sábado, 11 de novembro de 2017

Mais Nove Poetas.

A nossa segunda entrega de poemas começa com António Botto mas depois ocupa-se da revista Presença - o chamado segundo Modernismo - e dos primeiros nomes do Neo-Realismo e dos "Cadernos de Poesia", duas linhas de escrita e de pensamento que iriam dominar os anos quarenta.



ANTÓNIO BOTTO (1897-1959)

A história de António Botto é de todos conhecida. Já não vende o seu "O Livro das Crianças", que chegou a ser traduzido em vários países. Valeu a defesa "Aviso Por Causa da Moral" escrita por Fernando Pessoa, que o editou. As "Canções" foram a sua bandeira. Nunca o amor fora assim cantado, musicado, desenhado ou pintado. Calhava ser homossexual o amor celebrado. Morreu após ter sido atropelado (por um camião?) no Brasil onde vivia um exílio penoso.


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ANDA, VEM.


Anda, vem... por que te negas, 
Carne morena, toda perfume? 
Por que te calas, 
Por que esmoreces 
Boca vermelha, - rosa de lume! 

Se a luz do dia 
Te cobre de pejo, 
Esperemos a noite presos n'um beijo. 

Dá-me o infinito gozo 
De contigo adormecer, 
Devagarinho, sentindo 
O aroma e o calor 
Da tua carne, - meu amor! 

E ouve, mancebo alado, 
Não entristeças, não penses, 
- Sê contente, 
Porque nem todo o prazer 
Tem pecado... 

Anda, vem... dá-me o teu corpo 
Em troca dos meus desejos; 

Tenho Saudades da vida! 

Tenho sede dos teus beijos!




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EDMUNDO DE BETTENCOURT (1899-1973)

Este poeta madeirense é referência na história do Fado de Coimbra, vejam lá, mas foi figura do Segundo Modernismo - da Presença - e frequentou os cafés do Surrealismo. Na sua poesia, tardiamente coligida, sobressai uma colectânea, os "Poemas Surdos". Figura original, Cesariny e Herberto Helder deram-lhe o valor devido. No poema abaixo eu li que Lobo Antunes foi buscar mote para a escrita de todo um capítulo de um seu romance, aquela parte "ela calma e virtuosa ia mexendo a sopa!". É obra.


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ASAS


Do colo branco da paisagem
saíram, abrindo-lhe um buraco ensanguentado,
a cara dela
que era uma sereia
e que era uma pantera a rebolar no chão
aos rugidos metálicos do amor
sob a forma de nuvens muito ao longe...

Despertei-me o felino adormecido.

Depois houve, feridas, duas bocas beijadas
que sangravam imenso na cozinha
onde ela calma e virtuosa ia mexendo a sopa!

E tudo após ter-se partido
uma enorme porção de loiça,
mas como se não tivesse havido nada!



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JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)

Talvez hoje tenha caído de moda oferecer à nossa juventude para ler (em contraposição à Sophia) "As Aventuras do João Sem Medo". É pena. Contemporâneo da Presença foi, mais pela ideologia do que pela prática poética "em si", o patrono do Neo-Realismo e mais. Lembro bem um texto escrito pelo Herberto Helder a defender o José Gomes Ferreira como o exemplo do poeta-puro, do poeta-como-deve-ser. Tempos idos ou memória curta? A poesia de Gomes Ferreira, coligida sintomaticamente nos volumes "Poeta Militante" dá-se mal com a extensão, onde algum léxico e alguma ginástica de escrita parece mal solucionada. Uma antologia criteriosa feita com dedicação, se possível, seria muito bem vinda.


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XLVI


(Stockhausen. Música electrónica. Viagem espacial.)

Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo.

(Para os pobres é a Terra.)



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VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)

Se Cesariny preferia Pascoaes, Vasco  Graça Moura resolveu dizer um dia que preferia Nemésio a Pessoa. Nemésio escreveu consensualmente um dos grandes romances do séc.XX português, "Mau Tempo No Canal". Mas o que mais me espanta é realmente o seu saber fazer poesia, a um tempo lúdico e com a mais fina elaboração. Nemésio nunca facilita. E não erra. Se se aplicasse esta expressão a alguém em Portugal poder-se-ia dizer que Nemésio foi um "príncipe das letras". Já me esquecia, sim, pertenceu à Presença, mas a sua grandeza ultrapassou em tanto os seus conterrâneos que...


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O PÃO E A CULPA.


