68)

O último dos nossos poetas-mortos-jovens a ser redescoberto, era filho de um presencista. Leio a sua história, breve, onde o sofrimento mental e a busca de um ideal - cristão, outro - inatingível desempenharam um papel importante. Fez psicoterapia em Heidelberg e trabalhou nas obras, admirou raparigas loiras... por fim, decidiu parar.


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Se fizer um pequeno esforço levanto-me e caminho no ar
Porque o meu Deus dá-me forças já não minhas.
Se fizer mais um pequeno esforço tudo se transformará em verdadeiro prazer
E em cada gota de suor, em cada brilho frio nas gotas de suor
Rodará um mundo fresco como um leque que se abre.
Se fizer um último esforço será a vertigem, talvez a deliciosa vertigem.
E depois não interessa o que virá.
Creio neste amor angustiado.



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MANUEL DE CASTRO (1934-1971)

E chega mais um surrealista. Antologiado por Herberto Helder, despediu-se cedo da vida por "autodestruição premeditada" (cf Herberto Helder) ou "cinco anos de dolorosa doença" (Wikipédia). 


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A ERC JOSAMU JOVE


Nós os intocáveis, os imundos, recusamos
nossa vida à condição comum.
Porque é intemporal a rosa que nos leva
entre o dia e a noite.
Nós os derrotados, impuros, oferecemos
nossa miséria a um significado
oculto e diferente -

asa branca na varanda
nome escrito nos telhados
estrada atravessando a terra de ninguém

Nós os últimos dos últimos coroamos
impérios e jardins



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PEDRO TAMEN (1934-)

Descente poético em linha recta de Jorge de Sena, Pedro Tamen foi depurando a sua escrita como se pode coligir na sua colecção "Retábulo de Matérias". Praticante de formas clássicas como o soneto e portanto também um poeta que olha muito para Camões. Foi um discreto director da Gulbenkian bem antes desta começar a encolher.


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3


Sentado no curto escabelo que me deram
espreito aqui da cave pela janela alta
as pessoas que passam.
Passam passam deixo de vê-las
enquanto ergo e baixo a ferramenta.
Continuo sentado no escabelo que me deram
e no escuro desta cave estou acompanhado.
Sim, acompanhado
não por quem passa
mas por quem não passa. 






terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Outros Oito Poetas


Depois do sobressalto que os autores anteriores trouxeram, com os nomes que se seguem fazemos a ponte para os remexidos anos sessenta que hão de chegar. Ainda há surrealistas, por exemplo. Nos anos cinquenta a ditadura salazarista pesou mais porque durava, não ia embora. Por isso houve emigrações e silêncios. Por vir a Guerra Colonial que acabaria, com o  Tempo, por matar o regime. E já estão quarenta poemas - e poetas!



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FERNANDA BOTELHO (1926-2007)

Fundadora da revista Távola Redonda, apresentou-se ao mundo poetisa mas depois enveredou pela prosa onde se tornou muito mais conhecida. A curta obra poética terá representado uma rotura com a poesia feminina do tempo, disseram. Aparte o elogio dúbio há nesta poesia realmente às vezes uma ironia seca...


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POEMA


Negue-se o mundo a me dizer: sim!
Negue-se o ar da serra aos meus pulmões!
Fechem-se as janelas porque vim
interromper os solheiros e os pregões!
Neguem-me o passaporte
pra o estrangeiro!
Encontre-se sem norte
e sem dinheiro
(e desprevenidamente des-emotiva!)
frente às rodas paralelas
duma qualquer locomotiva,
ou entre elas,
ou melhor: debaixo delas!
— Por tudo encolherei os ombros
que, em suma, dizem crentes e descrentes
a vida é feita de rombos e de tombos,
doença, hostilidade e guinchos de serpentes.

Mas tu — (Homem! Garra!
Sucesso! ou Vento! ou Amarra!
Vício alegre! ou Labirinto!
Bebedeira de absinto
Filhos!
E Deus neles!)
— não me negues o tom simples
e às vezes reles
da tua voz pura-impura
com que segues
a minha vil e vã desenvoltura.



