terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Forbidden Christmas or Forbidden Radio?

Um destes dias ia a conduzir enquanto ouvia a recém-constituida Rádio Observador e calharam de falar de canções "alternativas" de Natal numa rúbrica imaginativamente chamada de — "Isto não passa na rádio". A canção escolhida foi não o "Merry Christmas Mr Lawrence" do Ryuichi Sakamoto mas a versão cantada por David Sylvian, "Forbidden Colours".
Ora ignorantes não deviam fazer programas de rádio. "Forbidden Colours" acaba por não ser uma canção de Natal mas sim uma canção sobre um amor (homossexual) proibido. Por isso o filme não é assim tão parecido com a "Ponte Sobre o Rio Kwai", meus amigos. E confessar que "agora não me lembro se o Sakamoto entra no filme" quando o foco do mesmo é a atracção entre este (ou o seu personagem) e o personagem representado por David Bowie é não servir quem ouve. Ide para casa ouvir ou ler ou nada disso. Mas ide. A boa rádio pede saber. Uma coisa é que o filme em causa, de Nagisa Oshima, tenha possivelmente envelhecido mal. Vi-o na Sala Bebé numa esquina da primeira fila, casa cheia... Outra coisa é falar sem saber do que se fala e... siga como se nada! 

 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Sandro Botticelli (1445-1510)

Acusado de não ser revolucionário como outros antes dele no quattrocento e de a sua pintura apenas ser decorativa (um erro), só posso dizer que, o passo dado por Botticelli como sequência e fim do século define o ideal feminino número dois, depois de Piero della Francesca.
Porque estas mulheres já sabem de si o valor Maior, a luz, a força que um traço perfeito permite. E são mulheres com um plano. Elas ultrapassam-nos e sabem-no.

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O Nascimento de Vénus - 1485-6

A Primavera (pormenor) - 1477-82

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Esta mulher, que dizem ser a Deusa Flora, nascida do suspiro fecundante de Zéfiro sobre a ninfa Clóris, tem um desenho no quadro que poderá sugerir uma gravidez. Há quem duvide. Mas duvida quem não olha para a cara desta mulher. As grávidas ainda são as mais sábias das mulheres.

Piero della Francesca (1415-1492)

Porque gosto de Piero della Francesca? Não é pelo seu uso justo da perspectiva, já presente em Masaccio, ou da cor.
É que Piero della Francesca fornece uma galeria de retratos única, onde personagens como que suspensos de um tempo quase fotográfico são apanhados no desenho perfeito do pintor. Eles, mas sobretudo elas. O primeiro ideal feminino da pintura foi inventado por Piero della Francesca. Mulheres surpreendidas pela sua própria beleza, suspensas num tempo tão antigo, possuidoras de um segredo de elas próprias oculto, mulheres sem um plano.

Resultado de imagem para piero della francesca obrasPala di Brera - 1472.

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Madonna di Senigallia- 1474.
Ela segura a mais importante das crianças. E o peso de segurar a mais importante das crianças mede-se no lábio inferior, ligeiramente ofendido, nos olhos oblíquos, um pouco toldados. A jovem Maria é também pouco mais do que uma criança. Saberá ela a extensão completa do que lhe foi entregue? Não me parece ser essa a interpretação de Piero Della Francesca. Uma mulher, uma recém-mulher, sem um plano.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Masaccio (1401-28)

"Masaccio" era o apelido jocoso de um pintor florentino e significava mais ou menos "o Tomás desajeitado", no sentido de só viver para a pintura e não se preocupar com nada mais. Por contraste, um seu contemporâneo e companheiro de encomenda era conhecido como "Masolino", "o pequeno Tomás". Masaccio, dezoito anos mais novo que Masolino, é difícil dizer quem terá sido mestre de quem. Masolino entrou na guilda dos pintores de Florença um ano depois de Masaccio... e há quem diga que "Masaccio" queria dizer apenas "o grande Tomás", dada a reconhecida maior qualidade da obra do mais novo...

Porque escolho Masaccio? Pela justeza do retrato? Pela perspectiva perfeita? Pelo uso da cor para acentuar dramatismos? Porque para mim a pintura de Masaccio é, pela primeira vez, Maior! Maior do que a própria Vida, amplificando-a e a nós, que a vemos estarrecidos!
Masaccio é o meu primeiro pintor escolhido, portanto.

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Este quadro chama-se "O dinheiro do tributo" e ilustra uma passagem do Evangelho de Mateus. Cristo manda Pedro recolher a moeda do tributo da boca de um peixe recém-pescado (canto inferior esquerdo) e dar a mesma ao representante das autoridades (à direita). Este enorme quadro, cuja pintura a fresco está deteriorada, é como uma tira de BD. O que sobrevive das cores, da perspectiva, do envolvimento, é perfeito.

