quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Jowzjan

Jowzjan é mais uma província do Afeganistão cujo nome deriva de uma história antiga. "Guzgan" era uma antiga região que ficava no sul da estepe da Ásia Central, a leste do planalto iraniano e a norte do Hindu Kush. Guzgan seria uma área muito maior do que a província de que falamos. Jowzjan fica portanto encostada ao Turcomenistão, entre Mazar-e-Sharif e Maymana. O diálogo destas terras é a norte, e portanto, na província fala-se turcomeno, uzbeque e, depois, dari. São pouco mais de 600000 habitantes, a capital chama-se Sheberghan e acumula quase um terço da população da província.

Dez coisas sobre a província de Jowzjan:


Abdul Rashid Dostum nasceu em 1954 na província de Jowzjan numa família uzbeque e veio com tempo a transformar-se num dos chefes militares e caudilhos mais importantes do Afeganistão. Combatendo ao lado dos soviéticos, entrou nos jogos da guerra civil após a retirada destes em 1992 e acabou a comandar um "proto-estado" com sede em Mazar-e-Shariff (vídé província de Balkh), apoiado pelo Uzbequistão, com moeda própria, linhas áereas... um proto-estado onde as mulheres podiam não usar véu, as meninas iam à escola e o consumo de álcool (muito apreciado por Dostum) era permitido. A escola soviética de Dostum fazia dele um chefe de guerra secular. Perdeu e ganhou e perdeu para os Talibã. Foi ministro da defesa do primeiro governo de Hamid Karzai, sendo demitido em 2008 após raptar e torturar um rival local. Exilou-se na Turquia onde reside parte da família. Mas em 2014 era eleito vice-presidente de Ashraf Ghani. Em 2017 voltou para a Turquia outra vez por outra vez ter raptado e torturado sexualmente outro rival político.  Voltou pouco depois, sobreviveu a vários ataques do ISIL e dos Talibã para o matar, tentou defender Mazar-e-Sahriff sem êxito destes últimos. Estará agora a viver com a família na Turquia, sua segunda casa.

Sheberghan é a capital da província e é considerada (talvez a par de Maimana) a capital uzbeque e turcomena do Afeganistão, sendo a cidade do país onde a etnia está mais presente. A sua riqueza advém como sempre da irrigação que a rodeia ligada ao rio Sar I Pul, rio que dá o nome à província que fica a sul e donde provém. O rio termina no deserto a norte sem conseguir chegar ao rio a quem esteve prometido: o  Amu Darya.

Perto de Sheberghan ficam vários ricos campos de gás natural que já foram explorados pelos soviéticos, tendo até existido um gasoduto a ligar estes territórios à Ex-União Soviética. Sheberghan nunca parece ter ganho nada com isto e, aparentemente, o Afeganistão também não. 

A norte de Sheberghan fica a segunda cidade mais importante da província, Aqcha. Conhecida pelos tapetes de produção local. É curioso que os tapetes afegãos não são tecidos por pashtuns mas sim por mulheres uzbeques ou turcomenas. Aliás antigamente dizia-se das noivas turcomenas serem as mais caras de adquirir, ao serem boas tecedeiras.

O sul da província é constituido por um só distrito, Darzab, árido e montanhoso. Nele medrou durante uns anos uma rebelião conduzida por um uzbeque que dava pelo nome de Quari Hekmat e que tinha jurado fidelidade ao Daesh. Portanto a partir de 2015 as lutas aqui aconteciam a três. Um drone americano matou Quari Hekmat em 2018 na província vizinha de Faryab. 

O província de Jowzjan  está encolher a norte. A fronteira com o Uzbequistão é constituída pelo conhecido rio Amu Darya. Este tem migrado o seu curso progressivamente para sul, em parte por intervenção humana uzbeque, e a fronteira assim já desceu uns... vinte e cinco quilómetros!


Perto de Sheberghan fica a sítio arqueológico de Yemshi Tepe, uma antiga cidade Kushan, do início de 1º milénio DC. A necropole dos reis desta cidade ficaria noutro local arqueológico perto. Tillya Tepe, onde se descobriu o famoso "Ouro Bactriano", uma das maiores colecções de artefactos antigos de ouro do mundo. Estamos a falar de mais de 20000 peças. Expostas no Museu Nacional de Kabul e tendo circulado por vários museus do mundo,  o "Ouro Bactriano" era considerada a maior riqueza do Estado Afegão. E tão valioso o conjunto é que era apresentado como garante da estabilidade monetária central do país. Estará agora nas mãos dos Talibã que asseguraram em Set 2021 a sua segurança.





Em Sheberghan fica uma grande mesquita que parece ter sido transladada de Istambul. Construida com dinheiros turcos entre 2016 e 2018, é bastante grande e portanto não tem nada a ver com a arquitectura local.

Um parque de divertimentos com carrinhos de choque na província de Shwberghan foi queimado em 2021 pelos talibã dias depois de aparecerem vídeos dos mesmos talibã a andarem divertidíssimos em carrinhos de choque na capital Kabul recém conquistada. A diferença? O parque destruido continha estatuária diversa, ora os talibã não gostam de estátuas, vidé Bamyan.