Desde que me conheço sei o pão
E o corto em companhia.
Por ele me bate o coração,
E em sua dobra quente
Grelava outrora a alegria
De mim e de muita gente.

Uma hastilha de seiva começava-o
Como um fio de luz,
E a eira rasa dava-o
Tal como a rosa de alva a cor produz.

Vinha a nós como o Reino vem na prece,
Sendo feita a vontade ao Lavrador:
Assim numa alma limpa amadurece
A semente de amor.

Era o pão. Chão de pão,
Dizia-se ‑ e era logo;
Caía o gesto à terra, a espiga balouçava,
O tempo, devagar, corria-lhe a sua mão,
E com um pouco de pinho e outro de fogo
A vida clara estava
Naquela combinação.

Hoje, que é pão ainda, e à noite nosso,
Vai-se a cortar, falta-lhe talvez polpa.
Se não parto na mesa o pão que posso
É minha a culpa.

Eu sei o pão de cada dia e trago-o:
Ontem, como amanhã, já hoje mo dão;
Mas, vago, a meio da dentada, trago-o,
E não, não é bem o mesmo, ou então não posso…

Ou pelo menos não é todo nosso
Este que levo à boca, o nosso pão.




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MIGUEL TORGA (1907-1995)

Quando comecei a ler sobre estas coisas da poesia Torga, assim dito, só o apelido do pseudónimo, era quase intocável. Até que foi decidido que afinal estávamos perante um "poeta menor". Será. Mas no que é uma construção poética bastas vezes rígida aparecem aqui e ali algumas coisas que...


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QUASE UM POEMA DE AMOR.


Há muito tempo já que não escrevo um poema 
De amor. 
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! 
A nossa natureza 
Lusitana 
Tem essa humana 
Graça 
Feiticeira 
De tornar de cristal 
A mais sentimental 
E baça 
Bebedeira. 

Mas ou seja que vou envelhecendo 
E ninguém me deseje apaixonado, 
Ou que a antiga paixão 
Me mantenha calado 
O coração 
Num íntimo pudor, 
— Há muito tempo já que não escrevo um poema 
De amor.




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ANTÓNIO PEDRO (1909-1966)


Um agitador num país que gosta pouco disso, pintor, poeta e inventor do Teatro Experimental do Porto, não se percebe porque aquela já não tão nova assim sala que há ali para os lados da ponte da Arrábida não tem o seu nome. Também na poesia a sua costela surrealista não ficou sem crítica, idem as reacções ao seu escrito "Apenas Uma Narrativa". Mas o poema longo que segue abaixo não merece qualquer reparo. Fala de São Lourenço da Montaria - de onde se sobe para a Senhora do Minho - e muito apropriadamente ou não da sua querida Serra de Arga. Idem por lógica faleceu no Moledo, onde escreveu ter escrito este poema.


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PROTOPOEMA DA SERRA D'ARGA.


Sonhei ou bem alguém me contou
Que um dia
Em San Lourenço da Montaria
Uma rã pediu a Deus para ser grande como um boi
A rã foi
Deus é que rebentou
E ficaram pedras e pedras nos montes à conta da fábula
Ficou aquele ar de coisa sossegada nas ruínas sensíveis
Ficou o desejo que se pega de deixar os dedos pelas arestas das fragas
Ficou a respiração ligeira do alívio do peso de cima
Ficou um admirável vazio azul para crescerem castanheiros
E ficou a capela como um inútil côncavo de virgem
Para dançar à roda o estrapassado e o vira
Na volta do San João d’Arga

Não sei se é bem assim em San Lourenço da Montaria
Sei que isto é mesmo assim em San Lourenço da Montaria
O resto não tem importância
O resto é que tem importância em San Lourenço da Montaria
O resto é a Deolinda
Dança os amores que não teve
Tem o fôlego do hálito alheio que lhe faltou a amolecer a carne
Seca como a da penedia

O resto é o verde que sangra nos beiços grossos de apetecerem ortigas
O resto são os machos as fêmeas e a paisagem é claro
Como não podia deixar de ser
As raízes das árvores à procura de merda na terra ressequida
Os bichos à procura dos bichos para fazerem mais bichos
Ou para comerem outros bichos
Os tira-olhos as moscas as ovelhas de não pintar
E o milho nos intervalos

Todas estas informações são muito mais poema do que parecem
Porque a poesia não está naquilo que se diz
Mas naquilo que fica depois de se dizer
Ora a poesia da Serra d’Arga não tem nada com as palavras
Nem com os montes nem com o lirismo fácil
De toda a poesia que por lá há

