segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Blade Runner 2049



Vi este filme quase duas vezes. A primeira na net, numa gravação pirata com malta a levantar-se a meioà frente do telemóvel que gravava e um som fatela. Eu próprio adormeci uns dez minutos. A segunda no Arrábida. Da primeira vez - onde adormeci por puro cansaço de noite prévia e não desinteresse pelo filme - fiquei entusiasmado com o argumento, parecendo-me interessantíssima a relação Harrison Ford - Ryan Gosling, onde, pareceu-me, o pai sacrificava um filho para salvar uma filha. Depois percebi que os dez minutos em que eu adormecera eram não só efectivamente importantes para o todo mas serviam para desmentir a minha hipótese de história: Gosling não é filho de Ford. O filme é muito bonito, vai buscar "n" coisas ao original de Ridley Scott e bem - até uma banda sonora Vangelis-like. Ford parece sempre estar a participar num filme alternativo pela sua forma de actuar tão à velho Indiana Jones, o que tem a sua lógica, sendo ele um anacronismo no ano 2049, ou seja, funciona. O achado maior é Gosling. Finalmente percebi o que me causava desconforto na sua prestação em La La Land: ele não é humano. A cara de Ryan Gosling tem uma amplitude expressiva muito curta e Villeneuve usa esta limitação como o maior trunfo para acompanharmos o caminho deste Blade Runner desde a sua mera função mecânica inicial até ao livre-arbítrio dos últimos minutos. Este percurso de libertação, criado à volta da esperança equivocada - dele e minha - em ser filho de alguém, é a matriz do filme, bem mais real e importante do que o milagre de haver uma replicant que nasceu de uma replicant. 
Dizem que o filme foi um fracasso de bilheteira. Compreendo. Não é Marvel, ergo... Mas, não sendo uma obra-prima, é o filme de SF mais interessante que eu vejo desde...  Arrival, também de Denis Villeneuve! Ergo... Um regalo para a vista, uma rede de mistérios bem urdida, uma actualização dos tempos capaz, LA defendida por mega-barragens de um mar subido pelo aquecimento global. Agora já sabemos porque toda a gente foge para as colónias exteriores...

PS.: a cena de sexo, que eu não vi da primeira vez, é algo parvita. Mas preocupa-me o futuro do amor, cada vez tão mais virtual.

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