terça-feira, 31 de dezembro de 2024

A Adília Lopes e eu.















Conheci a Adília Lopes ao comprar o seu 2o livro de poesias, o Poeta de Pondichéry, ao mesmo tempo um dos mais elaborados, o que me criou algum equívoco sobre a obra da poetisa. 
Para a Adília Lopes a poesia era indubitavelmente a sua salvação. E cada livro publicado páginas de um diário. Lembro aqui a obra recente do Miguel Esteves Cardoso onde ele nos impele a escrever, mal, péssimo, mas a escrever. Como se uma salvação. Há muitos anos ofereceram-me dele O Amor é Fodido, comentando o que então, e vão 30 anos, era a minha vida. Era, Miguel, um livro menos bem escrito, ou eu então não terei gostado da mensagem. Não voltei a ler, o livro em Ovar repousa. 30 anos depois o Amor resolveu-se a bem, a amizade que ofereceu enganou-se no caminho e perdeu-se. A Adília é muito mais do que um soberbo texto sobre a menstruação. Ou uma colectânea com um título assassino ("Quem quer casar com a poetisa?"). Ou ainda a temporária presença mediática, os arregalados olhos com lunetas, que ela atempadamente aboliu. A salvação é temporária, e para a Adília agora acabou. Corria o rumor de um fundo psiquiátrico a atormentá-la em permanência. Desconhecia-lhe o diagnóstico. Conheço bem o meu.
A Adília Lopes vai-me fazer muita falta.

domingo, 22 de dezembro de 2024

Louvor e Desagravo de João Pereira ou Shakespeare au Portugal.


João, um grande abraço  A tua coragem é enorme. Disseste ontem o que era para ser dito: "se corresse bem, já estava assim, era ele, a correr mal ficou assim e fui eu" .
No futuro vão eecrever-se ensaios, teses de doutoramento, romances de grande fôlego sobre esta equipa, estes jogadores. Trata-se de uma tragédia Shakespeariana a preceito. Já não interessa quem será campeão, a história da época 2024/25 será esta.

Pontos a teu favor, João:
1. Imagina que tinhas o Pote, o Bragança e o Morita prontos para jogar.
2. E o Nuno Santos.
3. Imagina que o Trincão não estava obrigado a jogar 90 sobre 90 sobre 90 minutos 
3. Imagina que o capitão ainda era o Coates para por em sentido a defesa e a equipa.
4. Que 2/3 dos defesas de Portugal anda não tinham aprendido como defender o Gyokeres.
5. Que a arbitragem no Santa Clara tivesse sido outra.
6. Imagina que em Braga o Ruben tinha o plantel encurtado como tu tens.
7. E que o City tivesse aproveitado a preceito a 1a parte que teve contra o Sporting como aproveitou a preceito o Brugges. 
8. Que tivessem permitido o Trincão marcar o devido golo ao Gil.
9. Substituir um treinador que ganha não acontece. New territory. Teria sido talvez melhor (para o Sporting) perder com o Braga e o City.
9. Imagina, João, portanto, que tu também tinhas direito à tua estrelinha 

João, as tuas mudanças táticas foram poucas, porém mudou um mundo. Quem receia não lança, temporiza. Passa para o lado. 

Ruben, vi-te perder 3-0 e foi limpinho. Vais perder mais. Sou sportinguista e isso está em primeiro, segundo e terceiro lugar. Repensei e, sabes, vai-te foder

domingo, 27 de outubro de 2024

Morreu o sr. Moniz. Foi no Bairro do Zambujal na Amadora.

O sr. Moniz foi a uma festa de uns amigos, seria um casamento? Ao voltar a casa, pegou no seu carro e conduziu em direcção a casa. Dois jovens polícias, tinham idade para serem filhos dele, deram-lhe ordem para parar. Nos filmes habitualmente circula um polícia mais velho com outro mais novo. Não era o caso. O sr. Moniz mora fora de Lisboa, o carro é importante para fazer a sua vida. Sem saber muito bem porquê o sr. Moniz (talvez por águas passadas e já bem pagas mas não esquecidas) entrou em pânico e decidiu fugir. Teria bebido demais? Não queria descobrir a resposta no balão. Meteu para dentro de um bairro, se calhar podia despistá-los, como nos filmes. Mas não estava habituado a isto, nos filmes devia ser mais fácil, bateu num carro estacionado, depois noutro, noutro ainda, e o carro dele não andou mais. Chegaram os polícias e deram-lhe ordem para sair do carro. Ele poucos minutos antes estava a sair sim mas de uma festa. Como era nos filmes? Ouviu dois tiros, tentou outra vez fugir, um terceiro tiro enviou-o para o chão donde não mais se levantou. E ainda ouve mais um tiro e o resto desapareceu, apagou-se. Os polícias telefonam para o 112. São tão novos. Tentam convencer-se de que os tiros foram bem dados. Eles sabem  que não foi assim. Na polícia não ensinam Suporte Básico de Vida? Nos filmes não se tenta estancar as hemorragias? O INEM vai chegar tarde demais. Se os tiros tivessem sido dados à porta de um hospital... O sr. Moniz, Odair Moniz de nome completo, morreu. Nos filmes verdadeiramente ninguém morre. Na vida real sim. Isto foi o que o sr. Moniz ensinou aos rapazes polícias, perdendo pelo meio a própria vida. 

OK, está bem, mas alguém lhe perguntou se ele queria dar esta aula e por ela pagar um preço tão alto?

Ah, esqueci-me de referir: o sr. Moniz era negro, caboverdiano, a viver cá há mais de 20 anos. Com família constituída e estimada. Os amigos chamavam-lhe Dá. Dizem que era boa gente. Na televisão dizem "o Odair".



sexta-feira, 11 de outubro de 2024

As palavras cruzadas, uma barbearia e o Líbano.

Fui visitar ontem a minha mãe. Por fragilidade e idade está neste momento num Lar. Lemos o Jornal de Notícias, fizemos as palavras cruzadas. Eram de dificuldade intermédia, 3 em 5, assinalava ao lado. A minha mãe contribuiu com palavras complicadas como "patamar" e "criatura". Aprendi o que era um crepúsculo matutino - pensei que só acontecia no fim da tarde, afinal a definição é outra, diferente da minha. Talvez o meu anglicismo me levasse a apenas traduzir "sunset", reduzindo.

Mas o crepúsculo vespertino, vivido ao chegar a casa, lembrou-me que tinha uma televisão à minha espera. E que a televisão ia-me oferecer, se ligada, por horas a fio a maldade do mundo. Na Penha de França um rapaz matou três pessoas por não ter acontecido um corte de cabelo. Quatro, uma das pessoas estava grávida. Tinha consumido cocaína antes, será atenuante. Refugiado em casa de um tio, foi entregue pelo pai à Judiciária. Resume-se assim: "foi a droga". Maior droga é o poder, faz-se tudo para o manter. Assim Benjamin Netanyahu, 44000 mortos o rodeiam, em Gaza, no Líbano, na Síria, ele mandou-as matar para se manter no poder. Não o poder de decidir quando cortar o cabelo, mais. Muito mais. É esta a única explicação. O massacre de 7/10 o esplêndido pretexto. Sim, o Hezbollah guarda mísseis entre a cozinha e a sala de jantar em muitas casas insuspeitas. Mas, orque apareceu o Hamas, porque acontece o Hezbollah? Preso o assassino do barbeiro Pina muitos dirão: "É matá-lo!". Netanyahu tem vários esquemas de defesa que tornam essa hipótese (para ele) impossível. Um chama-se Iron Dome, os outros não me lembro. Biden ligou-lhe: "Bibi, what the fuck?" 

A minha mãe adivinhou, com metade das letras por saber, que "indivíduo" podia ser "criatura". Netanyahu é mesmo uma criatura filha da puta. Não me lembro de outra pior.


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Os Mundiais de Merckx


O apogeu de Merckx durou de 68 a 74. Neste período ele ganhou 2 Mundiais de estrada,  em 71 e 74. A sua primeira vitória em Mundiais acontecera precocemente em 67. Aplicando a Merckx o fatalismo que hoje aplicamos a Pogacar ao assumirmos uma inevitável vitória no próximo domingo em que se vão correr os Mundiais de Estrada deste ano, podemos perguntar: porque não ganhou Merckx mais Mundiais?

Merckx fôra pela primeira vez Campeão do Mundo em 67, aos 22 anos de idade, ao bater ao sprint o neerlandês Jan Janssens nos Países Baixos. 67 fôra o ano de apresentação de Merckx. Ganhara a Milano-Sanremo e a Fléche Wallone e uma etapa de montanha, o Blockhaus, na sua primeira comparência no Giro, onde terminou nono. Em 68 Merckx mudara de equipa e passara para a italiana Faema, como chefe-de-fila. O ano de 68 de Merckx fôra diferente. Apontara mais a corridas de etapas, ganhando Sardenha, Romandia e o seu primeiro Giro. Pelo meio interrompera a série para vencer na Paris-Roubaix. O Campeonato do Mundo de 68 acontecia em Imola, 277 km num circuito rugoso à volta da cidade. Para aí a 100 km da chegada partiram à desfilada três corredores: o italiano Vittorio  Adorni, o belga Rik Van Looy, agora já um veterano.e... Joaquim Agostinho! E isto ainda antes de ter viajado ao Brasil e ser descoberto por De Gribaldy! Foi aqui que Agostinho se mostrou ao mundo. Adorni era colega de equipa de Merckx na Faema e na escapada ia Van Looy, um colega de país e o ciclista belga mais famoso até então. Assumo que foi por aqui que Merckx não contra-atacou. Adorni entrou em modo contra-relógio e despachou a seu tempo Agostinho e Van Looy (já um veterano...) e conseguiu ser Campeão do Mundo com mais de nove minutos de avanço sobre o 2º, outro belga, Van Springel, que tinha sido também 2º no Tour de 68. Merckx foi 8º chegando no grupo dos primeiros seguidores.

Em 69 Merckx não ganhou o Giro por uma estranha desclassificação por doping que ele sempre negou, mas ganhou demolidoramente o Tour. E o Campeonato do Mundo acontecia em Zolder, em casa. Mas a selecção belga estava tudo menos unida. Godefroot e Merckx eram rivais, Van Looy, ainda seleccionado não se sabe porquê era uma sombra. Cedo Godefroot e Julien Stevens meteram-se numa fuga, sendo Julien Stevens um belga de 2ª linha da Faema de Merckx mas bom rolador e bom sprinter.. Nesta fuga seguia o português João Roque. O italiano Dancelli tentou a determinado momento separar as águas mas a sua tentativa virou-se contra ele e ficaram na frente o belga Julien Stevens e um "armario" neerlandês, Harm Ottembros. Stevens não estava habituado a estas cavalgadas e tinha o orgulho da Bélgica aos ombros. Tudo fez para sacudir Ottembros da sua roda não o conseguindo, entregando-lhe no fim, extenuado, o título. Ottembros nunca mais conseguiu ganhar nada de jeito mas neste dia o seu triunfo obrigou a escolta policial. Merckx desistiu, não sabemos se desmoralizado pelo mau jogo de equipa se por confiar na vitória do seu colega Stevens, que não veio a acontecer. No primeiro pelotão chegarm três portugueses, Agostinho, Mendes e Roque.

O ano de 70 viu o Campeonato do Mundo acontecer em Leicester, na Inglasterra, num circuito cuja maior dificuldade foi o mau tempo. Aqui também as rivalidades dentro das mlehores equipas, italianos e belgas, decidiram a vitória. Nos belgas Godefroot e Merckx continuavam candidatos e rivais. Jean-Pierre Monseré, um neófito com 22 anos incompletos, foi o peão da equipa para neutralizar as várias tentativas de fuga, incluindo a última, onde seguiam três tubarões italianos, Gimondi, Dancelli e Motta. Já perto do final foi ainda Monseré a apanhar estes ciclistas, a ultrapassá-los e a conquistar o título de Campeão do Mundo frente ao dinamarquês Leif Mortensen, o mesmo que lhe tinha roubado o mesmo título mas amador... em 69. Gimondi fechou o pódio.  Atrás chegou um enorme pelotão de osbreviventes à tormenta, com Merckx lá para o meio, bem como os portugueses Firmino Bernardino, José Azevedo e José Luis Pacheco.