A poesia da Serra d’Arga está no desejo de poesia
Que fica depois da gente lá ter ido
Ver dançar a Deolinda
Depois da gente lá ter caçado rãs no rio
Depois da gente ter sacudido as varejeiras dos mendigos
Que também foram à romaria

As varejeiras põem as larvas nos buracos da pele dos mendigos
E da fermentação
Nascem odores azedos padre-nossos e membros mutilados

É assim na Serra d’Arga
Quando canta Deolinda
E vem gente de longe só para a ouvir cantar

Nesses dias
as larvas vêem-se menos
Pois o trabalho que têm é andar por debaixo das peles
A prepararem-se para voar

Quanto aos mendigos é diferente
A sua maneira de aparecer
Uns nascem já mendigos com aleijões e com as rezas sabidas
Do ventre mendigo materno
Outros é quando chupam o seio sujo das mães
Que apanham aquela voz rouca e as feridas
Outros então é em consequência das moscas e das chagas
Que vão à mendicidade

Não mo contou a Deolinda
Que só conta de amores
E só dança de cores
E só fala de flores
A Deolinda

Mas sabe-se na serra que há uma tribo especial de mendigos
Que para os criar bem
Lhes põem desde pequenos os pés na lama dos pauis
Regando-os com o esterco dos outros

Enquanto ali estão a criar as membranas que valem a pena
Vão os mais velhos ensinando-lhes as orações do agradecimento
Eles aprendem
Ao saberem tudo
Nasce de propósito um enxame de moscas para cada um

Todas as moscas que há no Minho
Se geraram nos mendigos ou para eles
E é por isso que têm as patinhas frias e peganhosas
Quando pousam em nós
E é por isso que aquele zumbido de vai-vem
Das moscas da Serra d’Arga
Ainda lembra a mastigação de lamúrias pelas alminhas do Purgatório
Em San Lourenço da Montaria

Este poema não tem nada que ver com os outros poemas
Nem eu quero tirar conclusões com os poetas nos artigos de fundo
Nem eu quero dizer que sofri muito ou gozei
Ou simplesmente achei uma maçada
Ou sim mas não talvez quem dera
Viva Deus-Nosso-Senhor

Este poema é como as moscas e a Deolinda
De San Lourenço da Montaria
E nem sequer lá foi escrito

Foi escrito conscienciosamente na minha secretária
Antes de eu o passar à máquina
Etc. que não tenho tempo para mais explicações

É que eu estava a falar dos mendigos e das moscas
E não disse
Contagiado pelo ar fino de San Lourenço da Montaria
Que tudo é assim em todos os dias do ano
Mas aos sábados e nos dias de romaria
Os mendigos e as moscas deles repartem-se melhor
São sempre mais
E creio de propósito
Ser na sexta-feira à noite
Que as mendigas parem aquela quantidade de mendigozinhos
Com que se apresentam sempre no dia da caridade

Elas parem-nos pelo corpo todo
Pois a carne
De tão amolecida pelos vermes
Não tem exigências especiais
E porque assim acontece
Todos os meninos nascidos deste modo têm aquele ar de coisa mole
Que nunca foi apertada

Os mendigos fazem parte de todas as paisagens verdadeiras
Em San Lourenço da Montaria
Além deles há a bosta dos bois
Os padres
O ar que é lindo
Os pássaros que comem as formigas
Algumas casas às vezes
Os homens e as mulheres

Por isso tudo ali parece ter sido feito de propósito
Exactamente de propósito
Exactamente para estar ali
E é por isso que se tiram as fotografias

Por isso tudo ali é naturalmente
Duma grande crueldade natural
Os meninos apertam os olhos das trutas
Que vêm da água do rio
Para elas estrebucharem com as dores e mostrarem que ainda estão vivas
Os homens beliscam o cu das mulheres para que elas se doam
E percebam assim que lhes agradam
Os animais comem-se uns aos outros
As pessoas comem muito devagar os animais e o pão
E as árvores essas
Sorvem monstruosamente pelas raízes tudo o que podem apanhar

Assim acaba este poema da Serra d’Arga
Onde ontem vi rachar uma árvore e me deu um certo gozo aquilo
Parecia a queda dum regímen
Tudo muito assim mesmo lá em cima
E cá em baixo dois suados à machadada

Ao cair o barulho parecia o duma coisa muito dolorosa
Mas no buraco do sítio da árvore
Na mata de pinheiral
O azul do céu emoldurado ainda era mais bonito
Em San Lourenço da Montaria.