A Turquia tem investido muito no Afeganistão no sentido de estender a sua influência na Ásia Central e de atender às suas afinidades com vários povos desta zona, nomeadamente os turcomenos e os uzbeques. Parte deste investimento tem acontecido através da educação. Em Sheberghan e Aqcha existem escolas "Turco-Afegãs" para rapazes e raparigas, construídas por uma fundação ligada ao governo turco. Aparentemente abriram portas para o novo ano lectivo em Setembro passado. 





domingo, 2 de outubro de 2022

As Minhas 101 Leituras: 51-60.




 Mambo e a Ave Mágica - Léon Mercier

Esta foi a minha primeira banda desenhada. Aparecia semanalmente na revista Modas e Bordados que a minha mãe comprava. O meu pai deu-se - coisa rara - ao trabalho de encadernar as páginas que eu semanalmente ia recortando. Léon Mercier é um autor de banda desenhada francês de segunda linha e Mambo o seu herói mais conhecido, aparecido em 1957. Nesta história há uma... "ave mágica" e Mambo, um rapaz-guaxinim, um aventureiro vagabundo que vai ajudar um príncipe herdeiro a recuperar o reino que lhe roubaram. Desenho engraçado, história simples, não há amor como o primeiro, dizem. Não é verdade, mas nunca se esquece.


Maravilhas do Mundo, As / As Maravilhas do Mundo 2 - Roland Gook, ed. Círculo de Leitores.

Este par de livros, editado pelo Círculo de Leitores nos anos 70 e com provável origem alemã, abriu-me os olhos para múltiplas coisas maravilhosas que existiam pelo mundo fora. Ainda me lembro de quando da primeira vez que fui a Berlim com a minha filha a insistência minha em visitar a Igreja Memorial do Imperador Guilherme I, em Berlim ocidental, quase completamente destruída na 2ª Grande Guerra, e cuja refundação através de um templo novo em vidro azul é um sonho da arquitectura moderna... e está no 2º volume.


Maria - José Craveirinha

José Craveirinha foi um grande poeta moçambicano,  a melhor parte africana que ficou da excelente cena intelectual de Moçambique no fim do tempo colonial, contemporâneo de Rui Knopfli e Eugénio  Lisboa. Este livro é completamente dedicado à prematuramente falecida esposa do escritor. Não conheço melhor livro para explicar "o que é o Amor de Uma Vida". E neste livro José Craveirinha fala com a saudosa Maria sobre tudo, num diálogo da primeira até à última página. 

Adágio   "Tinhas razão, Maria. / Sorrisos peculiares de ofídeo / gente que mais bajula / mais periculosa. // Mas porquê, Maria, / se somos tão efémeros? ". /


Mediterrâneo, O - O Espaço e a História - Fernand Braudel & Maurice Aymard.

A história deste Ocidente mau e bom nasce deste mare nostrum cujo nome indica o que durante séculos foi: o centro das terras, o meio que comunicava. Hoje infelizmente separa, a sua travessia hoje em teoria tão mais fácil mas para alguns não e oh tão mais mortal. Fernand Braudel foi o príncipe da nova historiografia francesa, aparecida para o fim do século XX. Escreveu muito sobre o Mediterrâneo. Não romanceando, a história a ser recentrada e reescrita, mas seduzindo com uma escrita de superior qualidade para a terrível epopeia destes povos que à volta de um mar competiam, comerciavam, viviam e morriam.

"A Fenícia é uma guirlanda de pequenos portos encostados à montanha, situados em penínsulas, em ilhotas, como se quisessem permanecer alheios ao continente, frequentemente hostil. Tiro, actualmente ligada a terra firme através de aluviões, estava construída numa ilha estreita, que facultava o essencial à cidade: uma defesa eficaz; dois portos, um a norte, ligando a cidade a Sídon, o outro a sul, para a circulação rumo ao Egipto; finalmente no mar, uma fonte efervescente de água potável, captada no meio da água salgada. Tudo o resto, os víveres, o azeite, o vinho, as matérias-primas, era trazido pelos marinheiros."



Memento Larousse - ed. algures entre 1925 e 1933.

Não sei onde está este livro, de quem o herdei (de meu pai?), o que fiz dele. Memento quer dizer: "Ouvrage où est regroupé l'essentiel des notions où un ensemble de sujets". O livro era maciço, relativamente pequeno, e falava praticamente sobre tudo um pouco. E tinha uma secção sobre geografia que eu longamente bebi, os impérios europeus ainda no seu esplendor máximo. A Rússia era claramente explicada nesta frase: "A Rússia é o único país europeu cujo império está fisicamente ligado à sua terra-mãe europeia". Quase cem anos depois, Putin ainda acredita nisto.


Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar

Li este livro há muito tempo. Já não consigo reproduzir o seu fio narrativo. Sei sim que - com alguma Virginia Woolf - aqui mora para mim a melhor escrita. Nunca mais o voltei a ler por completo. Volto a ele por algumas páginas: leio maravilhado e depois vou-me embora.

"Antínoo era grego: remontei através das recordações daquela família antiga e obscura até à época dos primeiros colonos arcádios nas margens da Propôntide. Mas a Ásia havia produzido naquele sangue um pouco acre o efeito da gota de mel que turva e perfuma um vinho puro. Reencontrava nele as superstições de um discípulo de Apolónio, a fé monárquica de um súbdito oriental do Grande Rei. A sua presença era extraordinariamente silenciosa: seguiu-me como um animal ou como um génio familiar. (...) Aquele belo lebréu ávido de carícias e de ordens deitou-se sobre a minha vida. ".




