segunda-feira, 13 de abril de 2020

Ernst Ludwig Kirschner (1880-1938)

Kirschner é o pintor mais importante do Expressionismo na Alemanha. Não deixou porém de participar também no rearranjo do papel da cor na pintura do início do século XX. 
Embora nascido na Baviera foi em Dresden que se tornou conhecido e fundou com outros o grupo "Die Brücke", em 1905. A figura feminina e o rebuliço das ruas são os temas da sua pintura. A pintura de Kirschner é angulosa, rude, solitária. É mais "fauvista" do que os fauvistas.
Mobilizado para a I Grande Guerra é dispensado por um esgotamento nervoso. Corre durante vários anos vários sanatórios mentais, por instabilidade psíquica, alcoolismo e dependência de comprimidos. 
Ao fim de alguns anos encontra alguma paz em Davos, na Suiça. Ganha notoriedade e é reconhecido finalmente na Alemanha mas o nazismo avança. Suicida-se em 1938 por medo de que a Alemanha nazi invada a Suiça.

"Marzella" é de 1909 e é um retrato da puberdade completamente às avessas do que até então se tinha feito.

Ficheiro:Kirchner 1909 Marzella.jpg

Os seus retratos en abîme das ruas das metrópoles alemãs fizeram história. Aqui temos a "Potsdammer Platz" de 1914.

Ficheiro:Ernst Ludwig Kirchner - Potsdamer Platz.jpg

O quadro "Cozinha Alpina" de 1918 não deixa de lembrar o quarto de Van Gogh e pode ter significado algo de parecido para o pintor: o ninho onde lhe era permitido sofrer à vontade?

Ficheiro:Ernst Ludwig Kirchner - Cocina alpina.jpg



Paul Klee (1879-1940)

Paul Klee nasceu na Suiça filho de pai alemão. Foi portanto como alemão que foi para Munique para se fazer pintor. O seu crescimento artístico foi lento. Visitou Itália e Paris. Participou na 2ª exposição do "Blaue Reiter", com Marc e Kandinsky, em 1912. Mas foi só com a sua visita à Tunísia que, perante as cores do Norte de África Klee passou a considerar-se "pintor". E assim foi.
É difícil precisar de onde vem Klee. Uma pista é o pintor considerar parte da "sua obra" uma vasta colecção de desenhos de infância". O sua obra, imensa, privilegiando o pequeno e médio formato, inventa um mundo outro, ora abstracto ora figurativo. Qualquer obra de Klee faz-me sorrir. É um mundo mágico, cheio de alegorias e que ora elogia ora se zanga com este mundo cá fora. Sim, é uma pintura muito espiritual. E simples, porque a verdadeira espiritualidade, como o génio, é simples. Klee não pertence a uma escola nem a um movimento. Coincidiu com alguns mas o seu percurso foi sempre só o seu.
Klee deu aulas em vários sítios da Alemanha, na Bauhaus, por ex. O advento do nazismo amputou uma brilhante carreira. Paul Klee fugiu para a Suiça. Tinha-lhe também sido diagnosticada uma esclerodermia. Procurou a naturalidade suiça, que só lhe foi concedida semanas após morrer, em 1940.

"Hamamet" é de 1914 e exemplifica o ponto de partida tunisino do novo Klee.
Paul Klee - Hamamet

No trabalho de Klee não há obras menores, a maravilha pode aparecer num bocado de papel sobre o qual se pinta a aguarela: "Avec les marches", c.1918


"Polyphonie - Ad Parnassum" de 1932 assume uma ligação à música. Klee tinha formação musical e pretendia que os seus quadros tivessem um ritmo… polifónico.
Polyphonie, par Paul Klee

O figurativismo de Klee tem uma graça própria. Uma melancolia. Vidé "L'Homme Marqué", de 1935, pintado já no exílio suíço.
Homme marqué, par Paul Klee

Klee é o meu pintor do século XX.