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JOSÉ BLANC DE PORTUGAL (1914-2001)

O único director das três séries dos "Cadernos de Poesia" foi metereologista, crítico musical e homem de uma cultura vastíssima, que transparece na sua - esquecida - poesia, cuja primeira colectânea, "Parva Naturalia" só viu a luz em 1960.


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ELEGÍACA


Os afogados do verão
Os que morrem no outono
Os que o inverno gelou
Quem não pôde aguentar mais primaveras
Mais os sinistrados de todo o ano
Ganharam bem do tempo a morte.
Tu que continuas a pisar
Cada dia esse caminho
Cada dia igual e sempre diferente
À cabeça a encardida malga
Da sopa dos pobres que é dada
Não já por caridade nem rotina
Mas como ritmo ordenado
Fado dos tempos das estações da vida,
Tens bem mais alta sorte heróica:
Pagas maior vida
Vives cada dia a morte
Sem que sequer te importe
Mais que a aresta viva
De cada pedra a evitar
No sabido caminho
Igual ontem, hoje e amanhã.
Assim constróis o lixo suburbano
Donde subirão um dia
O que hão-de ser «os bairros novos
Da progressiva cidade»
Nos discursos municipais.

Os mortos dos jornais
E tu que nunca lá irás parar
Abrem as covas –
Para vós elas se fazem. –

Quem serão os vivos?



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RUY CINATTI (1915-1986)

O poeta que, mendigo, andou pelas ruas de Lisboa a distribuir panfletos sobre Timor no final dos anos setenta é hoje reconhecido como um dos Grandes do "Século de Ouro", em grande parte pelo trabalho de recolha e divulgação de Joaquim Manuel Magalhães. Tem também um dos títulos mais bonitos que conheço para livro de poesia: "O Livro do Nómada Meu Amigo".


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ETERNO FEMININO


Faz-me lembrar 
o meu romance
do Rio Grande.

Eu era vaqueiro.
Suava cavalos,
comia bom bife.

Ela dormitava
lá no Rio Grande.

Um dia, ela disse:
Traz o meu cavalo,
vem daí comigo.

Fui.



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MÁRIO DIONÍSIO (1916-1993)

Das figuras mais influentes no Neo-Realismo, recuso-me a voltar a ler "O Dia Cinzento e Outros Contos", não vá a releitura destruir a impressão que me foi deixada na adolescência. "A Paleta e o Mundo" será uma referência na escrita sobre pintura. O poema abaixo é da colectânea tardia "Terceira Idade"e dialoga sem nomear com Fernando Pessoa.


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(quase uma dedicatória)

Ó lúcido fantasma a que fugi
toda uma vida
por não querer aceitar vinda de ti
a voz que dos destroços fabricaste

Ó inventor de teias   Gozador
do próprio esquartejamento
Ó sublime corrupto corruptor
indígena do caos e da medida

este invocar-te agora tão rendidamente
é ler-me em lutas que levou o vento
ou dar enfim a mão à palmatória?

Meu inimigo oculto na memória
que contra mim mesmo protegi
Meu secreto prodígio que fechaste
os caminhos todos só porque os abrias
que fascínio é este e que tormento?

Por estranhas línguas procurei as vias
de evitar-te    Desmontei teus truques    Reduzi as
tuas seduções a ínvias construções de humor doente
E vê onde vim dar humílimo e converso

Nem tua sombra sou    Mas como tu deixei
por mil espelhos partidos a alma repartida
e no rasto do que em ti mais recusei
incógnito aqui fico eterno residente 
do disperso.






Onze Poetas.

Portanto aqui vão os primeiros onze poemas (e poetas), onze poemas "fundacionais" do Século XX. Espero que saibam bem.



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CAMILO PESSANHA (1867-1926).

A história da sua vida não é um mito. O ópio matou-o, é certo, mas entretanto... E a história da poesia portuguesa no século XX só podia começar nele. Camilo Pessanha foi venerado ardentemente pelos criadores do Orpheu que o convidaram a publicar no terceiro número da revista, o tal que não chegou às bancas. A poesia de Camilo Pessanha, coligida no volume "Clepsidra" (1920) sofre na minha cabeça das reverberações do famoso "chorai arcadas do violoncelo". Mas Pessanha é muito mais do que a música nas suas palavras. Pessanha talvez seja o maior poeta português a acontecer depois de Camões. E talvez desde Camões o primeiro a provavelmente ser relevante - retrospectivamente embora - para a poesia europeia, se é que tal coisa existe.


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INTERROGAÇÕES


Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.



