terça-feira, 17 de maio de 2022

As duas Ucrânias existem mesmo? Os Resultados das Eleições Ucranianas desde 1991 (o Ano da Independência) até à Revolução Laranja.

Comecemos não em 1991 mas um ano antes. As primeiras eleições parlamentares razoavelmente (ou pelo menos um pouco) livres que aconteceram na Ucrânia foram em 1990, e o Partido Comunista teve 75% dos votos e três quartos dos parlamentares do ainda chamado Soviete Supremo. Este parlamento pouco durou e serviu sobretudo para fazer o referendo à independência da Ucrânia em 1991 para legitimar a declaração de independência do país. No final de 1991 o Partido Comunista Soviético Ucraniano foi ilegalizado por um parlamento onde 3/4 dos deputados tinham sido eleitos como "soviéticos" e "comunistas". Os mesmos deputados reorganizaram-se em diversos partidos com nomes mais ou menos de esquerda, na realidade criando blocos parlamentares de interesses, com eventuais pendores regionalistas.

No mapa de 1990 notamos então que o "Bloco Democrático", uma coligação de gentes da oposição quer antiga quer recente, e que teve 20% dos votos, conseguem ganhar em alguns distritos do ocidente, com especial incidência na província de Lviv, a capital desta Ucrânia Ocidental, cidade que que só fôra russa/soviética menos de um século ou seja, a partir do final da 1ª Grande Guerra.



Nas eleições presidenciais de 1991 ganhou um ex-comunista que se apresentou como independente e que já tinha sido o Presidente do Parlamento/Soviete Supremo de 1990, Leonid Kravchuk, com mais de 60% dos votos. O seu maior adversário foi Viacheslav Chornovil, um oposicionista de antes de 1990, várias vezes preso e representando o Movimento do Povo da Ucrânia, herdeiro do Bloco Democrático. Chornovil teve 23% e ganhou em três províncias do oeste, a saber: Lviv, Ternopil e Ivano-Frankivsk, numa distribuição que repete a do mapa acima.



O terceiro candidato, Levko Lukianenko, era outro herói da oposição anti-comunista e obteve 4,5%, dividindo o voto não "ex-comunista". Lukianenko foi muito depois declarado Herói da Ucrânia ao mesmo tempo que os seus escritos xenófobos e anti-semitas assustaram muita gente. Chornovil morreu em 1999 num acidente de carro ainda por resolver quando se preparava para nova candidatura presidencial. 

Leonid Kravchuk foi Presidente 3 anos, até 1994. Negociou a entrega das forças nucleares estacionadas na Ucrânia à Rússia, recebendo em troca uma garantia de integridade territorial que no entanto foi quebrada pela Rússia 20 anos depois. Tentou ainda resolver os diferendos sobre a Crimeia e  a Frota do Mar Negro. Era um homem nascido em 1934 na Província de Rivne, no Noroeste, então ainda sob domínio polaco. A economia ucraniana porém começou a sofrer o impacto das privatizações, da corrupção rampante e das oligarquias nascentes, pelo que em 1994 foi derrotado por um seu ex-primeiro ministro Leonid Kuchma. Retrospectivamente, tendo falecido a 10 de Maio do presente ano, é considerado um patriota e bem lembrado pelo seu trabalho na Presidência, talvez pelo contraste com o que se seguiu.
Em 1994 em Março aconteceram novas eleições parlamentares, as primeiras após a independência. Das dezenas de partidos que se apresentaram só cinco tiveram mais de 2% dos votos, e só um deles mais de 10%, um Partido Comunista Ucraniano refundado. Mais de metade dos deputados foram eleitos em listas independentes. Depois das eleições o parlamento organizou-se em blocos mais ou menos de "esquerda", "centro" e "direita", com alguma fluidez de migração entre blocos.
No mapa destas eleições a cinzento estão os eleitos independentes e a vermelho os "neo-comunistas", eleitos sobretudo  a leste.


Em 1994 em Junho aconteceram eleições presidenciais que tinham sido previamente negociadas entre Kravchuk e o seu ex-primeiro ministro Leonid Kuchma, um independente alinhado às forças ex-comunistas e que dominava o parlamento. Kravchuk teve o apoio dos seus ex-oponentes, nomeadamente Chornovil e, portanto, teve mais votos a ocidente, mas perdeu. Kuchma ganhou com os votos do leste e do sul da Ucrânia, como se nota neste mapa: 


O extremar das posições era agora notório: em Lviv Kuchma teve pouco mais de 5% dos votos, em Luhansk teve 88%.

