sábado, 31 de outubro de 2015

Michel Houellebecq - Submissão.


"Islam" quer dizer "submissão". Michel Houellebecq intitula assim o seu último livro. Tenho pena que, para além de ser um livro de tese, não seja também um livro bem escrito.


Foder ou não foder, eis a questão. François é um professor universitário como tanto outros - e eles hoje são tantos pela Europa fora... - cujo sucesso pessoal na realidade se mede - ele a mede - pelo número de fodas e orgasmos que vai conseguindo ao longo dos dias. Enquanto isto a França vive os seus últimos dias antes de umas eleições onde a decisão vai ser entre a Frente Nacional de Marine Le Pen e uma Fraternidade Muçulmana apresentada como assaz moderada e a quem todos os outros partidos franceses - UMP, PSF - entregam os seus votos, porque tudo se negoceia.
Percebe-se depois que o dinheiro árabe é o melhor para reavivar a instituição universitária. E a poligamia aplicada às alunas universitárias por casamentos arranjados uma solução para o quid deste livro: foder ou não foder. É assim que a Fraternidade Muçulmana compra François e aparentemente é/foi fácil. 
Sobre a França nada chegamos a saber, pois em nenhum momento há uma ressonância escrita sobre como um islamismo soft mas muito real que se abate sobre o "hexágono" é vivido pelo peuple réel, nomeadamente pelas mulheres... A única mencionada com um mínimo de espessura, uma ex-namorada, foge para Israel - Israel, of all places, uma terra que se define vivendo em guerra... Portanto a submissão do Islão é uma boa escolha porque nos/lhe dá sexo fácil. Juvenil. E acaba o livro. QED,

Neste livro Houellebecq escreve mal, ou pelo menos é banal. Para encher fala do tempo - suponho que para exemplificar o mal de vivre de François. Suponho ainda que Houllebecq agita à nossa frente a coisa de "serei eu como François" ou "serei eu alguém que detesta François"? Ou ambas as coisas? Uma coisa eu sei: não gostei do livro. 

Na contracapa aparece uma citação de Houellebecq: "A liberdade de expressão é a liberdade de comunicar uma obra do espírito a outros espíritos". Excusez moi?


"Estava à espera há dois ou três minutos quando se abriu uma porta do lado esquerdo e uma rapariga de cerca de quinze anos, vestida com uns jeans de cintura descaída e uma t-shirt Hello Kitty, entrou no hall, os seus longos cabelos negros caíam-lhe livremente sobre os ombros. Ao ver-me soltou um berro, tentou desajeitadamente cobrir a cara com as mãos e arrepiou caminho em corrida. No mesmo instante o Redinger apareceu no patamar superior e desceu as escadas ao meu encontro. Tinha presenciado o incidente, e estendeu-me a mão com um gesto de resignação.
  - É a Aïcha, a minha nova esposa. Vai ficar muito incomodada, porque o senhor não devia tê-la visto sem véu.
  - Peço imensa desculpa.
  - Não, não peça desculpa, a culpa foi dela; devia ter perguntado se havia convidados, antes de atravessar o hall de entrada. Mas enfim, ainda não está habituada à casa, há de habituar-se.
  - Sim, tem um ar muito jovem.
  - Fez quinze anos há pouco tempo."



Melancolia.



"Sei sim da extrema agilidade da melancolia".

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Pitões das Júnias em 2014.

Pitões das Júnias continua a ser uma aldeia muito isolada e desviada dos caminhos habituais, embora seja hoje bastante conhecida e referenciada. Fica no meio dum lindíssimo e extenso planalto, o da Mourela, ou melhor, na banda poente. Pouco depois de Pitões desce uma escarpa que vai até um riacho, ficando do outro lado... o Gerês.
Já tinha estado antes em Pitões das Júnias e, não me lembro porquê, o sabor tinha sido misto. Desta vez ia decidido a aclarar as coisas. 
A Pitões fomos várias vezes: De Outeiro/Paradela meter para nascente, em Covelães engatar para norte, sorrir enquanto se faz o planalto da Mourela e, no meio deste, meter para a direita, único destino Pitões. 
A aldeia de Pitões é uma aldeia relativamente grande e ainda aguenta uns cento e cinquenta habitantes. O casario é heterogéneo na conservação ou não da pedra e no abandono ou boa conservação do mesmo e da dita. Mas o conjunto é agradável. Almoçámos bem na "Casa do Preto" e no "






D.Pedro Pitões".

Pitões tem a omnipresença do Gerês quem olha para poente, e um olhar que é quase ao mesmo nível - Pitões das Júnias fica a 1100m de altitude. Há duas excursões simples que se podem fazer à volta de Pitões: uma é ao convento de Santa Maria de Pitões, outra à Cascata de Pitões das Júnias. Ambas são fáceis, bem sinalizadas, curtas, acessíveis. 

Outra ficou por ser feita e, logo ali, a promessa se fez de a fazer algum dia. Uma vez por ano - no primeiro domingo depois da festa de S.João -  a população da freguesia vai até uma ermida - de S.João da Fraga, que fica acima dos  1200m de altitude nas serranias do Gerês, do outro lado do vale que divide. São dez quilómetros duplamente empinados que todo o povo faz, com a particularidade de à ida deixar o farnel numas mesas ditas do Carvalhal, farnel que só é comido, mais umas carnes assadas na hora, à volta, devoção e montanhismo feitos. Aí também há bailarico, etc. A ermida mal se vê, não consegui nenhuma fotografia que a captasse. Fizémos, a Catarina e eu, parte do caminho - passámos o Carvalhal, ainda descemos mais um bom bocado, por entre borboletas, floresta autóctone e muita água. Acho que desistimos a meio e bem. Fica então  a promessa feita.







domingo, 25 de outubro de 2015

Vidago e as Pedras Salgadas em 2014.