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ÂNGELO DE LIMA (1872-1921)

O interesse da poesia pela loucura antecedeu em muito os surrealistas. Ângelo de Lima passou quatro anos no Conde Ferreira e depois os vinte anos finais da sua vida em Rilhafoles, hoje Hospital Miguel Bombarda. E, porém, publicou no Orpheu. É impossível fugir ao belíssimo poema que abaixo transcrevo. A interpretação psiquiátrica para o mesmo é apenas falta de imaginação de quem lê. A quem quiser saltar as suas Poesias Completas sugiro o apanhado que surge na antologia "Edoi Lelia Doura", de Herberto Helder.


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Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado.
Pára e fica, e demora-se um momento.

Pára e fica, na doida correria.
Pára à beira do abismo, e se demora.
E mergulha na noite escura e fria.

Um olhar de aço, que essa noite explora.
Mas a espora da dor seu flanco estria,
E ele galga e prossegue sob a espora...



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TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952)

Aproximei-me deste poeta através do livro "Aforismos", onde Cesariny recolhia da escrita de Pascoes os mesmos. Recomendo. E aparece aqui (também) por respeito a Cesariny. Já a boutade deste ao considerar Pascoaes superior a Pessoa é... só isso mesmo. Na antologia que Cesariny organizou para a Assírio & Alvim há muita prosa brilhante ("São Paulo", por ex.) pelo meio, talvez o melhor. Não vou por aí.


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Amo-te, e não te vejo.
Nunca te vi, amor,
Muito embora te abrace a minha dor,
Que é o fantasma ideal do meu desejo.
Só ele te conhece,
E contigo passeia 
Na solidão nocturna, que embranquece,
Quando o luar, eterna gaze, ondeia,
Ao hálito da brisa comovida;
Essa impressão nervosa 
Que faz tremer na haste a imaculada rosa
E a lágrima que tem nos seios escondida.
O meu desejo é a essência do meu ser.
É ele, ao pé de ti, fantástico, a viver,
Abafando no peito um grito de ciúme,
Trilhando brasas, respirando lume!



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RICARDO REIS (1887-?)



O heterónimo mais velho - com nascimento atribuído a 1887 - podia ser uma solução possível para o "problema Pessoa" - terá sido assim que o poeta o pensou? A procura dos "prazeres moderados" e a "administração da dor" do epicurismo? Não é minha leitura frequente nem nunca li o considerado livro maior de Saramago, o Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas o poema que se segue é maiúsculo.


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VEM SENTAR-TE COMIGO, LÍDA, À BEIRA DO RIO.


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
          (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
          Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
          E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,         
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
         E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
          Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
          Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
          Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
          Pagã triste e com flores no regaço.



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FERNANDO PESSOA (1888-1935)

Eu podia escrever coisas muito fixes sobre Pessoa mas terminemos assim: Pessoa foi uma espécie de Messi da poesia. E o poema abaixo podia ter sido escrito ontem.


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Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há.



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ALBERTO CAEIRO (1889-1915)

O único heterónimo a não aparecer na colectânea "Século de Ouro", ergo fora de moda. Porém Pessoa vendeu-o como o seu Mestre e "O Guardador de Rebanhos" a sua obra Maior. Food for thought. A poesia de Caeiro parece simples como as mais belas canções o são. Enfim, é tarde, Inês é morta, não consigo explicar melhor.


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É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.



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ÁLVARO DE CAMPOS (1890-)

O engenheiro naval que Pessoa inventou para manifestar o seu lado mais... solar (?) tem também um lado mais soturno e negativo, eu diria melancólico. Não nativo mas "adquirido" pelo Porto, tenho especial carinho pelo poema que se segue. Podia-se a seguir ler Ruy Belo...


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DOBRADA À MODA DO PORTO



Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.



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MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890-1916)


O meu conhecimento deste "irmão mais novo" de Pessoa é muito parcelar. Vou aqui corrigir a trajectória e mostrar por completo as "Sete Canções do Declínio", que terminam com um dos conjuntos de versos mais conhecidos de Sá-Carneiro.


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SETE CANÇÕES DO DECLÍNIO


1

Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto de Astro
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real livre, sem mastro.

Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada ...

2

Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo.
— Desçamos panos de fundo
A cada hora vivida!

Desfiles, danças embora
Mal sejam uma ilusão...
Cenário de mutação
Pela minha vida fora!

Quero ser Eu plenamente:
Eu, o possesso do Pasmo.
Todo o meu entusiasmo,
Ah! que seja o meu Oriente!