Finalmemte em 71 alinharam-se os chackras e Merckx ganhou o seu 2º título. Como aconteceu? O ano de 71 não apresentou Merckx no seu melhor. Como única vitória em clássicas venceu a sua 4ª Milano-Sanremo. Não compareceu ao Giro mas foi ao Tour após ter vencido Dauphiné e Midi-Libre. Humilhado por Ocaña em Orcières Merlette, só recuperou a amarela depois da queda e abandono do espanhol, lançando uma sombra definitiva sobre a sua vitória que acabou por acontecer. O Mundial voltava a Itália, desta vez a Mendrisio. 268 km que voltavam a ter um acumulado vertical respeitável, como não aocntecia desde Imola. Na fuga seguia gente importante, Bitossi, Zoetemelk, Swerts, um belga colega de equipa. Foram os ataques de Gimondi aos quais por fim Guimard e Mortensen não conseguiram responder que ofereceram, em solo italiano o título a Merckx. Este foi sempre na roda do italiano, depois ajudou-o a cavar um fosso para os demais e, no fim, sprintou para a vitória, Gimondi conformando-se com o 2º lugar. Os portugueses desistiram todos, Agostinho incluido.

Em 72 a corrida aconteceu em Gap e voltou a ter mais de 3000m de acumulado. Gap era França, terra onde Merckx não era muito popular, pelas vitórias no Tour. que voltara a acontecer em 72, a 4ª vitória, depois da vitória também no Giro, a 3ª, e a 2ª dupla, a igualar Coppi. Na prova o herói foi Bitossi, um italiano sempre aguerrido, que entrou na reta da meta sózinho mas que foi apanhado por um grupo de escapados onde seguia Merckx. Merckx e mais uns quantos... Guimard, Zoetemelk, Verbeeck e Marino Basso, um excelente sprinter que aguentara as durezas do percurso e que foi o único a conseguir ultrapassar Bitossi e sagrar-se Campeão. A coligação de todos os companheiros de fuga contra Merckx tivera êxito. Merckx foi 4º, ficando fora do pódio. Diz-se que o seu "excesso" de vitórias e o seu instinto "canibal" o colocara sem aliados. À dureza de Gap dos portugueses só resistiu Agostinho, 42º e... último. Isto dos Mundiais não era para ele.

1973 levou os Campeonatos do Mundo até Barcelona. Onde a encosta de Montjuich seria ultrapassada 17 vezes num percurso de 248 km. Ano estranho para Merckx, que ganhou Vuelta e Giro e depois evitou o Tour "por compromissos comerciais", permitindo a Ocaña vencer destacadíssimo o mesmo. De uma fuga precoce chegaram à meta apenas quatro ciclistas, e que ciclistas:  Gimondi, Ocaña, Merckx e Freddy Maertens, um belga de 21 anos que neste ano já ganhara os 4 Dias de Dunkerque. Num golpe de teatro foi Gimondi a ganhar o sprint, talvez porque terá sido o único a não se preocupar com o sprint de Merckx, que dos 4 terminou em 4º e saiu da prova a chorar. Maertens foi 2º - viria a ser Campeão do Mundo duas vezes. Ocaña conseguu o 3º lugar, fazendo aqui a sua melhor prova de um dia de sempre e, mais importante, ficara à frente de Merckx. A Gimondi, com 31 anos, perguntaram se agora já podia pensar em retirar-se. Disse que correria pelo menos mais um ano. Correu mais cinco e ganhou em 76 o seu 3º Giro. No pelotão a 5 minutos conseguiram chegar Agostinho e Herculano Oliveira.

Em 1974 pela primeira vez o Campeonato do Mundo saiu da Europa e voou até ao Canadá, mais precisamente até Montreal, onde a subida que dá nome à cidade, Mont-Royal, forneceu a dificuldade ao percurso, com um acumulado vertical de quase 5000 metros. O animador da prova foi o francês Bernard Thévenet, que fez isolado aproximadamente cem kms, para ser alcançado pelo grupo de Merckx na última volta do circuito. Merckx, que vencera o  Giro com dificuldade e o Tour sem grande oposição, com Poulidor como distante 2º, esteve intratável e foi descarregando adversário atrás de adversário, só mantendo (cinicamente?) o veterano Poulidor consigo até à meta, onde o bateu facilmente ao sprint. Meckx completara a maior façanha da História do Ciclismo, sendo campeão de Giro, Tour e Mundial no mesmo ano. Feito só igualado por Stephen Roche em 1987 e que este ano está à mercê de Tadej Pogacar. Para fechar o relato diga-se que Portugal não levou ciclistas a Montreal. Pouco tempo depois acabaria o cic ismo profissional no país - sequela do PREC - e, por outro lado, Agostinho terminava o ano de 74 em queda e desempregado. Portugal só voltaria a ter um reperesentante nos Mundiais em 82 com Acácio da Silva. 

Diga-se das vitórias de Merckx que nenhuma foi majestática como Coppi em 53 ou Adorni em 68. Mas foram 3. Nem Coppi nem Adorni repetiram. A fotografia acima mostra Merckx a subir o Mont-Royal e a selar o fim de uma epoca do ciclismo. A sua.

 


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

A Maria.

 

É demasiado tarde para te escrever, Maria. E nem sei sobre o quê. Não sabem os gentios que milagres fazias. Trabalhar numa urgência neste país só está ao alcance de mágicos, de fazedores de milagres. Outra coisa tinhas, o teu nome. É difícil sustentar sozinho nome tão singular, Maria. Lembro-me apenas da filha duma grande amiga minha e de ti. E já agora elogio o resto do teu nome, Maria Chaves Jalal, musical como poucos. É demasiado tarde para te escrever, Maria. Isto infelizmente acredito. Não sabem os gentios como cansa sermos obrigados uma e outra e outra vez a fazer magia, truque mais truque mais truque, milagres que ninguém vê. Será tarde para te escrever. Mas existindo a mais pequena dúvida, escrevo. 

São para ti estas palavras todas. Inteiro o teu nome, Maria, como tu eras.

domingo, 21 de julho de 2024

Pogacar e a Volta á França que dominou muito muito.

Pogacar fez a primeira dobradinha Giro-Tour desde 1998, com Pantani. 

Sigo o site de dados de ciclismo Procyclingstats. Este site tem um sistema de pontuação bastante equilibrado e que eu vou utilizar para contextualizar a vitória de Pogacar. Este conseguiu 1325 pontos no Procyclingstats com esta vitória no Tour. Chris Froome obteve 1001 pontos na sua primeira - e mais categórica - vitória, a de 2013. Fala-se de Merckx quando se fala de Pogacar. Na sua primeira vitória no Tour, a de 1969, o Procyclingstats dá a Merckx 1744 pontos.

Portanto...

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Anuário Ilistrado do ciclismo - 1955.

Louison Bobet também tinha um irmão, Jean, cinco anos mais novo. A este não aconteceu nenhum desastre para acrescentar ao drama. Sobreviveu ao irmão muitos anos e viveu para escrever sobre ciclismo e, sobretudo, para defender a memória do seu irmão. Quem quisesse ouvir a m elhor versão da história de Luison Bobet era perguntar ao irmão. Louison viria já agora a morre novo, aos 58 anos, de cancro.

O ano de 1955 começou com o Paris-Nice, e esta corrida foi dominada pela equipa Mercier de Bobet, que pode ter "guardado" a corrida para o irmão, que ganhara a primeira etapa e assim se aguentou líder até ao fim.

A Milano-Sanremo pertenceu ao belga Germain Derycke, que venceu ao sprint o francês Bernard Gauthier, fechando o pódio Jean Bobet. O irmão mais novo de Louison estava a começar bem o ano. O primeiro italiano foi Magni à frente do pelotão 26 segundos depois,  Coppi, Koblet, Kubler e Fornara tinham todos sido vítimas de queda e não terminaram a a corrida.

A Volts à Flandres antecipou um pouco a data este ano. Numa das últimas rampas da prova formou-se um grupo de quatro escapadso, Louison Bobet, Bernard Gauthier, Rik Van Steenbergen e Hugo Koblet. Gauthier era um gregário de Bobet e matou-se a trabalhar, Van Steenbergen já tinha andado escapado antes, portanto no sprint final entre os quatro Bobet ganhou, o primeiro vencedor francês na Ronde. Kobelt foi 2º, Van Steenbergen 3º.

A 3 de Abril Alberic (Briek) Schotte ven cia isolado a Gent-Wevelgem, a sua última grande vitória, com mais de 2  inutos de avanço sobre um grupo de 4 onde constavam Keteleer, Impan is e Kubler.

A 10 de Abril aconteceu a Paris-Roubaix. A determinado momento um francês de 24 anos, Jean Forestier, que já no ano anterior tinha surpreendido ao vencer a Romandia, isola-se. Forma-se um grupo perseguidor com Coppi, Bobet e o francês Gilbert Scoddeler. No velódromo de Roubaix Forestier consegue ganhar isolado, Coppi sprinta para segundo poucos segundos deppis, Bobet é terceiro. Bobet protesta com Coppi - falta de ajuda, de ambição, incapacidade? Não consegui apurar se Coppi casou no México em 54 ou 55. Mas iria ter um filho na Argentina neste ano de 55. O ciclismo era só uma das vertentes na sua complicada vida. E Coppi, dito "O Camoioníssimo" e "o primeiro ciclista moderno", não conseguia dar conta completa do recado. mas ser ciclista era ainda o seu trabalho.

Uma semana depois a Zurich Metzgete ia pertencer a um suiço,  Max Schellemberg. No mesmo dia começava a 4ª Euskal Bizikleta, ganha pelo aragonês José Escolano, que serviria de ante~câmara oara uma renovada Volta a España. apenas a sua 10ª edição. Terá havido um esforço adicional para que, para além de todo o pleotâo espanhol, comparecessem estrangeiros de qualkidade, e isso implicou bons contratos, prémios decentes. Esta "nova Vuelta" seria também uma forma de propaganda do franquismo. A Espanha estava organizada em duas equipas nacionais, com a equipa A a contar com Bahamontes, Loroño e Ruiz. França e Itália tinham as suas equipas nacionais, a Itália com Magni, Nencini e Martini, a França com uam óptima equipa: Bauvin, Geminiani, Dotto, Lauredi. Corriam ainda equipas do Benelux, as Suiça e da Grã-Bretanha, e várias equipas reguionais espanholas. A batalha desenhava-se entre franceses, espanhóis e italianos. O francês Bauvin ganhou as duas primeiras etapas, nas montanhas vascas, começando e terminando esta Vuleta em Bilbao ao ser o jornal organizador vasco. Logo atrás do francês Bauvin perfilaram-se Bahamontes e Loroño. Na 3ª etapa, que terminava em Pamplona e tinha as últimas montanhas desta 1ª parte da corrida, Loroño distanciou Bauvin, com Geminiani pendurado na chegada a recpuerar tempo. Bahamontes queixava-se de um joelho e perdeu muito tempo. Numa escapada dias depois Gemiiniani ganharia a amarela a Loroño. Na etapa 10 uma fuga daria a Jean Dotto a amarela (era amarela a camisola). Loroño e Geminian i estavam agora a 5 minutos de Dotto, Bahamontes saíra do top  10 onde também não havia nenhum italiano, Fiorenzo Magni apenas interessado em ganhar etapas e assim arrecadar prémios monetários.Dotto e a França controlaram o resto da corrida, Loroño não conseguiu impor-se na pouca montanha que restava e terminou em 4º, Geminiani foi 3º, em 2º um espanhol de uma equipa regional, Antonio Jimenez Quilez, que participara na fuga decisiva da etapa 10 e depois resistira melhor do que os restantes ao desgaste de uma corrida que, apesar de tudo só oferecia 15 etapas.