Metro Châtelet Direction Cassiopée / Brooklin Station Terminus Cosmos - Cristin & Mezières

Esta banda desenhada francesa - que já teve uma não muito feliz versão cinematográfica - mistura muitas coisas que eu gosto: ficção científica, desenho bem feito e bem colorido, mexido e dinâmico, um par de heróis jovens e azougados - Valérian & Laureline -  a correr planetas e galáxias. Quando novo até escrevi poesia "inspirada" em Valérian, vejam lá! O mundo de Christin & Mezières sabe construir raças e mundos alienígenas melhor do que George Lucas ou James Cameron. E não facilita na credibilidade da interacção dos nossos heróis de fantasia com a mãe-terra. Este díptico de álbuns mostra isto melhor que nunca, e serão o auge desta série. 


Miguel Strogoff - Júlio Verne

Este livro de Júlio Verne não foge ao resto da sua obra, embora Miguel Strogoff não invente aqui máquinas voadoras nem navegue pelo fundo dos oceanos. Júlio Verne, ao contrário do que consta, viajou bastante embora nunca tenha visitado a Rússia. A leitura que eu fiz muito jovem deste livro definiu para mim o heroísmo máximo. A história exprime os arquétipos da escrita de Júlio Verne, os franceses expansivos e sanguíneos, os ingleses fleumáticos e cerebrais, os russos heróicos e destemidos, os "tártaros" (nome que define grosseiramente quaisquer povos da Ásia Central indistintamente) cruéis e sanguinários. Não importa. O romantismo tardio e exótico de Júlio Verne faz de Miguel Strogoff para mim dos maiores heróis da literatura de sempre. E eu decorei as terras da Sibéria que ele percorreu: Omsk, Tomsk, Irkutsk...

"Na manhã de 16 de Julho, sem vestígios do seu uniforme, munido de um saco de viagem que transportava preso aos ombros, vestindo um simples trajo russo que se compunha de uma túnica cingida, cinta tradicional do mujique, largos calções e botas apertadas na curva da perna, Miguel Strogoff dirigiu-se à gare para partir no primeiro comboio. Ostensivamente não levava armas; porém, debaixo da cinta, disfarçava-se um revólver e na algibeira dissimulava-se uma navalha, misto de faca e de iatagã, com a qual um caçador siberiano abre um urso, sem lhe danificar a sua preciosa pele.".




Miracleman IV - Neil Gaiman & Vários.

Estou finalmente a ler com sistema todo o Sandman, a banda-desenhada que definiu Neil Gaiman como um dos grandes argumentistas da história da Bêdê. Miracleman IV é posterior e é uma sequela de uma série perdida de um seu herói da escrita, Alan Moore. São histórias relativamente pequenas, isoladas, desenhadas cada uma por um artista diferente. Neil Gaiman cria a cada virar de página uma nova inquietação. Miracleman IV é no seu todo um terrível admirável mundo novo onde um Ser Superior comanda um mundo agora perfeito porque... ele faz (não sabemos quando nem onde nem porquê) milagres.


Mrs. Dalloway - Virginia Woolf

Já falei de Virginia Woolf antes. Este livro é para mim o pináculo da escrita.  E pronto! 

"Elizabeth voltou a cabeça. Veio a criada. Tinha de se pagar na caixa, disse Elizabeth, e partiu, arrancando-lhe, foi o que sentiu Miss Kilman, as entranhas do corpo, retalhando-as, enquanto atravessava a sala e depois, voltando-se mais uma vez e fazendo-lhe um delicado cumprimento de cabeça, desapareceu. // Fora-se embora. Miss Kilman ficou sentada à mesa de tampo de mármore, em frente dos éclairs de chocolate, sentindo um, dois, três choques no coração. Fora-se embora. Mrs. Dalloway vencera. Elizabeth fora-se embora. A beleza fora-se embora; a juventude fora-se embora.".


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Herat.



Herat é das províncias que dão extensão adicional e "envergadura" ao Afeganistão. Herat é uma cidade antiquíssima e historicamente dialogou sempre com os persas ali ao lado, ou com quem lá estava antes. A cidade tem mais de meio milhão de habitantes, inferior apenas a Kabul e, por um raspão, a Kandahar. A província terá pouco mais de dois milhões de habitantes, sendo a segunda mais populosa do país. Herat é dominada pelo rio (mais ou menos) do mesmo nome que cruza a província vindo de leste e é das províncias com mais agricultura. O comércio com o Irão a oeste e com o Turcomenistão a norte fazem também a riqueza da província e da cidade. A população é sobretudo tajique e farsiwan (persas). Há uma minoria pashtun importante. Os tajiques também eram conhecidos como os Persas do Leste. Os Tajiques são sunitas, os Farsiwan shiitas.

Doze coisas sobre a província e a cidade de Herat.


Herat pertence ao Afeganistão por influência britânica. Herat estava sob alçada persa no virar do séc. XIX e declarou-se independente. Os persas invadiram Herat e o Império Britânico, vendo a Pérsia como um aliado russo, entraram em guerra pela libertação de Herat. O que aconteceu. Herat foi libertada a 1857. Seis anos depois o Emir de Kabul conquistou Herat e assim se estava a construir o Afeganistão.