O grande doido, o varrido,
O perdulário do Instante
O amante sem amante,
Ora amado, ora traído ...

Lançar os barcos ao Mar
De névoa, em rumo de incerto...
Pra mim o longe é mais perto
Do que o presente lugar.

...E as minhas unhas polidas
Idéia de olhos pintados...
Meus sentidos maquilados
A tintas conhecidas ...

Mistério duma incerteza
Que nunca se há de fixar...
Sonhador em frente ao mar
Duma olvidada riqueza ...

Num programa de teatro
Suceda-se a minha vida
Escada de Oiro descida
Aos pinotes, quatro a quatro! ...

3

Embora num funeral
Desfraldemos as bandeiras
Só as cores são verdadeiras
Siga sempre o festival!

Quermesse — eia! — e ruído!
Louça quebrada! Tropel!
(Defronte do carrossel,
Eu, em ternura esquecido... )

Fitas de cor, vozearia —
Os automóveis repletos:
Seus chauffeurs — os meus afetos
Com librés de fantasia!

Ser bom... Gostaria tanto
De o ser... Mas como? Afinal
Só se me fizesse mal
Eu fruiria esse encanto.

— Afetos?... Divagações...
Amigo dos meus amigos...
Amizades são castigos,
Não me embaraço em prisões!

Fiz deles os meus criados,
Com muita pena decerto.
Mas quero o Salão aberto,
E os meus braços repousados.

4

As grandes Horas! — vive-las
A preço mesmo dum crime!
Só a beleza redime —
Sacrifícios são novelas.

"Ganhar o pão do seu dia
Com o suor do seu rosto..."
— Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!

E quem for Grande não venha
Dizer-me que passa fome.
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!

Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.

Os Grandes, partam — dominem
Sua sorte em suas mãos:
— Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!

Nada nos pode deter;
O nosso caminho é de Astro!
Luto — embora! — o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há de ser! ...

5

Vaga lenda facetada
A imprevisto e miragens —
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada ...

Um baile russo a mil cores.
Um Domingo de Paris —
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores.

Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram —
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram ...

Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda...
Saudade que não recorda —
Bola de tênis no ar...

Um leque que se rasgou —
Anel perdido no parque —
Lenço que acenou no embarque
De Aquela que não voltou ...

Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços à beira-mar,
Em tardes de céu azul...

Viagem circulatória
Num expresso de vagões-leitos —
Balão aceso — defeitos
De instalação provisória ...

Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes —
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita ...

Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-ha —
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole. . .

Pinturas a "ripolin",
Anúncios pelos telhados —
O barulho dos teclados
Das Lynotype do Matin...

Manchete de sensação
Transmitida a todo o mundo —
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revolução ...

Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo — cheio
De carimbos, lado a lado. . .

Nobre ponte citadina
De intranqüila capital —
A umidade outonal
De uma manhã de neblina ...

Uma bebida gelada —
Presentes todos os dias. . .
Champanha em taças esguias
Ou água ao sol entornada ...

Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios —
Toda uma estante repleta:

Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida —

Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo...
— A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande ...

6

Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida ...

Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na idéia de um país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem ...

Parou ali a barca — e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... — ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo ...

...Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor-de-rosa,
As torres de platina e de saudade.

Avenidas de seda deslizando,
Praças de honra libertas sobre o mar
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos — carícias de âmbar flutuando ...

Os palácios de renda e escumalha.
De filigrana e cinza as catedrais —
Sobre a cidade a luz — esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais ...

Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho — solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...

Exílio branco — a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos — seu brou-u-ha...
E na praça mais larga, em frágil cera,
Eu — a estátua "que nunca tombará"...

7

Meu alvoroço de oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
— Caiu-me a Alma ao meio da rua,
E não a Posso ir apanhar!



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IRENE LISBOA (1892-1958)

Os modernismos foram  uma explosão eminentemente masculina. Irene Lisboa é, discretamente, a excepção. A importância que lhe é dada é vária, até por não fugir ao facto de ter tido uma profissão "feminina" - foi professora, mas ter escrevido sobre e ter sido considerada "avançada" e ter chegado a ser afastada do emprego por isso mesmo dá-lhe outro relevo. A sua poesia é de uma simplicidade desarmante e esconde um equilíbrio e um desenho de escrita brilhantes.


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JEITO DE ESCREVER 


Não sei que diga. 
E a quem o dizer? 
Não sei que pense. 
Nada jamais soube. 

Nem de mim, nem dos outros. 
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas... 
Seja do que for ou do que fosse. 
Não sei que diga, não sei que pense. 