Enquanto a Vuelta voltava à vida, outra parte do pelotão internacional fazia o Roma-Mapoles-Roma, que Bruno Monti voltou a vencer, sendo Coppi terceiro. O Paris-Bruxelas repetia a vitória de Marcel Hendricks. O "Fim-de-semana das Ardenas" vou Stan Ockers começar a desenhar o seu ano de 55 vencendo destacado a Fléche Wallone. No dia a seguir voltou a destacar-se desta vez com Impanis, e ter-lhe-á prometido a prova, onde Impanis já fora segundo mais do que uma vez... mas não cumpriu. Ockers repetiu assim a proeza de Kubler. 

Chegará agora o momento do Giro, o primeiro desde a guerra sem Bartali. Coppi tinha 36 anos, Magni 35. Voltavam os suíços Clerici e Koblet, que tinham dominado o estranho Giro de 54. Uma equipa de espanhóis era liderada por Bernardo Ruiz, numa de holandeses aparecia Wagtmans. A equipa francesa que dominará a Vuelta apresentava-se agora aqui com Dotto, Geminiani e Lauredi. Dos outros italianos Fornara já tinha 30 anos e a sua especialidade pareciam ser as provas de uma semana. E havia um jovem na equipa de Fornara que dava pelo nome de Gastone Nencini. Havia ainda uma equipa belga, para ganhar etapas, onde aparecia um neófito de 21 anos, Rik Van Looy.

O Giro não foi tendo etapas decisivas. Na 10 num circuito que posteriormente seria utilizado no Mundial, Bernardo Ruiz ganhou ao sprint a Fornara, chegando pouco depois Geminiani, Nencini e Monti. Monti vestia de rosa mas na etapa 12 na subida para Saccano, destacaram-se Nencini, Geminiani e Astrua. Geminiani vestou a rosa com 2 segundos de vantagem sobre Nencini. No contra-relógio que era a etapa 15 Nencini passou para 1o com 43 segundos de vantagem. atrás aparecendo Magni e Coppi, que tinham corrido discretamente todo o Giro, com menos de 2 minutos de distância. Il tappone, corrido na etapa 19, foi vencido por Jean Dotto, atrasado na Geral, chegando os favoritos mais de 2 minutos depois  Na etapa 20, Magni decidiu que ia ganhar o Giro. Sabendo que a estrada estava em mau estado, usou pneus adequados, combinou a coisa com Fausto Coppi e, a 160 km da meta, arrancaram. Nencini perdeu aqui mais de 5 minutos e a rosa. Magni ganhava o seu terceiro Giro, com Coppi 2o e Nencini e Geminiani logo a seguir. De referir o 8o lugar do espanhol Salvador Botella e o discreto 10º de Hugo Koblet. 

Acabado o Giro, começava o caminho para o Tour. E Louison Bobet, vencedor dos 2 Tours anteriores e Campeão Mundial em título, fez o seu caminho correndo e ganhando. Primeiro foi a Volta ao Luxemburgo. Bobet ganhou duas etapas e a Geral, à frente dos Luxemburgueses Ern zer e Gaul. Depois foi ao Dauphiné ganhar três etapas e a Geral, incluindo o contra-relógio. Bobet por 9 minutos entre si e o 2º classificado, num pelotão predominantemente francês. Este ano começara no mesmo dia do Dauphiné a Volta à Suiça. E aqui os suiços tiveram boa réplica de uma equipa belga onde estavam Jean Brankart e Stan Ockers. Koblet acabou a ganhar a Geral na última etapa, um contra-relógio, onde só foi  segundo atrás de Brankart por 5 segundos mas ganhou 5 minutos a Ockers. Na Geral portanto ficou em 2º Ockers, em 3º C lerici, o 4º foi Kubler e 5º Brankart. Esta foi a última vitória importante da carreira de Koblet

E chegámos ao Tour. A equipa francesa apresentava o laureado Bobet como o seu nº 1 (e da corrida, já agora), arroupado por muito boa gente: Dotto, Geminiani (ambos já tinham corrido Vuleta e Giro), Forestier, Malléjac, François Mahé, Bernard Gauthier, Antonin Rolland, o irmão Jean Bobet e um novo rolador de qualidade, Andre Darrigade. A equipa belga, em parte saída da Volta à Suiça, apresentava o "constante" Constan Ockers e dois jovens, Brankart e Adriaensens, para além de Impanis, De Bruyne e Van Steenbergen. A Itália apresentava Astrua, Fornara, Monti e Agostino Colleto, ou seja os três primeiros italianos no Giro, Nencini, Coppi e Magni, não compareciam. A Espanha aparecia com Loroño, o espanhol que melhor se portara na Vuelta e Botella que fizera top 10 no Giro.Os holandeses voltavam a apostar em Wagtmans. Havia uma equipa inglesa onde era de notar um bom corredor, Brian Robinson. A equipa suiça apresentava Kubler como cabeça de cartaz. O jovem luxemburguês Charly Gaul comandava uma equipa de luxemburgueses, alemães e australianos que o prórpio dizia equivaler a 2correr sózinho". Finalmente nas equipas francesas regionais ficavam os veteranos Robic, Teisseire e os irmãos Lazarides, bem como a surpresa do ano anterior Bauvin.

A primeira etapa foi ganha pelo espanhol Miguel Poblet E assim aconteceu a primeira camisola amarela vestida por um espanhol. Poblet já tinha 28 anos e quase só correra na Catalunha. Agora estava a começar uma carreira internacional muito atípica para os corredores espanhóis dos anos cinquenta: era um bom sprinter e também um puncheur, viria a ganhav etapas, clássicas, coisas onde os espanhóis habitualmente não contavam.  Quando se chegou à etapa 8 - os Alpes - a amarela estava com Wim Van Est, com Antonin Rolland a 25 segundos, estando os favoritos, resultado do jogo das fugas nas etapas anteriores, a vários minutos, eg Wagtmans a 9, Bobet, Fornara e Robic a 13... A etapa do Galibier deu a vitória a Charly Gaul por... 13 minutos e 47 segundos. Rolland defendeu-se bem, Gaul era agora 3º a 10 minutos, com Bobet logo atrás. Na etapa 11 subiu-se o Mont Ventoux, com descida depois para Avignon. Bobet ganhou a etapa, ficando dentro do minuto de sitância na etapa Brankart, e três italianos,  Fornara, Coletto e Astrua. O jovem Gaul ficara a 6 minutos na etapa. Gaul não corria bem com o calor. Mas outros corredores portaram-se pior. Malléjac desfaleceu na subida. Caído no chão continuava a pedalar no vazio. Kubler perdeu imenso tempo e ao entrar numa cafetaria para se rabastcer mas ao sair enganou-se no caminho. Ao fim do dia desistiu dizendo aos jornalistas falando na 3a pessoa: "Ferdi está velho, o Ventoux matou Ferdi."   Rolland mantinha-se de amarelo mas à condição. Chegados aos Pirinéus Gaul ganhou a etapa do Aspin e do Peyresourde mas com distâncias mais modestas e, dpois, na etapa para Pau que passava pelo Tourmalet, Brankart, Bobet, Gaul e Geminiani chegaram isolados mas juntos à meta. O contra-relógio da etapa 21 foi ganho por Brankart e despachou Rolland do 2º lugar para 0 5º. A última etapa, com chegadsa a Paris foi ganha por,,, Miguel Poblet, à frente de Andre Darrigade. Bobet ganhara o seu 3º Tour á frente dos jovens Jean Brankart e Charly Gaul.  Geminiani fòra 6º, fazendo top 6 nas 3 Grandes Voltas que correra em 55. Stan Ockers foi 8º e ganhou a Classificação por Pontos. Soube-se à posteriori que Bobet correra parte do Tour com muitas dores por feridas provacadas pelo selim, "saddle sores2 fica mais elegante. Viria a necessitrar cirurgia e a sua recuperação foi muito lenta. Não viria a correr como antes?

Em Agosto o Mundial de Estrada iria acontecer no circuito de Frascati, perto de Roma, onde tinha acontecido uma etapa do Giro. A meio do percurso formara-se uma fuga de ilustres a saber: Anquetil, Derycke, Roland, Jempy Schmitz, Fornara. Ockers decide apamhá-los e consegue. E pouco antes do fim arranca para ganhar. A completar o pódio ficaram o luxemburguês Jempy Schmitz e o belga Germain Derycke. Stan Ockers nascera há 35 anos perto de Antuérpia. Era um ciclista esforçado, popular, próximo do público,  o seu nome, Constant, coincidia com a sua prestação nas Grandes Voltas, 10, qie sempre terminou, 8 Tours e 2 Giros, o pior lugar sendo o 1o Tour em 48, trrminando 11o. Stan Ockers foi o herói de juventude de Eddy Merckx. E desta vez não traira Impanis.

Caminhávamos agora para o Outono e com as principais figuras desaparecidas. Coppi tinha muito com que se preocupar fora da estrada. Casara-se no México, ia ser pai na Argentina. Bobet estava diminuido palas suas feridas provocadas pdelo selim. Os suiços Kubler e Koblet, estavam a despedir-se da ribalta. Kubler tinha 36 anos, Koblet 30. Koblet, como diziam rivais e amigos, subia cada vez pior nas montanhas, devido a uma "condição" ou "doença" misteriosa que  nunca se apurou qual era. Kubler retirar-se-ia em 56, de alguma forma na idade certa, mas Koblet... o "pédaleur de charme" que se penteava antes de chegar à meta, conduzia carros de alta cilindrada e levava uma vida social e pessoal confusa, estava em maus lençois. Os novos eram Nencina, que fizera pódio no Giro, Gaul e Brankart que completaram o pódio do Tour. O fenómeno Anquetil por enquanto só ganhava contra-relógios.

E Anqurtil voltou a ganhar o GP das Nações de 55. O GP de Lugano caiu para o suico Rolf Graf, seguido de Aldo Moser (irmão mais velho de Francesco Moser) e Brankart. O Paris Tours pertenceu a um francês, Jacques Dupont, com o belga De Bruyne em 2º.  De Bruyne repetiu o 2º lugar na Lombardia atrás do italiano Cleto Maule. Coppi, que em Setembro fizer a sua última vitória isolado no Giro del Appennino, voltou a ganhar o Trofeo Baracchi com Filippi, à frente de Brankart e outra novidade belga, Marcel Janssens.

O ano fôra de Bobet e Ockers, portanto. Ockers vencera o Challenge Desgranges-Colombo Magni ganhara na ratice o seu terceito Giro. Magni retirar-se-ia em 56, ainda competitivo ao contrário de Coppi que se continuaria a arrastar pelas estradas até 59.

  


segunda-feira, 8 de julho de 2024

Anuário Ilustrado do Ciclismo.


Estamos em 2024. Hoje termina a Volta à Itália. Salvo força maior Tadej Pogacar, um moço esloveno de 26 anos incompletos, vai ganhar a prova com uma vantagem gigante de quase 10 minutos. Está cumprida a primeira etapa do seu desiderato: ganhar na mesma temporada a Volta à Itália e a Volta à França. Pogacar está a criar a sua história de 2024, a sua narrativa, cada ano seu mais interessante do que o anterior desde que, há 6 anos, venceu a Volta à França do Futuro. 

