quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Antiquado.

Lembro-me de ter almoçado há bastantes anos em casa de um bom amigo. Ele perguntou-me pelo blogue que eu então escrevia e falou-me de um outro onde um rapaz seu conhecido, ou melhor, conhecido de uma filha sua, transcrevia o fim de obras literárias conhecidas, famosas. Pareceu-me então uma colecção escrita de spoilers. Hoje vejo que não.


""- Diz apenas que eu sou antiquado.
Dallas olhou-o de novo e depois, com um gesto incrédulo, entrou na escada e desapareceu da vista.
Archer sentou-se num banco e continuou a olhar para a varanda cerrada. Calculou o tempo que o filho levaria no elevador até ao quinto andar, a tocar à campainha, a ser admitido no hall e depois introduzido na sala. Imaginou Dallas a entrar nessa sala com o seu passo rápido, o sorriso aberto e atraente e pensou se teriam razão ao dizer que o filho "saía a ele".
Depois, tentou ver as pessoas já na sala - pois provavelmente a essa hora social haveria mais do que uma pessoa -, e entre elas uma senhora morena e pálida que olharia rápida, se ergueria a meio e estenderia uma mão longa, esguia com três anéis... pensou que ela deveria estar sentada num sofá de canto perto do fogo, com azáleas atrás dela numa mesa. 
- É mais real para mim do que se eu subisse - ouviu-se dizer a si próprio; e o medo que a última sombra de realidade perdesse o seu limite conservou-o no banco enquanto os minutos passavam.
Ficou sentado longo tempo no crepúsculo crescente, com os olhos sempre postos na varanda. Finalmente, uma luz brilhou na janela e um momento mais tarde um criado veio à varanda, subiu as gelosias e fechou as portadas.
Então, como se fosse o sinal porque esperava, Newland Archer levantou-se lentamente e voltou sózinho para o hotel."


A Idade da Inocência, Edith Wharton.


P.S.: passados todos estes anos, agora sei que o filme de Martin Scorcese é brilhantemente FIEL ao livro.

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