No Booking não se pode reservar nenhum hotel em Herat. No TripAdvisor aparecem alguns mas há logo acima um desaconselhar de viajar para o Afeganistão. O Hotel Arg tem site próprio e os quartos têm bom aspecto mas a maior relevância é dada ao corpo de segurança do hotel, aparecendo este em fotografia de destaque.



Vários edifícios de Herat estão propostos para Património da Humanidade pela Unesco. A proposta foi feita em 2004. Começemos pela Cidadela, construída no séc XIV possivelmente sobre as ruínas de uma construção do tempo de Alexandre, o Grande. O Complexo de Mussallah foi construído no séc. XIII e dele restam 5 famosos minaretes, os edifícios mais icónicos de Herat, e restos de uma mesquita, uma madrassa, um mausoléu, etc. Parte do complexo foi destruído pelos britânicos no séc. XIX por razões pouco convincentes. Tiveram a ajuda do Emir de Kabul. A Grande Mesquita de Herat é outro edifício mencionado. Com origem no ´sec. XIII, construida pelos Ghúridas, foi alterada e corrigida vezes sem fim. Ainda o é. E finalmente temos o complexo de Mausoléus de Kwaja Abdullah Ansari, vários edifícios do período Timúrida, séc. XVI sobretudo. Claro que a espera vai continuar. 


Herat é a capital vinícola do Afeganistão. Numa gravura do séc. XIX a cidadela aparece rodeada de videiras. Hoje em dia a produção e consumo de álcool é proibida no Afeganistão mas em Herat a lei não será cumprida. Quando da conquista talibã em 2021 foi exibida em vídeo a recheada adega do governador da província, que depois foi destruida. Que desperdício! 


O Império Timúrida, inventado pelo turco-mongol Timur (ou Tamerlão), teve como capital Herat durante o século XV, a "pérola do Khorasan", destronando a anterior capiutal Samarcanda. Herat era então uma capital pujante, vibrante, culturalmente influente. Conquistada pelos Uzbeques em 1507, pouco depois seria persa durante dois séculos.  

Sonita Alizadeh nasceu em Herat em em 2015 e tinha 15 anos quando gravou o clip que encima este artigo. O clip nasce não de uma eventualidade alheia mas sim da real possibilidade de ela ser vendida como noiva, para que por sua vez o seu irmão mais velho possa comprar a sua noiva. Um realizador iraniano "comprou" seis meses da vida de Sonita para realizar um documentário sobre ela e que foi um êxito no Sundance Festival. Ela hoje vive e estuda nos Estados Unidos.

Herat chegou a estar, no séc VII, muito brevemente sob domínio directo ou indirecto dos Tang, uma dinastia chinesa, o ponto mais ocidental que alguma vezes esteve sob controlo chinês. O interesse dos chineses aqui sendo sempre a estabilidade e segurança da Rota da Seda.

O primeiro Rei do Afeganistão "moderno", Ahmad Shah Durrani, nasceu em Herat no séc. XVIII, um pashtun da tribo Abdali, tribo que então governava a cidade. Foi porém em Kandahar que depois se fez Rei e onde está o seu mausoléu. Os Abdalis agora intitulam-se Durranis.


Em Herat existe o Museu da Jihad, celebrando a resistência afegã contra os soviéticos.

Ismail Khan é um comandante militar tajique que participou no levantamento de Herat em 1979 contra o governo da província apoiado pelos soviéticos. Treze anos depois os mujaheddin conquistaram Herat e Ismail Khan foi nomeado seu governador. Perdeu Herat para os Talibã em 1995 mas recuperou-a em 2001 e voltou ao posto de governador. Foi promovido a Ministro da Energia em 2005, uma forma do governo de Karzai lhe retirar o poder absoluto que detinha sobre Herat. Em 2021 foi transitoriamente preso pelos Talibã e vive presentemente em exílio no Irão.

 O governo afegão de Kabul nunca questionou Ismail Khan demasiado sobre corrupção ou abuso de poder. Ismail Khan foi afastado por não entregar os impostos provinciais devidos ao governo central, sendo esta província das mais ricas do país.


E terminamos com um rio, já mencionado. O rio Hari, ou Herat, nasce no Hindu Kush e termina nas areias do Karakorum a oeste. Irriga Herat e faz dela uma cidade agrícola como não há outra no país. Uma das culturas mais lucrativas é o açafrão, exportado para o Médio Oriente e o Ocidente. Dos rios do Afeganistão só um tem as suas águas a terminarem (por via indirecta) no Oceano índico, o rio Kabul, que é um afluente do Indo.


domingo, 4 de setembro de 2022

Helmand (voltemos ao Afeganistão)


Helmand é a maior província do Afeganistão. Fica no sul inóspito e desértico, sob a influência de Kandahar, e dependente do rio que lhe dá o nome, o rio Helmand, o maior rio do Afeganistão, nascido no Hindu Kush e que depois desce para sudoeste indo terminar as suas vidas numa zona pantanosa no Irão. As águas deste rio e do seu afluente Arghandab enchem um sitema de irrigação complexo que fornece água para várias culturas nas zonas bafejadas com a mesma. Muita desta água servirá também para a cultura da papoila. Esta província sozinha produz mais ópio do que Myanmar. A capital é Lashkargah e fica na confluência dos dois rios acima mencionados. Helmand é uma província Pashtun, com excepção de algumas populações que foram importada para os trabalhos agrícolas. As gentes de Helmand sãodo mais conservador que se consegue arranjar por estes lados. Foi a província que mais trabalho deu durante a ocupação americana, ou chamemos-lhe da NATO, porque Helmand esteve entregue aos Ingleses durante vários anos, Ingleses que aqui perderam bastantes soldados.

