sábado, 3 de janeiro de 2026

Lembrando porque aconteceu Hugo Chavez.




Conheço muito boa gente que nasceu ou tem raízes na Venezuela. Espero que me perdoem o atrevimebto.

Em 1958 a ditadura de Marcos Pérez Jimenez foi derrubada em Venezuela e foi estabelecida uma democracia parlamentar. No final desse ano os très partidos principais da Venezuela, a COPEI, a AD e a URD,  estabeleceram o pacto de Punto Fijo, o nome da residência do presidente da COPEI, para estabelecer um esquema de convivência e rotatividade na governação que garantiu à Venezuela 40 anos de estabilidade democrática, até à eleição de Hugo Chavez em 98. A URD era o elo mais fraco nesta negociação e os partidos AD e COPEI governaram em alternância estes 40 anos, incluindo os tempos do boom petrolífero nos anos 70. As classes alta e média da Venezuela beneficiaram com esta paz política mas o grosso do povo venezuelano nem por isso. Sendo uma economia que dependia exclusivamente da extracção petrolífera, quando os preços baixaram nos anos 80 começaram os problemas. Em 89 o país entrou em insolvência e o FMI e o Banco Mundial aplicaram a receita neo-liberal do costume, que levou a uma revolta popular conhecida pelo "Caracazo", despoletada pelo subir do preço da gasolina num país que então era um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Simbolicamente o presidente era o repetente Carlos Andres Pérez, que tinha sido a cara mais conhecida dos anos 70 e então um "governante de esquerda". A repressão matou centenas ou milhares de venezuelanos e levou à morte lenta do binómio AD/COPEI. A crise económica era evidente. A democracia não chegava ao povo e os casos de corrupção sucediam-se. Em 1992 aconteceu uma revolta militar surpresa, liderada por um jovem Hugo Chavez, que acabou por se render nas suas palavras "por enquanto". Carlos Andres Pérez sofreu um impeachment. O governo do quinquénio 93-98 já foi uma coligação de interesses que tentou mas não conseguiu dar a volta à economia e em 98, democraticamente Hugo Chavez ganhou as eleições para Presidente apoiado no "Movimiento Quinta Republica". 

Hugo Chavez mandou na Venezuela durante 15 anos, até à sua morte por doença. Nos primeiros anos beneficiou de uma nova subida dos preços do petróleo. Empoderou as classes baixas criando uma ilusáo de democracia de base e aplicando receitas populares de erradicação do analfabetismo e melhoria das condições de saúde dos bairros pobres. Chavez sobreviveu "democraticamente" até à sua morte, parasitando a justiça e beneficiando os militares. Mas não conseguiu capturar nem os sindicatos nem erradicar as televisões privadas. O país foi atravessando vários momentos de grande polarização política. E passou a conviver com um nível de violência no dia-a-dia brutal. A frente chavista criou em muitos bairros populares uma lógica quase "religiosa" de "seguir o líder". Chavez era um autocrata dos tempos modernos, mantendo uma capa de democracia que ia permitindo à oposição "quase vitórias" que não passavam disso. O entorno de Chavez era escolhido pela fidelidade e não pela competência e a economia foi perdendo o rumo, sector petrolífero incluido.    

Quando Chavez morreu o mito chavista que até convenceu alguma esquerda europeia já estava desfeito. Sucedeu-lhe Nicolás Maduro. Sim, ele começou a trabalhar como camionista, mas quando chegou à Presidência era o Vice-Presidente e antes tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 2014 conseguiu perder umas eleiçóes legislativas mas o regime conseguiu dar a volta e até ontem administrou um país a implodir economica e socialmente, com oito milhões de emigrantes - a população de Venezuela começou a desce em 2017. Os poucos beneficiados? A entourage militar e militante de Maduro.

Esta madrugada Trump não deixou serem os venezuelanos a resolver esta dramática situação. A sua preocupação com o país é nula. Ele só quer mesmo o petróleo. E agora?

Alguém da administração de Trump sabe da existência do Acordo de Punto Fijo em 1958 - talvez a causa longínqua de tudo isto?

  A imagem acima é de Carlos Andres Pérez.

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