segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Pontormo (1494-1557)

De Pontormo, o "meu" primeiro pintor a escapar um pouco ao cânone, eu escolho o movimento, a cor, o bailado, único no seu tempo. A flutuação. As expressões tão nossas, tão soltas, tão mexidas. E a cor, outra vez. A "Deposição da Cruz" (1525-8) é assim chamada e percebe-se porquê, mas no quadro não reside nenhuma cruz, pois a sua dura geometria não permitiria a fluidez em cascata das cores, dos volumes, dos gestos em lamento.

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Num conjunto de frescos perdidos sobre o "Juízo Final", de que se conhecem alguns desenhos, Pontormo inovava uma vez mais, ao colocar o Pai aos pés do Filho, algo criticado pelos seus contemporâneos.
Na "Visitação" (1528-9), abaixo, peço que se preste especial atenção aos retratos, e nestes aos dois das duas pessoas de maior idade, e destes dois ao que olha para nós. Único, inaugural.

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Michelangelo (1475-1564)

Vinte e três anos mais novo do que Leonardo, ainda viveu tempo suficiente para dar corpo ao maior confronto de génios da pintura de sempre.
Embora digam de Michelangelo que as suas pinturas eram esculturas pintadas, pelos desenho muscularsempre tão presente. Enfim...
A pintura "Tondo Doni", com a Virgem, São José e o Menino e um animado jogo de formas, cores e movimento. Mostra uma Virgem com braços reais, prontos para pegar em peso numa criança, e um olhar… preciso, fixo, que sobe para o Filho.
Pela primeira vez é retratada uma Mulher como ela habitualmente é, sobretudo se Mãe: Forte!

Ficheiro:Michelangelo, tondo doni 01.jpg

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A Sibila Líbica aparece no conjunto das sibilas que preenchem uma sequência do tecto da Capela Sistina. Mais uma vez Michelangelo cria aqui uma torsão de corpo nesta figura feminina cujo poder sobe do pousar delicado dos pés - ver o polegar esquerdo - até aos amplos trapézios e deltóides que vão levantar o Grande Livro. A face, lateral e um pouco descida, exprime a intenção do que vai acontecer, sem mais. Eis uma mulher em funções, segura, silenciosa, pronta a encetar um quase passo de dança e ao mesmo tempo plena de… uma "força tranquila", pois nada mais faz do que p seu trabalho.
Sim, Michelangelo era um escultor.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Leonardo da Vinci (1452-1519)

Da Vinci era apenas 7 anos mais novo do que Botticelli. Mas a sua pintura pertence a outro continente. Porque pertence a outro século. E continuo a seguir este percurso meu, do ideal feminino na pintura.
Leonardo pintou quatro retratos femininos, um deles o mais famoso de todos. Mas não vamos por aí.
A minha preferência vai para um retrato dentro dum quadro de composição, a Santa Ana do quadro "Santa Ana, a Virgem e o Menino", dito o quadro preferido de Leonardo. Ele lá saberia porquê. Que eu conheça é a única Santa Ana - lindíssima mulher - que, por entre o sfumato de Leonardo, sorri com a cara toda para o neto, um menino-Deus, como todos são.

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O "Retrato de Mulher com Arminho" apresenta-nos a amante Cecília Gallerani, de Ludovico Sforza, de 17 anos, e que teria um filho dele com 18. O importante aqui é a força do olhar, o sorriso curto e medido, a rotação decidida e atenta do pescoço, a mão esguia e tão moderna. Existem várias interpretações para a presença do arminho. Cecília Gallerani foi efectivamente uma jovem muito interessante, poetisa, protectora de artistas, sobrevivendo com rendas à sua desafectação do protectorado do Sforza.


E volto à Urgência.

Sexta-feira fiz consulta, muitas aliás. Não me vanglorio disso, algumas são um seguimento suave de doentes que migrei da consulta de avêcê, por simpatia, consultas "fáceis" portanto, pelo menos enquanto eles não envelhecem mais.
 
Seria a consulta dez. A D. Emília tem noventa e cinco anos, perdeu fluência na fala por um avêcê e tem um coração muito fraquinho. Por arritmia está hipocoagulada. Nos últimos dois meses dois internamentos por esse mito da medicina moderna, a "nsuficiência cardiorrespiratória precipitada por infecção". Vinha a D. Emília numa cadeira de rodas empurrada pela filha, sem dispneia aparente, secos os edemas das pernas. A filha referiu-me logo ao que vinha: "Ó doutor, eu daqui se calhar vou levá-la à urgência, dói-lhe ali um joanete!" Que doía, efectivamente, que doía. Com algum esforço consegui convencê-la a seguir a minha prescrição de AINE em dose única diária em ração curta de dias, receoso eu por um rim que só sobrevive a chicote de furosemida e a evitar a viagem adicional…
 