Oiço os ralos queixosos, arrastados. 
Ralos serão? 
Horas da noite. 
Noite começada ou adiantada, noite. 
Como é bonito escrever! 

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito. 
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo. 
No tempo vago... 
Ele vago e eu sem amparo. 
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas. Mortas! 


E por mais não ter que relatar me cerro. 
Expressão antiga, epistolar: me cerro. 
Tão grato é o velho, inopinado e novo. 
Me cerro! 

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados, 
solta a outra, de pena expectante. 
Uma que agarra, a outra que espera... 

Ó ilusão! 
E tudo acabou, acaba. 
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda? 

Silêncio. 
Nem pássaros já, noite morta. 
Me cerro. 
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e 
solidão. 

Da indiferença. 
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada. 
Noite vasta e contínua, caminha, caminha. 
Alonga-te. 
A ribeira acordou. 



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ALMADA NEGREIROS (1893-1970)

A Almada devo o "Nome de Guerra", novela que muito recomendo. Pinto, desenhador, performer e tudo, foi para fora o que Pessoa era para dentro, e claro que tudo assim era mais difícil. Se Sá-Carneiro era o "irmão mais novo" este pode ficar como o "primo mais novo". Como escolher? Não conheço a poesia de Almada ao detalhe mas impunha-se (porquê? porque sim) fugir à prosa poética da "A Invenção do Dia Claro". Se Almada hoje fosse vivo não teria mãos a medir para escrever todos os "Manifestos Anti-Dantas" que estes dias escuros nos pedem. Escolhi o poema que aparece na colectânea "Século de Ouro" e não preciso de dar mais explicações.


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ACONTECEU-ME


Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como senão passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado.
e eu tenho visto olhos!
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quasi real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço. 



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MÁRIO SAA (1893-1971)

Este grande proprietário alentejano nascido nas Caldas foi um polígrafo (como eu gosto de utilizar esta palavra!), ou seja, um home com múltiplos interesses, mas hoje só lhe sobrevive a sua poesia, editada pela INCM. Na ânsia de encontrar uma ponte entre o Orpheu e a Presença encontraram Mário Saa e pronto! Os seus poemas mais citados são as duas "Xácaras", vidé a internet. Permito-me fugir através de uma pequena preciosidade que fecha bem esta colecção de onze poetas onde começou a nossa Poesia Moderna.


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Mote

Eu tenho em casa uma mesa
que até já sei de cor,
ainda lá tenho outra mesa
mas é um pouco maior.

Glosa

Se em esta pequena mesa
comprimo os punhos d'amor
ergo um perfume de rosa
e a mesa faz-se maior.

Em tua honra e louvor
multiplico a minha escrita,
e aumenta a luz e o calor
e a mesa faz-se infinita...



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Cem mais e sem mais.

No blogue "Segredos dos Livros" é descrito o jornalista e escritor José Mário Silva como sendo tradutor de vários livros do francês e que vive no topo de uma das sete colinas de Lisboa. Será, será, e que descrição mais bela. Estou aqui para falar do livro "Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos", editado pela Companhia das Letras e coligido pelo jornalista e escritor de que falo. Começo por confessar que, "à portuguesa" como se de uma tourada se tratasse, não consultei todo o livro. O que não me impede de utilizar a seguinte expressâo: "mas deu para perceber que" - e o que percebi eu? Que o JM Silva (nada de Zé Mário que o Zé Mario é outra música) foi buscar o cânone para os primeiros setenta anos, com uma surpresa ou concessão aqui e ali, nem se esforçando na escolha dos poemas, e depois vai de estabelecer ele o cânone amistoso dos últimos trinta anos. Muito amistoso aliás. Descobriu, é certo, o talvez único poema de jeito do Gonçalo M. Tavares. Portanto, nada como eu contrapor as minhas escolhas e tramitações no que a gostos de poesia diz respeito. Vamos tentar levar esta coisa até ao fim. Terei pachorra e arte? Mais lhe digo, ó Silva: passe bem! 
Com sua licença. Sem mais.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Lisboa e a democracia russa.