Onze coisas sobre a província de Helmand:

1. Entre os anos de 4500 e 2000 ac está descrita uma "Cultura de Helmand", com uma forte interacção com a chamada cultura do vale do Indo (Harappa, Mohenjo Daro...) mas com início talvez anterior até. Terá tido expressão urbana e, apesar do nome, os sítios de excavação mais relevantes ficam no Irão e na província de Kandahar. O nome da cultura refere-se ao rio: o rio Helmand é o único rio perene (ie, que não seca no verão) entre o complexo Tigre-Eufrates a oeste e o Indo a leste.



2. Após ensaios em anos anteriores em 1952 constitui-se como agência governamental a Autoridade para o Vale de Helmand, fortemente subsidiada e orientada pelos Estados Unidos, e que, nos vinte anos seguintes, construiu um projecto de irrigação aproveitando as águas do rio Helmand, com várias barrragens e canais, projecto este que incluia também a produção de energia eléctrica, estradas, a construção de novas cidades, a fixação de populações nómadas. Foi um êxito razoável até à invasão soviética. A mesma empresa que tinha construido a hisstórica Barragem Hoover no rio Tennessee foi parte principal neste projecto.



3. Lashkargah é a capital da província, terá para aí 200000 habitantes. Fica junto à confluência do Arghandab com o Helmand. Muito perto ficam as ruínas de Qala Bost, a capital de inverno dos Ghaznávidas (j+a mencionados na provínica de Ghazni), incluindo um famoso arco decorativo do séc. XI que reside na nota de 100 afganis. A leste da cidade de Lashkargah estão as ruínas dum palácio Lashkari Bazaar, uma construção sobretudo Ghaznávida mas com origem em tempos mais antigos que vão até aos Partos.



4. Parte da Lashkargah moderna foi desenhada pelos americanos como sede da sua Helmand Valey Authority. Ruas largas desenhadas em quadrícula, casas de tijolo com jardim à frente... após muitos anos de guerra ainda alguma coisa se consegue adivinhar disto, embora uma casa com jardim à frente e sem muros não seja grande modelo para defesa de um qualquer inimigo. Estes bairros, estas terras construidas à volta deste projecto foram até chamados de "Little America"... 

5 . Sendo a província com o maior complexo de canais de irrigação do Afeganistão é portanto também hoje a província que mais cultiva a papoila e mais produz ópio. A irrigação foi criada sobrdetudo pelos americanos mas as centenas de toneladas de heroína produzidas são sobretudo consumidas por europeus.

6. Os talibãs tentaram erradicar o cultivo da papoila pela primeira vez em 2000, invocando razões religiosas. Depois, durante a guerra, deixaram de se preocupar com isso, taxando os agricultores e os transportadores da coisa. Em Abril deste ano voltaram a emitir uma ordem de suspensão do cultivo da papoila. Estando o Afeganistão na sua maior crise económica de sempre tem lógica...



7. O complexo conjunto de barragens e canais que controlam as águas do rio Helmand e do seu afluente Arghandab matou por completo um complexo de lagos chamados Hamun que ficavam na fronteira entre o Afeganistão e o Irão e deles recebian água. Os lagos já não existem, a vegetação e a biodiversidade animal que faziam desta área um sítio Ramsar, desapareceu. Os lagos são agora zonas de deserto salgado, com fortíssimos ventos e tempestades de areia que fazem da cidade de Zabol no Irão que lhes fica a oeste a cidade com a pior qualidade de ar do mundo segundo uma lista da OMS feita em 2016. O Irão ainda não reconheceu oficialmente o governo dos talibãs. 

8. O estudioso inglês Mike Martin escreveu e publicou em 2017 o livro "An Intimate War (An Oral History of the Helmand Conflixt)" onde aparecem aprox. 150 entrevistas de pessoas da província de Helmand, sendo elas a fazer o retrato "íntimo" de décadas de guerra. Diz quem leu que "se tivessem lido antes..."

9. A província de Helmand foi entregue os britânicos em 2006. Até aí só tinham morrido 5 soldados do Reino Unido no Afeganistão em 4 anos. 15 anos depois a conta ia em aprox. 450. A decisão de abandonar o Afeganiastão foi tomada pelos Estados Unidos sem consultar nenhum dos seus aliados.

10. Em Lashkargah o rio Helmand tem água suficiente para permitir passeios com basrcos de recreio. Junto ao rio e à volta da cidade exstem vários  e extensos parques. No site "placeandsee.com" está escrito que também há um "park for females". O parque em questão terá sido construído pelos britânicos em 2012 e o seu custo, 400000 libras, foi muito discutido at home.