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FERNANDO LEMOS (1926-)

Começou nos surrealistas e desenvolveu a sua arte na pintura, na fotografia e na poesia. Notabilizou-se nas três. Em 1953 partiu para o Brasil porque em Portugal havia uma ditadura e não mais voltou. Encontrou uma ditatura no Brasil em 1964 mas o vírus brasileiro já estava entranhado e a nacionalidade concedida. Mais conhecido lá do que cá, a sua colectânea de poesia editada pela ICNM chamava-se "Cá & Lá".


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AS NOVAS LEIS.


Atrás de qualquer porta
está sempre o mar alto que me espreita
Ou então a capa em que o vento abate
a dúvida ou a suspeita

Linhas rectas seguem cidades
quebrando fazendo nós
quando um homem lança mão num estrado
de abelhas completamente sós

Criaram-se novas leis
novos modelos de calçado
Fotografias com cores
décors do patriarcado

Mas as facas de cortar fruta
que correm a praia de extremo a extremo
dançam em pontas sobre o pequeno
E as mães que já não sabem
fazer as suas contas
deitam-se ao mar pelo que vêem
e julgam-no sereno

Saem dos astros pés das ondas mãos
a taparem os rostos os medos
As fardas que andam nuas
sobram armas lugares amenos

O mundo não previa tanto
e esgotou-se a lotação
Vão pelos canos correndo pardais cegos
como convém à perseguição

Criaram-se novas leis
há pânico pelas nossas varandas
nascem entretanto árvores nuas
tantas
Mas os dentes ainda são de pedra
apesar da nova lei que os não respeita
Embora a máquina de fazer peças para novas peças
seja o mar alto que atrás da porta me espreita.




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PEDRO OOM (1926-1974)

Morreu no dia a seguir ao 25 de Abril o autor do Manifesto do Abjeccionismo, texto "que se perdeu". Tinha ido ao Aeroporto da Portela esperar o Cunhal e o Zé Mário Branco e ali caiu para o lado. Parou de escrever aos 36 anos, convertido ao funcionalismo público no INE e ao xadrez. Querem poeta mais surrealista do que este?


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MÃOTÓTEM


   Existe, lá, entre as sombras e o declinar dos vazios um homem deitado. Este alonga-se pelas estradas macias e a sua sombra persegue-o no seu repouso pela eternidade.
   Outrora, quando os caminhos eram possuídos de lama, o sangue que jorrava das crateras que contorcem os céus tinha o sabor mais puro que um seio de mãe pode ter.
   Assim, deitado, ele ergueu-se levemente apoiando-se no cotovelo direito e pôs-se a espreitar a eternidade. Esta era feita de si mesma sem direito algum a qualquer recompensa.
   Falou em surdina, quase com medo de acordar as trevas que sugam no povoado:

   «Aqui estou, semiconsciente, como morto que de repente acorda e que sente a sua insensibilidade projectar-se monótona no dia a dia infindável.
   Aqui estou, semimorto, como uma vela automática que se apaga na escuridão e se acende quando a luz do sol rompe ruidosa. Meu lamento não é raiva nem certeza. Espreitei na fechadura dos horizontes e o que eu julgava ser vácuo e raiva emplumada mostrou-se-me coalhado de cogumelos e de lagartas. Notei, em seguida, um perfume esquisito, cheiro forte de coxas queimadas que eu soube depois ser o excremento do sexo dos Deuses».

   A estrada interminável persegue-o. Um automóvel move-se interrompendo-lhe a locomovidade dos pensamentos.

   «Agora compreendo porque o vazio é uma ideia compacta e esta, inversamente, um conjunto de Deuses. Expulsei-os! Meu lamento não é raiva nem certeza. Sou eu, expulso dos meus pensamentos.»

   Ergueu-se. Levantou e sacudiu as espáduas. Era mais alto que os montes.
   Adiantou-se.
   A sua sombra infindável persegue-o nos horizontes.