Hoje fui a Lisboa fazer uma espécie de salvamento. Em pleno salvamento almoçava um salmão no Campo Pequeno - preço exagerado, já agora - quando fui cativado pela conversa que um jovem fornecia ao seu parceiro, que parecia não ser português. Bebiam rosé o que me divertiu sobremaneira. Primeiro achei engraçada a forma demorada como o jovem descrevia as suas preferências de bebida. A cerveja não, claro, o vinho sim, havia umas garrafas que ele tinha lá em casa, parecia uma canção de engate. Depois falaram de política, de eleições aqui e acolá, de como era importante esperar para ver como corriam por causa dos negócios e tal. Por fim a frase reveladora e que me caiu como um tiro: "a verdade é que a Rússia é uma democracia como as outras, com as suas irregularidades como qualquer uma...", seguida de "era importante que o embaixador russo fosse mais proactivo" e a rematar "eu nem precisava de dizer isto, sabe que eu sou amigo da Rússia...". O salmão caiu-me mais ou menos. O lisboeta pro-russo menos. Estávamos no Campo Pequeno mas na praça não havia touros para onde o atirar.

sábado, 28 de outubro de 2017

Els Segadors e dançar a Sardana.



"Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; entretanto cumpria regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, porque este teu irmão era morto e reviveu, estava perdido e se achou." Este é o fim da Parabóla do Filho Pródigo no Evangelho Segundo S.Lucas. Quem não percebe isto não verá saída para a crise da Catalunha.

Vamos esquecer a política. Puigdemont é um pequeno homem, Junqueras um anormal. E do lado de Madrid não há NINGUÉM, Podemos incluido, que se aproveite.

A crise de Catalunha é uma questão cultural e vai levar décadas, se a política o permitir o que duvido, a resolver. Tudo depende da reconstrução da narrativa da História de Espanha, de uma narrativa unilateral para uma narrativa polivalente. A Espanha inventada pelos Católicos Reis foi sempre um harmónio de povos e gentes com interesses complementares mas diferentes, virados ora para o Atlântico ora para o Mediterrâneo ora para a meseta ora para Europa. Madrid foi  a tentativa de inventar uma cabeça só onde havia mais. A Espanha dos Católicos era uma espécie de Monarquia Dual, como o Império Austro-Húngaro. Com isto acabaram os Bourbons, reprimindo as periferias, sobretudo os Catalães. Como já referi, o Dia Nacional da Catalunha é o dia da invasão de Barcelona pelas tropas bourbónicas. O Hino Nacional da Catalunha, Els Segadors, é uma adaptação duma canção popular nascida nos tempos da revolta da Catalunha nos anos 40 do século  XVII, aquela que coincidindo com a Restauração Portuguesa nos permitiu a nós ganhar fôlego para vencer e ficarmos - NÓS - independentes. Pergunto: quem nas regiões espanholas castelhano-falantes, se preocupa em aprender catalão, conhecer a cultura catalã, ter uma visão mais plural e diversificada da história Espanhola, do caldo espanhol? A Espanha antiga, conservadora e, porque não dizê-lo, reaccionária, está aí ao virar da esquina. A Constituição de 78 morreu. Terão percebido isto todos? Felipe VI, acredito, saberá falar catalão. Porque não falou em catalão quando aproveitou a alocução dos Prémios Príncipe de Astúrias para reafirmar a Unidade de Espanha? O Rei é um rapaz alto mas também me pareceu pequenino. A Catalunha - e Euskadi, e a Galiza - dão à Espanha o grosso do seu carácter único. Independentemente dos muitos agravos imaginados e amplificados pela narrativa cabotina do independentismo catalão, a verdade é que a Espanha falhou não na criação da autonomia não no equilíbrio económico mas sim no equilíbrio cultural entre o dito esqueleto "castelhano-leones-andaluz" e as ditas "periferias". E aqui a culpa está em Madrid - nos sucessivos governos desde 78 até hoje. Mas é assim, os governos hoje em dia têm apenas uma visão política de vistas curtas e economicista da governação. Uma governação sem uma visão culta do país e sem uma noção da História e de que sempre há correcções a fazer à mesma, é pouco governo. Em Portugal também é assim. Como eu gosto de ouvir a fala catalã. Quem está comigo na Espanha não catalã-falante? Porque Arrimadas fala sempre castelhano no Parlament?

Li há dias que no centro de Barcelona se dançava a "Sardana" como manifestação de resistência ao governo central. Das minhas viagens pela Catalunha - uma vez num hotel vi eu pela janela de um dia de fim-de-semana muito normal - sei que dançar a "Sardana" nos jardins e parques é habitual e frequente nas cidades e vilas catalãs e não é querer resistir a nada. É apenas ser... catalão! 

Repito: não gosto do nacionalismo catalão, mas gosto menos ainda do espanhol. Posto isto, visca Espanya, visca Catalunya!