11. A vegetação e os animais que se extinguiram no complexo de lagos de Hamun existem em Lashkargah, no outro lado do rio, num bosque espesso que bebe a sua riqueza das águas abundantes.

    

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Matheus Nunes e Rúben Amorim.

O terceiro ano para qualquer treinador no Sporting é sempre muito complicado. Isto quando chega ao número três. Está a ser assim com Ruben Amorim. 
O Sporting foi campeão com Tiago Tomás ou Paulinho a avançados. Mas muitas vezes jogou sem avançado fixo, assim tipo o City antes de Haaland, se me permitem a abstrusa comparação. E marcava até mais golosnesse desenho. Em 2020 estava o Pote em estado de graça, em 21 Sarabia. E foi assim que ganhou 3-0 ao Rio Ave há 15 dias. Só que aí ainda jogava com Matheus Nunes. Uma equipa que parecera aburguesada frente ao Braga estava outra vez mandona.

Um sistema como o do Sporting pede um jogador que lhe acrescente espaço e profundidade, e que se chamava Matheus Nunes. Que ao mesmo tempo, com Palhinha, dava uma "precoce" couraça defensiva muito importante. Tudo isto se perdeu (vendeu). O momento da venda de Matheus e como ela aconteceu afectou psicologicamente o grupo. E "apequenou" Rúben Amorim. A estrelinha de Ruben Amorim parece perdida.

Na prática só perdemos verdadeiramente três pontos. Como o Porto com o Rio Ave. Mas o que aconteceu com Matheus Nunes, aparentemente culpa de Varandas, esburacou o chão de um balneário e obriga Rúben Amorim outra vez a refazer e a improvisar. Como um momento destrói dois anos de trabalho. 

Nunca Varandas me pareceu ser "o homem", por muito que detestasse Bruno de Carvalho. O futebol na realidade é só dinheiro. Um bom dirigente faz-nos acreditar que não é assim.
 

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Binário: Blake & Feist.


 Vou arriscar um raciocínio completamente binário e, nestes tempos em que uma canção como a dos Aztec Camera "How Men Are" seria completamente ostracizada, vou comparar a versão original de Feist de "The Limit To Your Love" com a de James Blake. 

James Blake só se queixa, coitado!

Feist faz uma lenta e suave censura e, no fim, declara-se completamente.



sábado, 13 de agosto de 2022

Ainda a Ucrânia: Lviv e Kharkiv.

 Uma forma de medir as disparidades culturais existentes na Ucrânia pode ser falar de duas cidades cuja história de cada uma entra de forma tão diferente no construir da Ucrânia actual. 

Uma é Lviv, a capital da Galícia, a região histórica mais ocidental da Ucrânia, e que menos tempo esteve sob domínio russo ( só de 1946 até 1991), e Kharkiv, a segunda cidade do país, capital da RSS da Ucrânia entre 1919 e 1934 e cujo centro está a 40 km da fronteira russa. A distância entre as duas cidades é de 900 km.


Lviv foi fundada em 1256 pelo então rei da Galícia em homenagem ao seu filho Lev. A Galícia era então um pequeno reino semi-independente. No século seguinte foi conquistada pela Polónia e sob o domínio polaco cresceu, tornando-se Lviv numa das cidades mais importantes do reino. O seu nome polaco era Lwow, se a quiséssemos denominar em latim Leopolis. Um incêndio no século XVI deu-lhe um carácter renascença pela reconstrução. Em 1772 a Polónia foi partilhada entre os grandes poderes europeus da época e Lwow passou a pertencer ao Império Austro-Húngaro. Lwow passou a chamar-se Lemberg. A velha cidade tinha uma elite polaca e uma população de base ruténia (o nome dado aos ucranianos ocidentais), com uma forte comunidade judaica. Havia uma universidade ( a primeira universidade ucraniana) desde o séc XVII cuja escolaridade era dada em polaco e em latim. A cidade sofreu uma forte germanização e ganhou a sua estampa actual, muito "Europa Central". A Universidade sofreu muito com a competição de Cracóvia e foi completamente germanizada. No séc XIX a Galícia também viveu a seu despertar nacionalista. Em 1848  a cidade sofreu um levantamento revolucionário e foi cercada pelo exército austríaco mas anos depois a Galícia ganhou uma forte autonomia, e a Universidade e a vida pública ganharam contornos polacos e, embora menos, ruteno-ucranianos. Até ao início da 1ª Grande Guerra a cidade viveu um tempo de grande prosperidade e, ao mesmo tempo, um tempo de grande fervor nacionalista de três nacionalidades, a polaca, a ucraniana e a judaica. 

Para o fim da 1ª Grande Guerra a autoridade austríaca colapsou. Os ucranianos aproveitaram e declararam a independência da República Ucraniana do Oeste, com sede em Lwow/Lviv. A maioria da população da Galícia era ucraniana, mas a maior parte população da cidade em questão era polaca. Os polacos de Lwow/Lviv resistiram e foram ajudados pelo exército Polaco que conquistou Lwow e na prática destruiu a soberania ucraniana nascente. Os ucranianos foram duramente reprimidos criando um cisma entre as duas nacionalidades. Posteriormente a cidade foi defendida com sucesso do Exército Vermelho e conseguiu efectivamente permanecer polaca. Lwow/Lviv mantinha uma população predominantemente polaca no meio de um campo ucraniano. Havia uma forte minoria judaica, que tinha sobrevivido a algumas perseguições peri-guerra. O governo polaco favoreceu grandemente Lwow, então a terceira maior cidade do país, reforçando o seu carácter "polaco". A 2ª Grande Guerra iria alterar definitivamente tudo isto. A cidade multi-étnica do séc. XIX ia ser destruída.


