terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Piero della Francesca (1415-1492)

Porque gosto de Piero della Francesca? Não é pelo seu uso justo da perspectiva, já presente em Masaccio, ou da cor.
É que Piero della Francesca fornece uma galeria de retratos única, onde personagens como que suspensos de um tempo quase fotográfico são apanhados no desenho perfeito do pintor. Eles, mas sobretudo elas. O primeiro ideal feminino da pintura foi inventado por Piero della Francesca. Mulheres surpreendidas pela sua própria beleza, suspensas num tempo tão antigo, possuidoras de um segredo de elas próprias oculto, mulheres sem um plano.

Resultado de imagem para piero della francesca obrasPala di Brera - 1472.

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Madonna di Senigallia- 1474.
Ela segura a mais importante das crianças. E o peso de segurar a mais importante das crianças mede-se no lábio inferior, ligeiramente ofendido, nos olhos oblíquos, um pouco toldados. A jovem Maria é também pouco mais do que uma criança. Saberá ela a extensão completa do que lhe foi entregue? Não me parece ser essa a interpretação de Piero Della Francesca. Uma mulher, uma recém-mulher, sem um plano.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Masaccio (1401-28)

"Masaccio" era o apelido jocoso de um pintor florentino e significava mais ou menos "o Tomás desajeitado", no sentido de só viver para a pintura e não se preocupar com nada mais. Por contraste, um seu contemporâneo e companheiro de encomenda era conhecido como "Masolino", "o pequeno Tomás". Masaccio, dezoito anos mais novo que Masolino, é difícil dizer quem terá sido mestre de quem. Masolino entrou na guilda dos pintores de Florença um ano depois de Masaccio... e há quem diga que "Masaccio" queria dizer apenas "o grande Tomás", dada a reconhecida maior qualidade da obra do mais novo...

Porque escolho Masaccio? Pela justeza do retrato? Pela perspectiva perfeita? Pelo uso da cor para acentuar dramatismos? Porque para mim a pintura de Masaccio é, pela primeira vez, Maior! Maior do que a própria Vida, amplificando-a e a nós, que a vemos estarrecidos!
Masaccio é o meu primeiro pintor escolhido, portanto.

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Este quadro chama-se "O dinheiro do tributo" e ilustra uma passagem do Evangelho de Mateus. Cristo manda Pedro recolher a moeda do tributo da boca de um peixe recém-pescado (canto inferior esquerdo) e dar a mesma ao representante das autoridades (à direita). Este enorme quadro, cuja pintura a fresco está deteriorada, é como uma tira de BD. O que sobrevive das cores, da perspectiva, do envolvimento, é perfeito.

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A face de Pedro é o retrato exacto de um pescador a tentar aprender "a palavra nova". Será o primeiro bispo de Roma.

Os Meus Pintores - uma introdução.

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Eu já escrevi sobre isto, sobre como a minha aprendizagem da pintura ocidental se fez à custa de um livrinho da velha Biblioteca RTP chamado "Cem Obras-Primas da Pintura Europeia". Também já contei como o fascínio por um quadro que me parecia tão mal pintado e que pertencia a um tal de Paul Klee me enviou numa demanda que terminou no meu actual fascínio/obsessão por Klee, e que condicionou, porque Klee é sobretudo luz e cor, as minhas preferências em pintura.
Por isso aqui vão os "meus" pintores, poucos fora do cânone aplicado pelo metódico livrinho da Verbo/RTP, se excluirmos os últimos oitenta-noventa anos, não abrangidos na escolha de lá.

A começar, parando em Manet.



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Paul Klee, By The Nile, 1939.







 

sábado, 7 de dezembro de 2019

A Medicina de Emergência.

Não sei se neste momento valerá a pena emitir uma opinião sobre o implementar de uma nova especialidade em Portugal, a Medicina de Emergência, "porque já existe em dezenas de outros países" e "porque isto das urgências não vejo como se resolva de outra forma!". Ela vai acontecer, pelas duas razões acima, é uma questão de cansaço e de tempo.
 