É assim que acontece. Cada ano inicia-se nova temporada do ciclismo de estrada, e cada um dos ciclistas começa a contar uma história, a sua história, uma história de vitórias e derrotas, de duelos individuais e de vitórias colectivas. Uma história para ficar (ou não) na História do Ciclismo. O ciclismo de estrada é um desporto colectivo onde um mar de ciclistas arrumados em equipas defendem uma dúzia ou duas de campeões, as estrelas da estrada. São milhares de ciclistas a competir por esse mundo fora. No escalão mais elevado, o das equipas World Tour, com um orçamento de dezenas de milhões de euros, competirão meio milhar de ciclistas, mais concretamente 524. Estas equipas são dezoito e consoante as suas posses possuem um, dois, três ou mais cabeças de cartaz de primeira grandeza ou aspirantes a sê-lo, sendo um especializado nos sprints, outro nas corridas de um dia, outro ainda nas corridas por etapas de uma semana, outro ainda - estes a espécie mais rara - especialista nas corridas de três semanas que são três, o Giro, o Tour, a Vuelta. A popularidade da Volta à França, o Tour, durante muito tempo quase eclipsou o resto das provas. A sombra do doping, o peso da maldição Lance Armstrong, que manchou sobretudo o Tour e levou a que este tivesse vários anos sem vencedor atribuído, fez com que hoje em dia as coisas estejam um pouco mais equilibradas e se dê um pouco mais de atenção às outras provas. E ano após ano, da primavera até ao Outono, o ciclismo de estrada afronta os elementos e ocupa as estradas (sobretudo) europeias dias e dias sem fim.  Para no final do ano um balanço ser feito e as equipas e os corredores serem sagrados (ou não) como os vencedores do ano, merecendo passar para a tal História. Com a particularidade adicional do Campeonato do Mundo, uma corrida de um dia, ser apenas mais um trunfo, embora de peso, para este juízo final.

O ciclismo de estrada é um desporto eminentemente europeu. E mais assim era nos meados do século XX. Mas as fundações do ciclismo de estrada vão mais longe. O Tour e o Giro começaram na primeira década do século XX. Idem todas as grandes provas de um dia, nomeadamente as hoje apelidadas de Monumentos. França, Bélgica e Itália eram os países com as provas mais importantes, numa periferia próxima a Suiça, os Países Baixos e o Luxemburgo, a Alemanha algo afastada por questões políticas, a Espanha também mais o (então seu) atraso. A primeira Milão-Sanremo foi vencida em 1907 por um francês. O primeiro Paris-Roubaix aconteceu em 1896 e foi ganho por um alemão. Mas as tensões políticas europeias entre as duas guerras dificultaram a nascente "integração" europeia (ocidental) do desporto, nomeadamente uma adequada competição entre os campeões de um e de outro lados dos Alpes. A segunda metade dos anos quarenta viu o renascer destes contactos e o ciclismo de estrada - por muito maltratadas que as estradas estivessem - voltou a ganhar vida. 

Mas vamos começar pelo princípio, ou seja, 1946.

Já agora, as fontes, a quem agradeço eternamente:

Bikeraceinfo.com

Cyclingarchives.com

Cyclingrevealed.com

Les-sports.info/cyclisme-sur-route

Mêmoireducyclisme.eu

Mundodeportivo.com/hemeroteca

Museociclismo.it

Procyclingstats.com

Etc.!

OBRIGADO!



terça-feira, 11 de junho de 2024

Anuário Ilustrado do Ciclismo - 1949




A 13 de Março acontecia a 1ª corrida da 2ª edição do Challenge Desgranges Colombo (CDC), a Milano-Sanremo. Coppi arrancou no Capo Berta e ganhou destacado. O pelotão já era internacional, embora com claro predomínio italiano. Magni foi 3º, Bartalia 15º a 6 minutos. Mas o 6º foi o francês Fachleitner, o 8º o belga Sterckx, comparecendo outros belgas de renome, Keteleer, Claes e Schotte. O futuro treinador de Agostinho, De Gribaldy, foi 64º. Bernardo Ruiz foi um de dois espanhóis a completar a prova, terminando em 104º.

A 3/4 Marcel Kint, o Campeão Mundial de 38, conseguiu a sua última grande vitória ao vencer a Gent-Wevelgem num pelotão apenas belga, à frente de André Declercq que 3 semanas antes ganhara a Het Volk.


A 10/4 acontecia a 2ª corrida do CDC, a Volta à Flandres. E, surpresa das surpresas, a vitória pertence a Fiorenzo Magni, ganhando um sprint de uma dúzia e meia de corredores à frente de Valére Ollivier, Briek Schotte, Ernst Sterckx, Raymond Impanis, André Declercq... por esta ordem! Fiorenzo Magni declarou a posteriori que lhe parecia que "tinha nascido para correr a Volta à Flandres".

3 dias depois a Fléche Wallone era ganha por Rik van Steenbergen, com Coppi a ser 3º no sprint. Outra vez tínhamos um pelotão internacional, cortesia do  CDC, e por ex. Louison Bobet foi 9º a 3'. 

A 10/4 aconteceu a Paris-Roubaix. Fausto Coppi voltou a participar e o seu irmão, Serse Coppi, também. Serse era 4 anos mais novo e era seu gregário.  Fausto lançou o seu irmão para lhe oferecer a vitória. Mas um grupo de 3 corredores liderado pelo francês André Mahé, escapou e ultrapassou o grupo de Serse Coppi. Ao chegarem ao velódromo de Roubaix alguém da multidão indicou-lhes o caminho errado para entrarem no velódromo. Sprintaram, Mahé ganhou. Serse Coppi sprintou no seu grupo a seguir "e também ganhou" e a confusão aconteceu quando a delegação italiana, liderada por Fausto, protestou o resultado. André Mahé ganhara mas tomando um caminho errado. Os franceses contra-apelaram e a UCI apenas decidiu em Novembro que a prova ia ter 2 ganhadores. 

Uma semana depois o francês Maurice Diot vencia a Paris-Bruxelas num pelotão sem italianos. E n o fim de semana a seguir a Liége-Bastogne-Liege, não contando para o CDC, era ganha pelo francês Camille Danguillaume, também num pelotão misto francês e belga.

Maio começou com três provas suiças, o A Travers Lausanne, que mudara de data e o Zurich Metzgete, ambos ganhos por uma nova promessa suiça, Fritz Schar. Depois aconteceu a Volta à Romandia que foi um duelo entre Bartali e Ferdi Kubler, superiorizando-se o italiano ao suiço.

A 14 de Maio nova prova do CDC, o Paris-Tours.. A vitória sorriu ao belga Albert Ramon, a vitória de uma vida. Dois anos depois Ramon seria atropelado numa quermesse ciclísta e ficaria paraplégico.

A Volta à Bélgica foi ganha por Ernst Sterckx.

Este ano não ia acontecer Vuelta. A primeira das 2 grandes voltas, o Giro começou a 21/5. Para variar o pelotão era quase só italiano, com a excepção de uma dúzia de belgas, suiços e luxemburgueses. Mas italianos eram Coppi e Bartali, era preciso mais? Neste Giro, porém, o vencedor surpresa do ano anterior, Magni, não compareceu - por lesão? - estando a chefia da sua equipa entregue ao trepador Giordano Cottur. 


À 10ª etapa o camisola rosa era Adolfo Leoni, um sprinter e puncheur que ao longo das 19 etapas entre fugas e bónus amealhara 9 minutos de vantagem sobre Coppi e dez sobre Bartali, A etapa 11 englobava o Pordoi e nela Coppi ganhou 7 minutos a Leoni e Bartali. Leoni era primeiro mas com Coppi logo ali, Bartali a 10 minutos em 3º. A etapa 17 era "il tappone", englobando uma visita a França e ao Izoard. Eram 5 montanhas e Coppi passou em 1º em todas e chegou a Pinerolo com 12' de avanço sobre Bartali, 20' de avanço sobre o 3º corredor. Foram 192km de epopeia. Esta é considerada uma das etapas mais espantosas da história do ciclismo e existem romarias de fãs a reinterpretar o percurso. Na rádio ouvia-se a famosa frase. "Um homem sózinho ao comando, o seu maillot é branco e celeste, o seu nome Fausto Coppi!" Com os bónus Coppi colocara Bartali a mais de 23 minutos e Leoni a 27. O contra-relógio a seguir e onde Coppi jogou à defesa serviu para Leoni perder o 3º lugar para Cottur. O Giro de 48 fora vencido por 11 segundos, o de 49 por 23 minutos e 47 segundos..Os 1ªs estrangerios eram Fritz Schär em 14º, e Jean Goldschmit, luxemburguês, em 16º.

Goldschmit obviamente não participou na "sua" volta do Luxemburgo, vencida por Bim Diederich. Dias antes o francês Jacques Moujica, que fôra 3º no Paris-Roubaix e no Paris-Bruxelas, venceu o Bordéus-Paris. Era um corredor basco naturalizado francês e que viria a morrer num acidente de viação em 50. 

O Dauphiné-Liberé começou a 2/6, estando ainda o Giro a acontecer. A vitória sorriu a Lucien Lazarides, o irmão mais velho de Apo. sendo 2ª Robic e 3º Camellini, agora já naturalizado francês.

Aproximava-se o Tour.


Coppi e os irmãos Lazarides no Tour de 49

E o nº 1 iria pertencer à equipa italiana, pela vitória no ano anterior de Bartali. O treinador era Alfredo Binda, o lendário pentacampeão do Giro e tri-Campeão Mundial. E na equipa estava também Fausto Coppi. Fiorenzo Magni aparecia na "2ª equipa" italiana chamada dos "cadetes" embora ele aos 28 anos de cadete já não tivesse nada. Finalmente toda a fina-flor do ciclismo italiano corria o Tour. Quem para os defrontar? Os belgas confiavam em Impanis e Stan Ockers, para além de apresentarem Schotte (o improvável 2º do ano anterior) e Van Steenbergen. A equpa nacional francesa voltava a dar a primazia a Louison Bobet, contando ainda com Guy Lapébie (3º em 48), os irmãos Lazarides e os veteranos Tiesseire e Vietto. Robic após o descalabro em 48 fôra reenviado para uma das 4 equipas regionais. Havia ainda as equipas suiça (com Kubler), luxemburguesa (com Goldschmit, Kirchen e Diederich), neerlandesa (com Lambrichs) e uma equipa espanhola onde constavam Berrendero, Emilio Rodriguez, Langarica e Bernardo Ruiz. Lembro que não tinha havido Vuelta.


Saltemos para a 5ª etapa. Já tinham acontecido os fogos-de-artifício habituais e a amarela estava com um jovem francês de 23 anos, Jacques Marinelli. Ele e Fausto Coppi participam na fuga do dia. Num determinado momento os dois chocam e a bicicleta de Coppi fica em mau estado. Marinelli prossegue e ao fim do dia é ainda mais primeiro com 14' de avnço sobre o 2º. Coppi perde 19' e está a mais de 35' de Marinelli, a mais de 20' de Magni que é 2º na Geral, a 12' de Bartali que é 9º. Coppi acusa Binda de falta de apoio e só noite alta o convencem a não desistir e largar no dia seguinte. A etapa 7 é um contra-relógio plano de 92 km. Coppi é 1º, Kubler 2º, Van Steenbergen 3º. Marinelli mantém a amarela mas Kubler é agora 2ª a 8 minutos. Coppi está a 28'. Numa jogada de antecipação Fiorenzo Magni ganha a etapa 10 acompanhado por Impanis e Fachleitner e ao obter um avanço de 18' salta para a amarela. Era dia de descanso e depois os Pirinéus condensados numa só etapa. No pelotão já não havia espanhóis (Ruiz tinha avisado da sua/deles falta de preparação) nem neerlandeses. E da França Bobet e Lapébie já tinham desistido. Etapa que foi ganha por Robic acompanhado de Lucien Lazarides. Coppi chegou 3º devido a um furo, ganhando 3 minutos a Bartali e muitos mais à restante pandilha. Magni mantinha-se de amarelo mas com companhia próxima dos franceses Fachleitner e Marinelli, Kubler em 4º, 5º e 6º os belgas Dupont e Ockers, 8º e 9º Bartali e Coppi, Robic 10º. Após um dia de descanso parte-se de Cannes para Briançon via Izoard. Era a 1ª etapa dos Alpes. Coppi e Bartali atacam juntos e ganham isolados. Coppi deixa ganhar Bartali que faz 35 anos. Robic chega a 5 minutos, Apo Lazarides a 6', Marinelli a 9', Magni a 12'. Bartali está de amarelo, Coppi, Marinelli e Magni a pouco mais de 1 minuto. Na 2ª etapa alpina atacam juntos outra vez mas Bartali fura e Coppi tem autorização para seguir em frente. São 5 minutos ganhos a Bartali, 10 ao resto dos favoritos. Coppi vestia de amarelo. Os Alpes tinham "destruido" Magni, Fachleitner e Kubler, nomeadamente. A etapa 20 é um contra-relógio monstruoso de 137 km. Coppi ganha 7 minutos a Bartali que faz 2º, 8 minutos a Goldschmit e mais de 10' aos restantes. A etapa seguinte é a 21ª e acontece como uma chegada em pelotão a Paris, coisa oh tão moderna, com vitória de Rik Van Steenbergen. Coppi vencera Giro e Tour no mesmo ano. Bartali tinha sido 2º nas duas corridas. Fizera-se história. Uma palavra para o rapaz de 23 anos que foi 3º, Jacques Marinelli, que fez a corrida de uma vida ao entrar em quase todas as fugas, não se afundar na montanha e defender-se nos contra-relógios. Conseguiu assim ser o melhor francês imediatamente à frente de Robic. 54º e penúltimo encontramos o francês Custódio dos Reis, filho de emigrantes portugueses no Marrocos Francês e que em 46 e 47 correra pelo Sporting na Volta a Portugal. Custódio dos Reis viria a ter a sua maior vitória ganhando uma etapa no Tour de 50.