Fernand Léger (1881-1955)

Fernand Léger nasceu na Normandia num meio rural. Faz a sua educação artística em Paris e aproxima-se da vanguarda do momento, fazendo-se amigo de Modigliani, Apollinaire, etc. Contacta com Braque e Picasso e inventa uma leitura pessoal do cubismo, fazendo um caminho só seu, que Apollinaire apelidava de "tubismo", com um fascínio especial pela modernidade, os mecanismos, o movimento.
O seu primeiro quadro a ganhar notoriedade, "Nus dans la fôret", é de 1909.

Nudes in the forest, 1909 - 1910 - Fernand Léger

A partir daqui Léger vai passo a passo reorganizando as formas, aplicando cada vez mais as cores puras, e criando a sua versão mecanicista de um cubismo sintético.
Vejamos "La Ville" de 1919.

The Сity, 1919 - Fernand Léger

Pouco depois readquire para si a figura humana, como se estivesse a responder um pouco ao "retorno à ordem" que corria pelas artes nesses anos como o neoclassicismo de Picasso. Eis "Les deux figures (Nus sur fond rouge)" de 1923.

Two Figures, naked on red bottom, 1923 - Fernand Léger

A linguagem final de Léger estava encontrada e reconhecida. Léger experimentou cinema, escultura, etc. Até à sua morte, em 1955, manteve a qualidade do caminho encontrado como em "Plongeurs", 1941-2, sem facilitar. A cor, a forma, o desenho.

Plungers II, 1941 - 1942 - Fernand Léger


Georges Braque (1882-1963)

Georges Braque foi o outro tipo que, com Picasso, inventou o Cubismo.
Nascido numa família de pintores-decoradores, estudou belas-artes em cursos nocturnos. Parte para Paris no virar do século e pouco anos depois pintava paidsagens num estilo fauvista discreto. O seu contacto com as "Demoiselles de Avignon" e o contacto com a obra de Cézanne fizeram o declic. Uma exposição sua em 1908 motivou críticas exacerbadas e a referência a "pequenos cubos" que deu nome ao movimento. Pintou em íntimo contacto com Picasso até 1914 quando foi chamado para a Grande Guerra. Entretanto tinham os dois inventado o "Cubismo Analítico", onde numa tela se sobrepunham e acumulavam todas as perspectivas possíveis do objecto, num jogo que deliberadamente desafiava o espectador, e usando cores neutras e amorfas, nas antípodas do resto da pintura europeia. E depois (peri 1912) inventaram o "Cubismo Sintético", bem mais importante para o futuro da pintura, onde apenas parte do jogo era apresentado mas com o acrescento de pedaços de jornal, madeira, collages, desautorizando a tela como "aquele terreno sagrado onde só se pintava". E voltaram a ligar um pouco mais à cor. 
A Grande Guerra "acabou" com o Cubismo. Não subscreve o "regresso à ordem" aplicado por Picasso e Matisse embora simplifique um pouco a sua linguagem. A base ainda é a adquirida com a invenção cubista. Entre naturezas-mortas e algum figurativismo, a sua obra merece atenção até ao fim.

"Les Maisons a l'Estaque", de 1908, são a primeira grande contribuição de Braque para a História da Pintura. Ele e Picasso atravessam a fase "Proto-Cubista" ou "Cubismo à Cézanne".

Houses at Estaque - Georges Braque

"Le Portugais" é de 1911. Será o retrato de um músico português que Braque encontrou num bar em Marselha. Este quadro, com a letragem sobreposta, anuncia o Cubismo Sintético, que ainda não é.



"Le Musicien" é de 1918. Braque continuava no seu "Cubismo Sintético". Era o ano do fim da Grande Guerra. Viria outra pintura.

The Musician - Georges Braque

Alguma pintura tardia de Braque é mais simples. Não esta. "La patience", pintada em 1942, mantem a linguagem habitual numa tela grande. Uma mulher procura nas cartas o futuro. Acontecia outra Grande Guerra, desta vez a 2ª.