Mas quem era Leonid Kuchma? Quatro anos mais novo do que Kravchuk, foi também criado no PCUS. Nascido em Chernihiv, fez-se engenheiro em Dnipropretovsk, a cidade ucraniana que tinha produzido os Sputniks e os mísseis balísticos.  Foi presidente 11 anos e nos seus mandatos as privatizações progrediram, a corrupção também, e foi sabiamente alternando em aproximações quer ao Ocidente quer à Rússia, esta parte para contentar os seus eleitores a leste e apaziguar Putin, no poder desde 1999. Em 1997 cedeu o uso por aluguer de Sevastopol para a Frota Russa do Mar Negro, obtendo assim gás natural barato.  Kuchma repetiu o que Kravchuk já tinha abordado, o interesse (talvez apenas dito para ser ouvido por ouvidos ocidentais) em aderir à NATO. Portanto esta questão da Ucrânia querer aderir à NATO tem quase trinta anos... E a Ucrânia mandou tropas para o Iraque em 2003!
Leonard Kuchma sobreviveu a duas eleições parlamentares e foi reeleito em 1999. Pode dizer-se que para o bem e para o mal Kuchma marcou a Ucrânia. O grosso da oligarquia foi "inventada" por ele. Em 11 anos nomeou sete primeiro-ministros, sempre após negociações com as várias facções parlamentares e os variados grupos de interesses. O terceiro, de seu nome Pavlo Lazarenko, fugiu para os Estados Unidos em 1999 onde acabou preso por fraude e branqueamento de capitais. Durante o seu ano de governo terá roubado 200 milhões de euros ao estado ucraniano. 
As eleições parlamentares de 1998 não foram consideradas 100% justas e imparciais pela OSCE. 


A vermelho estão os comunistas a verde-azulado o bloco oposicionista do Movimento do Povo, que continuavam com uma boa votação a oeste. De qualquer forma, o parlamento continuava muito fragmentado o que permitia a Kuchma ir negociando os sucessivos governos. Os partidos estavam quase completamente tomados pelos oligarcas. 
Nas Eleições Presidenciais de 1999 Kuchma teve como opositor o dirigente do Partido Comunista Petro Symonenko, um candidato fácil de derrotar, talvez escolhido a dedo, dado o seu programa ser apenas comunismo "clássico" e não agradar a quase ninguém. Apesar da OSCE ter considerado estas eleições irregulares, Kuchma terá possivelmente conseguido mesmo boas votações a oeste, como reacção a Symonenko.


O seu maior opositor, Chornovil, morrera num misterioso acidente de carro meses antes. 
No fim de 1999 Kuchma surpreende ao nomear Viktor Yuschenko, o banqueiro que tinha resolvido a hiper-inflação e sobrevivido ao default russo enquanto Presidente do Banco Central da Ucrânia. A sua Vice-Primeira Ministra e Ministra para a Energia era Yulia Tymoshenko, uma empresária criada em Dnipro que tinha começado a sua actividade profissional a alugar cassettes-video e agora trabalhava na área da energia. O governo de Yuschenko teve bons resultados económicos, Yulia Tymoshenko afrontou a oligarquia da energia. Como resposta prenderam-lhe o marido, acusaram-na de corrupção e Yuschenko acabou por aceitar a sua demissão. Yuschenko saiu também em 2001, em minoria. Entretanto em 2000 fora asssassinado o jornalista independente Georgiy Gongadze. Progressivamente foram aparecendo provas do envolvimento de Kuchma nesta morte. Nas ruas havia manifestações cujo lema era "Ucrânia Sem Kuchma".
Mantendo o seu ziguezague político Kuchma nomeia Viktor Yanukovych em 2002 para Primeiro Ministro. Yanukovych era um homem nado e criado em Donetsk e ligado à "mafia de Donetsk". Yuschenko e Yulia Tymoschenko encetaram um movimento progressivamente mais agressivo de oposição a Kuchma. Kuchma evitou ser implicado oficialmente na morte de Gongadze quando aceitou sair graciosamente de cena em 2004-5. Ficou com ordenado vitalício de presidente, segurança, casa, etc., etc. Munido desta imunidade, participou como mediador do governo ucraniano nas negociações de Misnk para tentar resolver a crise do Donbas.

Kuchma ia deixar a Ucrânia com tropas no Iraque e ligações económicas estreitas com a Rússia. Como Primeiro-Ministro um homem de Donetsk, Yanukovych. Entretanto tinham acontecido eleições parlamentares no início de 2002. Por esta ordem os votos foram distribuidos por Yuschenko (Bloco Nossa Ucrânia, incluindo os restos da velha oposição),  os comunistas de Symonenko, os pro-russos de "Ucrânia Unida", o Bloco Tymoschenko, os Socialistas de Oleksandr Morosz e os "Sociais Democratas" pro-russos de Medvedchuck. A eleição em duas voltas permitiu que os blocos pro-russos tivessem uma representação "desproporcionada" no Parlamento. Continuou a haver algumas queixas sobre a seriedade nestas eleições, embora menos do que em 1998 ou 1999.  Após a eleição muitos deputados migraram entre partidos/blocos, como "sempre".
Em 2004 as Eleições Presidenciais foram então entre Yuschenko e Yanukovich. Yuschenko ganhou a primeira-volta à justa e quando os resultados da segunda-volta deram fraudulentamente a vitória a Yanukovych, a Revolução Laranja aconteceu. Ouve uma repetição da segunda-volta e Yuschenko ganhou. Como apoiantes-chave Yuschenko tinha Yulia Tymoshenko e Oleksandr Morosz. Até o comunista Symonenko se opunha a Yanukovich. E no entanto este ainda conseguia mais de 40% dos votos?
Eis o mapa da segunda segunda-volta das Presidenciais de 2004: 

 



Notemos que Yanukovich aparentemente ganhou mesmo assim em Kharkiv, Dnipro, Odessa... Mariupol. 







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