quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Georges de La Tour (1593-1652)

Georges de La Tour nasceu no ducado da Lorena e chegou a ser pintor do Rei Luís XIII. Sabemos pouco sobre as suas influências e o seu percurso, bem como a sua pintura, extremamente original, foi vista pelos seus contemporâneos. O seu uso do claro-escuro, a preferência pelas cenas nocturnas iluminadas por uma vela retiram-no do círculo de seguidores de Caravaggio - se sequer conscientemente o terá sido. A pintura de La Tour tem uma pureza de método, uma limpeza só sua. E enche menos a tela, obtendo o equilíbrio com poucas peças, pouco actores. Assim é neste "Sonho de São José"





A Lorena era uma região extremamente católica e vivíamos tempos de extremismo religioso. A religiosidade do pintor poder-se-ia dizer óbvia mas a mesma aura nos aparece neste quadro intitulado "Mulher Apanhando Pulgas".

sábado, 11 de janeiro de 2020

Caravaggio (1571-1610)

Caravaggio, cujo nome próprio era Michelangelo, viveu 39 anos intensos que têm fornecido matéria para romances, filmes, etc.
Este quadro, "A Conversão a Caminho de Damasco" (c. 1600-1), é uma segunda tentativa de abordar o tema, tendo sido a primeiraa recusada por quem encomendava. Conhecemos a primeira versão pelo que só temos que agradecer. Sáulo, em êxtase, abraça a Luz e a conversão. Mas a pintura é dominada pela soberba imagem... de um cavalo que um homem simples sujeita e acalma. O jogo do claro-escuro mais os vermelhos de Sáulo e o pastel manchado da pelagem do cavalo criam um quadro perfeito. Onde quem nos interroga é a besta.

Conversion on the Way to Damascus-Caravaggio (c.1600-1).jpg

Nicolas Poussin terá dito de Caravagio que "este homem veio ao mundo para destruir a pintura!" quando viu "A Morte da Virgem" (c.1604-6). Consta que o modelo da virgem foi uma prostituta morta encontrada afogada nas margens do Tibre (?) ou, mais prosaicamente, a amante de Caravaggio. O quadro acontece entre o vermelho e o negro, com um clarear dos tons em Maria Madalena, no canto inferior direito. Maria, vestida de vermelho, é... apenas uma mulher morta, o corpo já um pouco disforme, as extremidades arroxeadas e rígidas. Mal se adivinha o halo que a distingue dos demais. Não admira que os eclesiásticos que encomendaram a obra a renegassem prontamente. Este quadro nunca foi pendurado numa parede ou altar duma igreja. Aliás a temática da "morte" da Virgem, assunto de dogma bem mais tarde, nunca mais foi pintado.  






El Greco (1541-1614)


El Greco, aka Domenikos Theotokopoulos, nasceu em Creta, então um protectorado de Veneza, e começou a pintar ícones à maneira bizantina antes de emigrar para Veneza e depois para Roma, onde tomou contacto com a que de mais recente estava a acontecer na pintura. Foi quando aos 36 anos chegou a Espanha e mais precisamente a Toledo que a fama e a fortuna finalmente o bafejaram.
Uns dos primeiros quadros seus pintado em Toledo é o que se representa abaixo. "A Santíssima Trindade" representa Deus Pai com uma alada mitra ortodoxa na cabeça, um Cristo desmanchado e alongado como seria de esperar, mas eu queria chamar a atenção para o anjo na posição inferior esquerda, com certeza pintado a partir de uma interessantíssima rapariga toledana, vidé os bem desenhados e terrenos gémeos que apresenta.

El Greco - The Holy Trinity

A paisagem de Toledo infra (c.1600) é das paisagens mais famosas da história da pintura, e não é necessário alongar-me no quanto ela é revolucionária, "expressionista", "simbolista", "cubista", etc.,  etc. Talvez não seja nada disso mas, como toda a pintura de El Greco, pensando bem, está muito à frente do seu tempo.