The Patience, 1942 - Georges Braque - WikiArt.org

Pablo Picasso (1881-1973)

Picasso é outro pintor cuja história e trajectória pictórica está demasiado por todo o lado para eu aqui a reinventar. 
Picasso é o maior expoente da "Escola de Paris", ou seja, daquele conjunto de pintores não franceses que, partindo para Paris, reinventaram a pintura ocidental. Nascido em Málaga e um menino prodígio no que aos pincéis diz respeito, os seus perídos "Azul" e "Rosa" serão uma espécie de antecâmara simbolista ao choque das "Demoiselles d'Avignon" de 1907, uma resposta à "Joie de Vivre" de Matisse usando os valores de Cézanne e a estética da arte africana. O quadro, que só conheceu o desdém do público em 1916, foi porém muito estudado antes por Braque.  Braque foi o único pintor a pintar no mesmo estúdio que Picasso. Juntos criaram o Cubismo. Durante um par de anos foram gémeos na pintura. O cubismo evoluiu, da fase "analítica" para a fase "sintética", apareceram as primeiras collages, aconteceu a Grande Guerra. No final dos anos dez Picasso e Matisse protagonizaram um "regresso à ordem" que em Picasso representou o seu período "Neoclássico", ou não fosse a sua nova musa uma bailarina clássica russa. No entanto a fama do passado perseguia Picasso, e a paixão dos surrealistas pelas "Demoiselles" chamaram Picasso a criar a sua versão pessoal do surrealismo, que germinou de forma mais memorável na "Guernica". 
Acabada a Segunda Grande Guerra Picasso era o mais famoso pintor vivo. Exilado no sul de França os anos que se seguiram não acrescentaram nenhum novo percurso. Apaixonou-se pela cerâmica, manteve uma fixação no retratismo das suas companhias e dos filhos, no mito do Minotauro, revendo-se no velho touro enganado. Idolatrado mas já fora das correntes principais da pintura, um génio que sempre conseguia colocar nas suas pinturas os seus truques para que fossem reconhecidas e valorizadas, boas ou não. Nunca parou de pintar. Os últimos anos são considerados precursores do "Neo-Expressionismo"  dos finais dos anos setenta. Go wonder...

É difícil fugir ao quadro que arrancou definitivamente  o século XX do passado e em direcção a um futuro incerto. Só apresentado ao público em 1916 e a medo, já então tinha provocado pela sua visualização eg por Braque, uma revolução na pintura. E, porém, é do século XIX esta mania de pintar prostitutas, e as cores são de Cézanne...



"L'Homme aux cartes" é Picasso na sua fase "Sintética", com letras, números...



A passagem de Picasso pelo Surrealismo teve como ponto alto "Guernica", em 1937.

Arte do Dia: Guernica de Pablo Picasso

"Este "Las Meninas" de 1957 entra em diálogo com Velazquez e fez parte de uma das linhas de trabalho de Picasso por estes anos, repintar clássicos de Delacroix, Velazquez, Manet.

Las Meninas (Velazquez), 1957 - Pablo Picasso



"Homme assis (Autoprortrait)" é de 1965. Picasso tinha 84 anos e vivia com uma mulher 45 anos mais nova. Pelo que se vê abaixo ele sabia disso.

Seated man (Self-portrait), 1965 - Pablo Picasso



terça-feira, 7 de abril de 2020

Henri Matisse (1869-1954)

Henri Matisse é considerado o grande pintor francês do século XX, um ícone. Muita da história da pintura da primeira metade do século nasce do diálogo de Matisse com Picasso
Aprendeu a desenhar e pintar aos 20 anos de idade, ao recuperar de uma apendicite. Dedica-se à pintura e entra no meio. No virar do século adopta a técnica do pontilhismo mas é numa exposição em 1905 que as suas cores directas e sem o freio da linha dão corpo ao "Fauvismo" (de "fauve", selvagem). Mas foi um quadro apresentado no ano a seguir, "La Joie de Vivre", em que Matisse se explica, nas cores puras e na composição harmónica e nas figuras simplificadas. Aqui era tambem uma questão de menos ser mais. O ponto de partida era Cézanne. A busca era a de um paraíso perdido onde a não havia descontinuidade entre o homem e a natureza.