*

   Há qualquer coisa que faz sofrer infinitamente a humanidade. Calcule-se o peso de tal sofrimento medindo-o por quilos, por latas, por transatlânticos, por caçarolas e por sacos de café.
   Há qualquer coisa...
   Na planície aberta a todos os ventos levantou-se uma parede, caiu uma árvore, rompeu-se um dique, construiu-se uma ponte. E, súbito a vastidão rompe num falar brusco, de repelão, sem sustos:

   «Bom dia, Vossa Excelência compreende, por certo, que eu, mísera, nada posso fazer quando o peso da consciência se abate como avalancha sobre a delgada crosta de um verniz de séculos. Vossa Excelência compreende, por certo... ».

   Mas a noite chega e é a mesma de sempre.



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DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996)

Mais um homem da "Távola Redonda", tornou-se conhecido pelos seus programas na televisão, poemas feitos fados por Amália, e a polémica à volta do seu premiado romance "Um Amor Feliz". Socialista encartado como Sophia, foi Secretário de Estado da Cultura. Fumava cachimbo. Seria melhor contista? A sua poesia, que não frequento muito, tem uma temática preferencial que se explicita no título do seu último livro publicado: "Música de Cama". O poema abaixo foi antologiado por Eugénio de Andrade.


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PRESÍDIO


Nem todo o corpo é carne … Não, nem todo,
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco …?

E o ventre, inconsistente como o lodo? …
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor … Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo …

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono …
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!



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ALBERTO DE LACERDA (1928-2007)

Homem que também frequentou a "Távola Redonda", nascido (por acaso?) na lindíssima Ilha de Moçambique, cedo emigrou para Londres e lá começou a publicar e ser conhecido, bastante mais do que em Portugal, tanto que o seu falecimento foi bem mais sentido para lá do Canal. Poesia elegante e leve como poucas, Alberto de Lacerda era um homossexual assumido e um homem cuja vida nunca foi fácil nem economicamente fácil. Mas, porém, era um Iluminado. No UK de poesia portuguesa conhecem Pessoa, Lacerda e pouco mais. Por alguma razão será. Poesia portuguesa, pergunto? Sim! Pretty much so!


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UM DEUS


Prazer. Mais do que isso. A pureza de uma tarde de sol sem humidade nem nuvens.

Deserto. Não propriamente deserto.
Mas o tumulto estático da areia infinita.

Corpo. Não propriamente um corpo.
Um elo. Um anel não fechado.

Um homem.
Não propriamente um homem.

Um deus.
Exactamente um deus.



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ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928-1953)

António Maria Lisboa nasceu na dita cidade e nela morreu por tuberculose 25 anos depois. O surrealista que mais o foi, protagonista de uma adolescente busca do diferente e de um outro mundo sempre, foi elogiado postumamente pelo seu amigo Cesariny como o maior poeta surrealista português. Acresce ao mito grande parte dos seus manuscritos terem sido destruídos pela família. Curioso o seu percurso médico ao morrer poucos meses depois de Sebastião da Gama da mesma doença, os dois mostrando que caminhos diferentes percorria a poesia portuguesa naqueles tempos.


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RÊVE OUBLIÉ


Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas 
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim 
nesta minha mania de te dar o que tu gostas 
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti 

Agora na superfície da luz a procurar a sombra 
agora encostado ao vidro a sonhar a terra 
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba 
e depois matar-te e dar-te vida eterna 

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros 
continuar a viver até cristalizar entre neve 
continuar a contar a lenda duma princesa sueca 
e depois fechar a porta para tremermos de medo 

Contar a vida pelos dedos e perdê-los 
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada 
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho 
e depois contar um a um os teus dedos de fada 

Abrir-se a janela para entrarem estrelas 
abrir-se a luz para entrarem olhos 
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala 
e depois ruidosa uma dentadura velha 
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro 

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata. 




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ANA HATHERLY (1929-2015)

A mulher que esteve à frente dos tempos da Poesia Experimental nos anos sessenta portugueses, sobreviveu a essa devastação da palavra e portanto a ela própria. Se os poemas-imagem e todas essas coisas são se calhar não poesia mas (boa) obra plástica, as "Tisanas" que a escritora foi publicando e acrescentando a cada nova edição são o que (bem) ficou. Foi portanto também pintora emérita, cineasta e profunda conhecedora do barroco poético português (a palavra, sempre a palavra).