Na sequência do Pacto Molotov-Ribentropp a Polónia foi dividida entre a Alemanha Nazi e a União Soviética. O cerco de Lviv foi começado pelos Nazis e terminado pelos Soviéticos. A ocupação soviética foi tudo menos pacífica. Mas em 1941 aconteceu a invasão alemã. A resistência ucraniana aliou-se temporariamente aos nazis mas as suas tentativas de independência foram prontamente silenciadas. Lviv tinha uma população de 200000 judeus, muitos deles já refugiados de guerra, em 1941. Três anos depois restavam umas centenas. A colaboração dos nacionalistas ucranianos de Stepan Bandera no genocídio dos judeus parece incontestável, embora tenha acontecido possivelmente apenas como forma de convencer os alemães a aceitarem uma Ucrânia (fascista...) independente. Não funcionou, Bandera foi preso, milhares e milhares de ucranianos foram levados para a Alemanha para serem usados com trabalho escravo. Em 1944 os soviéticos conquistaram a Galícia e Lviv. No fim da 2ª Grande Guerra a Ucrânia reconstruiu-se como República Socialista Soviética e parte da União das RSS's. A URSS permitiu que a Ucrânia fosse um país fundador das Nações Unidas, sempre era mais um voto na Assembleia Geral. O fim da Guerra e o redesenhar das fronteiras a leste levou a que a população polaca de Lviv (mais de metade do seu total) fosse deportada para a Polónia. Lviv saiu da Guerra com menos de metade da sua população de partida - os polacos deportados, os judeus deportados e mortos. Simon Wiesenthal, o famoso judeu caçador de nazis, foi dos poucos judeus de Lviv que sobreviveu a estes anos.

Lviv era agora finalmente soviética. E assim se manteve até 1991. A sua população tinha diminuido para menos de metade por comparação ao tempo de antes da 2ª Guerra Mundial. Era agora constituida quase só por ucranianos, os sobreviventes da cidade e gente dos arredores e de outras partes da Ucrânia, bem como uma pequena minoria de russos. Algum desenvolvimento industrial chamou esta gente. Felizmente a Guerra tinha sido misericordiosa com o centro histórico da cidade e, portanto, Lviv podia orgulhar-se de um postal urbano "Mitteleuropa" que era bem diferente, por ex., da cidade de Kyiv. 

Com a Perestroika é em Lviv e na zona ocidental da Ucrânia que os movimentos pro-democracia e pro-independentistas aparecem primeiro e com mais força. Nas 1ªs eleições minimamente livres, as de 1990, o "Bloco Democrático" só ganha das províncias correspondentes à Galícia. Ao longo dos anos Lviv votou sempre ao lado dos independentistas e das forças mais anti-russas. E radicalizou-se. Nas eleições de 2012 uma parte importante da Galícia votou pelo partido de extrema-direita Svoboda. O extremismo de Lviv nem sempre seria pacífico. E Lviv foi a única província onde Zelensky não ganhou, nem na 2ª volta.


Ah, e a Galícia é a única região da Ucrânia predominantemente católica.

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A cidade de Kharkiv foi fundada em 1655, junto ao rio Kharkiv, como um pequeno forte cossaco, agregando combatentes e agricultores refugiados das perseguições polacas a ocidente. Este pequeno forte, pertenceu desde o início ao Hetmanato Cossaco, o primeiro "estado ucraniano", aqui sob protecção cada vez mais "absoluta" dos czares da Rússia. Esta região ganhou então o nome de "Sloboda Ukraine", sendo "sloboda" um termo eslavo antigo para "liberdade", pois estes assentamentos cossacos tinham quer um anseio de autonomia quer, como prémio pelo seu papel em defender fronteiras e povoar terras daninhas, isenção de algumas taxas. O termo "Sloboda Ukraine" subsiste até hoje para denominar a região de Kharkiv, podendo inclusivé englobar alguma da hoje Rússia vizinha. Lembro que a palavra "Ucrânia" era de uso recente, e é portanto por aqui dos primeiros sítios onde aparece "oficialmente". 

Kharkiv foi crescendo em importância e dimensão. À medida que a autonomia destas terras ia sendo perdida por decisão dos czares, Kharkiv ia no entanto tornando-se num centro industrial, comercial e intelectual. A sua proximidade do Donbas fornecia a matéria-prima. Em Kharkiv nasceu em 1805 a primeira universidade ucraniana sob administração russa, antes de Kyiv. Começaram a publicar-se jornais, livros em ucraniano. Kharkiv era um centro da afirmação da cultura ucraniana no século XIX, apesar de ficar "a leste".