El Greco - View of Toledo





Paolo Veronese (1528-1568)

Paolo Veronese é o último pintor italiano do século XVI que eu escolho. E o quadro abaixo mostra o quanto a pintura tinha avançado no século. Intitulado "O Jantar na Casa de Levi" e pintado em 1573, chamava-se originalmente "A Última Ceia" e pretendia representar isso mesmo, embora nesta "última" ceia de Jesus entrem anões, animais, militares, enfim, todo um mundo profano a retratar a Veneza contemporânea onde trabalhava o pintor. Assim tinha produzido anos antes para um mosteiro beneditino umas "Bodas de Canaã", igualmente célebres. Mas agora Veneza já tinha a Inquisição intra-muros, e Veronese foi chamado a depor. Declarou que os pintores "tomavam liberdades, como os poetas e os loucos, a contar uma história", o que não era para ser levado como uma ofensa. Safou-se, mas obrigaram-no a mudar o nome ao quadro. 75 anos antes Leonardo pintara a "sua" "Última Ceia". 75 anos e um abismo de distância entre os dois quadros.

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Não sei porquê mas gosto do dorso que aparece nesta pintura, a primeira tranche, intitulada "Infidelidade", de uma série de quatro chamada "Alegoria ao Amor" (c. 1570). Será pela temática, mas das quatro é sem dúvida a melhor. E a força que emana de estas costas não nos deixa qualquer dúvida sobre quem decide o quê no jogo de forças que nos apresenta o pintor.

aldain

Pieter Bruegel, o Velho, (1525-1569)


Saio da península itálica pela primeira vez para viajar até ao Brabante flamengo e encontro um homem barbudo, discreto e brincalhão, que se disfarça às vezes de camponês para se inspirar para a sua pintura.
Pieter Bruegel, o Velho é o primeiro a fazer da paisagem o quadro sem mais. E é o grande pintor do povo, das suas festas e costumes, sofrimentos e aventuras. Povo medieval, simples, bárbaro, que não sabe o que é o para que serve um Renascimento e a sua evolução, o  Maneirismo. A "Boda Camponesa" é de 1566-7 é explica à saciedade o que eu acabei de dizer.

A Boda Camponesa

Os "Caçadores na Neve" é de 1565 e, nos seus castanhos, cinzentos e brancos, na sua sã geometria e equilíbrio, é um quadro que antecipa a melhor paisagem do século XIX. Pieter Bruegel é o pintor do mundo real e das gente real, onde a poesia está, suave e bruta, basta olhar.


Caçadores na Neve

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Pontormo (1494-1557)

De Pontormo, o "meu" primeiro pintor a escapar um pouco ao cânone, eu escolho o movimento, a cor, o bailado, único no seu tempo. A flutuação. As expressões tão nossas, tão soltas, tão mexidas. E a cor, outra vez. A "Deposição da Cruz" (1525-8) é assim chamada e percebe-se porquê, mas no quadro não reside nenhuma cruz, pois a sua dura geometria não permitiria a fluidez em cascata das cores, dos volumes, dos gestos em lamento.

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Num conjunto de frescos perdidos sobre o "Juízo Final", de que se conhecem alguns desenhos, Pontormo inovava uma vez mais, ao colocar o Pai aos pés do Filho, algo criticado pelos seus contemporâneos.
Na "Visitação" (1528-9), abaixo, peço que se preste especial atenção aos retratos, e nestes aos dois das duas pessoas de maior idade, e destes dois ao que olha para nós. Único, inaugural.

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Michelangelo (1475-1564)

Vinte e três anos mais novo do que Leonardo, ainda viveu tempo suficiente para dar corpo ao maior confronto de génios da pintura de sempre.
Embora digam de Michelangelo que as suas pinturas eram esculturas pintadas, pelos desenho muscularsempre tão presente. Enfim...
A pintura "Tondo Doni", com a Virgem, São José e o Menino e um animado jogo de formas, cores e movimento. Mostra uma Virgem com braços reais, prontos para pegar em peso numa criança, e um olhar… preciso, fixo, que sobe para o Filho.
Pela primeira vez é retratada uma Mulher como ela habitualmente é, sobretudo se Mãe: Forte!

Ficheiro:Michelangelo, tondo doni 01.jpg

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A Sibila Líbica aparece no conjunto das sibilas que preenchem uma sequência do tecto da Capela Sistina. Mais uma vez Michelangelo cria aqui uma torsão de corpo nesta figura feminina cujo poder sobe do pousar delicado dos pés - ver o polegar esquerdo - até aos amplos trapézios e deltóides que vão levantar o Grande Livro. A face, lateral e um pouco descida, exprime a intenção do que vai acontecer, sem mais. Eis uma mulher em funções, segura, silenciosa, pronta a encetar um quase passo de dança e ao mesmo tempo plena de… uma "força tranquila", pois nada mais faz do que p seu trabalho.
Sim, Michelangelo era um escultor.