Gostaria só de chamar à atenção que o criar de uma nova especialidade não deve nascer da nossa preguiça enquanto sociedade ou serviço (nacional de saúde) em conseguir retirar dos serviços de urgência o terço de doentes que não devia recorrer aos serviços de urgência (SU). Um terço significa descer de eg 600 doentes dia para 400 doentes dia, por exemplo.
Afinal de contas o problema dos SU é médicos a menos (na urgência) e doentes a mais (na urgência), certo? Uma nova especialidade implica que existe neste momento em Portugal e nos SU um vazio de saber especializado específico que essa nova especialidade vem preencher. Existe esse vazio? Não me parece. A panóplia de doentes que recorre ao SU tem graus de gravidade muito diferentes. O doente mais grave é no geral bem atendido. Não o é apenas e só quando - por excesso de doentes e/ou sobrecarga horária - o crivo de atendimento falha. As queixas maiores sobre o SU são habitualmente dos doente menos graves - os que, literalmente, "se podem queixar". Esta é uma verdade crua mas real. Metade destes são para não ir ao SU.
 
Preciso de fazer a minha declaração de conflito de interesses: fiz urgência semanal ou (mais frequentemente) bi-semanal num Hospital Central dito "fim-de-linha" durante 17 anos. E admiro, pela persistência e estoicidade, quem hoje faz SU. Na urgência conto amigos e não poucos.
 
Mas a solução dos serviços de urgência deste país é a criação da Medicina de Emergência?

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Joacine e o Rui.

Não quero entrar pelo folclore de criticar o folclore da saia plissada, do GNR, de um político poder estar três dias "incontactado" ou "incontactável". 
Quero sim acreditar que o Livre, ao propor em primárias o nome de Joacine Katar Moreira para cabeça de lista de Lisboa, acreditava que a Professora Joacine Katar Moreira seria capaz de desempenhar adequadamente e com o brilho que se pede a uma primeira eleição o cargo de Deputada da Nação.
Sei que mais de metade dos Deputados da Nação eleitos pelo centrão PS-PSD não são nada de jeito. Qualquer "backbencher" da Câmara dos Comuns trucidaria a concorrência se competição houvesse. Mas não querer que fosse assim implicaria a revisão do nosso mapa eleitoral - que os pequenos partidos não querem - para que cada Deputado da Nação efectivamente representasse um certo e determinado número de Cidadãos. Não sendo assim ser deputado do PS ou do PSD é fácil.

Durante anos a UDP, antepassado do Bloco de Esquerda, teve apenas um Deputado, o célebre Acácio Barreiros. Das suas intervenções pouco mais ficou do que o seu celebrado bigode. 
Quero ainda acreditar que o Livre, "os Livres" que votaram em Joacine para ser cabeça de lista, cansados de quase ganhar mas sempre perder (não é, Rui?), não fizeram aquele raciocínio de "mulher+negra+gaga" = voto de simpatia = o lugar de deputado está no papo! A sério?

Joacine Katar Moreira tem um percurso, uma carreira, um discurso. Não sabiam? O ódio que suscitou logo de início, a provocação que a sua gaguez suscitou, as duas propostas interessantes que - maladroitement - trouxe para a ribalta (o jus solis na lei de nacionalidade e Aristides Sousa Mendes ao panteão), é um capital que nestes dias se perdeu completa e absolutamente. 

Vi Joacine no programa da Cristina Ferreira. Portou-se muito bem! Imaginem o Rui Tavares com a Cristina Ferreira.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Louvor e defesa de Rui Rio - parte dois.

É engraçado como volto a escrever nesta coisa da "Taça" estes meses depois para falar outra vez do Rui Rio. Eu sei porque não tenho escrito e vou continuar a pouco escrever mas hoje o assunto puxa conversa por isso aqui estamos, mais uma vez.
 
Outubro trouxe uma boa notícia. Qual foi? António Costa não ganhou as eleições com maioria absoluta. Agora, meus amigos, a quem o devemos? A uma só pessoa: Rui Rio. Não, não foi a Catarina, não, não foi o Jerónimo. Pode Rui Rio não fazer mais nada de jeito na vida - e o seu tempo como maioral do Porto deixou muito a desejar - mas isso devemos-lhe e é bastante. António Costa é teimoso e assim postas as coisas até lhe pode dar para governar bem. Rui Rio, um político espontâneo, directo, aberto, sem cálculo que se note à vista desarmada, venceu António Costa na campanha quase por KO técnico. Os portugueses gostam de pessoas assim e o resto foram números.
 