No final do século XIX a população de Kharkiv era porém predominantemente russa (como era polaca a de Lviv). No entanto, na alvorada da 1ª Grande Guerra, os ucranianos tinham equilibrado a demografia da cidade. Havia também uma percentagem importante de judeus, como em qualquer cidade ucraniana. Em 1917 aconteceu a Revolução Russa, com a primeira tranche em Fevereiro. A afirmação da República Popular da Ucrânia aconteceu em Kyiv, logo a seguir. Esta proclamação foi anterior a Outubro, e não liderada por Bolsheviks, que se declararam inimigos da mesma. Até 1920 a Ucrânia viveu tempos conturbados. Kharkiv foi conquistada sucessivamente pelos Soviéticos, depois pelos Alemães, outra vez pelos Soviéticos, depois pelos Russos Brancos, finalmente em definitivo pelos Soviéticos em Dezembro de 1919. Kharkiv, ao não ter feito tanto parte do sonho autonomista Ucraniano, foi recompensada com a capitalidade da República Socialista da Ucrânia, que manteve até 1934. Foi neste período de relativa prosperidade que no centro de Kharkiv foi construido o edifício Derzhprom, terminado em 1928, então o segundo edifício mais alto da Europa e uma afirmação do Construtivismo, a arquitectura revolucionária da primeira fase Soviética. 


Os anos 20 assistiram também a uma coisa chamada "Ucranização" (se esta palavra existe), na sequência de um decreto emanado no início da década curiosamente por Stalin, ordenando a utilização da língua nativa nas Repúblicas Soviéticas "não-russas". A ideia era seduzir as massas locais. Na Ucrânia as minorias/maiorias russas urbanas não aceitaram de bom-grado estas medidas, e a parte da população ucraniana que usava já o russo no dia-a-dia ficou um pouco "perdida".  A "Ucranização" teve um sucesso apenas moderado, embora tivesse permitido a afirmação de alguma nova elite local. 

Os anos 30 acabaram por completo com isso, por duas razões. O princípio dos anos 30 assistiu às famosas "fomes soviéticas", que tiveram especial expressão na Ucrânia ao ser o "celeiro da União". Stalin precisava dos cereais para exportar para o Ocidente e assim adquirir moeda, e decidiu a colectivização completa das terras. Morreram milhões e milhões e milhões de ucranianos. Pelo menos um quinto da população total. Está em debate se isto constituiu especificamente um genocídio dirigido contra os ucranianos. Não se debate o ter existido canibalismo frequente entre as populações, tal a fome. Os sovietes penduravam um cartaz pelas ruas que dizia "É errado comer um filho." A fome atingiu outras partes da União, o Cazaquistão, o Don, mas teve especial expressão na Ucrânia. Kharkiv esteve no epicentro da tormenta. Stalin convenceu-se que a "Ucranização" tinha causado esta resistência à colectivização. Muitos dos que não morreram à fome foram executados. Muita da elite ucraniana foi purgada, enviada para a Sibéria ou executada. Os anos 30 foram negros para a Ucrânia. Lviv sofreu menos, não sendo capital, não sendo grande produtora de cereais.  



E assim chegou Kharkiv à 2ª Guerra Mundial. Kharkiv foi a mais importante cidade soviética a ser conquistada pelos Alemães, dado a sua população ainda ser superior à de Kyiv. A população judia foi deportada ou exterminada. Quando libertada em 1943 a população de Kharkiv tinha sido reduzida a um quarto da população anterior à guerra. 

Kharkiv sobreviveu e voltou a crescer após a guerra. A sua localização privilegiada, perto do Donbas e na fronteira com a Rússia, falou mais alto. Os Soviéticos quiseram construir uma cidade nova, sem sinais do mundo "antigo". A enorme praça central onde se localizava o Derzhprom, foi renomeada "Praça da Liberdade", "Ploshcha Svobody". A Ucrânia Sloboda tinha a sua Praça Monumental, com um monumento a Lenin num dos cantos.


Kharkiv aderiu sem problemas à independência da Ucrânia. No referendo de independência a população votou esmagadoramente a favor. Não há referências a Kharkiv na Revolução Laranja. Kharkiv porém votou sempre consistentemente a favor dos partidos "pro-russos". Em 2014, na Praça da Liberdade, aconteceram pequenas manifestações a favor e contra Yanukovich. Quando a Guerra no Donbas começou, uma pequena força armada tomou a Câmara Municipal de Kharkiv durante dois dias mas as forças ucranianas logo resolveram a situação. Alguma agitação isolada foi acontecendo em 2014 e 2015. O monumento a Lenin foi destruido. Depois tudo acalmou. Nas últimas eleições Kharkiv votou por Zelensky.


Kharkiv foi um dos grandes alvos da invasão russa da Ucrânia, e ainda continua a ser. Quer na Revolução Laranja quer na Revolução Maidan, as forças pro-russas sempre apontaram Kharkiv como a  possível capital de uma "Ucrânia Russa", recriando o desenho do século XVIII da "Nova Rússia".  Tudo isto embora em nenhum momento Kharkiv parecesse procurar esse protagonismo. Protagonismo que ganhou agora ao resistir tão heroica e obstinadamente aos russos. Dada a proximidade da fronteira russa, espanta mais a não conquista de Kharkiv do que a não conquista de Kyiv. Embora a que preço.


Lviv é o principal entreposto das populações ucranianas que fogem da guerra, estando perto das fronteiras da União Europeia. Aqui e ali também tem sido bombardeada.