Seria o intervalo entre a 13 e a 14. Dirigia-me a uma daquelas máquinas que nos vendem café mau, uma senhora já de idade acercou-se: "O senhor doutor desculpe, eu queria saber o caminho para a urgência." "Porquê, minha senhora?" "Não estou a ver bem deste olho, não sei o que tenho, e o meu médico da cabeça disse-me - "já que cá está aproveite e passe pela urgência - como vou para lá?" À vista minha (muito) desarmada o olho parecia-me bem. E a senhora não sabia especificar melhor as queixas. "Já tentou lavar um pouco o olho com água, com soro?" - tentei eu remendar a preguiça recomendatória do colega da cabeça. "Eu, eu não, mas não sei, não vejo bem, eu queria ir à urgência mas por fora é muito longe.." Tentei a partir daqui explicar à senhora que epistemologicamente é impossível entrar num serviço de urgência "por dentro", pelo que ela teria obrigatoriamente de "sair" para voltar a entrar, desse por onde desse. Os meus dotes de oratória resultaram em nada porque a seguir ela perguntou-me onde era o refeitório, porque o melhor se calhar, era comer qualquer coisa primeiro e só depois, sim, mas sempre "por dentro", ir à urgência…
"Minha senhora, sendo assim dirija-se aquele segurança - "qual, não o vejo…" - ele é baixinho mas daqui a nada já o vê e ele orienta-a como eu não consegui, não consigo e não conseguirei!"
 
Sim, sim, isto das Urgências obriga mesmo a uma Especialidade nova...

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Forbidden Christmas or Forbidden Radio?

Um destes dias ia a conduzir enquanto ouvia a recém-constituida Rádio Observador e calharam de falar de canções "alternativas" de Natal numa rúbrica imaginativamente chamada de — "Isto não passa na rádio". A canção escolhida foi não o "Merry Christmas Mr Lawrence" do Ryuichi Sakamoto mas a versão cantada por David Sylvian, "Forbidden Colours".
Ora ignorantes não deviam fazer programas de rádio. "Forbidden Colours" acaba por não ser uma canção de Natal mas sim uma canção sobre um amor (homossexual) proibido. Por isso o filme não é assim tão parecido com a "Ponte Sobre o Rio Kwai", meus amigos. E confessar que "agora não me lembro se o Sakamoto entra no filme" quando o foco do mesmo é a atracção entre este (ou o seu personagem) e o personagem representado por David Bowie é não servir quem ouve. Ide para casa ouvir ou ler ou nada disso. Mas ide. A boa rádio pede saber. Uma coisa é que o filme em causa, de Nagisa Oshima, tenha possivelmente envelhecido mal. Vi-o na Sala Bebé numa esquina da primeira fila, casa cheia... Outra coisa é falar sem saber do que se fala e... siga como se nada! 

 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Sandro Botticelli (1445-1510)

Acusado de não ser revolucionário como outros antes dele no quattrocento e de a sua pintura apenas ser decorativa (um erro), só posso dizer que, o passo dado por Botticelli como sequência e fim do século define o ideal feminino número dois, depois de Piero della Francesca.
Porque estas mulheres já sabem de si o valor Maior, a luz, a força que um traço perfeito permite. E são mulheres com um plano. Elas ultrapassam-nos e sabem-no.

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O Nascimento de Vénus - 1485-6

A Primavera (pormenor) - 1477-82

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Esta mulher, que dizem ser a Deusa Flora, nascida do suspiro fecundante de Zéfiro sobre a ninfa Clóris, tem um desenho no quadro que poderá sugerir uma gravidez. Há quem duvide. Mas duvida quem não olha para a cara desta mulher. As grávidas ainda são as mais sábias das mulheres.

Piero della Francesca (1415-1492)

Porque gosto de Piero della Francesca? Não é pelo seu uso justo da perspectiva, já presente em Masaccio, ou da cor.
É que Piero della Francesca fornece uma galeria de retratos única, onde personagens como que suspensos de um tempo quase fotográfico são apanhados no desenho perfeito do pintor. Eles, mas sobretudo elas. O primeiro ideal feminino da pintura foi inventado por Piero della Francesca. Mulheres surpreendidas pela sua própria beleza, suspensas num tempo tão antigo, possuidoras de um segredo de elas próprias oculto, mulheres sem um plano.

Resultado de imagem para piero della francesca obrasPala di Brera - 1472.

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Madonna di Senigallia- 1474.
Ela segura a mais importante das crianças. E o peso de segurar a mais importante das crianças mede-se no lábio inferior, ligeiramente ofendido, nos olhos oblíquos, um pouco toldados. A jovem Maria é também pouco mais do que uma criança. Saberá ela a extensão completa do que lhe foi entregue? Não me parece ser essa a interpretação de Piero Della Francesca. Uma mulher, uma recém-mulher, sem um plano.