A Volta à Suíça este ano foi um negócio predominantemente caseiro e a vitória foi para Gottfried Weillenmann.


A 21 de Agosto o Campeonato do Mundo aconteceu em Copenhaga, num circuito predominantemente plano. A vitória sorriu a Rik Van Steenbergen que venceu num sprint a três Ferdi Kubler e Fausto Coppi. Schotte foi 4o a 3 minutos. Coppi foi curiosamente apenas 11º no GP das Nações, a vitória pertencendo a um especialista francês, Charles Coste. Mas Coppi não falhou no seu rendez-vous de final de época, a Lombardia, que venceu isolado após uma fuga de 56 km.

Em Setembro a Volta à Catalunha foi vencida pelo francês Émile Rol. Em 2º ficou o espanhol Miguel Poblet. No top dez constavam também Camellini, Cecchi, Alex Close, portanto um pelotão com valor.


No início de Novembro acontecia nas estradas de Bérgamo o primeiro Troféu Baracchi no formato que o tornaria célebre - 100km de contra-relógio em dupla - uma prova que se tornaria icónica durante décadas. Esta 1a edição em dupla seria ganha por Magni a fazer par com um rapaz de 22 anos incompletos, Adolfo Grosso.

O Challenge Desgranges-Colombo foi obviamente vencido por Fausto Coppi. Era um ano como nunca houvera algo igual. Em 2º ex-aqueo apareciam Bartali e Magni. Mas eu em 2º ligar poria Van Steenbergen, vencedor da Fléche Wallone, de 2 etapas no Tour e Campeão do Mundo.

Fausto Coppi fizera uma época única, marcada pela dupla Giro-Tour, mas como bom italiano fizera questão de ganhar a dupla Milão-Sanremo + Lombardia, a abertura e o fecho da época, fazendo pelo caminho pódios na Fléche Wallone e no Campeonato do Mundo e oferecendo ao irmão Serse um pódio no Paris-Roubaix que também poderia ter sido dele, senão mais. Nunca como neste ano se soube quem era o melhor ciclista do mundo, o Campioníssimo era Fausto Coppi.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Anuário Ilustrado do Ciclismo - 1948.


A 14 de Março aconteceu a Het Volk e com uma novidade interessante: Fausto Coppi veio correr a Het Volk. E ganhou-a. Mas não. Para ganhar a prova recebeu uma roda para trocar duas vezes, uma delas dum não companheiro de equipa. Venceu um sprint num grupo reduzido mas pela troca foi despromovido para 2º. "A minha corrida mais difícil de sempre", disse. O vencedor afinal, Sylvain Grysolle, já tinha vencido no tempo da guerra uma Volta a Flandres e uma Flche Wallone. Mas ficou mais conhecido para a história por este episódio. Adiante.

Em 1948 quatro jornais desportivos criaram o Challenge Desgrange-Colombo (CDC), uma competição que agregava as melhores provas do ano segundo pontuações diferentes para decidir no fim do ano qual tinha sido o melhor ciclista. Isto era um antepassado dos rankings actuais da UCI. Desgranges vinha do criador do Tour, Colombo do criador do Giro. A Milano Sanremo ia ser a primeira prova do CDC, mais um incentivo para a integração das provas ciclistas na Europa ocidental. Mas o Het Volk  não constava na lista. Já agora a lista: Milâo-Sanremo, Paris-Roubaix, Paris-Bruxelas, Volta à Flandres, Flecha Valónia (isto de aportuguesar...), Paris-Tours, Volta à Itália, Volta à França, Volta à Lombardia. De notar a não adição da Liége-Bastogne-Liége.   

E a Milano-Sanremo a 19/3 acontece como previsto, Coppi estava isolado com mais 3 fugitivos e a 45km da chegada no Capo Mele arrancou para chegar a Sanremo com 5' de avanço. Graças ao CDC tivemos alguns franceses, o 1º em 9º lugar, belgas, o 1º o veterano Marcel Kint em 15º, suiços e até um espanhol na lista de chegada!


A 2ª prova do CDC era a Paris-Roubaix. Ganhou-a Rik van Steenbergen num sprint a dois com o francês Emile Idée. Vamos falar um pouco de Rik van Steenbergen, que na década seguinte iria ser conhecido como Rik I, para contrapor a Rik van Looy. Van Steenbergen mal correra estrada em 47 mas fizera inúmeros cirtérios. Rik van Steenbergen era um excelente corredor e uma máquina de ganhar dinheiro. E era na pista e nos critérios que se ganhava dinheiro. As corridas serviam para dar nome, ganhar cartaz. Portanto assim se pode analizar a carreira de van Steenbergen. Ele nunca correu muita estrada por ano, tinha mais que fazer, mas estrategicamente escolhia algumas provas para as ganhar e o seu nome continuar na ribalta. Foi assim até ao fim dos anos 50, sem falhar. Esta vitória no Paris-Roubaix não tinha nada a ver com o recém inventado CDC. Era para garantir mais contratos. Voltaremos portanto a falar dele mas efectivamente só de vez em quando.

A Paris-Bruxelas, apesar de ter sido incluida no CDC, chamou um pelotão sobretudo belga e foi ganha ao sprint num grupo numeroso por Lode Poels, Albert Sercu 2º. Idem a Volta à Flandres, vencida ao sprint num grupo reduzido por Briek Schotte, a correr melhor do que em 47. Já a Fléche Wallonne ganhou-a Fermo Camellini, a meses de se naturalizar francês, com 3' de avanço sobre Briek Schotte. Nestas 3 provas do CDC não era ainda muito visível uma grande internacionalização do pelotão que comparecia à partida.

 A 5/4 aconteceram duas provas, a Paris Tours e a Zurich Metzgete. A Paris Tours contava para o CDC e teve um pelotão bastante variado. Venceu Louis Caput, a sua maior vitória, sprintando num pequeno grupo. Briek Schotte foi 7ª à frente do 1º pelotão. Louis Caput, "P'tit Louis" era um ciclista francês muito querido no pelotão e iria trabalhar em 1969 com Jean de Gribaldy na Frimatic, a equipa de Agostinho. Em 1970 passou como director para a Mercier, a equipa de Poulidor, e foi o director desportivo de Poulidor até à sua retirada da competição em 77. A Zurich foi ganha por Gino Bartali contra uma chusma de corredores suiços, num sprint (!) em grupo alargado.

Louis Caput foi 3º no início de Maio na Liége-Bastogne-Liége, o vencedor um desconhecido Maurice Mollin. 

A 6 de Maio começou a 2ª Volta à Romandia. A estrela local Ferdi Kubler dominou a prova, vencendo a 1ª e a 3ª etapas. No pódio dois competentes luxemburgueses, Goldschmit e Mathias Clemens. O italiano Bresci foi 4º, o espanhoL Bernardo Ruiz foi 11º. A ele voltaremos.

A Gent-Wevelgem de 9/5 teve como vencedor um "Flandrien" de 2ª linha Valére Ollivier.

A 15 de Maio começou o Giro de Italia. Giordano Cottur ganhou a camisola rosa após uma fuga na 1ª etapa. Bartali e Coppi estavam confortáveis a 7' à espera das batalhas nas montanhas até que na 9ª etapa para Nápoles um grupo de escapados ganhou 13' ao pelotão. Neles constava Fiorenzo Magni. A camisola rosa tinha rodado para outro escapado, Vito Ortelli, mas o verdadeiro perigo era Magni ou Ezio Cecchi, um veterano de 35 anos que já fôra 2º em 1938.

Paremos um pouco para falar sobre Fiorenzo Magni. Um ano mais novo do que Coppi, 6 do que Bartali, em 1940 ainda não era ciclista federado. Coemçou a correr durante a guerra mas em 1943 foi mobilizado para servir nos corpos de guarda fascistas e viu-se envolvido, provavelmente sem nenhuma parte activa, numa confrontação em 1944 perto da sua terra natal, onde vários resistentes anti-fascistas foram mortos no momento e depois de presos, torturados e assassinados. Magni nunca foi completamente ilibado deste evento e nunca se pronunciou sobre o sucedido. Em 1946 esteve impedido de correr pelo processo judicial que corria e que só desapareceu com a Amnistia Togliatti que aconteceu para tentar uma reconciliação do país. Magni já correu portanto em 1947 e em 47 já fizera um top10 no Giro e um 4ª lugar no Mundial, o melhor italiano.

Magni consegue a rosa na etapa 14, só porque Ortelli se atrasa do pelotão sem mais. Cecchi ataca na etapa 15 e ultrapassa Magni. As etapas 16 e 17 são as clássicas etapas dos Alpes e Coppi venceu as duas mas sem ganhar o tempo necessário para ultrapassar Magni. Cecchi sofrera um furo e queda na etapa 17 e agora, ao iniciar a penúltima etapa estava atrás de Magni 11 segundos, Coppi, 1'20''. Coppi não partiu para a penúltima etapa e retirou a sua equipa de prova, alegando favorecimento de Magni pela organização e pelo público, que o teria "empurrado" encosta acima na última subida. Verdade ou não, Magni vencia o seu primeiro Giro de Itália e com a mais pequena diferença de sempre sobre o 2º classificado que, 10 anos depois repetia o posto, Ezio Cecchi.

Coincidindo com o Giro foram acontecendo várias corridas por etapas. A Volta à Bélgica foi ganha porr Stan Ockers, o 2ª Dauphiné Liberé deu a vitória a Fachleitner, o francês que fora 2º no Tour de 47, sendo Jean Robic 3º,  a Volta ao Luxemburgo ficou entregue a um homem da casa, Goldschmit. 

A 12 de Junho começou a Volta à Suiça. Esta era a prova por etapas com o pelotão mais internacional nestes anos de reinício.  Foi dominada por Ferdi Kubler, suiço, em 2ª aparecia o italiano Giulio Bresci, em 4º o francês Robic, em 5º o luxemburguês Jean Kirchen. Não sei porquê uma mão-cheia de belgas de qualidade não parece ter chegado ao fim. E não havia espanhóis.

Não havia espanhóis porque a 13 de Junho começara a Volta à Espanha. 

A Vuelta foi ganha por Bernardo Ruiz, um corredor de 23 anos que já tinha no seu palmarés a Volta ã Catalunha  de 3 anos antes. Venceu nas montanhas bascas onde se superiorizou a Dalmacio Langarica. O pelotão era pequeno, 54 corredores, com alguns estrangeiros de 3ª apanha. A Volta a Portugal de 48 teve um pelotão maior... Mas Bernardo Ruiz era um nome a reter.