Joy of Life (Bonheur de Vivre), 1905 by Henri Matisse

"Les Demoiselles d'Avignon", de Picasso, são uma resposta a este quadro, e a "vitória" de Picasso levou a uma ruptura temporária de relações entre os dois.
Matisse acalma a sua pintura e simplifica os seus quadros. É desta fase o conhecidíssimo "Dance". Uma excepção aparece em 1908, "La desserte rouge". A cor ultrapassa os limites dos objectos, a figura humana é apenas mais um elemento decorativo.




Picasso e Matisse reconciliam-se e expõem juntos em 1918. O quadro abaixo, de 1914, "Vue de Notre-Dame", espelha as influências quer do cubismo quer da abstracção.



Nos anos 30, coincidindo talvez com o seu relacionamento com Lydia Delectorskaya, há uma simplicidade e uma alegria calma na pintura de Matisse que é o atingir pleno do seu projecto artístico. Ver "Le rêve" de 1935.



Porém, no início dos anos 40 Matisse é operado a um tumor intestinal e fica parcialmente inutilizado para a pintura. Desenha cartões para tapeçaria e gouaches em collage, com a ajuda de assistentes, alguns de grandes dimensões, e de uma alegria paradoxal. Ver "La perruche et la sirene", de 1952.








segunda-feira, 6 de abril de 2020

Pierre Bonnard (1867-1947)

A evolução da pintura no início do século XX girou à volta da cor. Tudo tinha começado com os impressionistas. Depois o binómio Gauguin-Van Gogh, sobretudo Gauguin, abriram todas as possibilidades: uma tela servia para colocar nela cores. A cada um decidir como, a realidade viva um pequeno ponto de partida, e veio Kandinsky dizer que nem isso era preciso (o primeiro abstraccionsimo dele era muito colorido). Bonnard pertenceu a um movimento, os "Nabis" (hebreu para "profetas") que, tutelado por Gauguin, pretendeu reequacionar a questão da cor, a partir da base impressionista.
Pierre Bonnard nasceu perto de Paris numa família da pequena burguesia. Estudou  e praticou direito mas progressivamente a pintura tomou a primazia.
Os "Nabis" começaram em 1889 e funcionaram como grupo até ao século XX. Em 1893 Bonnard conhece Marthe, a sua companheira e modelo para a vida. Bonnard avança e recua na sua proximidade com os impressionistas. Colecciona estampas japonensas e faz imitações das mesmas, Hokusai, etc. Faz amizade com Matisse mas não o acompanha no fauvismo. A sua maturidade, que surge em parte com o conhecimento da luz do sul, é uma explosão do uso da cor, muitas vezes parecendo os quadros constituir mosaicos de pequenos losangos coloridos, numa luminosidade sem par.
Marthe era uma companheira difícil, com uma saúde mental delicada. A sua morte em 1942 debilitou Bonnard que a seguiu pouco depois. O passo à frente a partir do Impressionsimo deu-o Bonnard.

"Nu à contre-jour", de 1908, é talvez o primeiro quadro em que Bonnard pinta Marthe e cria uma obra-prima de luz e cor. Pinta-la-ia centenas de vezes.


"La porte fenetre avec chien" apresenta uma solução de luz e cor para uma equação que Matisse resolverá do outro lado da estrada.

The door window with dog, 1927 - Pierre Bonnard

Nos últimos anos Bonnard era só as cores que pintava.  Como em "L'escalier du jardin", c.1940.

The garden steps, 1940 - Pierre Bonnard