O problema agora é o que fazer com Rui Rio no PSD depois destas eleições meias-ganhas-mas-perdidas.
Rui Rio gosta de campanhas e notou-se. Não tem jeito para parlamento, negociações, bastidores, etc., notou-se antes da campanha. E agora? 
O PSD de hoje é um partido tão à direita como já o era no tempo de Cavaco Silva.  Novos tempos pedem se calhar que o assuma e se deixe de merdas. Rui Rio não é político de direita mas de centro, mas a palavra centro hoje provoca ódio e vómitos generalizados, e aqui está o problema. António Costa governou - não sei se repararam - quase sempre ao centro, com alguns toques à esquerda et pour cause. Como fazer oposição não sendo de direita? Este dilema afundou Rui Rio no ano e meio de liderança que foi seu até às eleições, daí não levantar cabeça nas sondagens: recebeu um partido para aí nos 20% e nos 20% arrancou para a pré-campanha, um partido que fora abalroado nas autárquicas e que tremeu forte nas europeias. Rui Rio conseguiu quase por magia inventar o slogan "o meu Centeno é melhor que o teu", que equivalia a um "o meu centro é melhor do que o teu". Não convenceu os empresários - que queriam um governo maioria absoluta PS - mas quase convencia os votantes. Não convenceu quase ninguém no aparelho do seu partido, que não é de centro mas de direita.
E agora, PSD? Se o PSD quer continuar (ou voltar) a ser do centro, é com Rui Rio que o pode conseguir - melhor aconselhado a nível parlamentar. Mas se quer assumir-se como o grande partido de (centro-) direita que foi nestes últimos trinta anos, então precisa de encontrar um novo líder. Este novo líder precisará sempre de agradecer a Rio esta campanha passada. Eu, por razões muito diferentes, agradeço. 
 
NOTA IMPORTANTE: sem o centro, ninguém ganha eleições em Portugal.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Louvor e defesa de Rui Rio.

Perante mais esta crise do PSD, que por estes dias parece uma espécie de Sporting da política, a minha desinteressada tomada de posição podia ir pelo caminho mais simples que é perguntar quem é Luís Montenegro. Quem é?!? Quase ninguém sabe e quem sabe não fica com vontade de saber mais. 
Mas não. Escolhi defender Rui Rio. Já a pensar nas eleições. E então é assim de simples: com quem tomaria eu um copo? Eu sei, com nenhum deles. Mas se tivesse de ser, com quem? O António Costa? Ou o Rui? E a resposta é o Rui, claramente. O Rui não me parece ser muito inteligente e desde que há muitos anos o vi, deslumbrado, a tomar uma taça de champanhe na casa de Serralves, parece-me apenas um tipo convencido. O António nunca ninguém saberá quem ele é. Nem ele próprio em alguns dias. Nem me parece interessante saber.
E o Luís? Naaaa, nada nada, nem para servir o copo!




Mas, para quem tem dúvidas, sugiro fazer este pequeno inquérito:

1. Imagine que é noite de S.João, está nas Fontainhas e encontra-se com um deles. Faça corresponder os nomes às hipóteses:
a) enfim, bebia uma cerveja com ele, embora ao fim de cinco minutos lhe pedisse para se calar.
b) virava-lhe as costas conferindo manter a carteira no bolso.
c) se o visse talvez me assustasse e voltava para casa.
A Costa - ? R Rio - ? L Montenegro - ?
2. Está a assistir a um jogo de futebol na bancada e repara no gajo ao lado. Faça corresponder os nomes às hipóteses:
a) mudava de sítio, era engano, tinha calhado ao lado de um hooligan.
b) mudava de sítio, o homem não era companhia de jeito, sempre a sorrir e a mirar-se ao espelho mais o cachecol.
c) mudava de sítio ao fim de meia hora, o gajo não se cala e tem a mania que percebe de futebol!
A Costa - ? R Rio - ? L Montenegro - ?
3. É noite, o carro avariou, o telefone da assistência não responde. Faça corresponder os nomes as hipóteses, parando os ditos a perguntar se precisamos de ajuda:
a) digo que não preciso e fecho-me no carro por dentro.
b) digo que sim, ele sai do carro e vem ajudar, até se põe em mangas de camisa. Percebe de mecânica ainda menos do que eu.
c) digo que sim, ele não sai do carro, faz uma chamada que não se ouve, sorri, e diz ao ir embora que a ajuda já está a caminho. Ouvimo-lo a rir ao longe, o filho da puta.
A Costa - ? R Rio - ? L Montenegro - ?



Pois é...