Ainda com a Vuelta a acontecer começava o Tour de France.  O Tour assegurara a sua primazia como a corrida das corridas ao se basear em equipas nacionais, cuja presença tinha sido "incompleta" em 1947. Em 48 já tínhamos à linha de partida o melhor para corridas de 3 semanas, eg. o Tour. Ou quase. Nos italianos a dúvida sobre a presença de Coppi resolvera-se com a sua suspensão pela Federação Italiana após a desistência do Giro. Bartali tinha o caminho aberto. Mas a equipa de apoio era surpreendentemente anónima. O vencedor do Giro, Magni, para não ir mais longe, não constava da lista de partida. A Itália mesmo assim merecera uma 2ª equipa de corredores mais novos, ditos "cadetes", também sem grandes nomes. Nesta equipa aparecia um Mario Fazio que em 1950 seria 2º na Volta a Portugal, se não me engano, a correr pelo Sporting. Nos franceses as estrelas eram as mesmas, Robic, Fachleitner, Teisseire, Lazarides, Vietto. Mas dava-se especial atenção a um rapaz de 23 anos chamado Louison Bobet. Nos belgas, nesta fase não muito dados a estas corridas compridas, era de notar o jovem Impanis, que fôra 10º em 47 e ganhara o famoso contra-relógio, Norbert Callens, Stan Ockers, o vencedor da Vuelta de 47 Van Dijck, e, atenção, Briek Schotte. Para além de 5 equipas francesas regionais ainda tinhamos uma equipa neerlando-luxemburguesa, onde o único nome de jeito era Jean Kirchen, e uma última dita de "internacionais" onde entravam dois suiços, os irmãos Aeschlimann, e os franco-italianos Brambilla e Camellini. Comentava-se a ausência do melhor suiço, Kubler. Mas ninguém perguntava por espanhóis e menos ainda por portugueses, que nunca tinham posto o pé no Tour. o Alves Barbosa ainda só tinha 17 aninhos.

Bartali ganhou a 1ª etapa ao sprint num grupo de 12 escapados, à frente (!) de Briek Schotte. Era dele a 1ª camisola amarela. Mas as 5 etapas seguintes, corridas pelo norte e oeste de França em direcção aos Pirinéus não lhe correram de feição, e ao fim da 6ª etapa que terminara em Biarritz, Bartali estava a 20 minutos daquele que melhor se tinha safado neste poker de etapas, o tal Louison Bobet.  Na etapa do Aubisque que terminava em Lourdes, Bartali, Bobet e Robic terminaram juntos. Na etapa do Tourmalet, do Aspin e do Peyresourde, também terminnou toda a gente que importava em grupo - o final em Toulouse permitindo o reagrupamento. Bartali era 8º a 18 minutos pelos bónus de ter vencido as duas etapas mais algumas passagens em primeiro nas montanhas que então também davam bónus de tempo. Bobet deu sinais de fraqueza na 10ª etapa mas na 12ª que terminava em Cannes ganhou e passou a ter 21' de vantagem sobre Bartali. O 2ª na classificação era o belga Lambrechts - que corria pelos "internacionais" - e o 3º era Impanis, de 23 anos como Bobet. Bartali estava 7º a 21 minutos. A etapa 13 terminava em Briançon e continha o Izoard.

Antes houve um dia de descanso e a tentativa de assassinato do dirigente comunista Togliatti em Itália. Itália estava "em chamas". O Presidente De Gasperi telefonou a Bartali e perguntou-lhe, ao homem que dali a três dias fazia 34 anos e só fôra 8º no Giro, se achava que podia ganhar o Tour. Bartali respondeu que não sabia, mas que se sentia bem e ia tentar ganhar a etapa. O Presidente agradeceu-lhe, pois o país inteiro estava a precisar de uma boa notícia. No Procyclingstats a elevação vertical desta etapa, de 274 km, está estimada em 7000m. Hoje não há etapas assim: uma etapa no Tour com uma elevação vertical acima de 5000m será com certeza a etapa-rainha. Mais a chuva e o mau tempo, que decidiram comparecer. Vietto e Robic atacaram cedo, Bartali lentamente fez a sua corrida. Ao entrar para o Izoard já ia sózinho em primeiro. No cimo levava mais de 8' de avanço sobre... Briek Schotte! Desceu cautelosamente até Briançon e ganhou, e a Itália parou para ouvir a notícia. Bobet perdera 17', Robic 27! Com os vários bónus coleccionados pelo caminho Bartali ficara só a um minuto do francês, 11 anos mais novo, que saira da meta em maca. A etapa 14 continha o Lautaret, o Galibier e o Portet. Em Julho os ciclistas apanham neve. Bobet consegue seguir Bartali até ao início do Col de Portet onde avaria. Bartali chega a Aix-les-Bains outra vez isolado, o 2º, Stan Ockers a mais de 5 minutos, Bobet, em lágrimas, a sete, chegando Briek Schotte com o francês. Bartali era o novo camisola amarela, com oito minutos de avanço. Novo descanso. A 3ª etapa alpina, com chegada a Lausanne, seria no seu aniversário. Bartali voltou a vencer isolado, Schotte perdeu 1'40, Bobet mais de 4 minutos. Mas o descalabro ocorreu na etapa a seguir, para Mulhouse. A equipa belga destruiu os franceses, retirando o 2º lugar a Bobet e oferecendo-o a Schotte. Bartali só teve que acompanhar os belgas. A desunião francesa  permitira até que Teissere ultrapassasse Bobet na geral. Aconteceu depois um contra-relógio que os 34 anos e talvez o muito cuidado fizeram Bartali perder 11'. mas o Tour era dele. E sete etapas, sete. Em Itália falava-se de um milagre, o país unido por um feito desportivo, e que feito. Schotte, o 2ª da classificação geral, niunca mais correu o Tour com esse objectivo. Para encontrar algo parecido, lembro Julian Alaphilippe, 5º no Tour de 2019.


A 22 de Agosto Briek Schotte sagrava-se Campeão do Mundo batendo ao sprint Apo Lazarides, o 3º lugar também para um francês, Teisseire. Coppi e Bartali desistiram, Bobet e Robic não participaram. A prova desenrolara-se em Valkemburg e obrigara os ciclistas a subir o Cauberg 26 vezes, algo parecido aos campeonatos de 38. Para comparação, hoje em dia a Amstel Gold Race sobe o Cauberg duas vezes apenas.

Entretanto na Catalunha Emilio Rodriguez arrebatava a Volta aos italianos Bresci e Cecchi. Nas provas de fim de ano o francês René Berton ganhou o GP das Nações - sem Coppi. Robic venceu o A Travers Lausanne. A 24 de Outubro a Volta a Lombardia é dominada uma vez mais por Coppi, numa fuga de 84km. Bobet reaparece e chegou 6' depois, Schotte compareceu e chegou ao fim com 8 minutos de atraso.

O ano era de Bartali e Schotte, este aliás o 1º vencedor do Challenge Desgranges-Colombo. Coppi vencera Milano-Sanremo e a Lombardia, Magni o Giro. 

Anuário Ilustrado do Ciclismo - 1947.

 



1947 começou ainda com o pelotão muito dividido.

A 19/3 acontecia uma Milão-Sanremo quase exclusivamente italiana. Bartali faz uma corrida à Coppi, ganhando isolado com mais de 4 minutos de vantagem. Coppi desistira por uma conjuntivite. O 1º não italiano foi o belga Albert Sercu e foi 9º, pai do sprinter Patrick Sercu, parceiro de Eddy Merckx na pista. Albert Sercu venceria a exclusivamente belga Het Volk 4 dias depois.

Uma semana depois a Gent-Wevelgem foi ganha por Maurice Desimpelaere, um "Flandrien" que fizera 2ª no ano anterior e que já ganhara um Paris-Roubaix durante a guerra- Como curiosidade Gino Bartali correu esta corrida e terminou 9º. A "estrela" Briek Schotte foi 11º (fôra 10º na Het Volk).

No dimngo a seguir George Claes repetia a vitória na Paris-Roubaix num sprint a 3 onde o 3º era o francês Louis Thiétard. Houve também italianos a correr, Olimpio Bizzi foi 6ª,  Briek Schotte 5º.

A 13/4 Ernst Sterckx vencia num sprint a 5 a Paris-Bruxelas, à frente de Desimpelaere (igual a Gent de 46). Nos 5 primeiros que sprintaram estavam 3 belgas, 1 francês e 1 italiano. Schotte foi 6º Menos pernas em 47?

A 20/4 a Liege-Bastogne-Liege é ganha por ainda outro "Flandrien", Richard Depoorter, num pelotão quase só de belgas, repetindo uma vitória que já tinha acontecido durante a guerra.

Uma semana depois Emiel Faignaert vencia uma Volta a Flandres quase só disputada entre belgas. Briek Schotte desistiu.

a 4/05 finalmente Briek Schotte ia conseguir a sua vitória, ao ganhar ao sprint num grupo de 15 elementos,  franceses e belgas, o Paris-Tours. Repetia a vitória do ano anterior mas desta vez ao sprint, não isolado. No mesmo dia aconteceu a Zurich Metzgete, desta vez com menos excitação, foi vencida por Charles Guyot, Jr, suiço. Coppi participou sem história, de Bartali não reza a história. Mencionar Ferdi Kubler, o 3º lugar, um suiço que daria que falar, e um espanhol de 19 anos, Miguel Poblet, que foi 14º. 


Terminada a época das clássicas e porque não houvera Paris-Nice, a Volta a Espanha foi a primeira corrida por etapas a acontecer, começando a 12 de Maio. Aconteceu sem participação portuguesa e só com 12 ciclistas estrangeiros no pelotão. Mas foi um estrangeiro, um belga, que venceu, Edward van Dijck. Berrendero já tinha 35 anos. O vencedor de 46, Langarica, não participou. E a organização ofereceu ao anónimo corredor belga dois contra-relógios dois onde ele ganhou 12 minutos ao espanhol Manuel Costa, trepador emérito, que ficou em 2º.   Nestes recuados tempos de pós-Guerra Civil as montanhas espanholas a sério deviam ser intransitáveis pelo que as dificuldades montanhosas não eram muitas e resumiam-se à região de Madrid e ao País Basco.

3 dias depois de começar a Vuelta começava na região francesa da Suiça a 1ª edição do Tour de Romandie que se tornaria com tempo outra prova por etapas de referência. Nesta 1ª edição só com 4 etapas o belga Keteleer que ganhara a Fleche Wallone o ano passado superiorizou-se a Gino Bartali e ao suiço Ferdi Kubler. Bartali foi o primeiro campeão de corridas de três semanas a dar importância a estas corridas de etapas mais curtas. Coppi não.

A 24 de Maio começava o Giro, mais um Giro sem contra-relógio. Seria a desforra de Fausto Coppi? Na 2ª etapa para Génova numa passsagem pelos Apeninos Bartali atacou com um colega de equipa e ganhou 2' 41''. A partir daí Bartali e Coppi seriam a sombra um do outro, até à 16ª etapa. Habitualmente no Giro destaca-se sempre uma etapa como a mais difícil, com várias montanhas, etc., chamada "il tappone". Este ano era a 16. Na última subida, o Pordoi, 9 km a 7% até aos 2240m de altitude, Coppi isolou-se e ganhou mais de 4 minutos até à meta. O Giro estava ganho. Coppi vencera Bartali na alta montanha.


Deixo para outros textos descrever o que foi a rivalidade Coppi-Bartali, a maior de sempre na modalidade. Eram também duas Itálias que se defrontavam através destes dois ciclistas, uma rural e demo-cristã, a outra urbana e progressista.

A "última" das clássicas antes do intervalo do verão, a Fléche Wallone, foi ganha por Sterckx que cortou a meta isolado, Desimpelaere 2º a 1'20''. Sterckx fôra o vencedor da época das clássicas ao ser o único a repetir a vitória nas corridas "que contavam".

