domingo, 11 de dezembro de 2016

O que fazer com o Museu Nacional que há no Porto?


Resultado de imagem para pousão obras



"Ah, então isto é que é o Museu Soares dos Reis?" Ouvi esta frase ontem a quem trata Serralves por tu. A resposta é simples: é o único Museu Nacional (MNSR) que há no Porto - não sei se o Centro Português de Fotografia conta - e é o Museu mais aborrecido que eu já visitei.

O Museu está agora a conhecer um "surge" de atenção com a visita à exposição Amadeo 1916-2016, que depois seguirá para o Museu do Chiado (que antes se chamava Museu Nacional de Arte Contemporânea mas mudou de nome para ficar... in!). Para chegar às salas da exposição Amadeo temos que atravessar o circuito de salas de pintura desde o início até meados do século XIX, depois o bloco de escultura com uma sala dedicada ao patrono, Soares dos Reis. E, finalmente, respiramos fundo, chegamos ao Amadeo.

Vamos por partes. Primeiro há que dizer que grande parte da pintura presente neste Museu tem um valor bastante relativo, documentando a evolução da pintura portuguesa que seguia, geralmente com décadas de atraso, a evolução das escolas europeias. Isto tem de ser dito, explicado, assumido. Com excepções. A primeira metade do giro pictórico parece uma viagem a preto, branco e sépia. Será precisa muita criatividade para ressaltar a originalidade que aqui ou ali aparece. Alguém que o faça, por favor. No site há destaques, repito, destaques - Vieira Portuense, por ex. Pena os destaques não estarem destacados nas salas. Metade das salas têm aliás as folhinhas do costume esgotadas ou não repostas... mas eu pensava que essa cena das pagelas estava até ultrapassada por outros meios... mas nem isso.
Pouco antes do intervalo escultórico chegamos à sala dos Realistas paisagistas, Silva Porto, Marques Oliveira... Hoje menosprezados, a sua importância merece algum enquadramento que aqui também falta. Os amarelos dourados, os azuis claros, embora tardios, foram importantes para o Portugal daqueles tempos.
A sala de Soares dos Reis tem dum lado o fantástico Desterrado e em contraponto as estátuas do Conde Ferreira e de Avelar Brotero. Isto é injusto sobretudo para estas últimas. O Desterrado merecia uma sala só para si. Um diálogo com a Infância de Caim de Teixeira Lopes seria talvez mais interessante.
Depois viramos e é a vez de Henrique Pousão. JÁ DISSE E REDISSE: só por Pousão a visita a este Museu vale e vale e vale a pena. Porque nada nas salas anteriores nos prepara para isto: um génio do Realismo terminal europeu, nascido alentejano e criado no Porto e a quem as cores de Roma, Nápoles e Capri forneceram a imortalidade, antes de morrer aos 25 anos de idade. Só um detalhe dá para nos aprecebermos que alguém pensou o arranjo da sala - nas duas paredes terminais os dois grandes quadros incompletos de Pousão - talvez fosse importante explicar que estão incompletos a quem os vê - o óbvio nem sempre o é.
O Realismo durou uma eternidade a desaparecer em Portugal. Na sala a seguir a Pousão recebe-nos o famoso retrato de Aurélia de Sousa e outros quadros qcuja qualidade variável merecia talvez algumas explicaçõezinhas.
A seguir duas salas Modernistas et al. À esquerda Eduardo Viana, o nosso quase-Delaunay - ah, mas era preciso que alguém contasse ao pessoal a piada. Depois um Alvarez, um Dordio Gomes, um muito conhecido Abel Salazar, um Sarah Afonso (enquadramento, please... esposa de Almada? primeiro pintor naif?), depois uns quadros surrealistas com um valor requentado, um escuríssimo Júlio Resende e uma parede Lanhas - mais uma vitrine de deliciosas pedras pintadas - onde alguém pode deixar os bilhetes da visita em cima, tanta a atenção. Como posfácio uma pequena sala António Pedro - esta sim com explicador na parede. Mais vale tarde do que nunca. Esta sala não explica porque não há no Porto uma Sala de Teatro com o nome de António Pedro. Adiante.
Nas salas do piso um - a volta que demos foi ao piso dois - estão as artes "decorativas". Só não as evita quem paga para as visitar. Eu, como Amigo de Serralves... Portanto não critico porque não visitei. Só um detalhe: quando se põe as artes "decorativas" em salas separadas é o primeiro passo para que, ao visitá-las, o passo acelere.

Ora vamos aprender com os outros - nunca, repito, nunca, se deve aceder a uma exposição temporária através da exposição permanente. Menoriza a exposição permanente, como é óbvio. 
No Museu Nacional Machado de Castro (MNMC), em Coimbra, estatuária, cerâmica, pinturas dialogam bem, embora a colecção do Museu seja muito diferente: a pintura é antiga bem como o grosso da estatuária, etc. Mas o Museu foi criativo na sua exposição. 
Por outro lado a colecção de pintura do MNSR partilha interesses com as colecções do Museu do Chiado em Lisboa e com o Museu Grão Vasco em Viseu - que só hoje aprendi também ser Nacional.. - lembro-me bem de ter lá visitado uma interessante ala de pintura  de séc XIX-XX. Intercambiar quadros seria uma boa opção, para optimizar colecções cuja latitude e longitude qualitativa não é assim tão extensa... 

Resumindo, visitar Pousão, uma e outra vez. O resto, aqui e ali, também vale a pena. Está ali a história de um país na periferia da Europa a tentar recuperar de um atraso artístico secular. Ah, já agora, algumas das obras pequenas do Pousão têm umas molduras assassinas... Ah, e porque não visitamos os jardins?

Uma mensagem de esperança: lembro-me de gostar da cafetaria, de uma visita anterior.


2 comentários:

  1. A tua apreciação não difere da minha, da nossa e de uns quantos que me estão próximos. Falta no MNSR uma dinãmica que valorize o acervo, parte dele em armazém... está vergonhosa aquela parede junto da Flor Agreste. A cafetaria alargada com esplanadas nos jardins. Esperemos que esta recente afluência faça com que os responsáveis avaliem e projectem melhor o futuro do museu

    ResponderEliminar
  2. Dr Guilherme! O que eu me rio no final do dia a ler os seus relatos!tem que começar a visitar também os zoos e locais de natureza vulgo biológicos no sentido verdadeiro do termo!a serio que vai sair melhor servido :)

    ResponderEliminar