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172


Sento-me à porta de casa e penso: as máquinas mesmo as máquinas-do-desejo são o que se deixa atravessar pela função. São frias mesmo nas suas explosões mesmo nos seus óleos nos seus combustíveis em chamas. A frieza da máquina é herdada da frieza essencial porque o desejo o que quer é deixar-se atravessar ser canal. É para ser e não mais. Não é?




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FERNANDO ECHEVARRÍA (1929- )

Nascido em Espanha de mãe espanhola (vidé o apelido), exilado em Paris na ditadura, Fernando Echevarría escreve uma poesia de um cristal áspero sem toque que se lhe compare em Portugal. Usa as palavras difíceis para expor as coisas simples e luminosas. Tem uma obra extensíssima felizmente antologiada num livro que se chama... "Antologia", na sua editora de sempre, a Afrontamento. Nunca falou sobre os seus tempos revolucionários na LUAR. O poema abaixo é exemplo perfeito daquilo que eu não consegui explicar.


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A ENXADA (extracto)


1

O movimento vertical que cumpre
amanha o sol. E, com o brilho da água;
lava a sombra da terra, a enxúndia do estrume
e o resplendor da palavra.
Ao meio dia, a sua luz reúne
pino de esforço, relâmpago. Ou estrada
queimando-se no risco que resume
o gesto que desaba.

Mas, sobretudo, é limpa ferramenta.
Lugar por onde o espírito, estremecendo, passa
e brilha com aquela transparência
que sobe do trabalho. E pára na palavra.






segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Segunda.

Agora mesmo passei por um doente amputado das duas pernas. Junto a uma máquina protestava por não ter caído um Kinder Bueno.

The Misfits.

She knew she was one of those horses being caught. They all were.

O sítio certo.

Tão simpático ter vindo a Ana finalmente colocar as coisas no sítio certo!

domingo, 10 de dezembro de 2017

A nossa loja.

Após três semanas sem cartão novo da Ordem e cansado de manuscrever receitas decidi tentar usar para o mesmo efeito o Cartão do Cidadão, com o sucesso esperado: fui informado que ele estava bloqueado. Um bloqueio virginal e profilático, assumi, pois para este fim nunca fôra usado. Percebi que o desbloqueio implicava deslocar-me a uma Loja do Cidadão e assim fiz. 
Na rifa eu era o D0099. O segurança, uma simpatia, informou-me que só faltavam quatro números. 

Sentei-me. No ecrâ aparecia o 96. Três! Ia ser rápido. Esperei. Dez minutos depois apareceu o 95. E depois o 94. À volta da funcionária que em princípio me iria atender apercebi-me de um movimento algo estranho. O Shopping Arrábida permite através de uns placards informativos que se possa passear e ver montras enquanto as rifas vão correndo. E há uma tolerância de três números, três! O parvo era eu que estava ali sentado. Já íamos em quarenta minutos e o 96 tinha passado a 94. Estava a ver o caso mal parado. Quando achamos que as coisas já não estão bem sempre aparece uma grávida com um carrinho de bebé. Podia só vir a grávida ou só o bebé no carrinho. Não, a coisa tinha que acontecer em dose dupla. Não consegui ter a certeza sobre se o carrinho incluia mesmo um bebé lá dentro, o que para o caso é secundário. A fertilidade tornou-se aos meus olhos subitamente o mais odioso dos empreendimentos. Até porque a grávida levava família anexa e parecia ter muitas dúvidas. 'Da-se!
Abriu entretanto outro guichet, saltou rapidamente para o 97 e o 98 e fui chamado. O meu Cartão de Cidadão não estava bloqueado, nunca o tinha activado, essa é que era essa. Simpático, bem disposto, eficiente o funcionário que me atendeu. Cidadão mais do que activo, "activado", saí da Loja do Cidadão do Arrábida em paz, até contente. Onnde se fecha uma porta ou aparece uma grávida, sempre se abre uma janela ou um novo guichet. Ergo...