Uma semana depois, a 12 de Junho começava a 1ª edição do Critérium do  Dauphiné Liberé, prova organizada pelo jornal do mesmo nome sediado em Grenoble, a capital da antiga região do Dauphiné/Delfinado. Quem diz Grenoble diz junto aos Alpes, portanto esta corrida metia montanha e a sua localização em Junho promoveu-a a seu tempo a corrida pré-Tour nº 1. Desta vez porém foi ganha pelo apenas interessante polaco emigrado em França Edouard Klabinski.

E a 25 de Junho começou a Volta  a França, após sete anos de intervalo. Em Itália e no Giro tinham corrido os vencedores dos três últimos Tours, Sylvére Maes, belga que vencera em 37 e 39 (terminou o Giro aos 37 anos de idade em 5º lugar) e Gino Bartali que ganhara memoravelmente o Tour de 38 para a História. Nenhum destes estaria presente à partida deste Tour. A Volta à França desde os anos 30 admitia apenas equipas nacionais, não de marca, como o Giro. E equipas nacionais havia a francesa, a belga, a italiana,  a neerlandesa e uma mista helvetico-luxemburguesa. E mais cinco equipas regionais francesas. A equipa italiana era composta de 2ªs escolhas ao não conter nem Coppi nem Bartali.

Há heróis e heróis. O ciclismo produziu muitos heróis com história todas únicas, nem sempre ganhadoras. Falemos de René Vietto, a cabeça de cartaz de França neste ano de 47, e recuemos até 1934. No Tour de 34 Vietto tinha 20 anos e era gregário de Antonin Magne, astro francês e leader da equipa. Vietto mostrou-se o melhor trepador do Tour nesse ano mas na etapa 15 teve que ceder uma roda ao seu líder e na etapa 16 toda uma bicicleta, depois de voltar a subir uma montanha que já tinha descido, para safar Magne. Vietto  só voltou a estar em grande nível no Tour de 39 mas aqui o belga Sylvere Maes bateu-o onde menos se esperava, nas montanhas. Passada a guerra e admitida uma equipa italiana só com 2ªs escolhas esperava-se que agora com 34 anos René Vietto conseguisse finalmente ganhar o "seu" Tour. 

O Tour dos anos 30, 40 e 50 ainda não era bem o Tour que depois já nos tempos de Merckx e a partir daí nos habituámos a conhecer. O sprint em pelotão compacto era uma raridade suficientemente escassa para não ser um projecto de vida para nenhum corredor ou equipa. A dureza das etapas e os muitos imponderáveis - furos, acidentes, rodas partidas, etc - acrescentavam aleatoriedade à corrida, e era muito frequente em ataques planeados ou improvisados, numa etapa entendida como pouco importante,ganhar ou perder valiosos minutos. Um ciclista tinha que ser antes do mais um excelente rolador e um estratega da estrada. Claro que havia na mesma as montanhas, sempre os Pirinéus e os Alpes e outras mais, mas as etapas não acabavam em alto, ou seja às vezes saber descer era até mais importante do que saber subir, e um bom rolador podia recuperar muito tempo.

Posto isto, na 2ª etapa que terminava em Bruxelas Vietto entra numa fuga com 2 belgas, depois consegue despachá-los e ganha 8 minutos ao pelotão principal. Avançou assim de amarelo René Vietto para os Alpes, com uma rotunda vantagem sobre a concorrência, exceptuando o italiano Aldo Ronconi que na 3ª etapa o imitara escapando. Nos Alpes a prestação de Vietto foi de menos a mais, eram 3 etapas, Vietto ganhou a 3ª, que incluia o Izoard. Mas logo a seguir, na descida para Nice numa etapa com algumas dificuldade, perdeu tempo para alguma gente. À porta dos Pirinéus Vietto tinha 3 italianos, Camellini, Pierre Brambilla e Ronconi a 2-3 minutos de distância. Os Pirinéus consistiram em 2 etapas em que Vietto manteve a liderança. Camellini perdeu tempo, Brambilla ganhou um minuto, Ronconi ficou onde estava. Na 2ª etapa um francês que dava pelo nome de Jean Robic venceu com 10' de avanço sobre os favoritos e estava agora apenas a 8' de Vietto. Aparece escrito em alguns lados que por estas alturas Vietto estaria com uma infecção grave num dedo do pé que, aliás, depois acabaria amputado. Conseguiria aguentar? Após um dia de descanso aconteceu o contra-relógio mais comprido da história do Tour, 139 km! A vitória sorriu a Raymond Impanis, uma nova estrela belga. Vietto perdeu mais de 15' para o primeiro e perdeu a amarela para o italiano Brambilla. Na classificação geral este liderava com 1' de vantagem sobre o colega de equipa Ronconi, 3' de vantagem sobre o 2ª do contra-relógio, Jean Robic, Vietto em 4º a 5 minutos. E assim chegávamos à última etapa.

Pierre Brambilla era um ciclista italiano nascido na Suiça francesa e cuja carreira se fez toda em França. Aliás, adquiriu a nacionalidade francesa em 49. Mas aqui ele era da equipa italiana, era italiano. Jean Robic era pouco conhecido embora já tivesse sido campeão francês de ciclocross. Fracturara o crânio no Paris-Roubaix em 44 e desde então usava sempre uma protecção de couro, daí ser conhecido por "tête-de-cuir". Neste Tour já ganhara três etapas. A última etapa deste Tour viria a ser a mais disputada de sempre. E Pierre Brambilla perdeu o Tour para Robic. Como aconteceu? A meio da etapa já vários corredores se tinham escapado. Robic ataca e com ele vai outro francês, Fachleitner, Brambilla tenta acompanhar mas não consegue. O pelotão decide não ajudar o italiano. Fachleitner tenta sacudir Robic das suas costas sem resultado. Aí este diz-lhe: " - Ajuda-me a ganhar o Tour, tu acabas 2º e dou-te 100000 francos". Assim foi. Da fuga descaiu Lucien Teisséire para ajudar. No final Brambilla perdera 13' para Robic e o Tour. Robic representava a equipa regional França-Oeste e pagou pessoalmente 100000 francos à equipa nacional francesa onde corria Fachleitner, como era devido. Corre a lenda que Vietto nunca perdoou a Fachleitner ter-se vendido por tão pouco, ainda por cima para dividir por dez.  Por curiosidade esta última etapa que terminou em Paris foi ganha por... Briek Schotte. Diz-se que por raiva Brambilla no dia a seguir ao fim do Tour enterrou a sua bicicleta no quintal. Mas depois foi desenterrá-la. De que ia viver?


Os Campeonatos do Mundo aconteceram cedo a 3/8 num circuito automobilístico perto de Reims, na França, portanto para roladores puros. Terminaram apenas 7 dos inscritos, a vitória cabendo ao neerlandês Theo Middelkamp, ao fim de 7 horas e meia de corrida, num ataque na última volta. Middelkamp já fora bronze em 1936 e viria a ser 2ª em 50, fazendo de alguma forma "disto" uma especialidade, sem outros resultados de monta. O 2º foi Albert Sercu. Desistiram Coppi, Kubler, van Steenbergen, etc., etc.

A 16/8 arrancava a Volta à Suiça com Bartali e Coppi na linha de partida. A corrida não teve muita história. Na primeira etapa de montanha Bartali ganhou isolado com 10' de avanço sobre o resto do pessoal.  Coppi correu apenas quanto baste. Não consigo perceber se os dois correram dentro de uma equipa nacional ou em equipas de marca. Num contra-relógio entre Lausanne e Genéve de 60 km Coppi recuperou 6'. No fim o pódio era completado pelo italiano Bresci (o 3º no Giro) e o belga Stan Ockers, um homem de que iremos falar bastante para os anos que vêem. Coopi foi 5º. Coppi não tem uma vitória numa corrida de 1 semana.




Em Setembro Coppi voltou a viajar até França para ganhar o GP des Nations contra uma data de franceses (e um italiano, Magni, que foi 3º) e também voltou à Suiça para vencer o A Travers Lausanne. Em Outubro acabou o ano limpando outra vez a Lombardia com 5' de avanço sobre Bartali (3 semanas antes no Giro del Emilia tinham sido 10' de avanço, na semana anterior no Giro del Veneto 8' de avanço... Coppi ganhava assim).



Em Setembro acontecera a Volta à Catalunha só com espanhóis e meia dúzia de suiços para compor o ramalhete, vencida por Emilio Rodriguez, um de 4 irmão ciclistas nascidos em Ponteareas, Galiza, e que frequentemente vieram correr a Volta a Portugal, julgo que contratados pelo Sangalhos, para ganhar um extra.

Balanço do ano? Coppi levara a melhor sobre Bartali no Giro, no Tour surgira do nada uma vitória do francês Robic, num pelotão internacional incompleto. A temporada de clássicas fora muito dividida mas o mais ganhador fôra Ernst Sterckx.


quinta-feira, 30 de maio de 2024

Anuário Ilustrado do Ciclismo - 1946.



Em 1946 as cicatrizes da guerra estavam frescas. A Alemanha estava ocupada, a Itália era um inimigo derrotado, Bélgica e França eram países massacrados pela longa ocupação alemã e a guerra da libertação. Ainda não seria o ano da "integração" europeia do ciclismo. Em vez de um pelotão existiam vários.

Cortesia (como todos os anos) das condições climáticas, o ciclismo começou só começou a mexer em Março.

Em França começaram a acontecer no sul algumas provas de um dia. Na Bélgica correu-se a 2ª Het Volk (nome de um jornal de Ghent) e o pelotão era quase exclusivamente belga, belga o obscuro vencedor. Dois dias depois, a 19 de Março, corria-se a primeira grande prova, a Milano-Sanremo. Com um percurso frenético a roçar os 300 km, a Classicíssima foi mais recentemente apelidada de Monumento para os sprinters, com a decisão da corrida a acontecer a poucos kms do fim na subida do Poggio,  se alguém se isolar ganha, a não acontecer a separação das águas ganha um sprinter. Em 1946 ainda não havia o Poggio como última dificuldade. Mas havia Fausto Coppi. E quem era Fausto Coppi? Ganhara uma Volta à Itália em 1940 com 20 anos de idade, quando era apenas um gregário recem-chegado do melhor ciclista italiano daquele tempo, Gino Bartali. Bartali atropelara um cão e caíra na 2ª etapa, ficando diminuido e assim se escreveu história. Bartali era 6 anos mais velho e a rivalidade destes dois corredores moldaria o pos-guerra do ciclismo europeu e da Itália enquanto pais. A Guerra diminuira o número de provas em Itália e o circuito internacional era nenhum. Mas Coppi conseguira em 1942 bater o record mundial da hora. Coppi era então à partida o vencedor do último Giro (1940) e o detentor do Record Mundial da Hora (que só vira a ser batido 14 anos depois). Bartali vencerá os Giros de 36 e 37 e o Touro de 38. O pelotão era sobretudo italiano mas tinha os dois melhores ciclistas do mundo. No Passo Turchino, a 147 km da meta, Coppi arrancou isolado do grupo da frente e nunca mais ninguém o viu. Chegou a Sanremo com mais de 14 minutos sobre o segundo, o francês, Lucien Teisseire. Bartali chegou no grupo que discutiu o 3º lugar, a 18 minutos. Assim corria Coppi.

Em Abril o ciclismo rumou a norte e aconteceram as clássicas hoje conhecidas pelo "pavé" - em 1946 sei lá como estariam os pisos... Respeitando uma ordem que curiosamente em 2024 também aconteceu, A Volta à Flandres foi a 14/4, o Paris-Roubaix a 21/4. E a 28/4 correu-se o Paris-Bruxelas, uma corrida que entretanto perdeu prestígio mas que em 46 ainda era cabeça de cartaz. 