Começamos estas férias num hotel sediado em Vidago. Um hotel cujo nome mete "Perfume" por alguma razão esse nome teria... Bom, o quarto era muito giro mas abusava de ambientador, que desligávamos sempre que se subia ao quarto. Era intoxicante. 

Vidago é o Palace Hotel... e arredores. Fomos lá lanchar para dar conhecimento à descendência. O parque do Hotel podia estar melhor... o Hotel não.Vidago, terra de boas águas  - as mais alcalinas do país - portanto, tem um núcleo de aldeia trasmontana no alto que depois visitámos. O Vidago Palace tem um pequeno Centro de Congressos onde eu apresentei a minha última comunicação nas então Reuniões da Sociedade Portuguesa de Hipertensão - foi no fim de Janeiro de 2004. Fui operado dias depois.










As Pedras Salgadas são a marca de águas com gás mais conhecida do país - outras estão aqui ao lado - Carvalhelhos e Vidago. A única concorrente que não fica perto é a Água Castelo - do Alentejo. As Pedras já pertencem ao concelho de Vila Pouca. A estrada é rugosa entre as duas estâncias termais. Nas Pedras o Parque está mais bem conservado e hoje tem a mais valia das famosas "casas no parque", algumas das quais são "nas árvores". Fomos espreitar.

Comer bem? Numa simpática pizzaria em Vidago.

Ruy Cinatti.


ANUNCIAÇÃO



Não tenho palavras, nem entendo
formas visiveis.
Elas vêm concretas como aragem
a que dou nome.

Tenho-me, eis tudo. Acontece.
Há uma folha que desce,
que sobrenada, que desce,
que submerge no ar e depois desce
longe de mim no ar fundo.

Nós não somos deste mundo.

Fresca e limpa como a chuva,
ouço a tua voz cantada
descer do céu ao silêncio
que vem da terra molhada.

Nós não somos deste mundo.

Ouso dizer-te o meu nome
como quem se atreve a dar-te
a minha imagem.

Nós não somos deste mundo.

O que não vejo, entendo.
Pelos rios do meu sangue,
atrevo-me.

Anoitecendo, a vida recomeça.

Dou-me em palavras
que ressuscitam.
Algures no céu amanhece.

Só, intranquilo, pela vereda, desce
o nómada meu amigo.




in Corpo - Alma, ed. Presença, 1994.

sábado, 24 de outubro de 2015

O Gerês visto da Paradela em 2014.

A segunda fase das férias foi passada no Hotel Vista Bela no lugar do Outeiro, sobranceiro ao espelho da Barragem da Paradela, o Gerês em frente. A Barragem é a primeira no Alto Cávado e vem dos anos cinquenta. A aldeia de Paradela do Rio fica mais abaixo e existe à volta de uma rotunda onde um café nos vendeu ao longo dos dias Magnum's e informações. Junto à barragem existe praia fluvial mas não é, digamos, classe A. O Hotel onde ficámos vários dias tem um bom atendimento e óptima cozinha. A sua lógica é "familiar" - como público alvo,


o que implica um certo"gregarismo" que não é a minha praia, e uma sobrepopulação crónica da piscina. Já as vistas, bem, as vistas... são incomparáveis. E querer conhecer o Gerês implica vir a este lado mais violento, mais rude, menos minhoto, e olhar para aquela parede de arestas que nos olha e desafia. Visão que depois, quando subíssemos a Pitões das Júnias, se iria repetir com maior proximidade...

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A Frente Popular.

Isto da Frente Popular tem uma certa história. E só pelo gozo ter conversado com alguém hoje que estará a ponderar exilar-se para o Brasil já terá valido a pena este frisson.

Vamos esquecer a Frente Popular original - que aconteceu em França antes da Segunda Grande Guerra. A cópia veio depois da eleição de Miterrand, em 1981. Miterrand encarregou Pierre Mauroy de fornecer 4 ministérios ao PCF. Georges Marchais, o secretário-geral do PCF, ficou fora do governo. Isto foi o princípio do fim do PCF, ainda antes da implosão da URSS. 

Aqui o Governo de Esquerda vai ser possível. O BE e o PCP vão adquirir concessões nos "chamados temas fracturantes"  - aborto, adopção por homossexuais, drogas leves und so weiter - e que não contam para as contas da mercearia. Nestas, a retoma mais rápida de determinados salários - olha, o meu - e pensões, etc. obrigará a alguma ginástica orçamental mas - parece-me a mim - nada de extraordinário ou impossível. Talvez aconteça dar com uma mão e tirar com a outra. Nada a que não estejamos habituados. 

Por um cheiro de poder o BE e o PCP venderão a mãe e cinco tostões. Estamos todos espantados com isto. É que quando o CDS, por ex., faz o mesmo, pronto, é dos nossos. Agora que os outros tenham comportamento daquilo que são... políticos, não se pode! Na merda, meus caros, é mesmo importante que as moscas mudem!