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A face de Pedro é o retrato exacto de um pescador a tentar aprender "a palavra nova". Será o primeiro bispo de Roma.

Os Meus Pintores - uma introdução.

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Eu já escrevi sobre isto, sobre como a minha aprendizagem da pintura ocidental se fez à custa de um livrinho da velha Biblioteca RTP chamado "Cem Obras-Primas da Pintura Europeia". Também já contei como o fascínio por um quadro que me parecia tão mal pintado e que pertencia a um tal de Paul Klee me enviou numa demanda que terminou no meu actual fascínio/obsessão por Klee, e que condicionou, porque Klee é sobretudo luz e cor, as minhas preferências em pintura.
Por isso aqui vão os "meus" pintores, poucos fora do cânone aplicado pelo metódico livrinho da Verbo/RTP, se excluirmos os últimos oitenta-noventa anos, não abrangidos na escolha de lá.

A começar, parando em Manet.



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Paul Klee, By The Nile, 1939.







 

sábado, 7 de dezembro de 2019

A Medicina de Emergência.

Não sei se neste momento valerá a pena emitir uma opinião sobre o implementar de uma nova especialidade em Portugal, a Medicina de Emergência, "porque já existe em dezenas de outros países" e "porque isto das urgências não vejo como se resolva de outra forma!". Ela vai acontecer, pelas duas razões acima, é uma questão de cansaço e de tempo.
 
Gostaria só de chamar à atenção que o criar de uma nova especialidade não deve nascer da nossa preguiça enquanto sociedade ou serviço (nacional de saúde) em conseguir retirar dos serviços de urgência o terço de doentes que não devia recorrer aos serviços de urgência (SU). Um terço significa descer de eg 600 doentes dia para 400 doentes dia, por exemplo.
Afinal de contas o problema dos SU é médicos a menos (na urgência) e doentes a mais (na urgência), certo? Uma nova especialidade implica que existe neste momento em Portugal e nos SU um vazio de saber especializado específico que essa nova especialidade vem preencher. Existe esse vazio? Não me parece. A panóplia de doentes que recorre ao SU tem graus de gravidade muito diferentes. O doente mais grave é no geral bem atendido. Não o é apenas e só quando - por excesso de doentes e/ou sobrecarga horária - o crivo de atendimento falha. As queixas maiores sobre o SU são habitualmente dos doente menos graves - os que, literalmente, "se podem queixar". Esta é uma verdade crua mas real. Metade destes são para não ir ao SU.
 
Preciso de fazer a minha declaração de conflito de interesses: fiz urgência semanal ou (mais frequentemente) bi-semanal num Hospital Central dito "fim-de-linha" durante 17 anos. E admiro, pela persistência e estoicidade, quem hoje faz SU. Na urgência conto amigos e não poucos.
 
Mas a solução dos serviços de urgência deste país é a criação da Medicina de Emergência?

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Joacine e o Rui.

Não quero entrar pelo folclore de criticar o folclore da saia plissada, do GNR, de um político poder estar três dias "incontactado" ou "incontactável". 
Quero sim acreditar que o Livre, ao propor em primárias o nome de Joacine Katar Moreira para cabeça de lista de Lisboa, acreditava que a Professora Joacine Katar Moreira seria capaz de desempenhar adequadamente e com o brilho que se pede a uma primeira eleição o cargo de Deputada da Nação.
Sei que mais de metade dos Deputados da Nação eleitos pelo centrão PS-PSD não são nada de jeito. Qualquer "backbencher" da Câmara dos Comuns trucidaria a concorrência se competição houvesse. Mas não querer que fosse assim implicaria a revisão do nosso mapa eleitoral - que os pequenos partidos não querem - para que cada Deputado da Nação efectivamente representasse um certo e determinado número de Cidadãos. Não sendo assim ser deputado do PS ou do PSD é fácil.

Durante anos a UDP, antepassado do Bloco de Esquerda, teve apenas um Deputado, o célebre Acácio Barreiros. Das suas intervenções pouco mais ficou do que o seu celebrado bigode. 
Quero ainda acreditar que o Livre, "os Livres" que votaram em Joacine para ser cabeça de lista, cansados de quase ganhar mas sempre perder (não é, Rui?), não fizeram aquele raciocínio de "mulher+negra+gaga" = voto de simpatia = o lugar de deputado está no papo! A sério?

Joacine Katar Moreira tem um percurso, uma carreira, um discurso. Não sabiam? O ódio que suscitou logo de início, a provocação que a sua gaguez suscitou, as duas propostas interessantes que - maladroitement - trouxe para a ribalta (o jus solis na lei de nacionalidade e Aristides Sousa Mendes ao panteão), é um capital que nestes dias se perdeu completa e absolutamente. 

Vi Joacine no programa da Cristina Ferreira. Portou-se muito bem! Imaginem o Rui Tavares com a Cristina Ferreira.