A Volta a Flandres tinha um percurso bastante diferente do de hoje e o pelotão era quase só composto por belgas. Venceu um "Flandrien" de 21 anos de nome Rik van Steenbergen, deixando para trás e a completar o pódio o Francês Louis Thiétard e o favorito Briek Schotte, o "Flandrien" do momento e 5 anos mais velho. Durante a guerra Schotte vencera a Ronde em 42 mas perdera-a para Steenbergen em 44 - com 19 anos o mais jovem vencedor da Ronde de sempre. "Flandrien" era definido como um corredor raçudo, manhoso, valente, que desafiava os elementos e fazia tudo para ganhar. O que, dizem, só acontecia com quem nascera na Flandres. O nome "Flandrien" era aliás uma alcunha aplicada pelos americanos aos ciclistas de pista dos anos dez e vinte que cruzavam o Atlântico para ganhar a vida nas então populares provas de pista americanas. Diziam que so "Flandriens" comiam carne crua ao pequeno-almoço de tão brutos que eram. 

O pelotão do Paris Roubaix era um misto de franceses e belgas. Paris-Roubaix era a clássica das clássicas, famosa desde sempre, um percurso com algumas variações ao longo do tempo mas sempre a terminar no velódromo de Roubaix. Rik van Steenbergen era agora o favorito mas furou duas vezes e desistiu. Schotte não sei se participou. Ganhou num sprint a três George Claes, um "Fladrien" de 2ª linha, à frente do francês Louis Gauthier.

No domingo a seguir  corria-se a Paris-Bruxelas. Esta corrida também começara no final do séc. XIX e tinha ainda nesta fase muito cartaz. Na zona belga residiam as dificuldades, alguns "muros" para subir, e num deles Briek Schotte isolou-se para ganhar com mais de 4 minutos de avanço. Nos que terminaram a corrida não se fala de Claes nem de Rik van Steenbergen. Portanto, terminado Abril, uma vitória importante para três belgas, van Steenbergen, Claes e Schotte.

A 1 de Maio começou uma corrida por etapas que já tinha tido algumas edições e que se chamava Paris-Nice. Consistiu em 5 etapas e terminou (como em 2024) no Passeio dos Ingleses em Nice. A vitória pertenceu a um rolador italiano de nome Fermo Camellini já com 32 anos, emigrado para França quando criança e que se naturalizaria francês em 48. Mais um bom ciclista a que a 2a Gtande Guerra roubara parte da carreira. Nesta década seria o único Paris-Nice a acontecer mas fora bem concorrido (Briek Schotte terminou em 7º). A comida em França estava racionada. Teve que existir uma licença específica para que o apoio logístico funcionasse e os ciclistas tivessem o que comer.

A 5 de Maio, no mesmo dia em que se terminava o Paris Nice, aconteciam duas corridas de um dia com cartaz. Uma o Campeonato de Zurich (Zurich Metzgete ou, mal traduzido "a canificina de Zurich"), uma prova com bastante pedigree.que infelizmente terminou no início do séc. XXI. Venceu-a Bartali à frente de Fausto Coppi, num sprint entre os dois controverso - Coppi sofrera um contratempo com o calçado e Bartali aproveitou e disparou. 

No mesmo dia aconteceu a Liége-Bastogne-Liege. Hoje um dos Cinco Monumentos e destes o mais antigo, a sua importância nos anos 40 ainda não era tão consensual. A vitória sorriu a Prosper Depredomme, um bom corredor belga mas não um "Flandrien".

A 7 de Maio começava entretanto a 6ª Volta a Espanha (sim, a Vuelta tem uma história bem menos egrégia do que o Tour ou o Giro). No pelotão estavam os melhores espanhóis (e os outros), uma equipa suiça, uma equipa luxemburguesa e.. uma equipa portuguesa! Em 45 João Rebelo- ciclista do Sporting, já agora, e que nunca venceu a Volta a Portugal - surpreendera com um 6º lugar e vitória em duas etapas! Em 46 Rebelo teve uma prestação mais discreta terminando em 10º, mas houve outra vitória lusa numa etapa, desta vez por João Lourenço. A vitória sorriu a Dalmacio Langarica, a sua melhor vitória de sempre, à frente de Julio Berrendero, o melhor ciclista espanhol destes tempos e que já tinha vencido o Prémio da Montanha num Tour nos anos 30. A completar o pódio o luxemburguês Jan Lambrichs, que fora 8º no Tour de 39.


A prova mais importante de um dia em Maio foi o Paris-Tours, que nestes tempos era um grande cartaz. Briek Scotthe coleccionou mais uma vitória isolado numa prova onde só terminaram 24 dos 170 franceses e belgas que partiram (nada de estranho tendo em atenção o estado das estradas, etc.). 

Lembro que na maior parte das provas não se consegue aceder à lista de participantes e portanto não se pode presumir a não comparência de determinados nomes a determinadas provas excepto no caso de provas coincidentes na data. Entre furos, quedas e avarias mecânicas o mais habitual neste tempos para qualquert ciclista era não terminar a prova qualquer que ela fosse. Claro que os melhores caiam menos, evitavam um pouco mais furos, avarias mas mesmo assim... Mas eram tempos muito mais aleatórios do que os de hoje ou mesmo do que eg vinte anos depois.

A 15/5 começou a Volta à Bélgica (prova com início anterior ao Giro) que ainda tinha uma importância transcendente na Bélgica. O vencedor foi Albert Ramon.

Depois aconteceram duas provas de 1 dia com origem nos anos 30 mas que estavm a ganhar relevância. A 26/5 correu-se a Gent-Wevelgem. Venceu o belga Ernst Sterckx num sprint a três. Em 5º terminou Stan Ockers, uma belga de que voltaremos a falar. A 9/6 aconteceu a Fléche Wallone, que não terminava no Muro de Huy mas em Liége, vencendo um sprint a 2 ganhou o belga Desirée Keteleer. Schotte correu esta corrida e depois foi correr na Volta ao Luxemburgo (prova com origem nos anos 30) que ganhou.

E chegámos à Volta a Itália. Como em 1940 o pelotão era exclusivamente italiano. Em 1940 Coppi ganhara por, com problemas mecânicos após uma queda, Bartali ter perdido as hipóteses de vitória. Pertenciam à mesma equipa, Coppi era um jovem gregário. Bartali numa das etapas mais difíceis ajudara Coppi a continuar. Agora eram adversários. Muito adversários. Na 9ª etapa Bartali ganhou 4 minutos a um Coppi em crise. Depois nos Dolomitas em três etapas Coppi foi pouco a pouco recuperando, recuperando, mas não o bastante para não deixar de ficar em 2º a 47''. O 3º classificado ficou a mais de 15 minutos num Giro onde não houve contra-relógios. Bartali 2 Coppi 1.

Enquanto decorria o Giro em França decorria uma prova histórica e atípica, a monstruosa Bordéus-Paris, 588 km com a 2ª metade do trajecto a acontecer atrás de "Dernys", motoretas para pacing em meio-fundo na pista e na estrada. A 1ª edição fora em 1891. Em 1946 ganhou Emile Masson Jr, filho do vencedor do mesmo nome em 1923. 


Em 46 não houve Tour. No mês de Julho aconteceram duas corridas por etapas organizadas por diferentes jornais para de alguma forma "substituir" o Tour. Lembro o racionamento dos víveres vigente. A primeira, chamada Ronde de France, foi organizada pelo Ce Soir e aconteceu entre Bordeaux e Grenoble, correndo o sul de França e visitando, como se um verdadeiro Tour, os Pirinéus e os Alpes. Em vez de equipas nacionais corriam equipas de marca. Ausentes Coppi e Bartali, ausente também René Vietto, o clicista francês mais popular. Nas 5 etapas a 2ª era nos Pirinéus e nela o italiano Giulio Bresci ganhou isolado bastante tempo que se revelou suficiente para vencer a prova. Bresci fôra 6º no Giro e era um bom atleta mas não excepcional. Os italianos, a correr logo depois do Giro funcionaram como equipa, os franceses correram divididos, os italianos foram 5 no top 10, o melhor francês, Fachleitner, foi 3º- 

A segunda prova aconteceu na 2ª metade do mês e foi organizada pelo jornal l'Equipe, o sucessor do l'Auto, extinto em 44 e que organizava antes da Guerra o Tour. A prova ia ser corrida por equipas "nacionais" ou "regionais" entre Monaco e Paris. Seriam 5 etapas, a 2ª e a 3ª mergulhando nos Alpes. A equipa italiana foi parada pela armada francesa, que ficou nos 5 primeiros lugares. Apo Lazarides foi 1º. René Vietto 2º, Jean Robic 3º.  Já agora, o único belga a ultrapassar os Alpes e terminar a prova chamava-se Edward van Dijck e terminou em 15º.

Enquanto decorria a Ronde de France acontecia a Volta à Suiça. E verdadeiramente esta Volta a Suiça, uma prova iniciada nos anos 30 e que já era a volta de uma semana com mais nome, foi a corrida por etapas de 1946 com o pelotão mais internacional e portanto mais competitivo, se esquecermos a ausência de Fausto Coppi. Havia equipas (nacionais? não consegui saber) italianas, francesas, suiças, belgas e espanholas. Bartali ganhou logo a 1ª etapa e a partir daí controlou a corrida. Significativamente também ganhou o prémio da montanha. O melhos suiço, Joseph Wagner, ficou em 2º, o francês Vietto foi 4º, o espanhol Berrendero 7º.  Callens, o melhor belga, foi 5º. 

Agosto é no ciclismo o mês das quermesses, dos critérios, das corridas nas cidades e vilas para o povo admirar os seus heróis. 


A 1 de Setembro aconteceu em Zurich o 13º Campeonato do Mundo, 270 km de um circuito rugoso onde o Campeão Suiço em título, Hans Knecht, bateu po 10" o campeão do mundo em título (desde 38), o belga Marcel Kint. Kint, 32 anos, estava no ocaso de uma carreira que a Guerra também tinha truncado. Para Hans Knecht, curiosamente um ano mais velho, foi a vitória de uma vida. A medalha de bronze foi para Rik van Steenbergen que, com 22 anos incompletos, era o futuro. Coppi não terminou a prova, Bartali foi 12º, o melhor francês em 6º Guy Lapébie, o irmão mais novo do vencedor do Tour de 37, Roger Lapébie. 

A 13 de Setembro terminava a 26ª Volta à Catalunha, a prova ibérica mais antiga, vencida por Berrendero com autoridade. O vencedor da Volta a Espanha. Langarica não esteve presentte, apareceram sim alguns estrangeiros contratados avulso por equipas locais e que deram alguma luta, em 2º ficou por ex Gotfried Weilenmann,  futuro vencedor da Volta à Suiça.

A 15 de Stembro Fausto Coppi viajou até Paris para ganhar perante uma armada francesa o GP das Nações, considerado informalmente então o Campeonato do Mundo do Contra-Relógio. Claro que isto era uma prova à antiga, 140 km que foram corridos em mais de 3h e 40m a solo. Funcionava por convite e dos 28 escolhidos só 7 eram não franceses. Mas também havia provas prestigiadas bem mais pequeninas, como o contra-relógio de 4,3 km do A Travers Lausenne corrido a 22/9 e ganho por Fermo Camellini.

Fechou o ano a 27 de Outubro com a Volta à Lombardia, com um pelotão também quase só italiano. Coppi voltou a vencer isolado, desta vez depois de deixar para trás dois companheiros de fuga pouco antes da chegada a Milão. 40 segundos não eram 14 minutos mas Coppi terminava o ano como começara, a ganhar. Faltara a cereja no bolo, vencer Bartali no Giro.

O ano de 1946 fora um recomeço. O pelotão estava dividido pelos vários países, por agora. Em Itália dominavam Bartali e Coppi, na Bélgica, terra das clássicas, Schotte e van Steenbergen. Na França vários nomes apareciam como interessantes, nenhum confiantemente numa primeira linha. Mas o Campeáo do Mundo fôra suiço.